The Outsiders
9 Chapter IX – THE YELLOW NIGHTMARE BEGAN
Notas iniciais
– Adam! – ouviu seu irmão berrar e segurou-o antes que avançasse na direção do garoto estático. – Inferno, me larga, é o Dam ali!
Puxou-o com mais força quando sentiu que o mais velho tentava se soltar e crispou os dedos no casaco do outro ao ver os músculos das costas do caçula se mexerem lentamente, como se tencionasse virar, mas então tudo o que fez foi rir uma risada aguda, profunda e macabra antes do corpo cair no chão desengonçadamente, como um saco vazio.
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– Adam! – exclamaram juntos e correram até o garoto largado ao chão, ao mesmo tempo em que todos os que se esmagavam contra as prateleiras caíam atordoados também, gemendo de dor. Alguém ao fundo chorando compulsivamente.
Viu Sam tirar rapidamente a jaqueta e estendeu a mão para pegá-la ao mesmo tempo em que ele a estendia para si e viu-o tomar sua frente do outro lado do corpo caído do irmão, levantando cuidadosamente o pescoço dele para que pudesse colocá-la ali. O que fez sem perder tempo, enquanto tomava seu pulso.
Estava fraco, assim como sua respiração, mas constante.
Ajudou o moreno a afrouxar as roupas do caçula por via das duvidas e se olharam por um momento, preocupados, antes de a polícia entrar, se anunciando em alto e bom som e mandando se afastarem do garoto.
Engoliu em seco e levantou lentamente, bem como Sam. E quando eles começaram a fazer perguntas ali mesmo e ouviu seu irmão se pronunciar ansioso, mas daquela forma tão civilizada e polida dele, pedindo por favor que chamassem uma ambulância, finalmente soltou o ar que nem mesmo percebeu que havia prendido.
E de um jeito estranho, não conseguiu se prender ao que acontecia à sua volta. Só conseguia olhar pro seu irmãozinho desacordado no chão e ouvir ecoar no fundo da sua memória aquele riso medonho, desfigurado, que não conseguia conceber jamais que poderia sair da garganta dele.
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O eco daquele corredor comprido era insuportável. Parecia que cada pisada de chão soava 20 vezes mais alto que o comum e aquilo lhe dava vontade de gritar, talvez para ver o quão mais alto ele soaria também.
Há quantas malditas horas estavam esperando ali?
Olhou ladinamente para Sam, que aguardava ao seu lado o momento em que terminariam finalmente os exames e poderiam ver seu irmãozinho. Olhos baixos e expressão fechada, dedos entrelaçados, encostados ao queixo e cotovelos apoiados nas pernas ligeiramente afastadas. Não estava lá muito diferente dele, só apoiou as costas no encosto do sofazinho sem-graça e suspirou alto.
Pegou o celular outra vez e apertou o botão verde, revalidando a última chamada, levando-o à orelha com aquele mesmo movimento das ultimas 12 vezes. Nem esperava mais realmente que ele fosse atender, mas necessitava falar com seu pai. Já passavam das 5:30pm e até agora nem ele retornara a mensagem — ou todas as outras trocentas ligações não atendidas -, nem ligara por ele mesmo pra dizer que estava bem e onde estava.
Aguardou com ele no ouvido, ouvindo-o chamar e chamar. Aquele barulhinho já o estava enervando, depois de tantas horas ouvindo-o. E quando pensou em desistir e desligar, ouviu como um sopro de alívio a voz de seu velho soar do outro lado da linha, um tanto apressada.
– Fala filho.
– Pai... – falou meio rouco, estranhando ouvir sua própria voz depois de tantas horas sem usá-la. Despertando o moreno de suas divagações pessoais. – Tentei te ligar antes, não viu as chamadas?
– Estava sem sinal até 1,5 mi atrás... Aconteceu alguma coisa?
– O Adam... ele... – baixou a cabeça e coçou o pescoço sem saber o que fazer. O cara nem mesmo devia estar na cidade! Como ia preocupar ele assim, talvez até a toa? – Ele desmaiou na escola. Trouxemos ele pro hospital, está fazendo uns exames.
– Mas ele está bem, não é? Precisam de mim aí, ou consegue dar conta sozinho Dean? – torceu a boca ao perceber o tom preocupado de seu pai e olhou para frente, dando de cara com aquela parede branca nojenta pela milésima vez.
– Claro, sem problemas. – concordou prontamente, percebendo a movimentação tensa do moreno ao seu lado, talvez captando o que estava acontecendo. – O senhor demora pra voltar?
– Estou indo pro Bobby ainda. – ele respondeu, guardando silencio por um momento antes de suspirar impaciente e rir desolado. – Esqueci de avisar não é? Nossa que cabeça a minha! Liguei pra ele e resolvi passar por aqui, já que ele tinha as peças que estavam faltando na oficina... Mas devo voltar amanhã ainda. Realmente está tudo bem por aí? Você me liga qualquer coisa?
– Aham, claro... – concordou e limpou a garganta, tentando ignorar a cara de confusão de seu irmão. – Diz pro Bobby que mandei um oi, ok? Até pai.
Desligou então, coçando a sobrancelha enquanto esperava o outro dizer alguma coisa.
– Por que você falou aquilo pro pai como se não fosse nada de mais? – inquiriu surpreso, virando o corpo de lado no sofá, para encarar melhor o rosto do irmão.
–Olha, o cara estava indo pro Bobby ver as coisas da oficina e esqueceu de avisar. Nem deve ter chegado ainda! Queria que eu fizesse o quê? Enchesse ele de preocupação à toa?
– Não sei, só talvez algo melhor do que: ‘O Dam desmaiou na escola e trouxemos ele pro hospital pra fazer uns exames...’. – ironizou, vendo-o se virar para si também enquanto falava. – Não sei se você percebeu, mas do jeito que falou parece que ele só esqueceu de almoçar de novo e nós o trouxemos pro hospital por precaução!
– Super! E queria que eu falasse o quê? ‘Então pai, enquanto esteve fora Sam deu à louca e resolveu tentar fugir de casa e Dam surtou na escola e caiu desacordado do nada. Ele deve estar há pelo menos 3 horas inconsciente. E, fomos escoltados pela polícia até o hospital. Dia cheio né?’ – retrucou no mesmo tom e bufou logo em seguida, voltando a se encostar no sofá, balançando a cabeça negativamente.
Fechou os olhos com força, controlando-se pra não responder de novo e arrumar uma briga para serem expulsos de lá, mas a vontade chegava a coçar na garganta. Só conseguiu ignorá-la, pois finalmente o médico responsável veio falar-lhes.
– Vocês são os responsáveis legais de Adam Milligan Winchester, certo? – o médico falou polidamente, meneando a cabaça em cumprimento para os dois homens que se levantaram ao mesmo tempo depois de se entreolharem.
– Sim. – concordaram em uníssono também e se olharam outra vez de maneira estranha.
– É, somos sim. E então doc, como ele está? – o mais velho tomou a palavra depois de encarar o outro para ter certeza que ele não falaria ao mesmo tempo outra vez e enfiou as mãos nos bolsos do casaco.
– O paciente se encontra em coma induzido. – o cara de jaleco prosseguiu naquele tom neutro, olhando de um para o outro como se esperasse algum questionamento que não veio. – Aparentemente, ele sofreu traumatismo craniano. Ainda não se sabe exatamente a extensão do trauma, por isso continua em observação, mas o procedimento foi necessário para controlar o aumento do edema. Assim, há melhores condições para o tecido cerebral se recuperar da agressão.
– Espera, e isso quer dizer que...?
– O trauma sofrido vai muito além do esperado para a situação. Mesmo em uma queda, como a no caso do desmaio, com o choque ocorrendo em uma superfície lisa. Não houve causas internas, mas de qualquer forma é como se algo houvesse pressionado o cérebro, de dentro. – meneou a cabeça, vendo o rapaz mais alto sentar novamente sobre o sofá, enquanto o loiro torcia as mãos dentro dos bolsos, forçando uma calma impossível de se ter nesses momentos.
– Nós... podemos ver ele agora? – forçou sua voz a sair e olhou mais uma vez para o moreno que parecia confuso e abalado com tudo isso.
– Os senhores podem se informar sobre os horários de visitas na recepção mais tarde. O paciente está no quarto 109. – a resposta foi curta e apressada, já que aparentemente alguém o bipara naquele momento. E dizendo isso deixou os dois rapazes para trás, talvez mais ansiosos do que estavam antes.
Ficaram em silencio outra vez. E outra vez aquele maldito eco do corredor pareceu tomar conta de tudo e não conseguia parar de pensar que se Adam estivesse ali naquele momento, com certeza ele faria algo idiota como bater o pé com força no chão para ouvir seu próprio som, ou até mesmo berrasse, como estava com vontade de fazer. Quase conseguiu rir do próprio pensamento, mas logo em seguida sentiu o peso da constatação que Adam não estava ali pra valer.
– Sabe, era por isso que eu queria ir embora. – despertou dos seus pensamentos ao ouvir o mais novo, que falava baixo, como num desabafo, olhando para os próprios dedos entrelaçados sobre o colo.
– Por isso o quê, exatamente? – perguntou, mesmo prevendo mais ou menos o que viria a seguir.
– Você sabe. Isso tudo têm a ver comigo. Nada disso teria acontecido se eu tivesse ido embora... E nem venha me dizer nada. – levantou a cabeça para encará-lo, talvez pressentindo quando fez menção a abrir a boca pra retrucar e em seus olhos tinha uma convicção sóbria. Infeliz. – Eu sei que é isso. Por mais completamente maluco que pareça, tem algo errado e enquanto eu estiver por perto, não vai parar.
– Olha, quer saber? Não me interessa se você tá no olho do furacão, você não pode simplesmente cair fora! O que quer que tenha sido, aconteceu. E agora o Dam tá lá dentro e nós não sabemos quando ele vai acordar! E embora eu dê conta do trabalho sozinho Sam, dessa vez, quero você do meu lado nessa. Preciso de você no meu lado nessa.
Encararam-se em silencio então e desta vez não havia eco ou qualquer outro som mínimo que fosse. Ficaram assim talvez um minuto inteiro e à medida que via uma emoção diferente tomar conta do olhar perdido e cansado do mais novo, suas palavras começaram a fazer sentido para si mesmo.
– Quer dizer... Depois ok. Você pode ir pra onde quiser. Te levo pra onde quiser e até aceno com um lencinho branco se quiser, mas, só depois que o Adam estiver bem. A salvo. Em casa. – completou e sentou ao lado do outro, ouvindo-o suspirar de um jeito engraçado.
– É, tava bom demais pra ser verdade... – murmurou e riu um tanto sem graça, passando a mão na nuca.
– Vai ter que se esforçar um pouco mais pra me fazer gostar disso Samantha. – murmurou num tom quase humorado — ao menos para a situação — e levantou outra vez, junto ao moreno, para finalmente verem o caçula.
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Olhou mais uma vez para seu irmão deitado tão comportado naquela cama de hospital e sorriu cansado. Já eram 12:13pm daquela terça-feira e ainda sentia sono, pois definitivamente — assim como Dean -, não pregara o olho naquela noite. Mas só de estar lá e vê-lo assim, era um alívio.
Ele estava ligado ao monitor cardíaco, sonda urinária e soro, mas não havia aqueles equipamentos monstruosos para respiração que pensou que veria. E do que entendera da explicação estarrecida do médico, o edema havia sumido completamente durante a madrugada e reverteriam então a sedação progressivamente.
Aguardava ansioso o mais velho, que depois da notícia e de uma olhada rápida para ver o irmãozinho, foi buscar algo para comerem em comemoração à notícia.
Quer dizer, do que que interessava se era extraordinária uma recuperação assim, desde que isso significasse que Adam ficaria bem? Nem mesmo lembrou-se estranhar isso, de pensar que essa ‘reversão’ não era instantânea, ou mesmo que seu pai logo chegaria e encontraria seu garotinho inconsciente no hospital. Só estava aliviado demais de saber que o susto acabaria assim.
– Talvez eu não tenha que ficar ao lado do Dean tanto tempo assim, não? – murmurou em meio a um sorrisinho ladino e acariciou os fios loiros do caçula, tão parecidos com os do mais velho. – Mas, não importa desde que você fique bem Dam.
–... Sam... – ouviu seu nome escapar num gemido baixo dos lábios secos e se aproximou instintivamente, deslizando a mão dos cabelos para a maçã do rosto pálida dele de forma surpresa.
– Dam? Adam... – acariciou a pele macia do rosto dele e sorriu meio bobo ao pensar que ele podia estar acordando. E alargou-o mais ao vê-lo se mexer languidamente em sua direção, quase deitando sobre seu braço. – Dam, estou aqui...
Sentiu o peso do corpo do outro sob si e apoiou-o da melhor forma que pôde, protetoramente, enquanto olhava para a porta, ansioso para que Dean chegasse de uma vez e visse isso.
Mas voltou sua atenção repentinamente para o mais novo quando sentiu os dedos gelados dele agarrarem ao seu braço bruscamente. E Deus sabia que era melhor não ter feito isso, pois quando o fez, o rosto gentil que sempre costumava sorrir discretamente estava distorcido de sarcasmo e os olhos claros estavam num tom desesperador de amarelo.
Dean chegou bem naquele momento, enquanto tentava se afastar horrorizado do aperto anormal em seu braço, o que despertou um risinho zombeteiro no que o segurava. – Dois já foram Sammy... – a voz de Adam soou deformada num cinismo completamente estranho, enquanto aqueles olhos amarelos se fixavam sem pressa em Dean, com malícia.
E quando o mais velho derrubou o que carregava para se juntar ao moreno, ele riu aquela risada tétrica que gelou seu sangue novamente, antes do corpo jovem tombar sobre si de uma vez.
Sem pulso.
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Ainda estavam lá dentro quando a equipe conseguiu reanimar o corpo do Winchester caçula. Quando ele foi retirado às pressas do quarto.
O moreno tentava disfarçar, mas seu corpo tremia ligeiramente, enquanto apertava o próprio braço que fora agarrado com o olhar perdido sobre a cama vazia. Provavelmente estava roxo.
Olhou para suas próprias mãos e percebeu que não estava tão diferente.
As coisas, depois de correrem desesperadamente durante os segundos que passaram com Adam, a equipe tentando reanimá-lo e o desfibrilador, agora se arrastavam lentamente. Era quase como estar dopado.
Mas não conseguia impedir seu cérebro de repetir incessantemente aquilo. Eram os olhos amarelos daquela noite. O mesmo sorrizinho sarcástico que havia naquele rosto desconhecido.
– Isso está fora de controle... – ouviu o mais novo falar e o encarou. Ele ainda segurava o braço distraidamente. – O Adam quase morreu Dean! Não é certo que o pai fique sem saber de nada disso, porque é a vida do Dam em jogo aqui. Talvez a de todos nós...
‘Dois já foram Sammy... ’. Aquela voz não parava de ecoar na sua cabeça, tão cínica, deliciada com o próprio comentário. E ele havia dito dois, enquanto olhava para Dean. Talvez...
– Liga pro papai Dean, por favor. – pediu subitamente agoniado.
E se algo também tivesse acontecido com seu pai? Encarou o mais velho ansioso e percebeu quando ele entendeu o que pensava, pois ele também arregalou os olhos por um momento, preocupadamente, antes de negar com a cabeça firmemente.
– Ele está bem Sammy. Deve estar com o Bobby ainda, ou a caminho... – respondeu numa confiança completa. Cega. Ele estava bem e ponto, simplesmente sabia. Nada pegaria seu pai, não logo ele. – Eu vou ligar e ele vai vir e vai saber o que fazer, ok? Você vai ver...
E mesmo quando não conseguiu nada no celular dele na primeira, segunda e terceira vez, continuou confiante pelos dois, enquanto o mais alto apenas o olhava cada minuto mais ansioso e pessimista. Até que teve a brilhante ideia de tentar ligar na casa do velho Bobby.
Quer dizer, pra quê o pânico? Ontem mesmo não tentou ligar umas 15 vezes ou sei lá pro pai e quase não conseguiu falar com ele? Talvez o sinal do celular dele estivesse ruim de novo.
– Hey Bobby... – atendeu quase num suspiro aliviado, vendo o mais novo também parecer relaxar um pouco com isso. – É o Dean. Olha... o pai tá aí? Tô tentando ligar pra ele no celular, mas ele não atende. Hum...
Se aproximou do mais velho, tentando ouvir a conversa no celular e teve quase que se encostar ao loiro para captar a voz conhecida do outro lado da linha.
– ...muito garoto, mas seu pai não está. Ele foi ver um cliente a pedido meu.
– Então ele ainda tá por aí?
–Se ele foi ver um cliente meu, onde mais ele estaria, hãn?
– Falando assim, você parece uma puta velha, sabia?
– Suas piadinhas já foram melhores Dean, o que há com você? Estou decepcionado.
– Não é nada de mais... – ignorou a cotovelada que o moreno lhe deu quando falou isso e o olhou torto antes de continuar. – Só avisa ele quando chegar que ligamos ok? Tchau.
– ‘Nada de mais’? Sério? – retrucou aborrecido, vendo o outro se afastar com um suspiro ansioso.
– Você realmente tem que ser um pé-no-saco o tempo todo mesmo? Ele tá com o Bobby, fim de caso!
– Isso não é nenhum entretenimento de férias droga! Tem alguma coisa séria acontecendo aqui, Dean e nós precisamos do papai!
– Ok. Agora faça um favor e fale algo que eu já não saiba! Queria que eu fizesse o quê? Falasse tudo pro Bobby, pra ele aproveitar e trazer umas camisas-de-força pra gente também de lembrança de Sioux Falls? – se pôs de frente pro outro enquanto falava e o viu bufar cansadamente. – Eu sei que precisamos do pai. Mas por hora somos só nós! Estamos sozinhos nessa.
Caíram num silencio pesado depois disso.
Fechou os olhos por um momento, lembrando outra vez daquelas palavras e sentiu claramente uma fisgada dolorida quando olhou outra vez pro mais velho, que o encarava mal-humoradamente.
– Eu não posso ficar. – respondeu baixo, meneando a cabeça.
– O quê? Vai me deixar sozinho nessa e fugir?
– Você ouviu o que ele disse Dean! – explodiu, cansado de fingir uma sobriedade que não tinha. – Vocês estão em perigo enquanto eu estiver por perto, inferno!
– Então que venha! – retrucou no mesmo tom, abrindo os braços. – Seja lá o que for, que venha com tudo, porque quando vier estaremos preparados! Que merda Samantha... Quantas vezes eu vou ter que dizer que preciso de vocêdo meu lado nessa? Precisa de flores e bombons também pra entender?
– Não estamos falando de uma briga de escola... Nem sabemos com o quê estamos lidando!
– O pai deve saber. E quando ele chegar, nós vamos saber também.
– E enquanto ele não vem, nós fazemos o quê?
– Mantemos nossos traseiros a salvo. O nosso e o do Dam. – respondeu firmemente, vendo com alívio o outro suspirar derrotado.
– Isso é uma trégua então? Pra valer?
– Você muda de assunto como uma mulher. – desconversou com um meio sorriso discreto e cansado, enquanto se retirava do quarto vazio com o outro ao seu encalço, tentando conter outro sorrisinho exausto ao entender aquilo como um sim.
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– Já são 8:16... – comentou por comentar, vendo o mais velho andar de um lado para o outro no corredor do hospital, enquanto esperavam para poder ver o irmão de novo.
Já era horário de visitas, e eles ainda estavam fazendo exames nele. Ressonância, tomografia... que fosse. Tiveram a tarde toda pra virá-lo do avesso e agora que precisavam vê-lo, não podiam?
Estavam aguardando o fim dos exames e quando foram avisados por uma enfermeira de meia-idade, descobriram que ele não estava mais no quarto, e sim na UTI do hospital.
O limite máximo de visitantes era exatamente 2, mas Dean não quis entrar de forma alguma, por isso foi sozinho, receoso com o que poderia encontrar.
Desta vez seu irmão estava realmente ligado a todas as máquinas que tinha direito, incluindo o respirador.
Nem ele mesmo aguentou ficar lá muito tempo, vendo o mesmo cara que a menos de três dias estava lhe enchendo o saco enquanto mexia no computador, deitado, inconsciente e desprotegido assim. Só pediu permissão para a enfermeira que o acompanhou e tirou a correntinha do seu pai, colocando-a com cuidado no pulso do mais novo, já que ele não usava a dele.
Se aquilo realmente protegia do mal, estava mais do que na hora de funcionar.
Quando saiu do quarto, encontrou o mais velho sentado naqueles bancos de espera do lado de fora. Os olhos vermelhos, mas não parecia ter derramado nenhuma lágrima.
Viu-o virar em sua direção e balançou a cabeça negativamente, arrancando-lhe um suspiro dolorido.
– Não consigo falar com o pai. Toca, toca e ninguém atende.
– Ele realmente não ligou de volta? Já era pro Bobby ter dado o recado Dee...
Encarou-o por um momento e quase sorriu ao ouvir aquele apelido antigo que até mesmo havia esquecido. E o outro aparentemente nem percebera o que disse, pois o olhou com estranhamento.
– O que foi?
– Nada. Acho que vou ligar pro Bobby de novo. – respondeu rapidamente e procurou na agenda o numero outra vez.
Tentou novamente, mas o telefone dele estava ocupado. Quase bufou cansado com isso, mas quando viu o olhar curioso do mais novo, pensou melhor no que aquilo poderia significar.
– Ocupado. Capaz de estar falando com o pai agora... Depois eu tento de novo. – respondeu enquanto fechava o flip do celular com uma mão só e viu seu irmão cair ao seu lado do banco, descontente com a resposta.
Se perguntava se ele se sentia tão tenso e cansado quanto estava se sentindo. Seus ombros estavam tão duros que mal conseguia mexer sem sentir dor e aquele peso angustiante não melhorava. E, falando à sério, aquela coisa toda era coisa de louco. Quer dizer, já não era demais o irmão deles ter se acidentado e estar no hospital em estado grave, aquilo tudo tinha que ser tão anormal? Era até difícil de processar que isso realmente pudesse ter acontecido. E Sam parecia sofrer tão filhadaputamente com tudo aquilo... Devia estar se culpando por tudo, se o conhecia bem...
E o conhecia bem?, pensou consigo, confuso. Céus, tudo o que fez pra conviver o mínimo possível com ele e agora estavam os dois sozinhos nessa! E vê-lo se remexendo no banco, inquieto e torcer os próprios dedos toda hora também estava lhe dando nos nervos. Estava tenso demais, cansado demais, com fome e preocupado demais pra ficar calmo, de qualquer jeito.
– Chega, vamos pra casa tomar banho e comer alguma coisa!
– Dean...
– A gente vai, se lava, come alguma coisa de decente e depois podemos voltar pra passar o resto da noite aqui no corredor do hospital com medo de deixar o Dam sozinho, pode ser? Não é como se ele fosse pra qualquer lugar agora, de qualquer forma.
Recebeu um olhar torto do mais novo ao terminar de falar, mas ele só suspirou silenciosamente e fechou os olhos por um momento antes de concordar com um aceno de cabeça.
É, não era como se o Adam fosse pra qualquer lugar naquele momento., concordou com desgosto, enquanto caminhavam em silencio pelos corredores brancos.
–--
Logo que pisaram em casa de novo, Dean despachou o moreno para o chuveiro, falando que veria algo para comerem enquanto isso.
Mas quando abriu a geladeira e viu que não havia grandes coisas dentro dela, decidiu por bem que pedir alguma coisa seria o mais prático a se fazer. Resolveu pedir lanches no Cupini's da Massachusetts St e, após concluir seu pedido, resolveu aproveitar que já estava com o telefone na mão e tentar ligar pro Bobby de novo. E desta vez ele atendeu, com um alô mal humorado.
– Hey, sou eu de novo... Diz que têm notícias dele agora.
– Não, ainda não tenho notícias do John garoto, mas por que a pressa?
– Pressa? Você tá de brincadeira, né? Sabe que horas são? O cara não deu notícia o dia todo Bobby! – respondeu impaciente, ouvindo o outro soltar o ar pelo nariz do outro lado da linha à sua resposta.
– Dean, o que está acontecendo aí? – ouviu-o perguntar naquele tom rabugento dele e umedeceu os lábios com a língua, sentindo-a então subitamente seca.
– Olha, de verdade? Muita coisa, Bobby! Adam está internado no hospital, na UTI, em coma! E o pai não sabe disso, porque quando falei com ele, nem eu sabia o que era e... Eu... merda, eu preciso falar com ele! Onde ele está?
– O Adam está em coma?! Espera... Seu irmão entra em coma e você não sabia o que era? Que merda de hospital é esse? Vocês foram mesmo pra um ou isso daí é um açougue?
– Lawrence Memorial Hospital. Particular e caro pra cacete se quer saber. E é isso que você ouviu. Só vimos o médico depois que falei com o pai e ele só tinha batido a cabeça e desmaiado! Como eu ia saber que-... Olha, esquece, só me liga de volta quando conseguir falar com ele, ok? Vou tentando daqui. Até. – perdeu a paciência de falar e desligou sem esperar resposta, se sentindo horrivelmente culpado por tudo aquilo.
Ficou encarando o telefone por alguns segundos e puxou o ar de uma vez para os pulmões, soltando-o devagar, tentando relaxar enquanto ainda ouvia o barulho do registro do banheiro. Mas acordou num sobressalto quando o telefone começou a tocar entre os seus dedos
– Seu pai não lhe deu modos não moleque?
– Ligou de volta pra me dar bronca, velhote? – perguntou quase divertido com aquilo e mudou o aparelho de orelha, enquanto brincava com seu anel da mão direita. Era bom pelo menos conseguir achar graça em algo, no meio de tudo aquilo.
– Não seu mongolóide, liguei pra conseguir terminar de falar com você e avisar que pode demorar pro seu pai dar notícias.
– Deu pra perceber. Se é só isso, já disse, eu vou tentando falar com ele daqui Bobby.
– Garoto, não quer que eu vá praí enquanto o John não volta?
– Puta que pariu, onde era essa porra de cliente? No Canada? – exclamou. Afinal de contas, se o Bobby estava propondo enfrentar quase 7 horas de viagem pra ir lá, onde raios seu pai tinha se metido?
– Okay Dean... Vamos lá, fale.
– Falar? Falar o quê?
– Dean, tem certeza que não quer me contar nada? – percebeu um quê de imposição na voz conhecida.
– O que eu poderia querer contar? Vai me oferecer um abraço também?
– Posso pensar se pedir com jeitinho. – a ironia era obvia na frase, mas dessa vez não achou tanta graça assim. – Você está um pé-no-saco garoto. Mais que o normal, aliás, e isso com certeza têm um motivo. E não é só preocupação com o Adam.
– Ok. Se você tiver disposto a ouvir uma história completamente maluca de terror, eu estou sim afim de contar. – respondeu impacientemente e caíram num silencio delicado.
– Acredite em mim moleque, pode falar o que for. É impossível você piorar mais ainda sua imagem pra mim. – riu um tanto sem humor ao ouvir aquilo e concordou com a cabeça, mesmo sabendo que ele não podia ver.
Contou que chegou em casa e viu Sam indo embora e alcançou-o. Falou sobre o tumulto na rua da escola do Adam e como, de algum jeito, sabia que tinha algo a ver com o Adam.
Descreveu a cena que encontraram, os alunos em pânico, o caos na biblioteca. Todo o sangue, as pessoas prensadas contra as prateleiras e paredes, seu irmão no meio da sala, de pé naquele horror. Da risada, como caiu desacordado. Do trauma muito maior que o de uma simples queda, da cura súbita do edema, como acordou mesmo sedado ainda...
Falou da cena que viu, aquela coisa que não podia ser seu irmão, agarrada ao braço de Sam, aquele sorriso sádico, os olhos impossivelmente amarelos. Aquela maldita frase: Dois já foram.
E à medida que chegava ao fim, deixou sua voz diminuir e franziu o cenho, pensando em tudo o que disse, aguardando que o outro falasse algo. Qualquer coisa.
Mas ele também guardou silencio.
– Ok, pode rir agora. – comentou meio desconfortável, coçando a nuca distraidamente, afinal aquilo tudo era muito estranho.
–Rir do quê, seu imbecil? Você acha que isso é algum tipo de brincadeira? Pega o seu irmão e vêm pra cá agora! – foi completamente pego de surpresa pelo tom grave que tomou a voz de Bobby e sentiu eu coração bater mais rápido ao perceber que aquilo era pra valer. Havia urgência na voz do mais velho.
– Você enlouqueceu? A gente não pode simplesmente sair, quem vai cuidar do Dam? –respondeu imediatamente e recebeu um belo bufo como resposta do amigo.
–Nesse exato momento, filho, a vida do irmão de vocês depende muito mais de vocês estarem longe, bem longe daí. Entendeu? Por perto vocês são tão úteis quanto papel higiênico usado.
– Você sabe o que está acontecendo então.
– Se quer conversar sobre o assunto, me obedeça e venha logo pra cá!
–Super, Bobby... Mesmo que eu queira, como acha que vou encontrar argumento pra convencer o Sam a ir?
– Se palavras não funcionarem, tacos de baseball continuam sendo um ótimo argumento para um cara grande como ele!
–Você tá me falando que quer que eu bata nele? É isso?
–Se tivesse mandando você bater, falava pra dar um soco. Quero ele desacordado se for preciso, mas venham pra cá AGORA. – foi claro como ele deu ênfase a ultima palavra e a essa altura da conversa o homem parecia sinceramente impaciente.
–Bobby, nós estamos sem dormir. Precisamos deixar instruções no hospital de como nos encontrarem se acontecer alguma coisa com o Adam e precisamos deixar a casa e a oficina seguras, não dá pra simplesmente sair assim! – exclamou enquanto andava de um lado a outro. Ainda ouvia o barulho do registo do banheiro.
– Comam, durmam, estoquem alimento pra viagem, tranquem tudo, deixem todos os meus telefones e o de vocês no hospital e venham pra cá. Mas acho bom dormirem de bunda pra cima, porque não vão levantar o traseiro do carro até chegarem aqui, entendeu Dean?
– Sim senhor. Amanhã estaremos aí. – respondeu vencido, ouvindo o outro soltar o ar aliviadamente.
Desligou o telefone então, torcendo a boca entre a surpresa e a exasperação. Porque, ótimo, Bobby parecia saber exatamente o que estava acontecendo — ao contrário deles -, mas como ele convenceria o mais novo a largar Adam assim para irem pra South Dakota?
Subiu as escadas, pensando em como falar isso para Sam. Talvez a ideia do taco não fosse mesmo uma má., pensou consigo e quase se levou a sério, mas só balançou a cabeça negativamente, enquanto percebia que não ouvia nenhum barulho mais vindo do banheiro.
Viu a porta do quarto dos irmãos entreaberta e respirou fundo, soltando os braços como se realmente se preparasse para uma briga, antes de entrar de uma vez numa coragem súbita.
Mas esqueceu completamente o que ia falar quando deu de cara com todos os 6'4”* de altura dele completamente despidos e úmidos, enquanto ele esfregava a toalha distraidamente pelos fios castanhos, meio de lado para a porta.
Sentiu uma corrente de vento estranha no quarto enquanto secava os cabelos e quando olhou de esguelha para o espelho — preocupado com aquela sensação estranha de não estar sozinho naquele lugar, dado o histórico de anormalidades que andavam acontecendo à sua volta ultimamente -, deu de cara com seu irmão parado à porta com uma cara definitivamente estranha e completamente surpresa. E, céus, sentiu até a raiz do seu cabelo enrubescer de vergonha, enquanto tentava segurar a toalha direito para cobrir sua cintura às pressas, mas tudo o que conseguiu foi derrubar a maldita e sem saber mais o que fazer, agarrou o edredom sobre sua cama e puxou-o para si, se enrolando nele sem se importar com o quão idiota poderia parecer.
– Merda, será que você podia pelo menos bater na porta antes de entrar?
– Se pelo menos ela estivesse fechada, eu teria batido. – respondeu então, se recuperando do choque ao ver o moreno ali, enrolado tão comicamente no edredom. – O que foi? Com medo que eu descubra que você fez operação pra mudar de sexo Samantha?
Sentiu a irritação esquentar ainda mais seu corpo ao ouvir aquilo e perdendo a paciência, agarrou o tecido acolchoado com força e largou-o de qualquer jeito no chão também, enquanto virava de frente para o irmão.
– Quer chegar mais perto pra ter certeza que não é miragem? – respondeu aborrecido, apontando para o meio de suas pernas com uma ousadia que jamais teria normalmente. E mesmo a vergonha de se expor dessa forma pareceu valer à pena quando percebeu que conseguira sim deixar o outro sem-graça.
– Não mesmo, não tô nem um pouco interessado, sério. Só queria que parasse de frescura... – negou prontamente, desviando os olhos com o cenho franzido e arregalando-os por um momento. – Se troca enquanto eu tomo banho, nós temos que conversar.
– Conversar o quê? – foi sua vez de franzir o cenho, surpreso até pelo tom meio grave que tomou a voz grossa do mais velho ao falar aquilo.
– Com certeza não é sobre as suas curvas! – exclamou enquanto saía do quarto, forçando-se a focar no assunto que teriam que tratar e não na constatação estúpida de que Sammy não era mais nenhum garotinho magrelo.
Aliás, foi constrangedor, ver um homem maior que ele próprio! Por um momento se sentiu quase como uma garota e a sensação não era nada boa mesmo, principalmente se fosse pra pensar em como aquela cena tinha cara de material pornô.
Balançou a cabeça com uma pontada de horror e se recusou a pensar na conotação que não teria ele correr pro banho logo depois disso. E nesse ponto quase agradeceu por Adam não estar ali, pois sabia que ao contrário de Sam, ele pensaria sim naquilo com a mesma rapidez que ele próprio pensou.
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*altura em pés’ e polegadas”, equivale à 1,93m.
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