The Other Side

1 Simplesmente mentira


Notas iniciais
Espero que gostem..

" Há aquelas pessoas que apenas vivem, algumas menos, algumas mais intensamente. E existe as que não satisfeitas em somente cumprir um ciclo de existência no mundo, criam novos mundos. Com essas pessoas o mundo não se esgota em si mesmo, antes constitui matéria-prima a ser moldada por mãos criadoras"
~ Amores em estação ~ Fabiana Carrozzino



Sabe aquele momento em que sentimos nada, não por não estarmos sentindo, mas pelo fato de estar sentindo o nada? Eu estava assim a um tempo, como se nada fizesse sentido, como se nada preenchesse o vazio, os livros até ajudavam um pouco e, algumas pessoas diziam que eu precisava de um namorado, mas isso só me traria mas dúvidas, e não era disso que eu estava precisando.

Eu passeava na rua e observava as pessoas de forma diferente e pensava ''já que eu estou vivendo minha própria história, elas estão vivendo a delas...elas são os personagens principais das delas, mas quem seria o verdadeiro personagem principal da verdadeira história destaque?'' Eu continuava as observando por um tempo e vendo que elas ignoravam noventa por cento do que estava a sua frente, será que eu era vista assim? Como um robô? Sou diferente, mas será que todos se achavam diferentes? É, essa sou eu e minha mente perturbada indo para a escola.

O som estridente do sinal toca ao longe, mas perfura e assusta qualquer um que esteja a um raio de 40 metros. A confusão para subir a escada se supera a cada dia, dezenas de adolescentes com problemas hormonais se expremem para chegar as salas. E eu, só os observo, sinto as mochilas baterem em meus braços, alguns me empurram mas não os ouso, o volume do fone de ouvido me tira desse pequeno recinto que eu carinhosamente chamo de, inferno ou para alguns, escola.

A confusão está demorando mais que o previsto então entro no banheiro, tirando o cheiro e a umidade é um bom lugar para refúgio. O grande espelho que toma conta de uma parede inteira, não ajuda a melhorar minha manhã me fazendo ver meu reflexo pálido, meus cabelos castanhos e repicados, e esses olhos inchados de sono, tédio e uma pequena pitada de ''não me faça perguntas durante a manhã''.

Ainda com os fones de ouvidos explodindo notas e rimas na minha mente, sinto o ar gélido vindo de fora batendo em minha pele, alguém tinha aberto a porta.

Anne entra empurrando a mochila com o pé. Vejo sua boca mexendo e aponto para o fones de ouvido, ela faz um gesto obsceno com as mãos e eu tiro um dos fones:

-...próxima vez que você não me escutar por causa dessa merda eu queimo isso! — sua baixa estatura, seus cabelos enrolados, junto com seu rosto angelical não influenciam em nada em seu comportamento

Eu rio com seu comentário e tento me justificar mas ela não deixa tempo:

- eu já sei..música é música mas eu sou mais importante — ela brinca e pega a mochila jogada no chão — esse banheiro é a coisa mais depressiva da escola — ela olha para cima com aqueles olhos grandes e castanhos analisando o lugar

- temos aula sabia? — eu ri e estendi meu braço para ela como aqueles gestos antigos, ela encaixa seu braço no meu e saímos voltando para a gritaria, podia jurar que pude ouvir alguém rosnando.

A nossa sala aparentava ser antiga, provavelmente pelo piso escuro e ventiladores empoeirados, mas era...confortável. Joguei minha mochila na cadeira atrás de Anne:

- sabe..mais umas daquelas reportagens apareceram na TV ontem — pronto, as teorias começaram — fizeram um teste em um homem e descobriram que as mesmas áreas do cérebro são ativadas ao imaginarmos e ao tocarmos um objeto — ela respirou e sorriu com o canto dos lábios — isso significa que...

Suas sobrancelhas levantaram esperando uma resposta minha, mas eu não disse o que ela queria ouvir, com um sorriso nos lábios eu respondi:

- isso significa que temos aula de geografia — ela ficou séria mas não virou para frente

- significa que tudo que vemos, ouvimos ou tocamos pode ser fruto da nossa imaginação, ou simplesmente — ela deu de ombros — mentira

Eu iria amar descobrir que tudo é simplesmente mentira, mas o mundo tira nossa fé de vez em quando.

Um paradoxo: meu nome é Faith e eu sou a pessoa mais sem fé do mundo.

A turma não parecia mais um zoológico, depois de um tempo foram se acalmando. Só se ouvia o barulho dos lápis passando pelos cadernos, na maioria, frases estavam escritas, no meu, um desenho de um rosto, um rosto de um menino entre seus 16 e 17 anos, não muito mais velho que eu.

Seus cabelos eram tão pretos que engoliam a cor do que estavam a volta. Sua boca, ah aquela boca, como se eu já a tivesse tocado antes, sabia cada milímetro rosado. Sua pele pálida e seus olhos castanhos escuros, eu desenhara tudo em tremenda perfeição, como se o tivesse admirado por noites.

Eu olhava para aquele rosto, feito a lápis. Eu vi esse mesmo rosto a semanas atrás, quando dormi. Ele estava parado ao meu lado, um ambiente escuro e cinza a nossa volta, o menino me levantava da cama, mas eu não lembro do resto. Claro que fora um sonho, mas as vezes essas peças que minha mente pregava, me magoavam.

Como se já não bastasse me apaixonar por personagens de livros, me apaixonei por uma brincadeira da minha mente. Excelente.

Anne se vira com cuidado para trás e fita o meu desenho com um ponto de interrogação estampado na testa:

- quem é esse? — ela sussurra

Eu congelo ao perceber que eu sabia seu nome:

- Rior — eu solto em meio a uma respiração

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.