The Perfect Ball
8 Dark side of the life
Notas iniciais
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Senti uma lágrima escorrendo pelo meu rosto.
Minha mãe estava em todas as paredes, estampando pôsteres, jornais, tudo o que eu gostaria de ter visto enquanto ela era viva. Não sabia ao certo como ela era porque papai nunca gostou de falar sobre isso, eu só sabia que era uma mulher extraordinária.
Havia uma estante cheia de troféus de surfe, campeonatos regionais e um de um campeonato nacional. Minha mãe era surfista? Como eu nunca tinha ouvido falar nela? Pensava que era uma mulher normal, com uma profissão normal e sem graça como todas as outras mães. Que ela cozinhava e assistia filmes ao domingo comigo e com meu pai, que me ajudava a colocar as bolas na árvore na época do Natal, que me levava para a creche quando eu mal sabia andar direito.
Olhei atentamente por todo o quarto. Em um determinado canto, tinha fotografias sangrentas e uma chamada esquisita para a reportagem de jornal. Não conseguia acreditar nisso.
“Afrodite McLean, surfista da região da Carolina do Sul, é morta por ataque de tubarão. As autoridades não souberam dizer a causa de haver tantos tubarões em um lugar sem outros relatos, mas ainda estão avaliando a possibilidade dos animais terem fugido para mares mais limpos, uma vez que as praias ao norte estão ficando poluídas.
McLean, conhecida na região por ter uma carreira possivelmente promissora, deixou a filha de 2 anos nos cuidados do pai, Tristan McLean, ator.”
Então percebi que as imagens distorcidas eram da minha mãe. Ela fora atacada. E meu pai nunca pensara em me contar a verdade, o que realmente acontecera naquela noite do acidente de carro que nunca aconteceu. Minhas lágrimas cessaram um pouco dando lugar à raiva. Por que contar se você pode enrolar sua filha e viver uma vida de mentiras? Não ia fazer diferença pra ele mesmo.
Joguei a chave no chão e saí correndo as escadas.
Não iria suportar passar mais um segundo olhando na cara de meu pai sabendo que ele fez uma coisa dessas comigo. E qual o motivo? Aliviar a dor inventando uma história diferente, qual a necessidade? Não tinha o que esconder ali. Se fosse algo como alguém ter matado-a, tudo bem, mas uma coisa da natureza?
Corri pela casa até bater a porta da frente e respirar um pouco do ar fresco. Ouvia Tristan me chamando da sala e levantando para vir atrás de mim, mas continuei correndo até que estivesse no meio do caminho que levava aos paredões de rocha. Voltei o ar para os pulmões, minhas pernas queimaram com o esforço repentino. Passou algum tempo até que eu conseguisse enxergar o monte de pedras que dava para a água. Ninguém passava por ali, mas havia uma grade de proteção cerca de dois metros afastado da beirada do penhasco.
Senti uma avalanche de sentimentos me dominando, arrasando tudo no caminho. Quanto mais eu teria que suportar até que caísse? Sentei numa das pedras com a cabeça entre as mãos. O que significava? Meu pai não confiava em mim? Achava que eu não era forte o suficiente para aguentar uma verdade dessas? E quanto a tia Claire? Ela também tinha culpa nisso.
Subi o restante do morro até chegar à ponta das pedras, e pulei a grade de proteção. Aquilo não servia para nada mesmo. Sentei na última pedra que havia, com as pernas balançando ao vento. Não queria saber de nada mais, nada que me deixasse triste. Porque isso tudo acontecia? Eu merecia ter uma vida normal. Nunca tinha dado trabalho para ninguém, tinha tirado notas boas, a única coisa que desejava era o vôlei. Mas ao que isso tinha me levado? Nada. Só coisas ruins.
Tudo veio como um turbilhão. Não tinha outra palavra para descrever além de tudo. Desde que tinha começado a jogar, quando os treinadores falaram que eu tinha potencial, quando passei para a categoria mais adiantada, quando me tornei titular de um time de garotas mais velhas. De que isso servia? Nada. Quando todas estavam conversando e eu estava treinando, quando elas enrolavam para fazer menos exercícios do que era mandado e eu fazia a mais. Quando fui chamada para jogar em um time adulto e não deu certo, mas eu achava que só a felicidade daquele momento tinha bastado para mim. Quando eu me tornei capitã. Quando torci o tornozelo e continuei jogando porque não era o suficiente, quando o torci novamente no outro mês e tive que passar as férias todas com a perna engessada. Quando me recuperei e voltei melhor do que nunca. Quando tudo estava bem, e então descobri que tinha tendinite nos dois joelhos. Quando o médico disse que isso era conhecido como ‘joelho de saltador’ e eu não fiquei tão triste, pois aquilo era algo que só jogadores tinham, eu era parte de algo maior. Quando passei mais um mês sem jogar. Quando fui a melhor do jogo no dia em que voltei.
E então o doping.
E como se não bastasse, minha mãe.
Tudo o que eu queria por anos era tê-la perto de mim, me acompanhando nas minhas lutas e conquistas, e também nas quedas. A vida não era justa. Tantas pessoas que não valorizavam o que tinham e logo eu ficava sem nada?
Cheguei lá em cima e olhei o horizonte. Havia algo que me chutava de tudo o que eu queria fazer, tudo o que eu era, e isso não iria parar. Nunca.
Lágrimas jorraram de meus olhos. Não sabia quanto tempo tinha demorado para me permitir sentir tudo isso. E não sabia quando isso iria acabar comigo.
Então um carro parou na pista perto de mim e buzinou. Olhei para cima e vi que estava cheia de gente da minha idade, todos bebendo. Uma garota de cabelo loiro platinado me chamou e eu fui. Disse que eles estavam indo dar uma volta e se eu queria ir também, e eu disse que sim. Que mal faria?
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