The Perfect Nanny
23 Capítulo 23
Notas iniciais

— Felicity? Felicity? Pode me ouvir?
Deus. Minha garganta estava doendo. Nunca tive tanta sede na minha vida. Parecia que eu o quê? Tinha lambido o Saara? Repetidamente. Fechei os olhos porque a claridade estava insuportável. Senti meu corpo ficar inclinado, e isso doeu.
— Felicity?
Ah, pare de falar! Ou vá embora. Você está me dando enxaqueca.
Fechei os olhos e respirei fundo, fazendo uma análise do meu corpo inteiro. Minha cabeça estava latejando, eu sentia que estava presa á alguma coisa, não... Várias coisas. Meu peito estava doendo, assim como meu quadril. Não estava sentindo minhas pernas. Minha garganta doía.
Você tem que abrir os olhos...
Estava demorando para você chegar, não é? Mas hoje eu estou agradecida por estar comigo. Isso significa que eu estou viva e bem o suficiente para fantasiar que o meu subconsciente tenha voz ativa na minha vida!
Okay. Mais uma respiração funda. Eu consigo fazer isso. É só abrir os olhos! Lutei contra minhas pálpebras que parecia pesar toneladas, mas mal elas sabiam que tirar Kellan da cama serve como a melhor academia do mundo! Consegui! Isso!
Pisquei algumas vezes e me acostumei com tudo. Eu precisava urgentemente dos meus óculos. Estava tudo borrado. Eu estou em um hospital? Sim, estou.
— Felicity? Hey! Bem-vinda de volta! — disse uma voz ao meu lado. Me virei na direção dela e só consegui ver branco e marrom. — Você provavelmente está confusa, mas eu quero que saiba que você está em um hospital e está tudo bem...
Essa voz. Eu conhecia essa voz.
— Vou te examinar agora, okay? — perguntou e logo senti dedos frios, porém gentis tocarem cada canto possível do meu crânio. Depois minha garganta e pulsos. — Pode seguir a luz?
Luz? Está mais para farol! Segui o farol de um lado para o outro. Três vezes. Algo pontudo e gelado entrou uma uma das minhas orelhas, e depois senti as mãozinhas gentis em minhas costas e no meu peito.
— Os vitais estão ótimos! A temperatura é de 37°. — disse a voz novamente.
De onde eu conheço você?
— Felicity, pode me dizer seu nome completo?
Engoli minha própria saliva, mas não ajudou em nada com a sede. Eu deveria estar com voz de homem á essa altura do campeonato, mas vamos lá... Eu precisava saber o que tinha acontecido e precisava dos meus óculos.
— F-Felicity... Meghan... Smoak. — eu disse e minha garganta arranhou mais do que disco velho. Ouch. Minha traqueia poderia estar sendo atacada por mini-bolinhas de fogo, porque o negócio estava queimando!
— Alguém pode trazer um pouco de água?
Isso! Já estou gostando mais de você!
— E os óculos dela... Onde estão?
Quer casar comigo, vozinha?
Vi coisas brancas, médicos, se mexerem e depois um negócio verde ser posto na minha frente. Senti algo tocar meus lábios. A-há! Tenho direito á um canudo! Suguei o mais forte que consegui e... Ah, a água estava gelada. No momento atual, essa sensação é a melhor do mundo. Como um orgasmo. Só que de água! A queimação foi embora. Senti as mãozinhas de novo em meu rosto e... Boom! Tudo ganhou foco! Oh, era Dra. Snow! Sabia que conhecia a vozinha de algum lugar.
— Hey... Melhor? — perguntou sorrindo e eu assenti, enquanto bebia mais água.
O copo foi colocado de lado e ela sentou ao meu lado na cama.
— Okay... Vitais estão ótimos, agora vamos ver como seu cérebro está se comportando. — ela disse e eu assenti mais uma vez. Minhas mãos começaram a pinicar por algum motivo. — Qual a data do seu nascimento?
— 28/08/1988. — respondi e ela assentiu.
— Pode falar as estações do ano em sequência pra mim?
— Primavera, verão, outono e inverno. — respondi e ela assentiu mais uma vez.
Olhei ao redor. O quarto era grande. Tinha paredes azuis e pouca mobília, mas muitas máquinas de hospital. E um quadro! Era uma rosa branca. Linda. Além da Dra. Snow, tinha mais duas pessoas no quarto. Um homem e uma mulher. Eles estavam anotando coisas e olhando para as máquinas ao meu lado. Eram enfermeiros, talvez?
— O que você vê aqui? — perguntou Dra. Snow me mostrando uma plaquinha.
— Um círculo vermelho. — eu disse e ela trocou a plaquinha por outra. — Um triângulo azul.
— E o último...
— A-há! Esse parece o Pellucio do Animais Fantásticos e Onde Habitam! — eu disse e ela ergueu uma sobrancelha para mim sorrindo. — Ou pode parecer com um porco espinho super fofo?
Mexi os dedos das mãos e dos pés. Ela batucou aquele martelinho no meu joelho que reagiu e quase acertou a cara de uma enfermeira e parecia muito feliz com tudo isso.
— Ela está ótima! — disse Dra. Snow indo até a porta e abrindo ela levemente. — Vou pedir mais uma bateria de exames para ter certeza. Isso é quase uma milagre da medicina!
— O que aconteceu?
Essa pergunta fez o sorriso de Caitlin Snow murchar completamente. Ela trocou olhares com os enfermeiros e eles saíram do quarto. Pela fresta da porta consegui ver as pestes sentadas no corredor e mamãe ao lado de... Oliver? Eles me viram e sorriram, mas eu não consegui sorrir de volta. Por que? Porque Kiera estava com a perna engessada e com uma tala no pulso! Porque Kellan estava com cara de gente morta! Porque Kylie tinha olheiras embaixo de seus olhinhos! Porque mamãe estava com o rosto vermelho e olhos inchados, ou seja, ela chorou muito! E porque... Porque Oliver estava ali! E com o rosto abatido parecendo um zombie que nem Kellan?!
O que infernos aconteceu enquanto eu estava apagada?
— Você se envolveu em um acidente de carro... Não se lembra? — disse a Dra. Snow fechando a porta novamente.
— Sim, eu lembro. Kiera caíu e eu puxei ela, e eu caí. Caminhão veio e boom. Estou aqui. — eu respondi apertando a pontinha do meus nariz e ela assentiu. — Quero dizer o que aconteceu com eles?!
Ela olhou para porta e soltou uma risada aliviada.
— Eles tiveram um gostinho de como é não ter você por perto. — ela respondeu colocando o estetoscópio pendurado no pescoço com um sorriso gentil.
— Quanto tempo?
— Mais de um mês. Já estamos no começo de Dezembro. — ela disse colocando as mãos dentro de seu jaleco branco.
— Eu perdi o Halloween? Ah meu Deus, eu perdi o Halloween! Eu tinha a ideia perfeita para a fantasia da Kylie... — choraminguei e ela riu novamente.
— Vou mandar sua mãe aqui primeiro e depois os meninos, okay?
Assenti e ela saiu novamente. Tive outro vislumbre deles no lado de fora e não encarei nenhum nos olhos. Eu ainda estava tentando digerir tudo que tinha escutado. Mamãe. Kiera. Oliver. Kylie. Kellan... Este último foi o pior. Nunca senti meu peito se apertar como ele se apertou quando ouvi a voz de Kellan. Foi tão difícil apenas ouvir e não poder responder cada um deles.
Parecia que eu estava gritando para o vazio.
Mamãe chorou muito quando me viu acordada. Me encheu de beijos molhados. Me abraçou diversas vezes. Chorou mais. Beijou mais. E não parou de agradecer ao cara lá de cima. Eu não julguei ela. Foi um inferno para ela tanto quanto foi para mim.
— Oh meu Deus! — ofegou depois de me soltar do enésimo abraço urso panda.
— O que?
— Kellan! Kiera! Kylie! Eles precisam de te ver... Oliver também! — ela exclamou e eu ri assentindo. — Vou chamar eles!
Ela saltou fora da cama e depois de secar o rosto foi até a porta e deixou todos entrarem. Kylie correu até mim e pulou na cama, me engolindo com seus pequenos bracinhos em um abraço forte.
— Mãe? — chamei e ela olhou para mim com um sorriso. — Quem é ela?
Vi os olhos de Kiera se esbugalharem de um jeito que parecia desenho animado. A boca de Kellan foi ao chão e Oliver adotou um olhar mais do que preocupado em seu rosto.
— Quem são vocês? — perguntei em voz baixa, tentando parecer confusa e tensa ao mesmo tempo. Eles arregalaram os olhos todos juntos, os de Kiera quase saíram de seu rosto.
Kylie recuou de seu abraço um pouco com a testa franzida. Ela não estava dormindo direito. E muito menos comendo. Eu simplesmente sabia disso. Tinha olheiras debaixo dos olhinhos azuis e seus lábios estavam rachados. Kiera estava com a perna engessada, uma tala em seu pulso esquerdo, alguns cortes nos braços e rosto, seu cabelo estava uma bagunça, mas parecia inteira. Kellan estava livre de qualquer machucado físico, mas só de olhar em seus olhos, eu sabia que o que for que ele estivesse lidando eram mental. Ou emocional. Não sei.
Queria abraçar os três e nunca mais soltá-los.
— Eu sinto muito, mas não consegui resistir... — eu disse antes de começar a gargalhar.
Kellan e Oliver soltaram suspiros aliviados, mas Kiera me ameaçou com sua muleta. Eu abracei Kylie com força e distribui beijos em seu rosto fazendo ela rir livremente. Kiera se sentou ao meu lado, Kellan do outro lado e Oliver ficou em pé de braços cruzados. Precisava conversar com ele depois sobre algumas coisas que eu havia ouvido. Em particular.
Depois de vários abraços e milhões de beijos, Slade apareceu com duas sacolas pardas e eu sabia o que ele tinha trazido. E isso era extremamente injusto considerando que eu tinha que comer sopa.
— Vocês realmente vão comer Big Belly na minha frente? Sério? — perguntei e Kiera abocanhou seu lanche sem medo e sem culpa. Kylie ofereceu suas batatas fritas e eu ri. — Não posso comer isso, Kay. Dra. Snow vai me deixar de castigo.
— Uma batata não vai fazer mal. Eu sei que você me quer, Felicityyyy... — disse Kellan rodando uma batata na direção da minha boca fazendo uma voz fina e eu ri e comi sem medo e sem culpa também.
Este era outro com quem eu precisava conversar.
Slade e Oliver ficaram sentados no sofá, afastados, mas participavam da conversa de tempos em tempos. Todos eles me atualizaram sobre as coisas que estavam acontecendo na escola, em casa e no planejamento da festa de Kiera, o que me lembrou de...
— Sim, você definitivamente deveria pedir. — eu disse abrindo a única coisa boa no meu cardápio enquanto olhava para Kiera. Ela olhou para mim confusa enquanto terminava seu refrigerante fazendo aquele ruído chato com o canudo. Abri o lacre de alumínio e lambi o pudim de chocolate que ficou preso ali. — Sua festa? A dança com...
Acenei com a cabeça em direção á Oliver e ela arregalou os olhos.
— Você...?
— Oh sim, eu ouvi tudinho. — eu disse colocando um colher generosa dentro da minha boca. Estava tão bom! E gelado! Minha garganta agradecia por isso. E muito.
Nós assistimos um filme juntos e depois o cansaço bateu. Eu fiquei exausta em questão de minutos. Meus braços e pernas começaram a doer. Aquele latejar na minha cabeça evoluiu para um enxaqueca e eu sentia meu cérebro pesado. Sei que é meio estranho, mas é assim que eu me sinto.
— Eu sei que é meio chato, mas o horário de visitas acabou pessoal. — disse a enfermeira aparecendo.
Houve resmungos e ela sorriu, mas foi firme.
— Okay. Quero que você traga a lição de cálculo que não entendeu amanhã para eu ver. — disse para Kylie que assentiu prontamente antes de me dar um abraço e um beijo de despedida. — E traga o catálogo de vestidos para gente dar uma olhada com a minha mãe.
Kiera assentiu feliz e me deu um longo abraço seguido por um beijo.
— Não faz mais isso comigo, okay? Eu estou um caco! Olha o meu cabelo e as minhas unhas... — disse ela e depois exibiu o estrago.
Até as minhas cutículas já viram dias melhores que as de Kiera do atual momento, até fiquei com pena das pobrezinhas. As meninas saíram com Slade. Kellan e Oliver limparam a bagunça do almoço. A enfermeira de mais cedo veio me checar e pareceu bem satisfeita com o que viu, ela nem brigou por Kellan e Oliver ainda estarem aqui.
Me arrumei no colchão como pude para abrir espaço e bati nele quando meu olhar se encontrou com o de Kellan. Sem hesitar, ele chutou os sapatos e deitou ao meu lado com a cabeça em meu ombro. Doeu um pouquinho, mas ele não precisava saber disso.
— Vou me livrar disso aqui... — disse Oliver segurando as sacolas de lixo e depois saiu do quarto.
Fiquei fazendo cafuné no cabelo de Kellan por bastante tempo, até pensei que ele tinha dormido, mas sua respiração ainda estava irregular demais para ter caído no sono.
— Porque você é igual á mim. — eu disse e ele ergueu o olhar levemente. — É por isso que é o meu favorito, e se você falar para alguém que eu disse isso, eu vou negar até o túmulo.
Ele riu com a minha ameaça e se sentou de frente para mim no colchão.
— Eu não tenho irmãos como você tem, mas eu fui abandonada. — eu disse brincando com um dos fios presos no meu braço. — Meu pai abandonou eu e a minha mãe quando eu tinha onze anos. Eu não entendia nada naquela época, mas sabia que ele não tinha ido viajar a trabalho.
Kellan estava prestando atenção.
— Minha mãe virou um fantasma pela casa nos primeiros meses. Eu tinha que fazer tudo sozinha. Eu cozinhava sozinha, ia para escola sozinha, fazia o dever o sozinha e arrumava a casa. E ainda tinha que fazer ela tomar banho. — contei e ele foi educado o bastante para parecer surpreso. — Naqueles primeiros meses, eu estava sozinha.
— Eu não entend...
— Por que eu estou te contando isso? — perguntei e ele assentiu. — Porque eu te entendo. Eu sei como é perder um pai e meio, mas você ainda tem uma família.
— Eu sei.
— Eu não acho que você saiba. Duas irmãs que te adoram. Avós carinhosas. Tios e tias legais e um pai que te ama. — eu disse contando nos dedos. — E de quebra, uma namorada linda.
Ele corou levemente e eu ri.
— E você tem á mim. A sua super babá que sempre vai estar aqui para cuidar de você. Não importa quando ou onde. — eu disse e arrumei seu cabelo que estava bagunçado por causa do cafuné. Os olhos de Kellan marejaram, e eu sorri. — Eu te amo, mas da próxima vez que você esconder uma dor de barriga de mim... Eu te mato garoto!
Eu comecei a estapeá-lo levemente, ele riu desviando de minhas mãos e secando uma de suas lágrimas que rolou pelo seu rosto. Puxei ele para mim, e nenhum abraço que recebi hoje foi tão libertador e aliviador como esse. Oras! Era a minha Peste N°1 ali!
— Agora eu preciso que você vá para casa e se certifique que Kylie tome um banho, coma e durma bem. — eu disse quando nos separamos. — Coloque uma música do The Fray para ela dormir e não ter pesadelos. E mande Kiera lavar aquele cabelo!
Ele riu mais uma vez e quando Oliver voltou, os dois foram embora deixando um "Boa noite". Mamãe fez companhia para mim o resto da noite, mas meu cérebro ainda tentava resolver o último quebra-cabeça que restava.
"Eu te amo".
Quem tinha dito? Eu ou Oliver? Eu realmente não sabia, apenas sabia que meu coração quase explodiu dentro do meu peito quando eu acordei e a primeira coisa que eu vi foi ele. Ele não pareceu nenhum pouco desconfortável perto de mim. O que aumentava as chances de eu ter dito e não ele. Mas ele parecia estranho de tempos em tempos, o que aumentava as chances dele ter dito e não eu.
Deus...
—-
Eu precisava fazer xixi.
Urgentemente.
Me levantei devagar da cama, tomando cuidado com os fios que estavam ligados á mim e puxei o suporte do soro para perto. Foi um sacrifício convencer a Dra. Snow á retirar meu cateter de xixi, então o esforço era necessário. Meus ossos pareciam estar todos fora de lugar. Peguei impulso do colchão e consegui ficar de pé. Yay! Comecei a me rastejar até a porta do banheiro então.
— Acho que ela está dormi... — disse uma voz ao abrir a porta.
Era Oliver e... Cooper?!
O que infernos ele estava fazendo aqui?! E junto com Oliver?!
— Você deveria estar de repouso. — advertiu Oliver me tirando do meu pequeno e breve estupor. Eu ainda estava bem surpresa. Em nenhuma das conversas paralelas que o coma me trouxe, eu ouvi alguém falar sobre Cooper estar aqui.
Nada.
— Eu quero ir ao banhei... — eu disse tateando o suporte do soro, mas ele rodou e eu senti a gravidade fazer seu trabalho de um jeito belíssimo. Esperei sentir o impacto, mas ele não veio. Oliver havia me segurado no último minuto.
— Como vai, Srta. Smoak? — cumprimentou e eu ri colocando meus braços ao redor do pescoço dele mesmo sob protesto pela dor. Ele me carregou gentilmente até o banheiro e só me colocou no chão quando eu estava bem perto da privada.
Cooper havia vindo atrás de nós, empurrando o suporte.
— Pode sair. — eu disse abrindo a tampa da privada.
— Não. Se você cair de novo, não vou conseguir te pegar. — ele disse e apenas deu dois passos de distância e cruzou os braços.
Como é que uma pessoa normal consegue fazer xixi com outra pessoa encarando ela fixamente? Oliver suspirou e abriu a torneira da pia. O fluxo de água começou a correr fazendo barulho.
Não. Nope. Nem mesmo assim.
— Por favor.
— Estou aqui fora. — ele disse e saiu do banheiro.
— Vire de costas, por favor. — pedi e ele revirou os olhos, mas obedeceu.
Cooper estava fora do meu campo de visão.
— Não há nada que já não tenha visto aí, Felicity.
Libertei a bexiga e me aliviei por completo. Depois me limpar encarei as costas largas de Oliver, corada. Deus. Por que me sinto tão ridiculamente tímida perto dele? Oh meu Google! Ele realmente acabou de deliberadamente expressar que nós já... Você sabe, em voz alta e em público?
Sim, ele fez isso!
Isso é bom subconsciente?
Não, não é!
Perfeito.
Me viro de lado e lavo as mãos. Por sorte ou não, meu banheiro era adaptado para cadeirantes. Então tudo tinha praticamente a mesma altura. Fiquei feliz em poder fazer isso sentada, porque nada no mundo me faria levantar novamente. Minhas pernas começaram a doer horrores e as meias estranhas não ajudavam em nada.
— Pronto. — eu disse depois de secar minhas mãos e dar descarga. Tchau xixi.
Ele se virou levemente e veio até mim. Me ergueu em seus braços com a mesma facilidade de antes e eu fui posta na cama com gentileza, mas não antes de sentir seu nariz em meus cabelos. Hm... Legal. Não é nada demais.
— Você sabe o que aquele ser desagradável está fazendo aqui? — perguntei acenando discretamente para a janela para o corredor, onde podíamos ver Cooper lendo um folheto no balcão das enfermeiras.
— Ahm, acho melhor sua mãe falar com você sobre isso. — Oliver se esquivou e quase derrubou um dos inúmeros vasos de flores que tinha no quarto. Ele agarrou o pequeno vaso no ar e eu puxei o cartão rapidamente.
Doeu, mas eu consegui.
"Não desista, Smoak. Você não faz esse tipo. B.W"
Sorri com a ternura que uma única frase carregava e quis abraçar aquele pedaço de cartolina com todo meu ser. Bruce conseguia ser tãooo fofinho. Reli e reli o cartão várias vezes e me perguntei o porquê de Cooper poder estar aqui e Bruce não?
— Vou chamar sua mãe para vocês poderem conversar. — disse Oliver e saíu do quarto antes que eu pudesse até mesmo tomar o fôlego novamente.
O que..?
—-
— Tem certeza que já sabe de tudo? — perguntou a Dra. Snow. Ela era a que mais estava preocupada comigo hoje. Era o dia da minha alta. Eu estava indo para casa, com uma farmácia completa e uma cadeira de rodas, mas estava indo para casa! — Os curativos devem ser trocados de seis em seis horas. As meias não podem ser lavadas com água sanitária e...
— E ela tem que tomar os remédios na hora certa. Relaxe, Snow. — disse a enfermeira Suzzie e eu ri.
— Okay. Estou bem feliz pela sua melhora milagrosa e sem motivo até agora, mas eu quero que você traga seu traseiro aqui para o acompanhamento quinzenal. — disse a Dra. Snow apontando ameaçadoramente para mim.
Eu me encolhi em minha cadeira de rodas e assenti.
— Ótimo. Pode ir, então. — ela disse e eu sorri mais uma vez e acenei para toda equipe hospitalar que tinha cuidado de mim. — E diga para o seu amigo que eu não quero ir jantar com ele.
— Não mesmo, Caitlin. Você e Tommy irão formar um casal lindo e terão bebês maravilhosos dos quais eu serei madrinha. — eu cantarolei e não ouvi sua resposta porque entrei no elevador junto com Slade.
Foi preciso muita saliva para convencer á todos que eu queria ir embora sem o time de futebol inteiro me ladeando. Então, Moira juntamente com Kiera tiveram a ideia de dar uma pequena festa para a minha volta ao lar. Outra coisa que precisou de bastante saliva. Mamãe queria me levar de volta para o meu apartamento, mas Oliver não deixou, Kiera e Kellan bateram o pé e Kylie usou seus olhinhos pidões. Boom. Smoak foi atingida. Ela nem teve uma chance real.
Enquanto o elevador descia eu observei minhas sapatilhas de panda. Elas eram fofas demais. Slade era bem silencioso, mas me perguntava de hora em hora se eu precisava de alguma coisa ou se estava com dor. Acho que ele estava treinando para a hora do parto de Shado.
Ela estava grávida de três meses e meio, e Slade já estava pirando com tudo isso.
— Nós temos árvore de Natal? — perguntei quando chegamos ao subsolo e Slade empurrou a cadeira até a SUV preta enorme e familiar.
— Acho que sim, guria. Está entrando no espírito natalino? — perguntou e eu assenti.
— Eu já perdi o Halloween, não posso perder o Natal também! — rebati e ele riu abrindo a porta para mim. Fui erguida como uma boneca de pano para o banco do carona e minha cadeira foi para o banco de trás assim como minha única mala. — Acho que devemos comprar uma árvore nova. Um pinheiro de tamanho enorme e várias decorações!
— Ainda faltam mais de quinze dias para o Natal, guria. — disse Slade entrando no carro e colocando o mesmo em movimento.
— Já está na hora da decoração! De começar a comprar os presentes e esconder eles no sótão!
Slade riu, mas não disse nada contra. Ainda era um pouco estranho ver aquele brutamonte/pirata/coroa galã de novela rir, mas dava uma sensação boa. O clima ficava alegre. Sim, Slade conseguia fazer isso.
Ele continuou contando o que estava acontecendo em casa. Os surtos de Shado com seus desejos malucos pela gravidez. Malucos mesmo. Onde se pode encontrar sorvete de morango com feijão? Eu apenas ria de todo o cenário, que deveria ser mais do que hilário ao vivo e em cores.
— Okay. Lar, doce, lar. — eu disse assim que chegamos em casa. Slade me ajudou com a minha cadeira de rodas e eu empurrei as rodas.
Fui até a cozinha com facilidade, mas não tinha ninguém lá. Voltei para o corredor e rodei até a sala de estar. A-há! Estavam todos lá. Em meio de bexigas coloridas e decorações. Tinha até uma faixa colorida me dando boas-vindas.
Deus... Recuei rapidamente até a curva do corredor.
Eu não estava realmente preparada para isso.
Deveria ser apenas algumas pessoas. Não Starling City inteira!
— Sua festa é lá dentro e não aqui, Srta. Smoak.
Levantei a cabeça assim que ouvi a voz de Oliver. Ele estava de braços cruzados, encostado na parede com um olhar sereno demais para ser o mesmo Oliver Queen que eu conheço.
— Eu estou cansada demais para bancar a anfitriã. — fui sincera e ele veio até mim com passos lentos. Oliver Queen usando jaquetas de couro deveria ser considerado um pecado. Ele se abaixou na minha frente e sorriu. E eu gamei como uma pirralha apaixonada.
— Só por vinte minutos e depois eu mesmo te levo para cima. — ele disse e eu ri.
— Combinado. — eu disse e dei um piscadela.
— Pronta? — perguntou se levantando e indo para trás de mim. Levantei a trava das rodas e respirei fundo. — Eu acho que isso é um "Sim".
Deus me ajude agora, porque Bruce Wayne, Cooper Sheldon e Oliver Queen irão ficar no mesmo lugar em questão de minutos, e eu não tenho certeza se irei conseguir administrar tudo isso.
Na verdade, estava começando a sentir falta do hospital e de Caitlin.
Subconsciente? Até a sua ajuda é bem-vinda agora. Subconsciente?
Silêncio.
Ótimo.
Até você me abandonou agora.
Perfeito.
—-
— Qualquer coisa me ligue... — disse Bruce me dando um beijo na testa antes de ir embora. Eu assenti e assisti da porta da frente ele entrar em seu carro e depois sair cantando pneu pela estrada.
Até que não foi tão ruim como eu imaginei. Foi bem tranquilo. Parte desta tranquilidade foi causada pela saída repentina de Oliver até seu escritório, me fazendo ficar por mais tempo com meus convidados. Kiera, Moira e mamãe só falavam da festa de Kiera que aconteceria mês que vem. Kellan ficou silencioso ao meu lado. Kylie brincava com Lily no chão e eu ficava entre as conversas paralelas de Tommy e Bruce. Cooper ficou papeando com a morena desconhecia que depois revelou ser Laurel Lance, irmã de Sara e tia das crianças. Eu lembrava vagamente de ter lido seu nome na ficha das pestes antes de começar a trabalhar na mansão. Eu ainda não entendia o porquê dela e de Cooper estarem aqui, mas tudo bem.
Educação em primeiro lugar, sempre.
— Você quer se deitar? — perguntou mamãe aparecendo no hall.
Eu assenti e ela apontou para o corredor que levava até o escritório de Oliver e Moira. Não entendi nada apenas segui ela empurrando minhas rodinhas e dando boa noite á todos. Entramos no corredor e eu consegui ouvir a voz de Oliver. Ele estava falando no telefone bem alto.
Hm. Ocupado demais.
Mamãe abriu uma das portas e eu vi um quarto completamente adaptado. Oi? Gente, eu ainda consigo andar. Só tenho que manter as pernas imobilizadas dentro das meias estranhas até as seções de fisioterapia. Mamãe me ajudou a trocar de roupa e a me deitar na cama. Até parecia que eu voltei a ser criança novamente. E Donna Smoak parecia super satisfeita com isso.
— Não adianta me olhar assim, você sabe que eu não vou sair daqui... — disse mamãe depois de fazer sua própria caminha no sofá que tinha do lado da minha cama.
Eu sorri e deixei a doce inconsciência me levar.
—-
— Estamos indo muito bem, Felicity! — disse Shado, enquanto eu me apoiava nas barras de ballet de Kiera.
Shado havia se voluntariado para me ajudar com os meus exercícios em casa. Ela fazia bastante yoga, então estava um passo á frente de mim. E também era bom, porque ela começava a tagarelar sobre os preparativos para o bebê e isso previa mais pensamentos inapropriados com o meu chefe. Dei dois passos e respirei fundo. Parecia que eu estava aprendendo andar novamente. Minhas pernas e quadril estavam sem uso há quase dois meses inteiros.
Uma rodada de sexo faria bem á elas...
Revirei os olhos internamente para o subconsciente que estava esparramado em um divã com um sorriso malicioso. Dei mais dois passos e voltei a respirar fundo. E Shado falou sobre os detalhes no entalhe do berço do bebê. Minhas panturrilhas começaram a formigar. Isso era bom? Acho que sim. Continuei andando até a metade da barra. Shado continuou tagarelando. Soltei um pouco o aperto das barras e continuei me arrastando, porque eu ainda estava longe de andar.
— Felicity. É verdade que você vai embora? — perguntou Shado depois de um tempo. Eu parei e olhei para ela, confusa. Onde ela ouviu isso? — Bom, Slade disse que você não estava planejando ficar aqui por muito tempo.
— Bom, eu não vou ficar aqui para sempre, mas não vou embora amanhã. — eu esclareci e ela assentiu. — Por que?
— Eu estava pensando se você não gostaria de ser madrinha do meu bebê. — ela disse olhando as unhas com um ar falsamente despreocupado, enquanto eu quase caí no chão.
Ah é, não teve "quase". Eu caí no chão mesmo.
— Felicity! — gritou Shado e veio se agachar ao meu lado. — Você está bem?
— Eu não sei, você está? — perguntei massageando o joelho dolorido. — Por que eu? Você me conhece, há o que? Três meses?
— Na verdade, são cinco. Eu sei que você é ótima com crianças e sabe cuidar e proteger elas. Eu confio em você suficiente para cuidar da minha afilhada, então confio o bastante para cuidar do meu filho. — ela disse sentando ao meu lado e olhando no fundo dos meus olhos.
Uau...
Bota "uau" nisso, subconsciente.
— É uma honra. — eu disse e ela pulou em cima de mim, ao me fechar em um abraço de urso. Ou mamãe urso... Ah, vocês entenderam. Começamos a rir depois que ela me soltou e rolou para o lado.
— Está tudo bem por aqui? — perguntaram e eu virei a cabeça para a porta, onde Slade e Oliver estavam nos observando com sorrisos nos rostos. — A gente ouviu o seu grito, Shado.
— Sim, é porque ela aceitou! — disse Shado sorrindo e afagando a barriga discretamente.
Oliver se aproximou assim como Slade e eles nos ergueram. Eu fui posta de volta na cadeira e Shado ficou apoiado no corpo monstruoso de Slade, ainda sorrindo de orelha á orelha.
— Guria, eu achei a árvore de Natal. — disse Slade e eu sorri. — E eu também acho que já está bom de exercício. Para as duas.
Shado revirou os olhos, mas deixou ser rebocada para fora do estúdio.
Abaixei a alavanca e comecei a empurrar as rodas para a saída do cômodo, ciente que Oliver estava vindo atrás de mim. Paramos no corredor quando vimos Lily sair em disparada com alguma embalagem na boca, e logo depois, Kiera e Kylie vindo atrás dela. Na verdade, Kylie correu e Kiera mancou o caminho inteiro por causa do gesso em sua perna.
— Ahh, Oliver...?
— Pode deixar. — ele disse passando por mim e deixando um beijo em minha cabeça, para sair correndo atrás das filhas.
O que acabou de acontecer?
Não tenho ideia, subconsciente.
—-
— Alguém viu os enfeites com glitter? — perguntei e todos disseram "não" em conjunto. — Eles estavam aqui agora...
A sala de estar estava uma bagunça completa de caixas e mais caixas, e um pouco de pó. Slade e Oliver tiraram as árvores de Natal do sótão e cada um montou uma e colocou ao redor da casa. Eu tinha deixado bem claro que a maior iria na sala de estar e que todos iriam decorar juntos. Aparentemente era costume da família Queen ter uma árvore em cada grande cômodo e você já sabem que nós vivemos em uma mansão, certo? Pois bem. Decoramos muito.
— Peguei as fotos! — disse mamãe aparecendo com um gorro natalino azul. Ela driblou as caixas de papelão e colocou dois blocos de fotos no meu colo.
— Fotos? — perguntou Kellan perto de mim, enquanto desembolava os piscas-piscas.
— Sim, é um costume da Família Smoak colocar fotos da família na árvore de Natal. Para lembrar que sempre estamos unidos. — mamãe explicou colocando um gorro de Natal rosa na cabeça de Kiera que riu e continuou fazendo os pequenos buquezinhos de visco que iriam espalhar pela casa depois.
— Já que estamos em minoria no quesito Hanukkah, as fotos irão para árvore para um representação nossa. — eu disse e mamãe assentiu. Fucei mais algumas caixas abertas. — ACHEI!
— Eu não sabia que você era judia, Felicity. — disse Moira aparecendo com uma bandeja de canecas. Pelo cheiro era chocolate quente do Joe, o que poderia ser considerado a nova cocaína.
Entramos em uma conversa sobre as festas natalinas, por mais que eu fosse judia, era impossível ficar chamando o Natal de Hanukkah toda hora! Montamos a árvore com bastante cuidado e no final... Ela ficou lotada de enfeites e fotos.
Muito linda mesmo.
— E o toque final é... — disse Oliver erguendo Kylie na altura dos ombros e a pequena colocou a estrela dourada no topo do pinheiro velho com um sorriso no rosto. — Kellan?
Kellan ligou os piscas-piscas e agora sim, a árvore ficou realmente perfeita.
Todo mundo começou a conversar e tomar mais chocolate quente do Joe, até Laurel se juntou á nós. Eu não tinha ido muito com a cara dela no começo, e muito menos agora quando soube que ela tinha gritado com Kylie, mas eu não excluía ela. Ela fazia parte da família também.
Tommy deu seu ar da graça e elogiou nossa árvore de Natal várias vezes, até ver que a única foto sua que estava pendurada era uma foto dele com Oliver e Sara em uma viagem ao Havaí. Mamãe resolveu isso rapidamente com sua Fuji Pink. Sabe aquelas câmeras que revelam a foto na hora? Então, essa mesma.
A magia do Natal estava na Mansão Queen, faltando uma semana para o feriado.
Fizemos caretas e várias poses e mais fotos foram para a árvore. Uma em particular pegou minha atenção. Uma das fotos que tiramos hoje. Eu estava sentada do sofá com Kiera e Oliver me ladeando. Kylie no meu colo. Kellan estava no chão perto dos meus pés com Lily no colo e a árvore colorida e brilhante atrás de nós. Meu coração bateu mais rápido e o sorriso não saiu do meu rosto quando eu pendurei ela bem perto de uma das fotos do nascimento de Kylie, onde Sara e Oliver seguravam a mini-Kylie com sorrisos no rosto.
Éramos uma família estranha.
O jantar provou que éramos ainda mais estranhos. As conversas paralelas e as risadas eram os únicos sons que dava para ouvir, enquanto comíamos um dos banquetes culinários de Joe. Desta vez foi uma combinação de todos os pratos favoritos das crianças. Risoto de cebola roxa com cenoura para Kylie. Filé de carne gratinado para Kellan e bolo de chocolate com sorvete para Kiera. Nunca vi eles comerem tanto na minha vida.
— Okay... Okay. Se ninguém vai falar, eu vou. — disse Dinah se levantando com uma taça de vinho em suas mãos. Foi um sacrifício fazer ela sentar na mesa junto com Slade e Joe. Eles eram teimosos demais, enquanto Shado, Iris e Eddie estavam muito bem acomodados e se empanturrando de bolo de chocolate. — Acho que podemos dizer que 2020 foi o ano de muitas revira-voltas. E uma delas trouxe nossa querida Felicity para cá.
Eu sorri e ela também.
— Também reuniu essa família novamente. Moira e Oliver. Eu só tenho a agradecer. — disse e eles acenaram para Sra. Lance com um sorriso. Todo mundo se juntou e brindou com suco, vinho e água.
As pestes ajudaram a levar a tirar a mesa e Moira se recolheu assim como Shado e Dinah. Slade foi teimoso e foi checar o perímetro pela última vez. Kylie foi levar Lily para fazer xixi. E eu? Bom, eu estava encarando a barata gigante ao pé da minha cadeira de rodas.
E iria colocar as pernas para funcionar agora, porque aquele bicho era enorme. Ainda nem sei porque Nóe colocou um par dele na arca, completamente desnecessário.
— Okay... Okay... — eu disse me virando na cadeira. A barata foi do assento até o recosto da cadeira e mexeu o que pareciam ser... — É VOADORA!
Eu nunca gritei tão alto e nunca corri tão rápido. Kellan se assustou com meu grito e deixou alguns pratos empilhados em seu colo caírem no chão, o que assustou Lily e Kylie que estavam voltando e Lily disparou indo em direção á mamãe que estava pintando suas unhas. Mamãe girou em seu saltos e viu a barata.
— AHHHHHH! — ela gritou e começou a correr.
Nesta altura do campeonato eu já estava no topo da escada, ofegante.
Slade apareceu com mais três seguranças prontos para matar. Com armas e tudo. Oliver reapareceu vindo da sala e observou a situação. Ele me viu no topo das escadas, mamãe segurando uma revista como seu escudo. Kylie, Lily e Kellan no chão no meio de comida e cacos de vidro. E Kiera... Ela também tinha chegado agora.
— O que está acontec...
— BARATA! — gritou Kiera e tudo começou novamente. A barata voou até o chão e pelo que pude ver da escada, Slade suspirou e esmagou ela com uma pisada leve.
— Uau... É assim que somos recebidos? — perguntou uma voz familiar da entrada.
Thea!... E Roy!
Girei os pés em círculos e alonguei as pernas. Deus. Eu realmente não as usava fazia um tempo. E a adrenalina parecia ter colocado os músculo cada um em seu devido lugar e para funcionar. Thea e Roy entraram com mochilas nos ombros e todos foram cumprimentá-los. Eu até iria, mas a barata ainda estava ali no chão sendo cheirada por Lily.
—-
Um dia antes da véspera de Natal, eu tinha terminado de empacotar meus presentes para as pestes e estava colocando eles debaixo da árvore, que por sinal já estava bem abarrotada de caixas coloridas e com laços enormes. Eu tinha feito um algoritmo de moda para Kiera que dava acesso á qualquer catálogo de qualquer loja em qualquer lugar do mundo. Eu fiquei sem o que fazer no hospital, então comecei alguns projetos, este seria meu presente para ela que sempre reclamava que não tinha espaço em seu celular por causa dos aplicativos de compras. Eu tinha comprado um novo notebook para Kellan com um sistema operacional mais decente e programado por mim mesma do que aquela porcaria que ele estava usando atualmente. E novamente... Sem modelos Apple nesta casa. Eu meio que roubei um presente para Kylie. Tinha pagado a matrícula dela no Instituto Al Ghul na classes juniores de Kung Fu junto com roupas de treinamento coloridas. Uma coleira nova para Lily. Dois álbuns de fotos completos para Moira, Dinah e mamãe. Uma máquina de waffles para Joe. E eu tinha o faqueiro de prata dos sonhos de Iris e Eddie. Um macacão infantil para Shado e Slade que dizia "Mamãe Nervosa? Papai Cansado? Ligue 0800 Madrinha". Eu tinha visto na internet e não resisti em comprar. E até paguei entrega expressa.
Vocês podem me achar louca, mas eu tinha muito dinheiro na minha conta como eu nunca tive e acho que não consegui torrar nem metade dele ainda. O presente mais caro foi o Iris e Eddie, mas eu não me arrependi.
Só faltava um presente para Oliver. O que dar para um homem que tem tudo?
Suspirei frustrada. Eu sabia que ele gostava de barcos e aviões. Até pensei em dar um modelo de montar para eles, mas aí lembrei que o pai dele morreu em um naufrágio junto com o pai de Sara e o avião seria muito Cinquenta Tons de Cinza.
E você não quer um romance como aquele?
Fica quieta, vozinha.
Ele é bilionário. Ele é lindo. Ele é gostoso. E você pode escolher entre dois!
Bruce... Eu tinha que dar um ponto em nossa história. Não era justo continuar em um relacionamento com ele sendo que eu tinha sentimentos por outra pessoa, mesmo que nosso relacionamento fosse casual e não tivéssemos status. Não era justo com ele. Sem falar na cena que ele teve presenciar hoje com Cooper.
Ah, meu Deus! Cooper!
Esfreguei o rosto com as mãos. Mamãe disse que ele tinha mudado e que precisava me pedir desculpas e conversar. Alguma coisa relacionado á corrigir alguns erros e assuntos inacabados. Bom, eu não estava me sentindo inclinada á esta conversa, mas mamãe tinha feito questão que ela acontecesse. Donna Smoak! Sim, ela mesma. A mesma pessoa que tinha ficado irada e quase saiu em uma busca pelo sangue de Cooper quando descobriu que ele me traiu com minha colega de quarto e ainda por cima roubou um dos meus projetos para quitar suas dívidas do crédito estudantil.
— Não consegue dormir?
Minha pele se arrepiou por completo. Até os pelinhos do nariz. Não sabia o que me deixava mais desconcertada. Sua presença marcante. Sua voz rouca. Seu corpo maravilhosamente divino. Ou seu olhar intenso. Talvez tudo isso junto. Me virei e vi Oliver Queen usando calças de pijama e uma camiseta branca bem básica. Um dejá-vú tomou conta de mim. Era o mesmo pijama que ele tinha usado em nossa primeira conversa séria. E claro que isso não era importante. Era casual demais até.
— Tinha que esconder os presentes sem que eles vissem... — eu disse e me joguei no sofá em frente á árvore.
— Oh sim... Você deveria estar descansando. — ele repreendeu e eu ri balançando minhas pernas no ar rapidamente.
— Não dói. Eu já me livrei das meias e agora da cadeira. Chega de repouso. — eu disse firme e abaixei as pernas de volta ao chão.
Ele sentou ao meu lado no sofá e observou a árvore.
— Acho que fizemos um bom trabalho. — ele disse e eu ri.
— Você não ajudou em nada! — eu disse batendo uma almofada em seu ombro.
— Ai... Fui eu que trouxe ela nas costas para casa e ainda a limpei para vocês decorarem! — ele disse pegando a almofada de mim com um movimento rápido. — O trabalho difícil foi todo meu, Srta. Smoak.
— Tanto faz, Sr. Queen. — retruquei de volta e mostrei a língua.
Ele revirou os olhos e nós rimos juntos depois.
— Eu comprei presentes para todos, menos você, porque eu não tenho ideia do que dar de Natal. — eu confessei e ele ergueu uma sobrancelha. — O que dar para o homem que tem tudo?
Ele riu de minha observação e eu chutei suas pernas, ele as imobilizou e colocou em cima de seu colo. Fazendo isso fui puxada em sua direção um pouquinho. Ele parecia pensativo demais.
— Nem eu sei o que me dar de presente. — ele afirmou no fim e eu ri bem alto. — Digo, eu sei exatamente o que dar para as outras pessoas, mas para mim mesmo...? Não sei.
— Que outras pessoas?
— Eu comprei o carro para Kellan, está escondido lá nos fundos. Comprei um conjunto Tiffany para Kiera, ela estava namorando ele por dias, ou é o que parece devido ao seu histórico online. Não conte á ela que eu vi o histórico dela. O presente de Kylie é especial, então não posso contar... Hey, não faça essa cara. — ele disse após ver minha cara fechada. — Para mamãe eu comprei um conjunto Tiffany também. Comprei um novo jogo de tacos de golfe para Joe. Um taco de beisebol assinado por todos os jogadores do Blue Jays para Tommy. Um jogo novo de panelas para Dinah.
— Iris e Eddie?
— O que você acha? — perguntou erguendo as sobrancelhas sugestivamente.
— Não...
— Sim.
— Não mesmo!
— Dinah pegou as anotações de Iris escondido para mim, e dei para mamãe e para sua mãe. Elas já organizaram tudo. O casamento vai acontecer, pelo menos um tem que acontecer. — ele disse e eu não consegui evitar o sorriso enorme no meu rosto. — Acho que o presente mais fácil foi o de Slade e Shado.
— O que é?
— Uma ilha.
— Ah que legal, é um bom pres... Espere. O que? Uma ilha? Tipo uma ilha, ilha? — perguntei e ele assentiu como se fosse a coisa mais normal do mundo. — Um pedaço de terra que flutua no oceano?
— Acho que é uma boa definição do que uma ilha aparenta... — ele ironizou. — Eu comprei aquela ilha e foi nela que conheci Slade. Então, eu só passei para o nome dele. Ele sempre quis levar Shado lá.
Quem diria... Oliver Queen realmente conhecia aqueles que o cercava.
— Laurel?
— Um par de brincos, mesmo que ela não esteja merecendo muito este ano. — ele disse e suspirou levemente.
— Helena?
Ele fechou a cara.
Uh-oh.
— Sem presentes para ela este ano.
Assenti rapidamente em resposta e abracei uma almofada como se ela fosse me proteger da versão mal-humorada de Oliver que estava sentado ao lado de mim agora no sofá.
— Olha... Desculpe, eu não quis ofender você ou sua noiva. — eu disse com um fio de voz.
— Ela não é minha noiva. — ele afirmou olhando para lareira que estava quase se apagando. Os pedaços de lenha já haviam sido queimados quase que por inteiros, e só restava algumas chamas por ali. — Pelo menos não mais.
Ow.
Para.
Filtra de novo.
COMO É QUE É?
— Vocês terminaram? Por quê? — tive a decência de perguntar, mesmo quando queria era soltar rojão e fogos de artificio que faria a final do SuperBowl parecer chuva de confete.
— Era óbvio que Kiera e Kylie não aceitavam ela aqui. Muito menos minha mãe e Kellan, mas estes dois são mais educados que as outras duas. — disse ele observando a lareira. — Só você não reparou no que Kylie estava fazendo com Helena.
— Oh Deus... O que ela fez com Helena? — perguntei morrendo de medo e curiosidade ao mesmo tempo. — Ela não pareceu muito incomodada com a presença de sua ex-noiva.
— Porque Kylie sabe fingir muito bem, e você caiu direitinho ou não quis ver. — ele disse sorrindo em minha direção. Não era um sorriso enorme, só os cantos dos lábios estavam virados para cima. Sorriso de menino. — Primeiro foi o corte de cabelo no restaurante, eu tinha pensado que foi um acidente até ver Kylie colocar alguns tufos de cabelo dentro do bolso.
Eu ri baixinho. Era a cara de Kylie fazer isso.
— Depois ela colocou uma daquelas almofadas de pum em baixo da cadeira de Frank, alguma coisa pegajosa no casaco de Dianna, bolinhas de tinta dentro do sapato de Helena... E depois acho que ela cansou. — ele disse suspirando e colocando o braço no encosto do sofá, casualmente. — Ela até pediu desculpas e deu uma caixa de bombom para Helena.
Caixa de bomb... Oh meu Deus! Sem querer, deixei escapar a gargalhada e comecei a me debater que nem uma foca no sofá. Oliver ficou me observando com um misto de curiosidade e acho que medo até eu me acalmar e respirar fundo.
— O que?
— Você tem que prometer não brigar com a Kylie. — eu disse enxugando os olhos.
— Eu prometo.
— Era coco.
— O que?
— Os bomboms eram coco da Lily. Eu lembro de também ter estranhado quando ela pediu forminhas de cookies para um projeto para Joe, mas... — eu disse e ele arregalou os olhos para depois começar a rir. Ele não riu tão alto como eu, mas riu. — Me pergunto de onde ela tira essas ideias.
— Eu realmente não quero saber. — ele confessou e nós rimos juntos agora. — Eu vou ir pegar mais lenha.
Assenti e tirei minhas pernas de seu colo. Ele se levantou e caminhou até o corredor que levava aos fundos da casa. E eu me permiti pirar um pouco. Como assim ele terminou com Helena? Não tinha um contrato multi-milionário no meio desse esquema matrimonial todo? E ele realmente fez tudo isso só porque a família dele não gostava dela?
Você não queria que ele mudasse? Fosse um pai melhor? Que Helena fosse embora de uma vez? E agora está reclamando que tudo isso aconteceu e o caminho está livre?
Eu ainda não consigo acreditar nisso.
Pois acredite, porque está acontecendo.
Me levantei no sofá e fui até a árvore encarando a foto em que todos estávamos reunidos no sofá com Lily. Ele realmente estava querendo ser mais presente. Ele realmente estava querendo ser um bom pai. Ele realmente estava querendo ser parte da família.
"Eu não vou deixar você partir, porque você ainda tem uma família! E você precisa dela assim como nós precisamos de você."
É, eu acho que achei uma família aqui.
Você ainda duvida disso?
Talvez precisasse discutir isso com John nas seções futuras. Sobre o que fazer com este novo cenário que Oliver pintou e jogou no meu colo. Parece uma cena daqueles filmes de família onde tudo é perfeito e piriri pororó... Suspirei. Eu não sabia bem o que fazer agora, mas não conseguia ignorar a vontade de pular em cima dele e encher aquela cara mau humorada linda de beijos.
— Acho que teremos um Natal com neve... Está congelando lá fora. — disse Oliver voltando com duas toras de lenha nos braços.
Estava ligeiramente trêmulo e com as bochechas e lábios vermelhos. Devia estar muito frio mesmo. Ele colocou as toras de lenha e jogou mais dois fósforos acesos para manter o fogo ali. Mexeu com aquele treco de ferro e se deu por satisfeito quando a madeira começou a queimar.
Peguei dois cobertores no baú que tinha no canto da sala e joguei um para ele, e me enrolei no outro. Voltamos para o sofá, ligeiramente mais perto do que antes, e ele parou de tremer. Encostei minha cabeça em seu ombro e observei o fogo. Senti ele recostar a cabeça dele na minha e ouvi um pequeno suspiro.
— Você vai embora mesmo? — perguntou em voz baixa e eu ergui o olhar.
— Ahm, eu não vou embora amanhã, é véspera de Natal e eu não vou perder a comida do Joe... — eu disse e observei sua íris que parecia estar mais escura do que o normal, acho que era por causa da pouca luz que tínhamos na sala. Me virei de lado e ele também. Essa conversa teria que acontecer mais cedo ou mais tarde. — Mas não vou ficar aqui para sempre, Oliver.
— Por que não?
— Porque o meu trabalho está feito. Você se tornou o pai que as pestes queriam, sua mãe está menos megera do que o normal e a anoréxica da sua noiva foi embora. — eu enumerei nos dedos. — O que eu ainda tenho que fazer aqui?
— Ajudar Kiera com garotos. Ajudar Kylie quando ela, você sabe... — ele ficou ligeiramente ruborizado e eu ri.
— Menstruar?
— Isso. Depois ajudar ela com garotos. — ele disse e eu ri.
— Não sou a única mulher por aqui. Tem a sua mãe, Sra. Lance, Thea e até mesmo a Laurel... — eu disse e ele se aproximou olhando no fundo do meu olho.
O azul encarando o azul. Era fácil demais me perder ali.
— Elas não são você.
Pela primeira vez eu não pensei muito.
Pela primeira vez a vozinha do meu subconsciente não falou nada.
Eu beijei ele.
E isso pegou ele de surpresa, para depois me prender em seus braços como se não fosse me soltar tão cedo. Eu não queria que ele me soltasse. Eu só queria que ele me desse um motivo, além das pestes, para ficar. Senti suas mãos ao redor de minha cintura e eu me prendi a ele como uma trepadeira humana. Logo estava sendo deitada com ele entre minhas pernas.
Parecia tão certo agora.
Era certo.
—-
Eu não consegui dormir. Mesmo tendo o melhor travesseiro do mundo que também era o melhor cobertor. Mesmo tendo Oliver Queen ao meu lado, dormindo serenamente. Eu estava morrendo de medo de ser flagrada á qualquer momento por uma das pestes, mas aí lembrei que quando estava frio nada e nem ninguém tirava eles da cama. O café era servido bem mais tarde. Ou seja... Todos ainda dormiam. Eram 7h da manhã e eu estava observando os primeiros flocos de neves que estavam começando a cair.
Oliver estava certo. Teríamos um Natal com neve.
Me virei lentamente para não acordá-lo e observei seu rosto. Percebi que seus cílios eram tão longos que batiam no começo da maçã do rosto. Longos do tipo que qualquer mulher mataria e morreria para ter. Os lábios estavam levemente entreabertos e a respiração calma.
Ele suspirou entre duas respirações e me puxou para mais perto de si. Eu me aconcheguei em seu peito e observei a tatuagem em sua barriga. Eram os dizeres chineses. Eu não tinha ideia do que falavam, mas eu sabia que tinham uma história muito boa para ele ter marcado sua própria pele.
E se...
E se eu pudesse acordar ao lado dele todos os dias? E se eu pudesse beijar ele quando eu quisesse e aonde eu quisesse? Se eu pudesse me aconchegar nele nas noites frias? E se eu pudesse ver ele dormir sempre que desse vontade? E se ele pudesse se apaixonar por mim do mesmo jeito que eu havia me apaixonado por ele? E se tudo isso acabasse em questão de um segundo?
Eram tantos "E se...".
— Sara... — ele sussurrou e cheirou o meu cabelo.
Acho que eu tinha uma certeza no fim dos contas.
Aquele segundo havia chegado.
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