The Perfect Nanny
9 Capítulo 9
Notas iniciais

— Felicity! — gritaram meu nome e eu saí correndo da biblioteca até a sala de estar que foi de onde o grito veio.
— Eu estou indo! Alguém se machucou? Alguém vomitou? Alguém matou alguém? Ah meu Deus... Kylie você cortou o cabelo da Kiera? — eu disparei gritando perguntas para chegar da sala e dar de cara com Moira e mais ou menos vinte pessoas ali que me olhavam surpresos e divertidos. — Me desculpem.
— A mansão irá receber uma faxina decente e eu preciso que você tire meus netos de casa para eles não atrapalharem. Teremos um evento aqui no sábado e tudo tem que estar brilhando. — ela disse e acenou para o pessoal atrás dela. Todos devidamente uniformizados, tinha gente ali que eu nem sabia que trabalhava na mansão.
— Sim, senhora. — eu disse e ela andou até a mesinha de bebidas. O silêncio foi quebrado só pelos três cubos de gelo e o líquido sendo derramado no copo de cristal.
— O que ainda estão fazendo aqui? Mexam-se! — ela esbravejou e todo mundo correu.
Hoje era segunda-feira e as crianças tinham aulas de artes marciais. Estremeci só de pensar em me encontrar com o Sr. Queen do mesmo jeito que aconteceu da última vez. Eu sei que a Operação Babá envolvia ele, e muito, mas irei começar com Moira primeiro.
Bati na porta de Kiera e ela abriu. Já estava pronta com sua bolsa esportiva rosa no ombro. Ela parou com aqueles revirares de os olhos e caretas de nojo, estava mais neutra e quase... Impassível. Mais um traço genético dos Queen. Kiera estava começando a se tornar convivível.
— Kellan? — chamei quando bati na outra porta.
— O que?
— Seu atestado já acabou. Vamos que você tem aula! — eu disse e ele abriu a porta resmungando. Estava com o cabelo amassado e com seu pijama. — Se troque rápido.
— Felicity...
— Nem vem com "Felicity". Vamos logo ou a doida da sua vó janta a gente. — eu disse e isso pareceu incentivo suficiente para ele.
Quando cheguei no quarto de Kylie, vi ela brincando com Lily.
Também já estava pronta e parecia mais risonha do que o normal.
— Podemos levar ela para passear? — perguntou aos sussurros quando me viu na soleira da porta.
Ela tinha diminuído a cota das nossas conversas desde que Moira havia chegado na casa. Tentei não ficar magoada com isso, porque era plausível. Kylie não confiava em Moira e eu até arriscava dizer que tinha medo da avó. Não culpava ela, porque eu também tinha.
— Kay...
— Por favor, por favorzinho...? — ela perguntou fazendo beicinho e olhos de cachorrinho que caíu da mudança.
— Eu ia falar que nós precisamos procurar a coleira dela primeiro. — eu disse e ela sorriu e puxou a coleira debaixo de sua cama. — Leve ela para o carro e coloque o cinto nela do jeito que a gente viu nos vídeos.
Ela assentiu e pegou Lily no colo com cuidado e carinho. Quando saímos do quarto dela, Kellan estava no corredor com a maior cara de sono segurando sua bolsa esportiva. Nós descemos até a garagem e quando entramos no carro, eu quase gritei ao ver Moira sentada no banco do carona. Kiera revirou os olhos para avó, assim como Kylie que havia prendido Lily em seu assento com a cadeirinha para cachorro e o cinto de segurança.
Kellan suspirou atrás de mim e foi para o último banco da mini-van com os ombros curvados e se sentou junto com as outras malas. Eu que teria que ir na frente com a dama do gelo aqui? Ah não, não! Isso não!
— Sra. Queen?
— Irei supervisionar o seu trabalho durante a minha estadia aqui, Felicity. — ela disse e eu assenti fechando a porta. Isso era ruim. — Dinah está supervisionando a faxina e eu vi isso como a oportunidade perfeita para acompanhar o seu cuidado com os meus netos.
Que mer...
Operação Babá...
Ou não! A operação poderia ser mais fácil do que eu pensei se eu tivesse Moira na minha cola. Com todo mundo com cintos de segurança, eu dirigi a mini-van pela segunda vez. E foi muito melhor do que da primeira pós conflito com o chefe ou dirigindo a Mercedes quando Kellan estava todo cinza e vomitando as tripas. O GPS era uma ótima ajuda, porque eu já teria me perdido. A estrada particular dos Queen era enorme e eu arriscava dizer que a mansão não era a única propriedade da família pelas redondezas.
Fiquei muito mais calma quando começamos a andar pelo asfalto novamente. Agora eu não sabia se aquele silêncio era o normal deles ou era por causa da presença de Moira no carro. Okay... Liguei o rádio e estava tocando "Firework" da Katy Perry o que fez Kylie sorrir.
Eu comecei a cantarolar a música e me deixei levar. Eu incentivei Kylie que apenas dançou levemente com Lily em seu colo. Olhei para Moira e ela estava me olhando como se eu fosse uma girafa com esquizofrenia e tatuagens satânicas. Ah é, acho que foi na terceira parte da música eu comecei a dançar e bater o cabelo para todas as direções possíveis.
Nem mesmo o olhar Medusa dela me parou. Eu havia descoberto hoje de manhã que este era o apelido de Moira na casa, por causa de seus olhares frios que ela dava para o resto da criadagem. Qual é a mulher fazia a inspeção do jantar quando Sra. Lance não estava na cozinha, fazia Shado plantar e replantar as flores que ela gostava e não gostava... Acho que o único ser na casa que ela não enchia tanto o saco era Slade. Este que eu mal vi depois da bronca que levei por ter gritado com o Sr. Queen. Ah meu Deus, será que ela demitiu o cosplay de pirata?
— Se recomponha, Felicity! — ordenou Moira por cima da música.
— A senhora vai nos observar o dia inteiro. Depois a senhora vai analisar os prós e contras de me ter como sua empregada. E por fim, se quiser... Me demita. — eu disse séria e com a voz firme depois de abaixar a música um pouco. Senti os três pares de olhos queimando em minha nuca. — De acordo?
Outra música começou quando paramos no farol vermelho. Já estávamos chegando no centro da cidade. Moira recusou a mão que ofereceu, mas eu vi que ela assentiu com a cabeça.
Nós chegamos na academia Al Ghul bem na hora e Kylie foi a primeira a sair com Lily. Elas andaram por toda a fachada da academia cheirando e descobrindo coisas novas, quer dizer Lily cheirou e descobriu só para ressaltar.
Kiera e Kellan entraram para dentro e Moira ficou na sombra, observando.
— Felicity! — exclamou Carrie ao desmontar de sua Ducati vermelha. Eu não ia esquecer aquele cabelo tão cedo. — Kylie!
Kylie acenou e voltou a brincar com Lily. Carrie parou ao meu lado e acenou discretamente para Moira fazendo uma expressão de medo e eu apenas dei ombros. Ela riu e entrou para dentro. A mulher do carrinho de sorvete aparecer e Kylie sorriu para mim, mas depois seu sorriso desapareceu ao lembrar que sua avó estava conosco hoje.
— Você vai querer de morango? — perguntei pegando o dinheiro no bolso de trás da calça. Ela acenou, cautelosa. — Dois de morango.
— Felicity! Isso não faz parte da dieta dela! — exclamou Moira enquanto eu pagava a mulher que sorriu cúmplice e me deu um terceiro sorvete de graças.
Manga. Quem sabe ela não gosta?
— Sra. Queen. Observe. — eu disse abrindo a embalagem e entregando o picolé para Kylie que enfiou na boca sem cerimônia mesmo recebendo um olhar reprovador da avó. — Aqui.
Entreguei o sorvete de manga para ela e sentei em um dos aros de ferro que serviam para acorrentar bicicletas. Kylie ficou ao meu lado com Lily correndo atrás de seu próprio rabo que era um cotoquinho de pelo e Moira ficou paralisada com o sorvete em mãos.
— Observe e depois me demita, Sra. Queen. — eu lembrei de nosso acordo e ela rosnou contrariada, mas veio para o nosso lado e abriu o picolé.
Sorri internamente. Está funcionando!
Depois que Lily fez suas necessidades, das quais Kylie limpou com orgulho, nós entramos para dentro e fomos até o ginásio com os ringues onde eu gritei com o Sr. Queen pela segunda e última vez. Nunca irei me esquecer disso. Olhei ao redor e vi que desta vez o chefão não estava por perto e em nenhum dos ringues.
Kellan sim, estava em um deles com seu professor. Ele estava dando piruetas do ar e chutando as mãos do professor que estavam com uma espécie de luva. Kiera estava ocupando o outro ringue, mas ela lutava com um bastão de madeira grande contra uma garota que tinha um cabelo curtíssimo preto. Kiera parecia ser mais experiente, mas a outra garota não ficava para trás também não.
Nós todas sentamos nas arquibancadas perto de onde Carrie estava limpando nuchakus. Quando eu estava limpando a boca de Kylie que estava melada de sorvete quando ouvi um grito alto vindo de Kiera. Olhei para o ringue e o pulso de Kiera virado em um ângulo assustador.
— Fique com a Carrie. — eu disse para Kylie e corri até Kiera. — O que aconteceu?
— Mal-jeito, eu acho. — disse a garota com o cabelo curtinho. — Eu sou Sin.
— Felicity. Prazer. — eu disse e toquei com cuidado o pulso de Kiera que estava ficando levemente azul. — Vamos para o hospital.
Ela nem retrucou, o que foi ótimo. Rapidamente todo mundo voltou para o carro e eu me vi correndo para o hospital novamente. Parecia até um dejá-vú. Só que com uma criança diferente. E um carro diferente.
Mesmo com Moira ao meu lado, eu deixei o nome "Queen" de lado na hora do atendimento. Eu havia começado a manter uma pastinha de documentos de cada um deles dentro do porta-luva da mini-van só por precaução. Slade não precisava mais de sustos e eu não precisava mais gritar com ninguém. Deu certo no final.
— Felicity! Tudo be... O que aconteceu aqui? — cumprimentou Dra. Snow ao entrar no consultório e olhar para o pulso de Kiera. — Oh. Isso está feio.
Kiera assentiu e vi que ela estava segurando as lágrimas. Todos os outros haviam ficado na sala de espera com Moira, o que deu mais espaço para Dra. Snow trabalhar. A morena me deu um olhar significativo e eu entendi tudo.
— Querida, não vou mentir para você. Vai doer. E muito. — disse Dra. Snow e Kiera assentiu. — Pode oferecer apoio para ela, Felicity?
— Claro.
Eu sentei atrás de Kiera e ela se recostou em mim. Eu passei meu braço pelos seus ombros para conter seu corpo, e ela agarrou meu braço com a mão boa. Kiera estava tremendo agora.
— No três? — perguntou com a voz embargada e Dra. Snow assentiu.
— Um... — disse e virou o pulso de Kiera para um ângulo normal.
Kiera gritou. Bem alto.
— Hey! O que aconteceu com o dois e o três? — eu disse com um fiapo de voz indignada, porque Kiera fincou suas unhas no meu braço com bastante força.
— Dois. Três. — disse a Dra. abrindo um armário e começando a enfaixar o pulso de Kiera com bandagens com um sorriso gentil.
Louca.
Depois de duas horas fazendo e esperando exames, e meio litro de analgésicos, Kiera foi liberada e nós voltamos para casa. A mansão estava a todo vapor, os empregados corriam de um lado para o outro limpando e limpando de novo só para garantir o serviço. Moira endireitou os ombros e assumiu a pose de socialite rica e elegante que só ela tinha.
— Foi uma ótima tarde, Felicity. — ela disse e acenou sorrindo levemente.
YES! Eu tinha mais uma aliada poderosa aqui dentro. Eu acho.
Reboquei Kiera para o quarto e Kellan se enfurnou no dele. Kylie esperou pacientemente eu ajudar sua irmã para depois irmos para o quintal e dar o primeiro banho em Lily.
Nós enchemos um balde e roubamos um xampu da dispensa. Teria que comprar esse tipo de coisa para a filhotinha em breve. O Sol ainda estava brilhando e por via das dúvidas, eu achei melhor darmos este banho perto da piscina para não sujarmos o chão limpinho.
— Cuidado com os olhinhos dela... — eu disse quando Kylie massageou a cabecinha de Lily com todo o cuidado do mundo, fazendo bastante espuma e sorrindo o tempo inteiro.
Peguei a mangueira e nós enxaguamos o pelo brilhante de Lily que estava adorando a atenção que recebia. Kylie havia se molhado completamente, mas parecia feliz com o resultado final. Lily se sacudiu inteira molhando nós duas e Kylie gargalhou sem se importar se alguém estava por perto ou não.
— Lily! — Kylie gritou quando eu estava enrolando a mangueira.
Ah não...
Lily saiu em disparada pingando por onde passava para dentro da mansão.
— Kylie, fique aqui! — eu disse saindo em disparada atrás daquele vulto amarelo molhado.
Passei pelo corredor, pela cozinha e saímos da sala de estar onde ela me fez correr ao redor do sofá duas vezes antes de sair em dispara para o hall de entrada. Lily parou por um minuto, tempo suficiente para eu cair no chão por causa da água que estava pingando de seu pelo.
— Ai... — resmunguei sentindo pontadas de dor no quadril. Senti um narizinho me cheirando e agarrei Lily com as duas mãos para impedir qualquer fuga eventual.
— Então, nós ficamos acertados deste jeito. — eu ouvi a voz de Moira vir do salão de música. Resmunguei. Ela finalmente levantou a bandeira branca para mim e já iria gritar comigo de novo. — Espero você aqui no sáb... Srta. Smoak?!
Virei de lado e sorri para Moira que me encarava bestificada.
— O que aconteceu por aqui? — perguntou e Kylie apareceu toda molhada e suada.
Uma bagunça.
— Tentamos dar um banho na Lily. — eu disse e me levantei segurando Lily nos braços com firmeza, por mais que ela quisesse ir para o chão e correr novamente.
— Oh sim! Viu o que eu tenho que lidar? Uma babá sem modos algum! — exclamou Moira.
Ela estava brincando, né? Olhei para o homem ao lado dela e quase tive um enfarte e um ataque de pelanca. Era o cara da loja super lindo com olhos azuis acinzentados ou eram cinzas azulados? Brian? Brad? Bruce! Ele não estava usando jeans e moleton como da última vez e sim um terno escuro com uma gravata cinza escuro.
Maravilhosamente delicio...
— Ai! — reclamei quando Lily mordeu minha mão e eu a deixei cair do chão.
Aquela bola de pelo sair correndo novamente, desta vez, indo pela direção certa. E Kylie foi atrás. Bruce me olhou por dois minutos inteiros e depois surpresa passou por seu rosto lindo. É. Ele me reconheceu também.
Merda.
—-
— Vamos Felicity! Vai ser uma das baladas mais aguardadas! — argumentou Thea pela trigésima vez. Eu não sabia bem em quando nós nos tornamos amigas até o ponto em que ela chamava para sair, mas pareca que nós éramos. — Eu finalmente consegui que o DJ Snake viesse.
— E quem é esse? — eu perguntei terminando de colocar minhas roupas penduradas no closet.
Sim, eu estava aqui á mais de uma semana e não havia desfeito as malas ainda.
— Um dos maiores sucessos da Tomorrowland? — Thea disse soando confusa por um momento e me encarou como se eu tivesse um gnomo dançando tango em cima da minha cabeça. — A questão é, hoje é a sua primeira folga e você não vai passar ela aqui dentro. Eu já avisei Slade que você vai pegar um dos carros, que vamos deixar bem claro aqui que não vai ser a mini-van, e vai farrear um pouco comigo.
— O que aconteceu com Roy? — perguntei usando minha última arma.
Ela pareceu murchar visivelmente com a menção de seu namorado.
Talvez não tivesse sido a nossa melhor ideia.
Você acha, subconsciente?
— Ele foi se encontrar com a mãe e o pai dele em Opal City e só volta no sábado. Eu preciso de companhia e eu já decidi que esta companhia é você. — a Queen disse decidida e eu suspirei ao pendurar o último cabide no closet.
Empurrei minhas malas para debaixo dos cabides e fechei as portas duplas.
— Okay. — concordei suspirando e Thea jogou o punho no ar como se tivesse conseguido se tornar elo diamante no League of Legends ou sei lá, descoberto que Trump perdeu a eleição.
— Então, eu venho te buscar ás oito em ponto. — ela disse me abraçando. — Agora eu tenho que ir, a festa de mamãe está me dando nos nervos.
Ela saiu em disparada do meu quarto e eu ri.
Esses Queen...
Saí do meu quarto e fui checar as pestes. Ninguém estava no quarto. Desci até a cozinha e vi o bilhete da Sra. Lance para mim. Tirei do imã e li. Hm. As pestes saíram junto com Tommy e Moira? Meu Deus. Mas... O que eu iria fazer pelo resto do dia?
Ter um tempo para si mesma? Colocar suas séries em dia? Pagar o Netflix?
Voltei para o quarto e peguei minha bolsa e uma jaqueta jeans. Eu acho que havia esquecido que tinha uma vida antes de me tornar babá, eu tinha contas para pagar e precisava comprar as coisas para Lily também. Como eu estava liberada para usar um dos carros, que não fosse a mini-van, eu escolhi o mais normal possível. A Mercedes discreta em comparação á Lamborghini preta e a Ferrari vermelha que estavam estacionadas ali. Tínhamos boas memórias, esse carro e eu. E outras bem estressantes também como o episódio com Kellan.
Saí da propriedade curtindo o conforto do couro e o cheiro de coisa nova. Liguei o rádio e coloquei na minha estação preferida. Abri o vidro da janela e aproveitei a sensação do vento. Quando parei em um farol vermelho, observei um daqueles anúncios digitais e vi que um centro juvenil seria construído pela Wayne Enterprises no Glades.
Wayne... Bruce Wayne.
Ficava corada só com uma memória dele. O mesmo cara que eu achei ser apenas um hacker querendo se dar bem, era CEO da empresa da família dele. Tommy era CEO, Sr. Queen era CEO... Todo mundo era CEO! E ele ainda era o mesmo cara que havia me visto cair de bunda no chão por causa de uma cadelinha de trinta centímetros. Eu fugi dele depois de nosso breve reencontro como uma covarde.
Você acha que acabava por aí? Não não. Claro que não.
Ele foi testemunha da tentativa de assalto e assassinato dos pais — acho que daí que saíam os olhos tristes que ele tinha — e pensa num cara reservado. Diferente dos Queen, ele tinha poucas manchetes com seu nome e quase nenhum escândalo ou polêmica. As únicas vezes que aparecia para a imprensa era quando sua empresa havia lançado algo inovador, quebrado um recorde ou a revista Forbes homenageando o legado de Thomas e Martha Wayne. Tirando isso? Um mistério completo.
Uma buzina me tirou de meus devaneios. O farol ficou verde e eu pisei no acelerador e fiz meu caminho até o shopping de Starling City. Eu precisava dar um jeito no meu cabelo e comprar uma roupa para hoje a noite, sem chance que eu iria usar um dos jeans que tinha na mansão e muito menos iria até o meu apartamento perder tempo para achar um vestido decente.
Peguei o ticket do estacionamento e dei sorte de achar uma vaga bem perto do acesso ás lojas. Talvez hoje fosse, realmente, o meu dia. Uma folguinha, uma vaga perto suficiente, um dia ensolarado... Hm. Interessante.
O shopping até que estava vazio para uma terça-feira quase na hora do almoço. Eu fui até o banco 24h e vi meu saldo da conta. US$ 14,332,23. Eu fiquei encarando a tela até o cara que estava atrás de mim pigarrear. Okay. Eu tenho muita grana. Rasguei o papelzinho em milhões de pedacinhos e caminhei até o segundo andar do shopping.
Zara. Gucci. Chanel. Dior. Pela primeira vez na vida eu tive coragem de entrar nessas lojas para sair delas completamente decepcionada. Não havia nada que eu gostasse ali por mais que as vendedoras me ajudassem. Eu comprei um lanche no Big Belly Burguer quando meu estômago roncou e lembrei de Kylie. O que será que Moira está fazendo eles comerem de almoço? Com certeza algo saudável. Sorri ao imaginar a cara de nojo de Kylie.
Quando voltei a passear no shopping uma vitrine me chamou atenção. Mouret. Nunca ouvi falar, mas a vitrine era linda e tinha vestidos mais lindos ali dentro. Entrei na loja cheia de esperança e parei no batente quando vi um manequine no fundo da loja.
Era "O" vestido. De um ombro só, vermelho, com um cumprimento aceitável. Nem curto. Nem longo. E nem freira. Fui diretamente para a arara onde ele estava e procurei meu número. YES! O último no meu número! Jesus realmente vai com a minha cara! Fui até a estante onde tinha sapatos de saltos altos em vários formatos e cores e escolhi um de veludo vermelho para combinar com o vestido.
Quando fui até o caixa onde tinha uma garota mascando um chiclete ruidosamente e lendo uma revista de fofoca, ela passou as minhas coisas e nem ficou tão caro. Essa era eu. Felicity Meghan Smoak, definitivamente, não precisava usar um vestido de marca famosa para me sentir bonita.
Agora só faltava o cabelo.
Depois de dar voltas e mais voltas eu achei um salão de beleza dentro do shopping. "Vanity". Eles tinham horário vago e o meu cabeleireiro era gay, e esta não foi a maior surpresa. O salão era um dos inúmeros da franquia da Sra. Queen.
— Eu sou Tiffany e irei lavar o seu cabelo, Srta. Smoak. — apresentou-se uma garota de cabelo curtinho e batom azul. Eu sentei em um dos lavatórios em fileira e recebi a melhor massagem no couro cabeludo da minha vida.
Depois fui encaminhada até uma cadeira giratória e esperei o cabeleireiro.
— Olá! Eu sou Curtis e... Díos mio. — uma cara negro com um black-power perfeitamente arrumado foi se apresentando assim que chegou perto de mim.
— Eu sei... Está uma verdadeira bagunça. E você tem consertar! — eu disse e ele sorriu mostrando seus dentes super-brancos e super-brilhantes. — Estou acostumada com mechas de um castanho mais claro, quase loiro, mas quero mudar um pouco. Eu deixo em suas mãos.
— Pode deixar. — ele disse e girou a cadeira. — Mas você só vai ver no final.
Quando eu ia protestar, Curtis me dirigiu um olhar assustador e eu fiquei quieta. Ele penteou, cortou e depois passou tinta. Por favor preto não, preto não, preto não. Tudo, menos preto.
— Não é preto... — Curtis me assegurou enquanto passava tinta em uma das mechas.
— Eu realmente me arrependo dos tempos que passei morena. — eu confessei levemente amuada e ele riu.
Entramos em uma conversa agradável. Ele era casado com seu melhor amigo, Paul, adorava estética mas também gostava de tecnologia. Curtis trabalhava no Vanity á quase quatro anos e já havia conhecido a Sra. Queen. Ele até já cortou o cabelo dela e de Kiera algumas vezes.
Fiquei assistindo os episódios de "Orange Is The New Black" que faltavam para eu terminar a sexta temporada enquanto a tinta fazia sua mágica no meu couro cabeludo e realmente odiava/amava a relação de Piper e Alex. Elas eram tãoo complicadas. Eu voltei para o lavatório e Curtis levou o negócio de "só ver no final" bem a sério, porque eu não consegui ver nada de nada de nadinha. Eu voltei para a cadeira e ele começou a secar, puxar e enrolar meus fios enquanto eu assistia mais um episódio.
— Ta-dam! — ele disse quando virou a cadeira de volta.
Eu me olhei no espelho e arregalei os olhos para a garota loira na minha frente.
Eu estou loira.
Eu realmente estou loira.
Minha mãe vai pirar quando ver que eu estou loira.
Eu estou pirando porque estou loira.
— Curtis... Deus... — eu disse entre ofegos.
Eu estou fodidamente loira!
—-
— Lissy! — cantarolou Thea entrando no meu quarto. — Espero que esteja pronta para a melhor noite da sua vida, porque eu estou!
Eu me chequei no espelho novamente e sorri. Ainda não acreditava que estava loira, mas eu estava e fiquei linda. Modéstia á parte, o vestido havia caído como uma luva no meu corpo, a maquiagem ficou bem natural apesar do batom vermelho e eu me sentia linda.
Com toda coragem reúnida, saí do banheiro e vi Thea colocando um relógio de ouro no pulso, distraída. Ela estava usando uma calça de couro preta apertadíssima e um top azul escuro que deixava sua barriga á mostra. Saltos enormes e maquiagem bem marcante.
— Felicity... Puta merda. — ela chamou novamente e quando me viu seus olhos castanhos — acho que ela era a única Queen que não tinha olhos azuis — se arregalaram como desenho animado. Eu ri de sua reação e abriu sua boca em um "O". — Meu Deus... Cara... Você está linda demais.
— Obrigada. — eu disse corando como um tomate, aposto. — Você também está.
— Sério... Seu cabelo está lindo. Este vestido... — ela disse e me fez dar um giro de 360° para olhar melhor. — Se sairmos bêbadas de lá, eu nem vou me importar se acharem que eu virei lésbica e você for a minha namorada. Iremos ficar lindas na capa da Star Magazine.
— Thea! — eu repreendi e ela riu.
— Os homens não vão te deixar em paz. — ela disse rindo quando saímos de meu quarto.
Nós descemos até o hall á tempo de ver Moira e Walter saindo do salão de música com sorrisos cúmplices nos rostos. Nem parecia a Sra. Queen ali, ou deveria dizer, Sra. Steele? Fiquei em dúvida.
— Thea, você já está ind... Felicity? — disse Moira assim que nos viu.
Eu acenei com a cabeça levemente.
— Ambas estão lindas. — elogiou Walter, sempre cordial, e eu corei mais um pouco.
— Sim, de fato. — concordou Moira olhando para mim de um jeito bem estranho.
Não era um olhar reprovador ou frio que ela tanto distribuía pela casa, mas não era um olhar aprovador ou caloroso que ela raramente dava para Thea ou Tommy. Era estranho. E eu fiquei com medo.
— Vamos aproveitar a folga da Felicity e todo segundo aqui é desperdiçado. Não esperem por nós... — disse Thea divertida me arrastando até a garagem. — Bom, eu não sei você, mas eu estou pronta para dançar e beber como nunca.
Ela parou por um minuto e depois escolheu a Lamborghini preta. Ela sentou no volante e eu no carona, e nós cantamos pneu ao som de uma música eletrônica bem alta.
—-
Cheio. Sufocante. Abafado. A Verdant estava muito diferente desde a minha última visita, na semana passada. A decoração verde foi trocada por uma vermelha bem forte e a música parecia possuir cada corpo na pista de dança. Não era muito o meu estilo.
A bebida me ajudava, é claro, mas eu não via nada de divertido no lugar. Eu sou caretona mesmo. O vestido fez sucesso como Thea previu, mas eu não estava bêbada o suficiente para aceitar as doze primeiras cantadas que levei. A maioria dos caras estavam bêbados e bêbados não faziam o meu tipo porque sempre usavam as cantadas mais clichês que existiam e ninguém tentava inovar.
— Estou morrendo de calor. — disse Thea voltando para o balcão onde eu estava bebendo um martíni, ela estava suada e bem alegrinha. — Sério que você não vai dançar nenhuma música?
— Ahm, eu não sei dançar música eletrônica, se fosse algo como Madonna... — eu disse alto bastante para ela escutar levantando as mãos e Thea riu. O barmen serviu dois shots de tequila dos quais ela virou sem hesitar e depois riu mais uma vez.
Ela voltou para a multidão e a música foi cortada. Algumas pessoas reclamaram e a batida de "Bitch, I'm Madonna" começou e todo mundo vibrou e recomeçou a dançar como loucos. Thea também voltou e sorriu. O barmen serviu mais dois shots de tequila, ela bebeu um e acenou para o outro.
— Vamos Felicity! — gritou por cima da música. Que mal faria além de eu me comportar como uma garota solteira de quase 28 anos? Virei o shot e ignorei a ardência que ficou em minha garganta. Thea me puxou para a multidão e começamos a dançar com todo mundo ao redor.
—-
— Thea... Me ajude! — resmunguei tentando tirá-la da Lamborghini. Por sorte eu não bati ela. Não era muito responsável de minha parte dirigir bêbada, mas era eu no volante ou Thea que estava muito pior que eu. — Tente ficar de pé, pelo menos.
— Acho que vou vomitar... — Thea resmungou ao se apoiar em mim e na parede.
— Ah não, um Queen já vomitou em mim semana passada e eu não quero repetir a dose. — reclamei e comecei a arrastar Thea pelo corredor.
— Você viu como Curtis estava dançando "Crazy In Love"? Eu queria dançar daquele jeito.
Curtis estava na boate? Eu não conseguia lembrar. Depois de três músicas e muita tequila, eu não conseguia lembrar de nada do que eu fiz direito, só alguns pedaços. Eu acho que Thea dançou em cima de uma mesa ou fui eu? Ou pior... Fomos nós duas e Curtis? Ele estava na lá mesmo? Eu me lembrava vagamente de ter beijado alguém. Não perguntem quem, porque eu não lembro disso também não. Deus, eu podia escutar a voz de minha mãe me explicando todos os jeitos e formas de pegar AIDS na minha cabeça agora.
Eu não deveria ter bebido, porque eu não sabia como beber.
— É, eu vou vomitar. — disse Thea quando chegamos no hall de entrada. A casa estava um silêncio absoluto e Thea parecia uma mamute pulando corda com seus passos bêbados.
— Por favor Thea não! A sua mãe é louca por limpeza, lembra? — eu disse com medo e minha visão começou a rodar também. — Acho que eu vou vomitar também.
Thea começou a rir histericamente e derrubou um vaso de flores. Ele se espatifou no chão e eu tampei a boca de Thea impedindo outra gargalhada de hiena dela. Antes que caísse, arrastei Thea até o sofá da sala de estar e ela caíu como fruta podre nele. Não estava mais rindo. Parecia realmente enjoada. Cacete. Voltei correndo, tropeçando em meus próprios pés, no caminho até a cozinha. Precisava de um balde ou de uma vasilha... Qualquer coisa para Thea vomitar. Parei no meio do corredor e arranquei as rosas de um balde, Moira e Shado iriam me matar provavelmente, mas o chão ficaria limpo.
Voltei para a sala rapidamente, mas Thea já tinha caído no sono. O rosto estava sereno com um pequeno sorriso no rosto. Deixei o vaso por perto só para garantir e sentei ao seu lado no sofá. Soltei o cabelo e tirei os saltos. Meus dedinhos agradeceram. Meu estômago estava estranho. Minha mente dando voltas. Eu estava com sede. Eu nem havia dormido, e já estava com ressaca, mas Deus... Me sentia tão bem.
Eu ri. Tão bem como não me sentia em um bom tempo. É, Curtis, com certeza, estava na boate. Eu me lembrava dele dançando e cantando Beyoncé na Verdant com o seu namorado ou era marido? Qual era o nome dele? Pablo? Polo? Paul! Suspirei e ri de novo. Eu não acreditava que havia saído para beber com uma das minhas chefes, a gente tomou um porre juntas e ficamos bem perto de vomitarmos juntas. Ri mais uma vez, mas a risada saiu mais como um gemido de três gatos sendo torturados por um pitbull malvado.
Onde estava Lily? Eu quero brincar com Lily.
Não! Você precisa ir para cama!
Sim. Cama. Eu precisava ir para cama. Me levantei do sofá na terceira tentativa e peguei meus sapatos no chão. A minha mente parecia estar tendo a sua própria balada particular e eu lembrei de Curtis cantando novamente.
You got me looking, so crazy, my baby
I'm not myself, lately I'm foolish, I don't do this
I've been playing myself, baby I don't care
Baby your love's got the best of me
Your love's got the best of me
'Cuz baby you got me, you got me
You got me, you got me
Balancei meu corpo no ritmo que havia inventado e ri enquanto cantava.
Such a funny thing for me to try to explain
How I'm feeling and my pride is the one to blame
Yeah, I still don't understand
Just how your love can do what no one else can
Eu cantarolava baixinho e dançava levemente pelo hall de entrada todo. Foi uma noite incrível. Olhei para o lustre em cima da minha cabeça e estiquei as mãos como se pudesse pegá-lo. Era tão lindo. Parecia ser de algum conto de fadas da Disney.
Got me looking so crazy right now, your love's
Got me looking so crazy right now
Got me looking so crazy right now, your touch
Got me looking so crazy right now
Ouvi um suspiro e olhei para Thea. Dormindo como um anjo, mas acordada era pior que o próprio capeta. Mais um traço genético dos Queen. Ri com a minha linha de pensamento, mas o riso morreu quando eu vi alguém ao lado da escada, me observando.
Eu poderia estar redondamente enganada ou era apenas fruto da minha imaginação fértil e bêbada, mas algo no fundo... No fundinho mesmo... Me dizia que era Oliver Queen quem estava na minha frente de braços cruzados.
Puta merda.
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