The Perfect Nanny
3 Capítulo 3
Notas iniciais

Uau.
Era a única palavra que eu poderia usar para definir a estrutura enorme na minha frente. Uau. Era grande, muito grande, e gótico. Me lembrava a mansão dos dois primeiros filmes do X-Men, ou Instituro Xavier Para Jovens Talentosos, como preferir chamar. Eu sempre fui mais fã da DC Comics do que da Marvel, por princípios. Na DC temos mais atuação feminina, sendo vilã ou heroína, do que na Marvel. Se bem que as coisas estavam começando a mudar hoje em dia no mundo dos quadrinhos.
— Srta. Smoak? — chamou uma voz rouca e grave, eu tomei o maior susto da minha vida com ela e me virei na direção que ela veio. Do lado da fonte de água com querubins disparando flechas de cerâmica, estava um cara com tapa-olho.
Ele parecia um soldado, mesmo usando um terno caríssimo e o tapa-olho. Sua postura era rígida e ele tinha as mãos atrás das costas. Tinha um penteado muito legal que deixava os fios brancos ali bem atraentes. Ele não era feio, mas eu nunca sairia com um projeto de pirata.
— Eu sou Slade Wilson. Chefe da equipe de segurança. — ele disse e estendeu a mão, eu hesitei um pouco, mas apertei sua mão calejada e enorme. — Estou aqui para te mostrar o lugar.
Assenti e ele fez um aceno para a lateral da casa. Eu segui ele com cautela e pisando sempre nos lugares certos para que meu salto não afundasse na grama direto para o barro. Bom, o jardim era enorme e em moitas estratégicamentes posicionas haviam rosas brancas lindas. Tudo gritava luxo, e foi quase impossível não notar a quantidade exorbitante de câmeras ao redor.
— Começamos de trás para frente. Atrás da casa temos a área de lazer das crianças, a piscina, o salão de jogos, o campo de mini-golpe e as quadras de vôlei e basquete. Todos são monitoradas por câmeras de vigilância. — ele disse e acenou para o enorme terreno á nossa frente.
Eu conseguia ver a piscina que deveria ser semi-olimpíca, o salão de jogos de longe, o campo de mini-golpe com seis buracos e as quadras mais ao longe. Uau duplo.
Ricos e seus brinquedos.
E que brinquedos...
— As crianças são livres para usá-las quando quiserem, desde que sempre sejam supervisionados pela senhorita ou qualquer outro funcionário. — ele disse e eu assenti.
Fiquei menos intimidada com a riqueza dos Queen ao ver um pouco de natureza no lugar, havia várias árvores ao redor de tudo. Desde pequena, não sabia o porquê, mas árvores sempre me acalmavam. E eu achei uma velha casa na árvore em uma delas, ela parecia ser velha e abandonada.
— Vamos entrar? — perguntou Slade sendo muito educado para o homem troncudo que era.
Eu assenti novamente e ele acenou em direção ao deque com pelo menos quatro conjuntos de portas francesas que davam no jardim dos fundos. Consegui ver que duas delas tinham um interior diferenciado, deveriam ser escritórios posicionados em lados opostos da casa.
Eu segui ele e subimos quatro degraus voltando para o terreno plano do deque e ele abriu portas duplas francesas de vidro enormes. Demos de cara com uma sala de estar genérica, sem muitos móveis ou decorações. Eu me sentia da Mansão Adams, porque o único barulho eram os dos meus saltos e do ranger no piso de madeira.
— Bom, a ala leste é a área dos funcionários. Temos a cozinha, dispensa e os quartos indo por aquele corredor. — ele disse quando chegamos em um corredor que tinha três direções, ele explicou o corredor do lado esquerdo. — A ala oeste é onde há os equipamentos para a área de lazer e a garagem.
Andamos em frente no corredor branco de piso de madeira sem decoração alguma, e demos de cara com o hall de entrada, eu acho. Olhei para o teto maravilhada com o lustre de trezentas lâmpadas e tenho certeza que ele não era feito de acrílico pelo brilho que tinha. Duas escadas emolduravam cada lado do lustre dando acesso para o segundo andar. O piso mudou, não era mais de madeira e sim de porcelanato xadrez polidissímo.
— Por aqui, Srta. Smoak. — disse Slade e eu voltei a segui-lo, mas não antes de admirar o lustre uma última vez. — Aqui é a sala de visitas, e naquelas portas temos a sala particular e o escritório da Sra. Queen.
A sala de estar estava, com certeza, com mais mobília que a dos fundos e várias pinturas famosas também. Algumas fotos e um barco de madeira estava em cima da lareira que parecia estar sem uso durante muito tempo. Atravessamos a sala e demos de cara com outro corredor.
— Aqui é o escritório da Srta. Queen, a sala de cinema e o estúdio de dança. — ele apontou para portas brancas com maçanetas douradas que eu só tinha visto em filmes.
Tentei gravar cada porta e sua função, mas no final do corredor havia um banco na janela que tinha uma vista parcial da piscina e isso foi o que mais me chamou a atenção. Imagine ler um livro ali com café? Deveria ser um sonho.
Voltamos para a sala de estar super decorada e subimos as escadas. Havia um enorme janelão de vidro ali, do chão ao teto e eu conseguia ver os fundos por completo.
— O corredor leste é onde vai passar a maior parte do tempo, Srta. Smoak. — Slade disse com um pouco de sarcasmo em sua voz quando entramos no corredor esquerdo dando adeus para o janelão lindo. — Os quartos das crianças são aqui. Kellan. Kiera. Kylie. E o seu quarto.
Fiquei surpresa por saber que teria um quarto aqui em cima, pensei que ficaria com o resto dos funcionários no andar inferior o que faria muito mais sentido já que agora eu era funcionária também. Estava enganada, eu acho.
— As crianças não estão em casa, porque saíram com a Srta. Queen.
Não me importei de demonstrar meu alivio na frente de Slade, ele sorriu levemente e depois apontou para o corredor do outro lado das escadas. O sorriso sumiu de seu rosto e ele ficou completamente sério novamente em tempo recorde.
— A ala oeste pertence exclusivamente ao Sr. Queen. O quarto e... Outras coisas. Não vá lá, a não ser que seja chamada. — ele explicou e pelo tom de voz, eu ouvi um "Se você for até lá, prepare para ser demitida". Assenti e descemos as escadas novamente.
— Ali temos a sala de jantar, a sala de música e o salão de baile. — ele apontou para duas portas duplas fechadas e eu namorei o lustre mais um pouco. — Srta. Smoak?
— Sim?
— Vamos conhecer o resto dos funcionários. — ele disse e voltamos pelo caminho que entramos.
Viramos na cozinha enorme e de última geração onde havia um equipe de quatro pessoas perambulando por todo espaço.
— Estes são Eddie Tawne e Iris West. Eles servem as refeições e auxiliam por aqui. O cozinheiro, Joe West, e a nossa governanta, Dinah Lance.
Ele foi apontando para cada um e eu encarei a última que me analisava com um sorriso nostálgico. Disney. Isso! Eu estava dentro do castelo da Fera, porque aquela expressão me lembrava muito a Sra. Bule de Chá. Ela estava usando coque e avental de babados, até!
— Pessoal, esta é a nova babá, Srta. Felicity Smoak. — disse Slade e cada um parou o que estava fazendo e acenou ou sorriu para mim. Acenei de volta e sorri também. — A Sra. Lance vai explicar tudo que precisa saber sobre a rotina das crianças, a única coisa que tenho que lhe falar é que a equipe de segurança sempre irá acompanhar a senhorita e as crianças, mas sabemos ser bem discretos e só iremos agir se julgarmos necessário.
Eu assenti pela última vez e ele pareceu satisfeito com o seu trabalho.
— Obrigada, Sr. Wilson. — eu disse e ele saiu com um último aceno.
— Pronta para começar querida? — perguntou a Sra. Lance.
Não mesmo.
Eu sorri e assenti.
—-
— Você irá usar um dos carros que está na garagem, todos tem GPS, então não se preocupe de se perder. — Sra. Lance disse quando me mostrou uma planilha detalhada sobre a rotina das pestes. — Bom, as férias deles já estão acabando. Temos uma semana e meia até o retorno. Já as aulas de dança e cursos técnicos são de sábado.
Riquinhos que estudam em escolas particulares só ficam de férias de 20 de junho até 4 de julho. O que era absurdo. Desde quando crianças só ganham quinze dias de férias da tortura diária?
— Até agora... Sem problemas. — eu disse e ela me mostrou outra planilha.
— As crianças vão ao hospital e ao escritório do Sr. Diggle, uma vez ao mês para fazerem o check-up, a próxima consulta vai ser apenas mês que vem. Dia 24. — ela disse e mais uma planilha. — Os gêmeos não podem comer...
— Amendoim e pimentas. — completei e ela sorriu assentindo. — Kylie não possui alergias alimentares.
— Parece que meu trabalho aqui acabou, você está mais do que preparada para amanhã.
— Em teoria tudo é fácil, Sra. Lance. — eu disse e ela riu.
— Slade já te mostrou se quarto? — perguntou e eu assenti. — Você quer comer alguma coisa?
— Não, obrigada. Posso ficar com estas? — sinalizei para as planilhas e ela sorriu.
— Vou me recolher então, boa noite querida. — ela disse e depois foi pelo corredor da ala leste.
O pessoal da cozinha era bem receptivo, todos se apresentaram e eu fiquei bem amiga de Eddie e Iris. Depois de me despedir de todos, peguei minha bolsa e caminhei até o hall de entrada novamente e sorri olhando para o lustre. Era lindo e eu queria levar para minha casa mesmo sabendo que ele era possivelmente maior que o meu próprio banheiro.
Faróis invadiram o hall pelas janelas e eu vi dois carros chegando ao mesmo tempo. Eu não entendia nada de auto-mobilística, mas só de olhar tudo ao meu redor, sabia que os carros eram carérrimos e deveriam valer mais do que qualquer órgão meu.
— Felicity! — gritou Thea assim que passou pela porta da frente e me viu ali. Ela cambaleou levemente da porta até mim e me abraçou. Ela estava bêbada? Prefiro acreditar que ela não estava dirigindo com três crianças no carro junto com ela. Tentei sentir algum cheiro de bebida, mas só achei um perfume levemente enjoativo. — Você foi bem rápida!
— Thea. Oi. — eu disse meio sem-graça porque as pestes haviam entrado e estavam me encarando com olhares hostis. Um quarto ser humano entrou e ele parecia ser um quarto filho. Bonito e tinha olhos azuis. Estava usando um moleton vermelho, mas não usava a mesma expressão que as pestes. — Como está?
— Cansada! Só vim deixar eles e ver como está tudo. — ela disse e sorriu. — Este é Roy Harper, meu namorado.
— Oi. — eu disse acenado e ele retribuiu com um sorriso simpático e foi para o lado de Thea.
— Bom, este é o mais velho. Kellan. — disse Thea apontando para o emo altão, ele apenas levantou dois dedos em sinal de paz e subiu para o quarto antes que pudesse falar alguma coisa. — Não ligue para isso. A filha do meio. Kiera.
— Oi. — eu disse para garota loira de braços cruzados, ela acenou e depois revirou os olhos subindo para o quarto também.
— E por último, mas não menos importante. Kylie. A caçula. — disse Thea e a diabinha sorriu, aquele sorriso de "Você é meu novo brinquedo de tortura" não me enganava, mas eu sorri de volta. Ela abraçou Thea levemente, bateu os punhos com Roy e subiu escada á cima. — Cuidado com ela. Kylie é bem arteira.
— Eu já percebi isso. — eu disse e nós três rimos baixinho.
— Tem uma coisa sobre ela... Ela não é de falar muito. — disse Thea com uma expressão triste.
— Ela é muda?
— Não! Não... Ela fala, mas muito pouco. Não fique surpresa se ela não for muito comunicativa com você no começo. — disse Thea e o clima despencou. — Bom, boa sorte amanhã. Qualquer coisa, grite por Dinah!
Que recepção... Única.
—-
Mesmo que o colchão fosse ortopédico, os lençóis de mil fios de algodão egípcio e os travesseiros de penas de ganso... Eu não estava conseguindo pregar o olho, dormir? Era apenas uma ideia distante. Sentei na cama do quarto genérico que foi me dado e olhei ao redor.
A luz da lua era a única iluminação que eu tinha somada a minha miopia, eu conseguia ver apenas as sombras da mobília que combinava com as paredes pintadas de azul tiffany, o banheiro e o closet na parede oposta da cama. Eu sabia que aquele quarto dentro de uma mansão na melhor área da cidade era maior que meu próprio apartamento que ficava na periferia da mesma cidade, mas eu não sentia... Argh. Esse lugar não me passava segurança alguma.
Olhei para a porta, estava trancada e eu havia colocado uma cadeira prensando a maçaneta para evitar as possíveis artimanhas de boas-vindas de Kylie. Me levantei da cama e calcei minhas pantufas de panda e coloquei meus óculos no rosto. Quem sabe um leite morno não ajude?
Tirei a cadeira da maçaneta e destranquei a porta, dando de cara com uma Kylie adormecida no chão. Em suas mãos havia uma lata de chantily e pimenta em pó, artigos provavelmente roubados da cozinha. E ela tinha uma cópia da chave do meu quarto. Esperta. Muito esperta. Mas eu sou jogo este jogo há mais tempo que ela.
— Oh querida... Você tem muito que aprender ainda. — eu disse sorrindo.
Tirei as coisas de suas mãos e a peguei no colo. Deixei a lata de chantily e a pimenta em um aparador do corredor e levei ela até a porta onde estava escrito "KYLIE" e abri. O quarto era mais genérico que o meu, e ela parecia ter tanta personalidade. Não havia nada de decoração, a não ser um puf em forma de cocô.
Sim, cocô.
Ela já estava de pijama, o que ajudou muito, eu só tirei suas pantufas e a deitei na cama. Puxei o lençol e a coberta para cima dela e a cobri e ascendi seu abajur. Não sabia se ela já dormia com todas as luzes apagadas e não tentaria a sorte hoje.
— Você vai me dar trabalho, mas eu já gosto de você. — eu sussurrei e beijei sua testa.
Fingi que não vi seu sorriso disfarçado e saí de seu quarto. Acho que passei no teste dela. Fechei a porta com todo cuidado do mundo e peguei as coisas que ficaram no corredor para trás. Principalmente aquela chave.
Caminhei até a porta ao lado e estava escrito "KIERA". A porta estava trancada, olhei para a chave e uma lâmpada se ascendeu em minha mente. Será? Girei a chave dentro da fechadura e ela destrancou. Era uma chave mestra! Kylie era muito esperta mesmo. Kiera estava dormindo no meio da cama, ao contrário de sua irmã, ela entupiu o quarto inteiro de decorações.
Pôster, fotos e pinturas... Tudo relacionado á dança e a Julliard.
Arrumei sua coberta e depois saí e tranquei a porta novamente.
Segui para porta do lado do meu quarto e não tinha nenhum nome ali, mas sabia que era de Kellan. Abri a porta com a chave mestra e vi um ninho de rato, porque aquilo não era um quarto! Deveria ter algumas centenas de espécies novas de fungos ali e deveria ter alguma coisa morta também. O cheiro era horrível. Não estava falando de um quarto de adolescente bagunçado e sim de um terreno baldio.
Kellan estava ali, adormecido com o notebook ligado no colo e fones nos ouvidos que estavam gritando heavy metal. Me pergunto como é que ele conseguiu dormir escutando rock pesado assim. Fui até ele e tirei seus fones e o notebook, coloquei eles na bancada cheia de fios e placas de cobre. Ele estava construindo algo? Era ele que fazia robótica, né? Que legal. Fui até o closet e achei uma manta limpa mais ou menos limpa em meio de cabides e mais cabides de roupas pretas.
— Droga. — resmungaram atrás de mim e eu vi Kellan se remexendo na cama com um cara horrível. — Merda.
— Kellan? O que está sentindo? — perguntei chegando mais perto dele.
— Como infernos você entrou aqui? Ah merda. — ele xingou e eu o ajudei a sentar na cama. Segurei seu rosto e olhei as pupilas, estavam normais, mas ele estava pelando de febre. Ele fugiu das minhas mãos com um olhar de dor. — Pare!
— Quieto. — eu disse autoritária, isso me surpreendeu mais do que irritou Kellan. Eu coloquei as mãos em seu pescoço. Definitivamente com febre. — Vamos para o banheiro.
— Não quero, já estou melhor.
— Vem agora ou eu vou puxar este seu cabelo tingido á força! — eu ameacei e depois de uma guerra de olhares, da qual eu ganhei, ele se levantou e se apoiou em mim enquanto íamos até o banheiro. Ascendi a luz e agradeci aos céus por aqui ser mais limpo do que o quarto. Ele resmungou e eu vi em seu rosto uma expressão distorcida enquanto ele segurava a barriga. Oh não. — Vai vomitar?
— Não. — respondeu e refletiu. — Sim.
Abri a tampa no vaso á tempo e ele se debruçou lá e colocou tudo para fora. Eu segurei ele pelo tórax para ele não bater a cabeça no vaso. Ele tossiu um pouco e voltou a vomitar e resmungar de dor.
E olha que este nem é o primeiro dia como babás deles. Oficialmente falando.
Pregue, subconscinete. Pregue.
— Acabou? — perguntei e ele assentiu.
— Me desculpe. — ele disse assim que o coloquei sentado no vazo e dei a descarga.
— Por?
— Vomitar em você. — ele disse e apontou para um dos meus braços que tinha respingos do vômito. Era nojento, mas eu estava mais preocupada para o garoto ardendo em febre na minha frente. — Por que está tão frio aqui?
— Consegue escovar os dentes sozinho? — perguntei e ele assentiu.
Okay. Direto para o hospital. Voltei para o ninho de rato e fui diretamente no closet. Peguei uma camiseta limpa para ele e um moleton. Voltei para o banheiro e o ajudei a se vestir.
— Vamos para o hospital. — eu disse quando reboquei ele na direção oposta de sua cama.
Ele ia reclamar, mas eu dei um olhar bem significativo e ele se poupou de saliva e a minha paciência. Caminhamos rapidamente, as escadas foram um verdadeiro desafio, mas o chão frio do hall foi o que fez ele começar a ter calafrios. Ele foi apontando a direção até a garagem e depois se apoiou em um dos carros.
Tinha um quadro com várias chaves diferentes, peguei uma e apertei. Era uma Ferrari vermelha. Peguei outra. Era um carro amarelo berrante. Peguei outra. Mercedes! Kellan resmungou mais uma vez e eu decidi que seria ela hoje. Levei ele até lá e o prendi no banco do carona com o cinto de segurança.
Abri a garagem e cantei pneu para fora da propriedade.
O GPS estava ligado e eu seguia tudo direitinho. Em questão de minutos o cascalho se tornou asfalto e as árvores foram substituídas por prédios comerciais brilhantes. O centro de Starling City era um borrão, eu só respeitava alguns faróis e peguei o caminho mais rápido até o hospital geral. Os gemidos de Kellan só aumentavam e os calafrios também. Deus, eu estava ficando doente só de olhar para ele.
— Já estamos chegando. Aguenta só um pouquinho. — eu disse e ele resmungou em resposta.
Atravessei duas avenidas sendo xingada pelos outros carros e impedi uma ambulância de entrar no hospital primeiro que eu. Estacionei de qualquer jeito e puxei Kellan do banco. Ele era pesado e mais alto que eu, mas não poderia deixar ele morrer quando estávamos tão perto da entrada.
— Senhorita? O que ele tem? — perguntou um enfermeiro chegando até nós vestindo luvas descartáveis.
— O meu Deus... Kellan! — ofeguei quando vi que ele estava vomitando muito sangue agora. Corpos brotaram ao nosso redor e eles deitaram Kellan em uma maca. — Ele vomitou muito, está com febre e calafrios... Kellan?
Empurrei o cabelo cheio de suor da frente de seu rosto. Ele parecia tonto.
— Senhora preciso que fique aqui e preencha a ficha dele! — disse uma mulher me barrando, ela estava com um avental estúpido.
— Ficha? Eu não trouxe nada comigo! Me deixe passar! — eu disse e ela me barrou de novo com as mãos estendidas para cima.
— Eu sei que parece grave, mas a senhora tem que deixar os médicos trabalharem com o seu filho... Se acalme e preencha a ficha dele. — ela disse novamente como se eu tivesse cinco anos.
Espera.
Ela acha que Kellan é meu filho?
Eu pareço ter quantos anos para ter um filho daquele tamanho?
A única coisa que eu peguei antes de sair de casa foi o meu celular, mas eu não tinha o telefone de ninguém da casa na agenda. Só de Thea. Eu não poderia ligar para ela, horas atrás ela estava me desejando boa sorte e agora eu estava com o sobrinho dela no hospital. Ótimo.
— Você está acompanhando aquele rapaz? — perguntou a recepcionista e eu assenti. — Posso ver que a senhora não trouxe documento algum na correria, mas precisamos de um nome para identificar o seu filho.
— Kellan... Smoak. — eu disse lembrando daquelas especificações ridículas de não exposição. — 16 anos. Ele tem asma.. Alergia á amendoim e pimenta.
— Está ótimo. — ela disse e imprimiu um adesivo. Eu coloquei na roupa e vi "Acompanhante — Kellan Smoak — Emergência". Voltei para Mercedes correndo e a estacionei direito na vaga. Vasculhando as funções do GPS, descobri que tinha vários caminhos já gravados e um número de celular para emergências.
Disquei ele e esperei.
— Sim?— atendeu Slade no segundo toque.
Ele não dorme? Olhei no visor do GPS e vi que eram 23h:21.
Não estava tão tarde asim.
— Slade? Graças á Deus...
— Srta. Smoak?— ele parecia confuso.
— Eu preciso de ajuda.
— Srta. Smoak estou meio ocupado com o Sr. Queen.— ele disse em um tom de voz baixo.
— Não me importo! Você pode estar com o Sr. Queen, o prefeito e até a Rainha da Inglaterra, mas eu preciso de você. Agora! — eu gritei perdendo o controle.
— O que houve Slade?— ouvi uma voz perguntar ao fundo.
— Passa para ele! — eu gritei novamente, acho que Slade obedeceu.
— Queen.— soou outra voz do outro lada da linha.
Mais aveludada e arrogante do que a de Slade. Meu sangue ferveu.
— Escuta aqui seu pai de merda. Traga esta sua bunda irresponsável junto com os documentos do seu filho para o hospital geral. Agora. Eu te dou, no máximo, vinte minutos para estar aqui ou Deus tenha piedade de você, porque eu não vou ter! — eu disse pausadamente para ele entender cada palavra e depois desliguei na cara dele.
Respirei fundo três vezes e bati minha testa contra o volante.
Repetidamente.
— Você gritou com o seu chefe, Felicity. Você perdeu o emprego sem nem começar nele. Deve ser um recorde. — eu disse á mim mesma e passei a mão no rosto.
Eu estava chorando este tempo inteiro? Deus. Limpei meu rosto e voltei para a sala de espera do hospital que estava até que cheia. Ignorei cada olhar estranho, malicioso, atravessado e torto que me eram direcionados por causa do pijama curto e as pantufas de panda.
Eu sentei na cadeira mais distante possível da pequena parcela de pessoas que estavam aqui. Esperando quaisquer notícias de Kellan e notícias sobre a minha mais nova carta de demissão. Eu estava á beira de um ataque de nervos.
Eu gritei com o meu chefe. Deus.
Coloquei a cabeça entre os joelhos e esperei o ataque de pânico chegar.
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