The Perfect Ball
14 New/old feelings
Notas iniciais

– Eu conheço ela. – disse Reyna e depois voltou a reclamar como se não desse importância.
Belona parou onde nós estávamos e deixou que a filha caminhasse mais alguns passos até perceber que estava falando sozinha. Devo dizer que isso me deu um pouco de satisfação.
– Piper quer treinar com a gente. Ela é muito boa! – disse Leo, mesmo que nunca tivesse me visto jogar antes.
– Hum. De onde você veio? – Belona me estudou de cima a baixo.
– California. – respondi e ela me deu um olhar torto.
– E por que veio para esse fim de mundo?
– Motivos pessoais.
Ela pareceu aceitar a resposta e entrou atrás do balcão da secretaria para pegar um papel.
– É só colocar seu nome aqui e pode fazer uma aula experimental. Se conseguir entrar para o time principal, ganha bolsa. Se não, entra para o time “amador”.
Peguei o papel que ela me entregou e a observei ir embora com Reyna ao lado, que antes de sair tinha me encarado como se quisesse me bater. Jason não disse nada, mas pareceu se desculpar com o olhar e saiu em seguida. Qual o problema deles dois? Eu tinha vindo em parte por causa dele e tudo o que ganhava era um olhar, como se Jason não ousasse desafiar a própria namorada. Talvez o problema estivesse comigo.
– Como se diz? Obrigaaaaaado, King Leo. – ele bateu palmas para si mesmo.
– Leo nada seria sem Piper, pode admitir. – respondi, ele não poderia imaginar o quanto eu estava agradecida.
– Ok, agora vai se arrumar logo, quero que destrua essas meninas. – Leo fingiu que estava socando um inimigo imaginário. Ainda bem que eu não era a única um pouco errada ali.
– Como assim? Achei que você fosse amigo da Reyna. – perguntei, desconfiada.
– Querida Piper, você não está acostumada com isso aqui. Todos nós crescemos juntos e essa gerigonça é tão pequena que simplesmente não tem outras pessoas para conhecer. Então você atura os outros, quer goste ou não. Não tem isso de amigos ou inimigos, é uma espécie de lei. Posso odiar Reyna, mas isso não quer dizer que nós não saiamos juntos o tempo todo, entende?
– Isso aqui é mais complexo do que eu imaginava. – falei, rindo da ideologia de vida de Leo mas tomando nota mentalmente.
Caminhamos até chegar às quadras, onde várias outras meninas que pareciam se esforçar além da conta para parecer Reyna já estavam alongando. Até no mesmo corte de cabelo, embora a minha mais recente conhecida se destacasse de uma forma que eu nunca conseguiria fazer. Percebi que ia ser mais difícil do que eu pensava me encaixar naquele lugar.
Me despedi de Leo e ele disse que ia ficar por ali, depois voltava para ver o treino. Eu sinceramente esperava que não, pois já era constrangedor o bastante jogar de biquíni na frente de todas aquelas garotas opressoras que pareciam não ter mais personalidade que uma porta. O frio na barriga tinha voltado com mais força que nunca e minhas pernas estavam quase tremendo.
– Meninas, prestem atenção! – gritou Belona, levantando da arquibancada e largando a prancheta. A areia era tão branca que refletia a luz do sol, fazendo meus olhos arderem mesmo por baixo dos óculos escuros. – McLean vai fazer uma aula conosco. Espero que a tratem bem e tirem esses traseiros preguiçosos do chão! Correndo!
Um misto de emoções diferentes me atingia e eu gastei mais energia tentando não chorar do que correndo em volta da quadra no aquecimento, torcendo para que o treino com bola chegasse e ao mesmo tempo demorasse mais um pouco.
Então aconteceu. No momento em que toquei a bola novamente, meus nervos pareceram explodir de tanto alívio. Era como se um peso gigantesco tivesse sido retirado dos meus ombros. Tudo fez sentido novamente, era isso que estava me matando. Ou melhor, a falta disso. De repente a minha vida pareceu ter parado no tempo e tudo o que eu conseguia pensar era que estava de volta, isso me deixava tão animada que eu não conseguia parar de sorrir. Nem mesmo os olhares feios de Reyna a cada vez que eu acertava algum passe ou ataque me deixaram amedrontada. O meu corpo tinha sido feito para essa situação. Essa era Piper McLean por inteiro.
Apesar disso, o treino acabou tão rápido quanto começou, e no fim eu estava radiante só por ter atacado algumas bolas. Leo desceu da arquibancada para me dar um abraço apertado.
– Uau! Eu não fazia ideia de que você já era digna de seleção! – ele disse quando me colocou no chão.
– O que? Tá brincando né? Eu não estava enxergando nada.
– Bem, quero ver quando enxergar!
Saímos andando e enquanto eu me lavava com uma mangueira, Leo me contou muita coisa que eu nunca imaginaria sobre ele. Sua mãe biológica era bombeira e tinha morrido em um incêndio quando ele era pequeno. A mãe que ele tinha me falado que fazia arte era a que o tinha adotado, Hera. Desde então ele se sentia obrigado a trabalhar para ajudar nas despesas e só iria para a universidade se conseguisse uma bolsa de estudos.
Ele falava com tanta confiança que eu me senti culpada por ficar tão triste, apesar de não entender direito o motivo. Isso me deixou um milhão de vezes mais próxima de Leo, embora ainda não tivesse coragem de lhe contar a minha história.
– Não estou com vontade de ir para casa. – falei. Queria continuar ali, onde me sentia melhor, completa.
– Não vamos então! Vai ter um luau em uma praia aqui pertinho e você pode ir. Vamos todos na caminhonete do Frank. – ele disse surpreendentemente animado.
– Olha, não sei se é uma boa ideia... Da última vez que saí aconteceram umas coisas que nem gosto de lembrar. – Na verdade, gostava um pouco.
– Ah não, Piperrrrr! Vai ser muito legal! Não vão só o Jay e a Reyna, vai mais um monte de gente.
Estava pensando em arrumar outra desculpa para não ir e evitar mais problemas quando alguém chamou antes que eu pudesse responder.
– Ei, McLean! — me virei no banco de cimento e dei de cara com uma sorridente Reyna.
– Que foi?
– Preciso falar com você. Se não se importar, Valdez. – ela esperou eu me levantar e me arrastou para um canto mais isolado, então seu sorriso foi substituído por uma carranca.
– O que você quer? – perguntei sem acreditar que qualquer pessoa pudesse gostar dela.
– Vou falar só uma vez, e é bom você me escutar. Sei que está de segredinho com Jason. E sei também que vai parar agora porque sabe o que é melhor pra você. Não sei o que diabos passa na sua cabeça para achar que ele ao menos gosta de falar com você! Se liga! Mesmo que ele não estivesse comigo, qualquer outra garota seria melhor que uma trouxa iludida. Então presta atenção: esse time é meu, Jason é meu e eu vou saber de qualquer outra gracinha que você aprontar. Toma cuidado, porque eu não costumo dar um segundo aviso.
Ela deu um sorrisinho com o canto da boca e saiu andando sem dizer mais nada. Voltei ao meu lugar ao lado de Leo e comecei a rir ao ver a cara assustada dele. Se isso tivesse acontecido qualquer outro dia que não fosse hoje, eu teria começado a chorar e iria embora. Mas hoje? Não. Não depois de recuperar minha coragem. Apenas me limitei a falar com gosto:
– Mudei de ideia, Leo. Com certeza vou para esse luau!
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