The Paths
4 Desespero
Notas iniciais
A quietude era uma das regras para que os monges pudessem alcançar a paz interior, dessa forma, cerca de dois dias atrás havia começado o voto de silêncio dos acólitos do ar. Todos os aprendizes, junto com Aang, haviam decidido que ficariam cerca de meses sem proferir uma palavra sequer. O objetivo deste exercício, além de ser capaz de encontrar-se com o subconsciente e ouvir a voz interior, era também de um exercício para a compreensão da comunicação com o mundo e demais seres vivos. Os animais sempre foram capazes de entender os humanos mesmo sem eles proferirem uma palavra sequer, era dessa forma que Aang sempre comunicara-se com Appa.
Se todos os humanos pudessem entrar em uma silenciosa sintonia, não seria a distância ou a diferença entre culturas que os separariam. Mesmo vivendo tão separados e com costumes tão diferentes, os povos poderiam ter o mesmo objetivo: prosperar através da paz.
Os acólitos do ar estavam todos reunidos naquela manhã. Haviam se encontrado no campo gramado para meditar. Aang demonstrou que era necessário formarem um circulo perfeito ao sentarem, assim todos sempre poderiam ter a visão de seus colegas, podendo haver uma transmissão de energia perfeita entre eles. O silêncio era profanado apenas pelo som das arvores gemendo ao passar de vento pela madeira. Parecia que até os animais respeitavam o voto realizado. Infelizmente os bisões eram mais agitados e tiveram que ser mantidos no curral, ao invés de soltos para comerem das frutas como de costume.
O único animal que ousou emitir foi uma ave que sobrevoava o templo flutuante do ar, aproximando-se rapidamente e planando como uma pena singular sobre o ar. A ave tratava-se de um falcão avermelhado, extremamente grande em comparação com os demais falcões que eram vistos pelo mundo afora. Era certo a quem pertencia o falcão afinal, a família real do fogo sempre fora extravagante... Talvez não tanto quanto a família real da terra, mas certamente apreciavam mordomias e pompas.
Aang pôde notar o falcão sobrevoando o seu círculo de meditação rapidamente. Não era um animal que geralmente passava por lá, com certeza. Zuko costumava enviar-lhe mensagens com mais frequência há dois anos atrás, entretanto, não fora mais necessário há tempos. O Avatar levantou-se logo que o falcão pousou a sua frente e começou a ajeitar as penas com o bico. Preso a ele havia um pequeno rolo vermelho contendo apenas uma folha de papel enrolada, não haviam muitas palavras gravadas nela, não havia necessidade de muita conversa. O recado era direto e objetivo.
"Aang, não sabemos exatamente o que houve... Lamento não poder dar muitas informações, mas precisamos de você agora. Katara sumiu do Polo Norte, não sabemos direito onde ela está. Avisamos Zuko da situação e ele está vindo para cá trazendo um Shirshu, vamos procurá-la juntos.
Lamento muito não ter sido capaz de cuidar dela,
Sokka"
Um tremor incontrolável dominou Aang, as simples palavras "Katara Sumiu" giravam em sua mente jogando fora todos seus dias de paz e trazendo consigo uma angústia terrível. O pior não era só a garota ter desaparecido, a sua garota, estava longe dele e ele também não foi capaz de cuidá-la. Havia deixado que ela partisse e isso era o que o consumia naquele momento. Olhou para todos seus aprendizes que o fitavam confusos, tão confusos quanto ele mesmo. Queria poder dar explicações, queria poder dizer o que o afligia, mas importunar a todos com um problema que deveria ser apenas dele o desagradava, sendo assim, prestou uma reverência a todos, pegou seu planador que encontrava-se posto ao chão onde estava sentado e partiu em busca de Appa. Não havia tempo a perder, deveria chegar ao norte o quanto antes.
๑ﺴﺴﺴﺴﺴﺴ〠ﺴﺴﺴﺴﺴﺴ๑
Em alguma costa marítima encontrava-se uma das embarcações da nação da água. Apesar de sua tripulação não passar de meros cinco homens e uma mulher, o navio era consideravelmente grande e estável. Certamente não era um navio de guerra, mas sim um barco destinado para pesca, porém, era o bastante para passar desapercebido pelo oceano.
Os homens que ali haviam navegado durante algum tempo, ajeitavam as velas e desciam as rampas do barco na areia macia de seu destino. A ventania fazia com que os grãos pipocassem nas canelas dos tripulantes quanto eles lutavam para atravessá-la. Toda a vista era nova em comparação ao local de origem, o clima quente e úmido não ajudava em nada os esforços dos rapazes em carregar consigo a, ainda desacordada, moça que haviam capturado alguns dias atrás. A faixa de areia era grande e ocupava uma boa parte da costa onde se encontravam. Apenas pelo formato extremamente arredondado do local, era possível notar-se que se tratava não de um continente, mas sim de uma ilha. As ilhas como aquela eram longínquas e pouco exploradas por sua falta de suprimentos e água natural, tornando-se ótimos refúgios.
Após caminharem o bastante para sentirem o suor em suas faces, um dos homens tomou a dianteira do grupo que andava junto, quase em uma formação circular. Poucos passos já foram suficientes para que um dobrador de terra fixasse seus calcanhares entre a areia, movimentando o corpo com a rigidez que a dobra pedia.
Em poucos segundos a vasta cobertura arenosa foi maculada por uma fenda. O local exato daquela abertura era conhecida apenas por seus criadores, não haviam marcações ou um mapa para chegar até ela e o mais importante, apenas um dobrador de areia era capaz de acessá-la daquela forma, a outra forma era utilizando a dobra de água pelo oceano, entrada inviável para um barco.
– Devemos entrar o mais rápido possível para que o efeito da droga não acabe — Sugeriu uma das graves vozes.
– Não seja ridículo, ainda temos algum tempo até que ela desperte. Além disso essa não reconheceria este local mesmo que estivesse atenta — Ridicularizou o outro em resposta.
Por fim, pararam com a curta troca de palavras e adentraram na escadaria de pedra que se estendia entre a fenda no solo. Precisavam alcançar o subsolo para, finalmente, chegar onde desejavam. O homem mais forte carregara a jovem sequestrada a jogando em seu ombro direito por toda a caminhada e no momento já se encontrava indisposto para poder acompanhar o ritmo que os demais alcançaram.
A descida era escorregadia e formava uma escadaria em espiral que parecia jamais terminar. O último degrau era como o paraíso para uma pessoa cansada. A vontade daqueles homens era de se jogar ao chão, entretanto, ainda deviam manter o fiapo de decoro que ainda restava neles.
A alguém que chegasse lá despreocupado poderia passar sem notar todas as pessoas que passaram pelas escadas. Era um grande comitê de recepção, por assim dizer, diversos dobradores e não-dobradores encontravam-se em cada andar, cada qual com sua arma, fosse um cantil de água, uma espada ou as pedras aos seus pés. No entanto, algo que devia ser notado naquele local, não haviam dobradores de fogo, nenhum nascido nas terras de Zuko e também, obviamente, não havia um sequer dobrador de ar.
– Levem-na até o final do corredor na ala oeste — Um homem vestido em uma espécie de armadura se adiantou à frente dos demais que recepcionavam o grupo.
– No segundo andar? — Respondeu um dos viajantes, referindo-se ao segundo andar abaixo do solo.
– Exatamente. Tulimaq irá ao encontro dela assim que a garota despertar.
Convenientemente, segundos após a ultima frase ser dita, Katara se remexeu sobre os ombros do homenzarrão que a carregava. Não indicava nada de que ela havia acordado, porém, alarmou os homens pois certamente estava recobrando os sentidos.
Não fora necessário que qualquer um tomasse uma decisão de sair dali, o silêncio já expressava a decisão unanime de que deveriam tomar o caminho em direção à ala oeste o mais rápido possível. Sendo assim, apesar três dos homens ali presentes foram necessários para escoltar aquele que a carregava, caso precisasse de ajuda uma vez que o homem tratava-se de um não-dominador. Ouviram já algumas lendas sobre a garota, certamente estavam ansiosos e esperançosos de que tais lendas fossem verdade. Porém, se tudo o que haviam escutado sobre o assunto fosse real, deveriam tomar o máximo de cuidado com aquela carga. Além de seu líder culpá-los pelo descuido eles provavelmente poderiam morrer ali mesmo e, certamente, um corredor de pedra completamente escuro não era o local ideal para uma morte.
O caminho era sinuoso e completamente escuro. Toda a luz era provida por uma tocha que dava uma iluminação parca para o local, praticamente inútil na opinião daqueles que caminhavam por ali. Apesar de todos os corredores não possuírem iluminação, aquele em especial, além de escuro era completamente deserto e longo, parecia uma tolice construir tal coisa. A passagem para ele era aberta somente por dobradores de terra, que dava acesso ao túnel estreito e não muito alto.
– Não aguento mais segurar essa mocinha — Reclamou o homenzarrão chacoalhando a carga sobre seus ombros.
– Nós já estamos chegando, Oki. Espere mais um pouco. — Seu colega expressava compreensão nas palavras pelo homem que carregava desde a tribo da água.
Apesar de não ser muito claro, era possível enxergar um pequeno reflexo em metal logo à frente. A luz das tochas cintilava no que pareciam grossas placas de metal sólido formando um cubo. O local era obviamente uma jaula, entretanto, não havia muito espaço. Provavelmente não passava de dois metros de altura por dois de largura, apenas olhar para aquilo já dava uma sensação claustrofóbica a quem quer que fosse.
– Não sei se gosto muito disso acho que não teria como dobrar água aí dentro. – Murmurou um homem esguio, que até então estivera calado.
– A garota é dobradora de água, idiota. O objetivo é exatamente esse: Não poder dobrar água. — Respondeu o homem mais atarracado e careca com uma longa barba em tom ruivo.
– Não sou idiota. Só não me sinto bem. Não quero parar preso aí dentro. — Continuou queixando-se — Além disso, pensei que ela fosse uma aliada. Por que tivemos que desacordá-la?
Alguns minutos passaram-se até que o homem barbudo pudesse responder à pergunta.
– Ao que parece, Tulimaq tentou conversar com ela no norte e a garota não parecia com muita vontade de cooperar. Então tivemos que trazê-la até aqui para ver como funciona tudo. Se ela não for aliada, não queremos tê-la solta por aí sendo nossa inimiga.
O magrelo resmungou algo que parecia expressar que havia entendido a explicação, virou para Oki, o grandalhão, e deu-lhe uma cotovelada.
– Ei, Oki. Jogue logo essa garota aí dentro e vamos embora... Esse lugar me dá calafrios.
O dobrador de terra colocou o punho em uma depressão em formato redondo no que parecia a placa maciça de metal, mas ao olhar mais perto aquela depressão possuía algumas entradas dos lados que levavam para dentro da placa de metal, onde uma grande rede de engrenagens de pedra encontrava-se. O interior da parede não era nem maciço, tratava-se de uma engenhoca criada pelos dominadores de terra para poderem trancar e destrancar com sua dobra e que dava uma certa troca de ar à quem estivesse trancado por dentro.
– Vamos logo com isso, não aguento mais ficar nesse buraco.
Não precisou que outra palavra fosse acrescentada à frase do barbudo atarracado para que o homem robusto escorregasse Katara para seus braços e a arremessasse dentro do cubículo de metal, fazendo assim um estalido ensurdecedor causado pelo eco no local. Sem olhar para trás, os homens apenas a trancaram no local, deram meia volta e se retiraram do local.
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A ardência constante na nuca fora o maior incentivo para que Katara abrisse os olhos. Apesar de saber que suas pálpebras não se encontravam mais fechadas, era como se ainda estivesse dormindo. O silêncio e a escuridão ao seu redor eram agonizantes, não sabia onde estava ou como poderia ter chegado naquele lugar. Seu único sentido ativo era o tato e este estava indicando que seu corpo se encontrava em uma superfície plana e que também estava machucada.
Forçou a mente para que pudesse lembrar-se do que acontecera antes de seus sentidos apagarem, entretanto fora em vão. Tentou fazer uma retrospectiva de seu dia, seu trabalho na vila, o caminho até o lago e então... o cheiro. Aquele aroma que havia invadido suas narinas ainda ocupava suas memórias Só a recordação de como aquele odor adocicado a inundara deixava Katara desconcertada. Não sabia explicar exatamente qual era a relação entre sua perda de memória e aquele cheiro, porém, sabia que eles estavam interligados.
Katara levou a mão direita até a nuca, local de seu corpo que parecia latejar mais do que seus músculos que reclamavam a cada movimento. Tentou sentir o indício de sangue ou algo assim, mas não podia dizer se realmente estava sangrando. Enquanto tentava verificar a integridade de seu corpo a jovem pôde ouvir um estampido alto, nunca tivera bons sentidos mas aquele som era tão ruidoso que poderia ter a certeza de que viera de algo à sua frente. Quase por reflexo escorregou o corpo para trás até encontrar uma nova parede, tateando a superfície para auxiliá-la em busca de fuga do que fosse o dono daquele som. Nunca considerou-se como uma pessoa muito corajosa, mas após ter sido trancafiada, sequestrada, entre tantos acontecimentos no passado, Katara passou a temer menos o que pudesse ocorrer a ela e isso era o que a segurava de não perder o controle.
Uma sombra projetava-se por trás a luz provida pela tocha em sua frente, o porte parecia de um homem grande de ombros largos e robustos. A sombra se ajoelhou para ficar quase na mesma altura que a jovem, trazendo a luz do fogo para mais perto de seu rosto, aquecendo sua pele. As feições eram familiares a Katara foi fora um dos últimos rostos que vira antes de perder suas lembranças. Era o homem que entrara na enfermaria apresentando-se, porém, pensando daquela forma, o homem a conhecia mas não apresentara-se propriamente.
– Lamento senhorita Katara. Não queria assusta-la. — A voz masculina realmente transmitia preocupação com a garota — Acredito que nem sequer tive a oportunidade de dizer meu nome na ultima vez que nos encontramos, ou me será que disse?
Katara precisou de alguns segundos para entender que ele realmente havia feito uma pergunta a ela.
– Não... — Era a única coisa que conseguiu dizer no momento.
O homem coçou a cabeça com a mão livre e sorriu.
– Lamento muito por isso, bem indelicado de minha parte — Retirando a mão da cabeça e a esticando em direção de Katara o homem continuou — Meu nome é Tulimaq, sou um dobrador de água assim como você. Apesar de originalmente pertencer à tribo da água do norte. Pelo que sei você é do sul, correto?
Katara fechou sua expressão e se recusou a dar ao homem qualquer outra informação sobre ela.
– Entendo... Você não sabe o quanto estou me sentindo mal em vê-la neste estado — Tulimaq disse levantando-se.
A jovem assistiu ele enquanto se dirigia para fora de seu "recinto". Logo que o homem deu as costas a ela, Katara buscou seu cantil em sua cintura achando que seria prudente um ataque pelas costas. Não sabia o que estava fazendo ali e não tinha o menor interesse em descobrir. Não importava quais fossem as intenções daquele homem, trancar uma garota daquela forma não dava uma boa impressão, sendo assim, as segundas impressões poderiam ser bem piores. Porém, deu por falta de seu cantil e por qualquer umidade no local que a ajudassem a dobrar a água.
O tempo para um ataque surpresa havia acabado e o homem entrava novamente no local onde ela se encontrava.
– Aqui está! — Disse Tulimaq entregando-lhe um prato com comida — Creio que você deve estar faminta. Lamento por não poder dar algo para tomar, estamos estudando ainda a hipótese.
Apesar da fome latente que tomava o estômago de Katara a jovem tentou ignorar o prato de comida à sua frente. Tratava-se de ameixas marinhas, não precisava de uma boa visão para notar, apenas o cheiro já era o suficiente para identificar.
– Você me desmaia, me sequestra e me coloca trancada em um escuro sem fim. — Disse Katara juntando todas as forças que conseguira — Acredita mesmo que vou aceitar qualquer coisa que colocar na minha frente? Eu nem sequer tenho como me defender por aqui. O que é tudo isso? O que você pretende me trancando nesse lugar?
– Ah, sim... Eu lamento muito por ter retirado tudo o que a ajudasse a dobrar — Respondeu o homem — Saiba que como dobrador eu também estou indefeso por aqui. Mas é necessário tudo isso, eu gostaria que você me ouvisse primeiro e logo depois eu irei libertá-la. Sei tudo sobre você, até mais que possa imaginar. Imagino que irá gostar do que estamos fazendo por aqui.
– Nossa, me desculpe por ser mal-educada... Realmente gostei muito de ter sido desacordada e trancada neste lugar. Incrível mesmo!. — Katara arriscou um sarcasmo em sua voz que vez Tulimaq rir.
O homem abaixou-se novamente em sua frente, dessa vez sentando-se bem perto do rosto da garota, fazendo com que ela jogasse mais ainda o corpo para trás indo contra a aproximação e fazendo brotar outro sorriso em Tulimaq. O fogo entre eles dava uma visão perfeita de ambos. Enquanto Katara encontrava-se com o corpo sujo, cabelos completamente soltos e emaranhados; Tulimaq mostrava uma pompa que não combinava com o local, sua pele oliva era ressaltada pela iluminação avermelhada e seu cabelo estava perfeitamente preso ao topo da cabeça, dando início a um longo rabo de cavalo que se estendia até abaixo dos ombros.
– Sendo assim... Por onde devo começar? — Tulimaq parecia pensativo, tomou um breve fôlego para voltar a dizer — Acredito que o correto seria lhe contar o que houve antes mesmo de meu nascimento, talvez a história lhe pareça um tanto egocêntrica, entretanto, começou tudo por mim de qualquer forma.
" Meus pais viviam entre tantos outros na tribo do norte. Desde sempre nossa tribo havia tomado a ridícula decisão de não intrometer-se nas questões políticas do restante do mundo. Enquanto a tribo do fogo devastava toda uma população, nossa posição era apenas permanecer em defensiva. Depois de um tempo de guerra, chegou em nosso conhecimento que o próximo alvo dos dominadores de fogo seria a extinção da dominação de água. Todos em nossa tribo sabia do que eles eram capazes mas procuraram apenas ignorar. Enquanto isso notícias da destruição do sul chegavam lentamente até nossa aldeia e o que deveria virar comoção, tornou-se apenas uma resposta fria a todos os acontecimentos. Todos apenas ignoravam.
No entanto, meus pais e um outro grupo de pessoas decidiu que deveriam sair daquele lugar, abandonar todos os fracos e medrosos que traziam tanta desonra e vergonha para a nossa tribo. Eu tinha irmãos mais velhos, já criados e saudáveis. Talvez meus irmãos tivessem sido o motivo real da ida dos meus pais, eles não queriam que seus filhos vivessem naquele inferno. Então, um grupo saiu na calada da noite, roubaram dois navios e partiram para flanquear as embarcações do fogo, era o mínimo que podiam fazer.
Porém, em pouco tempo minha mãe descobriu que estava grávida... Talvez esta gravidez tenha sido o maior motivo do desbalanceamento de todos, a preocupação com ela e com o filho que ela estava esperando.... Acredito que a essa altura da história você já deve ter percebido que tal filho trata-se de mim.
Com muita sorte eu nasci e pude crescer navegando naqueles mares. Todos me chamavam de prodígio pois um bebê rodeado apenas por água e nada além disso não poderia ser nada além de um bom dobrador. Então, passou-se cerca de 6 anos... Nossa embarcação teve muita sorte em permanecer quase intacta, enquanto a segunda já havia afundado. Nunca soubemos o que realmente aconteceu a eles, não pudemos nos dar o luxo de dar meia volta para descobrir. Mas como tudo não acabou bem, chegou a nossa hora. A embarcação de meus pais caiu em uma emboscada da tribo do fogo, meus pais me protegeram como puderam porém, após horas de luta eles decidiram se render... Não iriam vencer aquela batalha e talvez a rendição poupasse a minha vida. Me deram como escravo para a tribo do fogo dizendo que eu era um não-dobrador e sendo um garoto tão novo poderia ter a cabeça moldada por eles, mas imploraram pela minha vida.
Realmente, eu fui poupado, mas meu pais e amigos não tiveram a mesma sorte. Em troca de minha vida, todos tiveram as mãos amarradas e o navio deles foi explodido. Não sobrou nem sequer suas cinzas no oceano.
Passei muito tempo como escravo da tribo do fogo até descobrir a história de uma dobradora de água, assim como eu, infiltrada no coração das terras do rei que possuía a habilidade de controlar pessoas. Arrisquei-me ao máximo para sair das colônias e ir escondido até onde tais lendas me indicavam. Qual foi a minha surpresa ao encontrar a velha senhora? Entrei disfarçado apenas como soldado de uma das prisões mais terríveis da terra do fogo. Infelizmente o que eu temia era real, a mulher havia perdido sua sanidade, tantas torturas e atrocidades que aquele local trazia fizeram com que enlouquecesse. Porém, após a soltura da velha Hama consegui compreender que ela não fora a única a desenvolver a técnica, ela havia ensinado a uma jovem que já recebia o título de mestre, andava com o Avatar e poderia me ajudar.
Após conhecer Hama, mesmo sabendo de sua loucura, pude retirar todas as informações mais importantes de sua vida, percebi que ela era uma mulher que lutou sozinha contra o reino do fogo e percebi que nenhum desses monstros deveriam ser poupados, sendo assim, construí minha organização em busca de vingança... Tudo isso aqui é para derrubar de uma vez por todas o reino do fogo e fazer todos aqueles seres de coração maculado sofrerem o mesmo que nós sofremos.
Então fomos atrás de você, quando soube que estava na tribo do norte fiquei extremamente aliviado por conhecer o local bem o bastante para me sentir em casa. Sabia que teríamos uma relação forte. Tive que droga-la, no entanto, para trazê-la até aqui, não podemos nos arriscar que a nação do fogo conheça nossa localização."
– Sei que você também perdeu sua mãe Katara e que estava em busca de vingança. Você precisa nos ajudar! — Tulimaq já se mostrava exaltado. — Nos ensine a dominação de humanos e faça parte de toda esta revolução. Obviamente você irá ser tratada como a uma rainha ao meu lado, seremos conhecidos como aqueles que realmente tomaram o mundo em busca da paz.
Katara precisou de algum tempo para deliberar sobre toda a história que ouvira, as lembranças sobre Hama, a operação vingança, entre todas as informações sobre onde estava e o que estava fazendo ali. Logicamente jamais poderia concordar com algo assim.
– Lamento por fazer vocês perderem seu tempo. Eu aprendi algum tempo atrás que a vingança não traz plenitude. Não posso ir a favor de seus ideais e acredito que se vocês gostariam de ajudar o nosso mundo deveriam seguir o que o Avatar diz, tenho certeza deque alcançaremos a paz mais rápido desta forma — Katara suspirou ao final de sua resposta sabendo que ir contra os ideais deles significava ser mantida no escuro por muito mais tempo.
Tulimaq abaixou os olhos pensativo, talvez decepcionado por ter ensaiado tantas vezes seu discurso para quando encontrasse a garota. Sabia que ela tinha um pensamento mais pacifista, mas pensara que mostrando os fatos, dizendo o quão terrível são os membros daquela nação ela poderia mudar de ideia. Nem sequer havia apresentado uma vingança contra Zuko, apensas contra aqueles envolvidos na guerra dos 100 anos.
– Eu entendo senhorita. Mas compreenda... Não podemos arriscar soltá-la. Precisamos de você conosco e não gostaríamos de tê-la como inimiga. — O homem passava mais seriedade em suas palavras — Saiba que continua sendo uma honra estar em sua presença e conto com as suas habilidades para vencermos esta guerra.
– Este é o seu erro! — Interrompeu Katara — Não existe mais guerra, acabou! Aqueles envolvidos na guerra estão refugiados, a vida já lhes traz arrependimentos e já estão vivenciando uma reviravolta. Não precisamos ser tão cruéis quanto eles! Vocês aprisionam uma garota por causa de seus ideais, acreditam que estão mais certos que o que eles fizeram às suas famílias?
– Reviravolta? Você está dizendo que eles irão aprender o que é certo por compaixão e com ideais tradicionais daquela criança louca? — Refiriu-se a Aang — O pior Avatar de todos os tempos, abandona o mundo em caos, retorna tentando mudar tudo e logo depois some novamente para seus propósitos egoístas. Decidiu melhorar a si mesmo do que manter o mundo e punir os infratores! Precisamos de pessoas fazendo a diferença para o bem e não atrapalhando aqueles que desejam trazer melhorias.
O sangue da garota parecia ferver em suas veias. A exaltação do homem em sua frente trazia ódio ao que antes era curiosidade em relação a ele. As palavras rudes direcionadas a Aang fora o que mais a impulsionou a levantar-se e usar da força bruta contra o homem, mesmo sabendo que provavelmente não teria chances. Katara mirou o queixo do homem levando o punho fechado em direção a ele com a intenção de desmaia-lo rapidamente para que pudesse fugir daquele local. Fosse a incordenação por conta das drogas, da falta de luz ou por sua falta de experiência em lutas físicas, Katara não fora capaz de acertar seu alvo corretamente, ao invés disso, sua mão chocou-se contra o pescoço de Tulimaq, fazendo com que ele tossisse e pigarreasse alto.
Tulimaq irritou-se ao sentir a dor próxima ao seu pomo de adão. Um leve gosto de sangue subiu em sua boca enquanto pigarreava, o que intensificou sua irritação. Levantou-se num pulo em direção à garota sem pensar duas vezes, deixando a tocha queimando no chão. Levou a mão esquerda apertando as bochechas de Katara enquanto usou a mão direita para agarrar-se na raiz do cabelo da moça e jogou seu corpo contra o dela, batendo as costas de Katara contra o metal duro.
– Ouça mocinha, tenho muito respeito e admiração por você. Se você for rude assim vou ter que perder meu controle e fazer tudo o que estou me contendo para não fazer. — Enquanto Tulimaq falava, Katara podia sentir os dentes dele quase roçando na pele de seu rosto — Então sugiro que seja muito boazinha pois, apesar de ser paciente, quando perco a cabeça não tem nada ou ninguém que me pare. Muito menos uma garotinha nesta situação. Acredito que não tenha ideia do que eu gostaria de fazer com você.
Antes de soltá-la, o homem puxou forte o cabelo de Katara para baixo fazendo com que o pescoço da garota ficasse exposto, aproximou seus lábios tocando-o. Em seguida, Tulimaq afastou-se e sorriu maliciosamente em direção a ela, virando de costas em seguida.
– Acho melhor que repense em relação à sua situação. Talvez alguns dias aqui te ajudem a espairecer. — Disse retirando-se, já com sua tocha, e fechando novamente a estreita porta.
Katara recolheu-se sentada, abraçando as pernas e encostando sua testa sobre seus joelhos. Não sabia o que odiava mais, estar naquele local sozinha ou estar com aquele homem. Ninguém jamais havia aproximado-se daquela forma dela e ela odiara cada toque. Naquele momento não pôde se conter em pensar na única pessoa que desejava que estivesse ali, na única pessoa que se proibira de lembrar-se em muito tempo. Sua confusão deixou que aquele nome escapasse de seus lábios...
– Aang...
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