The Perfect Nanny
22 Capítulo 22
Notas iniciais

— Quem é aquele? — perguntei á Donna assim que cheguei no andar de Felicity.
Dei uma espiada no prontuário com seu nome e vi que não teve muitas mudanças desde ontem. Não entendia o linguajar médico das anotações no final das folhas, mas entedia de gráficos. Felicity ainda permanecia estável, e sua atividade cerebral continuava mostrando pequenos avanços. Ela estava melhorando.
No ritmo dela.
— Oh, o nome dele é Cooper Sheldon. Um antigo namoradinho de Felicity. — respondeu Donna enquanto pintava suas unhas de vermelho no balcão das enfermeiras. O corredor estava mais vazio do que o normal hoje, mas eu conseguia ver a enfermeira Suzzie no quarto ao lado do de Felicity. — Ele tem tentado entrar em contato com ela bem antes do acidente, assim que soube de tudo, veio correndo para cá.
— Eu pensei que ela estava com Bruce Wayne. — arrisquei levemente e Donna riu.
— Oh! Bruce Wayne. — ela respondeu sorrindo como uma colegial. — Ele está ansioso para vir visitar Felicity, mas a política do hospital não permite mesmo com as doações nada singelas que ele fez. Apenas família. Então se alguém perguntar, Cooper é irmão dela. — ela respondeu e eu assenti devolvendo o prontuário de Felicity sem que a enfermeira Suzzie visse quando ela voltou e se sentou atrás do balcão.
— Por que ele precisava falar tanto com ela? — perguntei ainda mais curioso.
— Ele foi diagnosticado com câncer nos pulmões. É terminal. E desde o começo deste ano, tem tentado resolver alguns de seus assuntos inacabados. Deixou Felicity por último. — ela respondeu e assoprou suas unhas. — Eu tive uma conversa com ele e a mãe dele, Cristina. Ele pareceu arrependido de como as coisas terminaram com Felicity e veio atrás de perdão, mas é claro que minha filha não faria ser tão fácil assim para ele.
Assenti levemente mesmo não sabendo o que a última frase significava.
Para passar o tempo em que Cooper Sheldon monopolizava Felicity e seu quarto, Donna começou a falar sobre os arranjos que estava fazendo com mamãe e Helena via mensagens para o casamento, mas eu não dei muita atenção. Essa era a menor das minhas preocupações agora, mas eu apenas acenava e soltava um "Uhum" ocasionalmente.
— Enfermeira! — ouvi alguém gritar e levantei o olhar da revista que estava folheando á ponto de ver Felicity começar a convulsionar na cama e o tal Cooper entrar em desespero.
O corredor foi inundado de pessoas que gritavam pedindo coisas. Enfermeiros brotaram do chão para auxiliar a enfermeira Suzzie e logo a Dra. Snow apareceu ao sair do elevador correndo. Felicity era um Código Azul. Eu sabia muito bem o que isso significava, porque Sara teve vários antes de falecer e isso me fez entrar em pânico.
Felicity estava perdendo sua atividade cardíaca.
— Ah meu Deus... — ofegou Donna ao meu lado abraçada á Cooper.
— Carreguem 200! Afastem-se! — gritou a Dra. Snow e depois usou as chapas de choque no peito de Felicity que pulou da cama. — Por favor, vamos lá... Carreguem 300! Afastem-se!
Mais um choque e compressas no peito de Felicity fizeram seu ritmo cardíaco voltar ao normal. Os ânimos se acalmaram, mas Donna precisou de três copos de água com açúcar e alguns lenços para realmente se acalmar.
Dra. Snow quis refazer o checape inteiro em Felicity para saber o motivo da parada cardíaca e deixou o número de seu pager se precisássemos de algo.
— Eu tenho que descer para tomar meus remédios e ligar para minha mãe, mas eu volto daqui algumas horas, okay? — disse Cooper para Donna que assentiu.
Ele esfregou o braço dela algumas vezes e acenou em despedida.
Eu fiquei sentado ao lado de Donna e apenas tentei pintar as unhas que faltavam com o vermelho sangue que ela havia escolhido. Foi um completo desastre, mas eu consegui que a unha do mindinho ficasse perfeita. Isso arrancou alguns sorrisos da Smoak mais velha.
Ela me perguntou sobre as crianças, mamãe e Thea. As visitas tinham diminuído consideravelmente já que Kiera tinha que ficar de repousou, mamãe estava organizando o casamento junto com Helena, Thea estava brigando com fornecedores e de olho em Kylie, e Kellan nem pensava em vir para o hospital em qualquer futuro possível. Eu estava começando a ficar preocupado com este último, já que ele não saía do quarto para nada, além de ir para escola junto com a irmã mais nova.
— Sra. Smoak, Sr. Queen, nós precisamos conversar sobre o estado de Felicity... — disse Dra. Snow chegando com vários exames em mãos. — Vamos até a sala de conferência? É bem mais privado.
Donna segurou em meu braço e nós seguimos a Dra. Snow até uma das salas no final do corredor. Não muito longe do quarto de Felicity. Sentamos em uma mesa oval cheia de cadeiras e Dra. Snow separou exames na sua frente e coçou sua nuca.
— Eu não sei como explicar isso de um jeito para que possam entender... — ela disse frustrada.
— Só fale. — disse Donna cruzando as mãos em cima da mesa.
— Felicity está com muita dor. Seu cérebro se recuperou completamente da cirurgia e voltou a sua capacidade funcional completa, mas o problema é que o resto de seus órgãos estão entrando em falência por falta de oxigênio. No acidente, a espinha dorsal de Felicity foi comprometida. Os pulmões sofreram grande impacto. — Dra. Snow disse empilhando exames em um gesto nervoso. — O corpo dela simplesmente não está aguentando tanto stress, e outra cirurgia só iria agravar o estado dela. Principalmente seu coração.
Fechei meus olhos por um instante e quando os abri novamente a realidade me atingiu como uma onda enorme. Ela estava morrendo. Não estava melhorando como pensávamos, ela estava morrendo.
— Eu e a equipe com quem trabalho priorizamos o tratamento do cérebro dela e o monitoramento de seu coração. Quando as primeira cirurgias terminaram, ambos estavam em ótimo estado. A aplicação dos remédios e do coma induzido melhorou ainda mais isso. — ela disse e apoiou sua bochecha em uma das mãos. — Mas por mais que o cérebro e o coração de Felicity estejam em ótimo estado, o stress que os outros órgãos sofreram começou a se espalhar como um efeito dominó e hoje esse stress chegou ao coração dela que achamos estar bem até hoje porque não ouve nenhum resultado diferente nos exames de rotina.
— O que você sugere que façamos? — perguntou Donna com a voz trêmula.
— Nós podemos colocar ela na fila para um transplante para qualquer eventualidade, continuar o monitoramento e usar todo o material e as máquinas do hospital para deixá-la o mais confortável possível, mas... Vocês deveriam se preparar para o pior. Dizer tudo o que quiserem agora. — disse Dra. Snow com olhos caídos e levemente marejados. — E se for da opção de vocês dois, orar.
Donna colocou uma de suas mãos em sua boca. Eu já tinha me familiarizado com esse movimento. Ela iria desabar em questão de minutos. Apertei seu ombro e um soluço escapou, as lágrimas começaram a escorrer e seu rosto começou a ficar vermelho.
— Encontrei isso no prontuário médico de Felicity de outro hospital. Em Gotham. — disse Dra. Snow mostrando tirando uma folha do meio dos exames. — Eu sei que não é o melhor momento, mas Felicity deixou claro que se caso algo acontecesse com ela gostaria que todos os seus órgãos viáveis fossem doados...
— Sim. Seus órgãos, pele e cabelo seriam doados. Eu sei disso. — disse Donna com a voz chorosa. Ela fungou e limpou seu nariz com a ponta da manga de seu moleton. — Eu tenho que decidir isso agora?
— É claro que não! Tome o tempo que precisar! — a doutora se apressou e apertou uma das mãos livres de Donna. — Eu realmente queria que tivesse algo que pudéssemos fazer, eu sinto muito.
Eu não sabia o que sentir, muito menos o que dizer para consolar Donna. Se o hospital já estava tomando medidas para doação de órgãos quer dizer que Felicity estava muito pior do que a Dra. Snow fez parecer e eles queriam deixar tudo pronto para quando a hora certa chegasse.
— Eu acho que é melhor, você trazer as crianças para dizer... Adeus? — disse Donna suspirando depois de um tempo em meio de suas lágrimas. — Céus.
— Donna, você não precisa decidir isso agora. — eu disse apertando uma de suas mãos com carinho. Ela soluçou mais um vez. — Tem todo o tempo que precisar.
— Ela está com dor. O mínimo que eu posso fazer é... Deixar ela ir em paz. — respondeu Donna secando os olhos com o lenço que eu havia dado para ela mais cedo durante a parada cardíaca.
Abracei Donna levemente e deixei ela chorar.
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— Hey coelhinha... Mamãe está aqui.
Eu já tinha chorado no banheiro masculino mais cedo quando precisei de um tempo sozinho. Não consegui impedir as lágrimas de caírem e muito menos consertar a porta que acabei quebrando quando a raiva explodiu dentro do meu peito. Nada adiantava. Nada aliviava. Isso doía como inferno. Eu ainda me recusava acreditar que ela iria morrer assim. Me recusava. Então agora, observando Donna se sentar perto de Felicity e pegar uma de suas mãos, eu forcei as lágrimas a não deixarem meus olhos. Pelo menos, não agora.
— Sabe, os pais fazem vários sacrifícios por seus filhos. Você já deve saber disso, porque ajudou criar três pestinhas adoráveis. — disse Donna e eu consegui sorri bem minimamente enquanto observava a mãe segurar a mão da filha entubada com força e carinho. — Eu fiz muitos sacrifícios por você, Felicity. Você é o meu bem mais precioso, é meu bebê, minha filha, minha coelhinha.
Donna arrumou uma mecha de cabelo de Felicity e sorriu.
— Eu lembro que quando você voltou da faculdade e tinha uma cara enorme de frustração. Estava entre fazer um estágio na NASA ou ensinar no MIT. NASA era o emprego do seus sonhos, mas você não escolheu eles. Apenas levantou a cabeça e disse que iria ensinar no MIT, por causa da indicação de John. — contou Donna e depois riu enquanto deixava as lágrimas correrem livremente e respirava levemente ofegante. — Você foi tão corajosa e leal, nunca fiquei mais orgulhosa de você do que naquele momento.
Observei o ritmo constante do batimento cardíaco de Felicity e cadenciei minha respiração até que aquele ritmo na pequena tela digital se tornasse o meu ritmo também.
— Então, eu vou fazer este último sacrifício.
Cruzei os braços e me recompus quase que a força, as lágrimas estavam lutando com força contra minha própria vontade. Voltei a observar a cena que se passava bem na minha frente com a mandíbula travada e uma respiração falsamente calma que se assemelhava ao "bip" constante que vinha de uma das máquinas presas á Felicity.
— Se você está com dor... Se você não conseguir mais lutar... Meu bem, pode ir. — disse Donna agora chorando de verdade. Sem se importar com quem pudesse ouvi-la. — Está tudo bem se quiser partir. Todos nós queremos que você fique. Acho que Oliver e Kylie querem até mais que eu, mas eles irão entender.
Senti uma lágrima quente escorrer pela minha bochecha.
— Mas está é a nossa vontade, e eu vejo que talvez não seja a sua. Então, eu só queria dizer que entendo se você decidir partir. Todos nós iremos entender. — disse Donna já em prantos. — Coelhinha, o meu amor por você vai muito além do que esse quarto de hospital, e onde quer que você esteja, eu também vou estar.
Eu observei em silêncio Donna beijar a mão de Felicity com reverência em meios as lágrimas.
Saí do quarto para lhe dar um senso de privacidade mesmo que a equipe inteira que havia atendido Felicity estivesse no corredor assistindo tudo pelo vidro da janela. Depois de mais ou menos vinte minutos, eu observei Donna sair do quarto com o rosto vermelho e inchado.
— Eu vou conversar com a Dra. Snow. Ele irão monitorar ela até que todos venham se despedir, e depois iremos... Bom, iremos ver o que podemos fazer para deixar ela mais confortável. — eu assenti e ela tentou sorrir antes de se trancar na sala de conferência sozinha.
Eu sabia o que tinha que fazer em seguida, então reuni todas as forças que tinha dentro do meu corpo e caminhei até o quarto. Depois que entrei, fechei a porta atrás de mim. Sentei na poltrona em que Donna esteve há minutos atrás e peguei a mão de Felicity.
Estava mais quente do que o normal.
— Eu não sei o que dizer. Eu não sei o que dizer em uma despedida assim. Eu não consegui me despedir de Sara, ou do meu pai, então não sei o que falar. Tenha paciência comigo, assim como você sempre teve. — eu disse baixinho. — A primeira vez que eu te vi foi quando Kellan deu entrada no hospital, vocês dois estavam dormindo, mas mesmo ali eu percebi que era a pessoa certa para cuidar dos meus filhos. Você não largou a mão dele em nenhum instante, e depois ofereceu aquilo que eu nunca consegui. O seu melhor. A sua presença. Até mesmo o seu próprio quarto...
"Eu comecei a observar você mais de perto depois que você gritou comigo pela segunda vez no Instituto Al Ghul. Eu sempre tentava chegar mais cedo para ver você por Kylie na cama ou gritar com Kiera por estar dançando demais no estúdio de dança.
Você fez a festa para Kylie e deu Lily em meu nome. Tenho certeza que foi o melhor presente que ela ganhou nos seis anos que ela tem. Você acobertou cada briga de Kiera e Kellan, cada artimanha de Kylie e até comprou briga com a minha mãe por causa deles. Talvez foi isso que fez Thea e Tommy se apaixonarem por você e começarem a falar na minha orelha o quanto você era maravilhosa com os meus filhos e eu deveria seguir o seu exemplo.
No dia em que Thea te arrastou para aquela festa e vocês duas chegaram bêbadas em casa, eu sabia que você era confusão também. Você estava linda naquele vestido vermelho, mesmo cantando com a voz desafinada. Você cuidou da minha irmã, fez com que ela não se metesse em mais problemas.
Para ser honesto, você vale por pai, mãe e irmã. Antes eu não sabia porque você insistia tanto em querer me fazer mais presente na vida deles, se você valia por dois pais que eles nunca tiverem. Acho que tudo piorou quando te vi naquele vestido azul na festa de mamãe, ou foi no meu próprio jantar de noivado? Sim, você já tinha chamado a minha atenção naquele tempo. Felicity, você é única. Nada e ninguém no mundo poderá te substituir. Eu sei disso. Você sabe disso. Todo mundo sabe disso."
Senti minha garganta se fechar e pigarrei um pouco.
— Não falo isso, porque meus filhos irão sentir sua falta, porque eles vão. E muita falta. — eu assegurei pensando nos três que estavam em casa e comecei a desenhar figuras em sua palma. — Mas eu estou falando da sua mãe, do seu ex-namorado com câncer, de Dinah, Joe, Iris, Edward, Slade, Lily, Thommy, Shado, Thea, Roy, Digg, Wayne... Você conseguiu conquistar até o coração de mamãe! Isso não é para qualquer um!
Sorri um pouco ao lembrar da primeira conversa que tive com mamãe sobre Felicity.
— Eu vou sentir sua falta também. Mais do que eu deveria admitir. — eu disse e senti algumas lágrimas escorrerem pelo meu rosto.
Sequei o rosto e respirei fundo.
— Merda. Perdi a conta de quantas pessoas estão em casa esperando por você, então eu vou ser egoísta. Não vou sacrifício algum como sua mãe fez. Não. — eu disse e peguei sua mão com ambas as minhas e beijei seu dedos com as unhas pintadas de amarelo berrante que estava rachados em alguns dedos. — Eu não vou deixar você partir, porque você ainda tem uma família. E você precisa dela assim como nós precisamos de você. Eu preciso de você.
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1 semana depois...
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— Todos já foram, só falta você. — eu disse colocando as mãos dentro dos bolsos da jaqueta. — Donna disse que vai esperar o tempo que for preciso até você estar pronto, mas precisa ser logo.
Kellan me ignorou completamente, apenas continuou arrancando fios de grama e ficou encarando o túmulo de Sara com o rosto impassível. Deus. Eu odiava quando mamãe estava certa. Ele era igualzinho á mim.
— Eu não vou ir. — ele disse arrancando mais fios de grama.
— Por que?
— Ela não iria me querer lá.
A voz dele estava arrastada e fraca. Como se estivesse bêbado ou tivesse chorado por muito tempo. Eu sabia que era a segunda opção, porque nem Kellan e muito menos Kiera beberam uma única gota de álcool depois do fiasco em Lamb Valley. Eles haviam feito essa promessa á Felicity um pouco antes do acidente e algo dentro de mim acreditava fielmente que eles estavam cumprindo esse promessa.
Intuição de pai, eu acho.
— Sim, ela iria querer sim. — eu disse e ele virou o rosto para longe. — Você sabe que sim.
— Foda-se. — disse se levantando e limpando seu jeans. — No final, todos vão embora. Ela foi, você foi e agora Felicity vai também.
Ele apontou para a lápide de Sara, depois para mim e depois para o ar. Ele era o que estava mais sofrendo com a partida de Felicity. Arrisco dizer que ele estava sofrendo mais do que Donna. E tentava esconder isso á qualquer custo de tudo e de todos.
Definitivamente, meu filho.
— Você vai ir até o hospital e vai se despedir dela. Hoje. — eu decretei com voz firme e ele abriu um sorriso sarcástico em resposta. — Aquela mulher te ajudou quando você estava se engasgando no próprio sangue. Aquela mulher te ajudou a tirar sua carteira de motorista. Aquela mulher foi correndo atrás de você e de sua irmã, bêbados. Aquela mulher fez mais por esta família do que qualquer um jamais fez, e ela merece o seu respeito. Então você vai e vai se desped...
— Eu não quero me despedir! Eu não quero me despedir, porque não quero que ela morra! — ele gritou. Eu sabia que se tocasse a ferida mesmo que levemente, ele iria colocar tudo para fora. Meu pai fez isso comigo inúmeras vezes. — Ela é a única pessoa que realmente se importou comigo. Ela é... Ela é a minha mãe.
Ele começou a chorar. Mesmo que eu quisesse ir abraçá-lo, sabia que esta era a hora dele colocar tudo que havia guardado durante esse mês para fora antes que fosse tarde demais para isso, então resisti a minha vontade. Ele precisava deste momento.
E meu peito doía por ver meu filho deste jeito.
— Eu sei que minha mãe morreu, mas Felicity... — ele disse e soluçou como uma criança. Seu rosto começou a ficar vermelho e manchado pelas lágrimas que caíam livremente. — Ela...
— Ela preencheu o vazio. — completei e ele assentiu se apoiando em seus joelhos, sem fôlego algum. — Eu sei disso.
— Então por que quer que eu vá me despedir?
— Não vá até o hospital para se despedir então. — eu disse dando ombros, sorrindo levemente. Kellan soltou um resmungo e limpou o nariz que estava escorrendo.
Ele me encarou por alguns minutos e assentiu uma única vez com a cabeça.
— Vá e peça para ela ficar.
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Eu estava sentado no pé da escada esperando por Kellan, enquanto comia uma maçã. Ele tinha decidido ir ao hospital ás 02h:12 da manhã. A mansão nunca esteve tão quieta. Laurel estava passando a maior parte do tempo com Dinah, e eu era muito grato por isso. Kiera e Kylie só saíam do quarto para comer ou para fazer os exercícios fisioterapêuticos de Kiera. Mamãe estava começando a programar a festa de Kiera e Thea estava atualmente em Opal City.
Provavelmente terminando e reatando com Roy pela quinta vez.
— Okay. Estou pronto. — disse Kellan apareceu pronto e com um olhar determinado.
— O que é isso? — perguntei apontando para sua mão que segurava um papel amassado.
— Para eu não me perder na hora que for falar com ela. — ele disse e eu me levantei.
Joguei o miolo da maçã do lixo e fomos para garagem. Peguei as chaves da Smokie e joguei na direção dele. Kellan dirigia muito bem, mas ele só conseguia dirigir bem na Mercedes que Felicity usava. Talvez a familiaridade ajudasse, talvez isso fosse acalmá-lo um pouco.
Sentei no banco do carona e observei ele entrar e colocar o cinto de segurança, e depois me encarar fixamente. Ele e Kylie ficavam extremamente parecidos quando faziam isso.
— O que? — perguntei.
— Cinto de segurança. — ele disse e ergueu ambas sobrancelhas para mim.
Sorri internamente e coloquei o cinto. O motor foi ligado e logo estávamos rodando. Quando saímos da propriedade e entramos na estrada de terra, Kellan ligou o rádio e uma música pop preencheu o silêncio por inteiro.
— Na na na na, na na na. — cantarolou Kellan enquanto dirigia e eu procurei alguma coisa para distrair no porta-luvas. Encontrei algumas propagandas e um bolo de fotos presos por um elástico rosa com glitter.
Felicity...
— Estava procurando por elas... — disse Kellan quando viu o que eu tinha em mãos.
Liguei a luz e soltei o elástico. Eram fotos de Felicity com os três. As de Felicity com Kylie eram a grande maioria. Tinham fotos de bagunça com sorvete. Tinham fotos de bagunça com bolo de chocolate. Fotos do aniversário de Kylie. A chegada de Lily. O dia no parque de diversão. O que parecia ser um acampamento na sala de estar. Uma noite de filmes. Uma apresentação de Kiera. O que parecia ser uma feira de ciências. E assim ia.
Todos sorriam, mas se você olhasse de perto em cada foto você poderia ver Kellan, Kiera e Kylie sorrindo para Felicity, e não para a câmera. Juntei as fotos novamente e ignorei a amargura espreitando para perto de mim novamente. Eu não poderia me dar o luxo de soltar uma única lágrima perto de Kellan, não depois de tudo que tinha falado para ele.
Chegamos no hospital e a Dra. Snow já estava á nossa espera.
— Onde está Donna? — perguntei.
— Eu disse para ela ir dormir um pouco, ela está no quarto ao lado. — Dra. Snow respondeu e depois apontou para a porta do quarto vizinho de Felicity. — Vou ficar aqui fora só para caso eventualidades acontecerem.
Nós assentimos e olhei para Kellan. Ele parecia estar congelado. Eu esperava por isso. Toquei seu ombro e ele olhou para mim. Assenti com a cabeça. Ele também, mas não se mexeu um centímetro. Muito bem. Dei um leve empurrão em seu ombro e ele deu o primeiro passo até a porta. Quando chegamos lá, eu abri a porta e Kellan viu Felicity pela primeira desde o acidente.
Ele absorveu tudo que via e depois entrou no quarto. Eu esperei ele sentar na poltrona que ficava perto da cama onde Felicity estava, e quando ia fechar a porta, ele olhou para mim. Entendi. Fechei a porta atrás de mim e sentei no sofá que foi a cama de Donna no último mês. Kellan ficou em silêncio por mais de quinze minutos, eu até deitei no sofá para ficar mais confortável o possível, enquanto esperava meu filho dizer alguma coisa. Qualquer coisa.
Mas ele ficou quieto.
Quando eu estava quase dormindo, eu ouvi o barulho do papel sendo aberto e desamassado. Então, fiquei do jeito que estava. Imóvel, de olhos fechados e com a respiração uniforme.
— Então, eu escrevi essa lista dos nossos melhores momentos. Alguns deles a gente passou neste mesmo hospital. Meio irônico, não acha? Voltamos para o começo de tudo. — ele disse e fungou.
Até que ele conseguiu segurar o choro por bastante tempo.
— Ahm, no primeiro dia que nos conhecemos. Eu fiquei doente e você não saiu do meu lado em nenhum momento. — ele disse e fungou mais uma vez. — Naquela noite eu tinha achado que você era mais uma das babás que Kylie colocaria para correr, mas eu estava errado. Obviamente.
Ouvi o arrastar de algo. Kellan estava mais perto da cama?
— Depois você levou a gente para comer Big Belly, mesmo depois de termos passado um tempo no hospital. Você não se importou e apenas comprou os lanches. Foi muito gostoso. Eu não me arrependi de ter comido, por mais que tivesse me dado dor de barriga depois. — ele disse e depois fez uma pausa. — Eu sei que deveria ter de contado, mas você iria pirar ainda mais. E você já tinha me dado seu quarto emprestado para que eu não fosse para o lado proibido da casa.
Quis rir do cenário que imaginei.
Ela teria pirado se Kellan tivesse contado sobre a tal dor de barriga.
Alguns gritos também eram bem possíveis neste mesmo cenário.
— Você não pode ir. Você não pode simplesmente... Morrer. Eu estou te esperando para assistir os episódios de "Stranger Things" que faltam. Nós temos aquela coisa que um não pode assistir sem o outro, lembra? — perguntou. — O que me leva para as guerras de comida que a gente tem que fazer com o Tio Tommy ainda. Aquela só foi a primeira.
Que guerra de comida?
Por que Tommy não tinha me contado sobre isso em seu relato sobre Felicity?
— Sabe... Você lembra quando a gente tinha acabado de descobrir sobre Helena, e você ficou comigo no meu quarto? Kiera e Kylie precisavam mais daquela merda, mas você ficou comigo. Eu não entendi naquela noite, mas entendo agora. — ele disse e eu fiquei curioso. O que tinha acontecido naquele dia? — Eu falei, e você só escutou. Depois a gente assistiu Star Wars com a Kiera e teve a guerra de pipoca.
Mais uma guerra de comida? Com Star Wars?
— Felicity, você me fez cortar meu cabelo! — ele resmungou e depois respirou fundo. — Você me ajudou a tirar a carteira de motorista! Você não pode morrer, eu ainda preciso de você.
Silêncio.
— Eu não lembro muito bem da minha mãe, apenas algumas coisas. Ela gostava de cozinhar, cantar, e nadar. Ela lia histórias antes de dormir para mim e para Kiera. — ele disse e eu lembrei de inúmeras noites em que Sara fez o café da manhã, cantou quando eles tiveram pesadelos e ensinou os gêmeos a nadar quando pequenos. — E ela morreu. Você foi a única coisa que eu tive mais próxima daquilo de novo. Não.
O barulho de papel amassado cortou ele.
— Você foi melhor. E eu sinto muito, muito mesmo pelo o que eu te disse naquela noite. Eu estava puto e confuso, porque toda a família decidiu se importar comigo e com Kiera justamente em um dia de ressaca. — ele explicou e recomeçou a fungar. — Eu não quis descontar em você. Me senti um verdadeiro lixo por ter te magoado. Nunca foi a minha intenção.
Arrisquei abrir um pouco meus olhos e consegui ver Kellan com a cabeça apoiado no ombro de Felicity. Seu rosto estava vermelho e marcado pelo choro. A bola de papel estava em uma das mãos de Felicity agora.
— Se não voltar por nós, volte para ver o robô. Eu finalmente terminei aquela merda e ficou legal. Eu roubei uma ou duas coisas da empresa do seu namorado, mas ele não precisa saber disso... — disse Kellan e eu quis rir de novo. — Vovó Dinah disse que eu deveria vir aqui de qualquer jeito.
Não me importei de ficar com os olhos abertos, Kellan estava mais concentrado em conversar com Felicity do que com qualquer outra coisa além de falar tudo que tinha que falar para ela.
— Ela disse que eu era o seu favorito. Eu não quero acreditar nisso. — ele sussurrou como se tivesse medo de alguém ouvir isso. — Fui eu quem mais machucou você, como você pode preferir mais á mim do que Kylie ou até mesmo Kiera?
Ouvi um suspiro bem baixinho e olhei para porta. Donna estava se debulhando em lágrimas junto a porta, mas Kellan não tinha notado ela ali. Ela estava usando um conjunto de moleton diferente. Havia trocado um rosa por um azul e estava com o cabelo arrumado em um rabo de cavalo. Eu conseguia ver melhor as semelhanças entre ela e Felicity agora. Donna parecia muito melhor, mas todos sabiam que era apenas fingimento. Porque ela estava toda arrumada ás três da manhã, quando deveria estar dormindo no quarto ao lado?
As Smoak... Teimosas demais.
— Nós te amamos, Lis. Sei que não dizemos isso ou fazemos qualquer coisa que demonstre isso, mas eu posso dizer por mim e pelas minhas irmãs que era apenas por medo de você ir embora. — ele disse já com a voz rouca. — Então, fique. Eu não posso perder outra mãe. Por favor, fique.
Ele não falou mais nada depois disso.
Em algum momento ele notou que Donna estava ali, e que eu estava acordado, mas não se mexeu um centímetro para longe do corpo de Felicity. E ninguém ousou tirar ele dali.
Kellan era o preferido dela, sim.
Não sabia bem o porquê disso, mas eu apenas sabia.
Donna parou de chorar e se sentou na poltrona perto dos pés de Felicity. Apertou o joelho de Kellan em sinal de consolo e ficou ali parada. Eu voltei a me sentar no sofá e caminhei até a porta. Vi duas enfermeiras chorando junto com a Dra. Snow enquanto assistiam a cena da janela do quarto que dava para o corredor.
— Eu sinto muito, Sr. Queen. — disse a Dra. Snow quando me viu.
Eu assenti forçando um pequeno sorriso. E ela se afastou com as outras em sinal de respeito. O corredor estava vazio e silencioso. Eram 04h:31 da manhã. Passei as mãos ociosas na nuca antes que socasse a parede ou quebrasse outra porta deste hospital. Meus olhos começaram a pinicar. Deus.
Por que tem que doer tanto?
Fiquei encarando a parede branca e sóbria do corredor, enquanto deixava as lágrimas correr livremente. Eu estava revivendo mais uma de minhas memórias neste mesmo hospital, no dia em que Sara morreu. Eu lembro de ter chegado ao meu limite deste mesmo jeito ou o que eu pensava que era o meu limite. Não era algo que desejava para ninguém. Esse sentimento de impotência que rasteja sorrateiramente por dentro e quando você finalmente se dá conta, ele já tomou o suficiente.
Já tomou tudo.
Em algum momento em consegui me levantar. Caminhei de volta para o quarto e encontrei todos dormindo ao redor da garota loira e pálida na cama. Me apoiei nos pés da cama e abaixei minha cabeça.
— Eu vou cuidar deles, eu prometo. — sussurrei. — Não vou fugir desta vez. Eu vou amar eles como deveria ter feito este tempo todo que perdi. Vou impedir que Kellan beba e dirija ao mesmo tempo. Vou impedir que Kiera se tranque em seu quarto. E vou impedir que Kylie vire amiga de Helena.
Fui para o lado livre da cama e peguei em sua mão gelada.
— Eu vou cuidar deles, Felicity. — disse antes de plantar um beijo em sua testa.
Cosquinhas. Eu estava sentindo isso, mas onde? Olhei para baixo e tive minha resposta. Eu senti meu coração dar um solavanco quando voltei a sentir a pequena pressão que a ponta dos seus dedos estavam fazendo em minha mão. Ela estava acordando? A pressão aumentou. Sim, ela estava acordando.
O aperto se intensificou e agora ela estava apertando minha mão completamente. Seus olhos se abriram bem preguiçosamente e de modo lento, mas voltaram a se fechar por causa da luz. Ela piscou diversas vezes e depois pareceu se acostumar. Azuis como nunca. Curiosos como nunca. Confusos, também. Um cabo de guerra começou em minha mente, enquanto Felicity me encarava grogue e levemente sonolenta. Uma batalha interna começou em minha mente.
Pela primeira vez desde a morte de Sara, eu conseguia realmente respirar. Sentia meus pulmões trabalharem de verdade, meu coração bater como nunca.
O cabelo loiro dela emoldurava seu rosto torcido em confusão, mas seus olhos azuis brilhavam como se fossem água cristalina. O ar adentrou em meus pulmões com a maior facilidade do mundo. Me sentia sendo preenchido de algo que não sabia o nome, mas era bom. Era muito bom. Tudo aquilo que a impotência havia tomado, foi reconquistado por algo muito maior.
Meu peito começou a queimar. Queria gritar.
A batalha terminou. Bandeiras brancas foram levantadas.
E eu, finalmente, aceitei.
— Eu te amo.
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