The Only One
11 Capítulo 10
Notas iniciais
Bella passou a noite toda na floresta de Forks. Precisava se alimentar, e para seu desespero, teria que ser de animais.
Não queria estar propensa ao descontrole quando fosse à reserva. Seu pai ficara de ligar para a casa dos Black avisando de sua chegada. Era melhor prevenir a todos ao invés de aparecer de surpresa.
Correu até a fronteira com o Canadá, evitando pisar em território Quileute. Sangue de servos e alces, esse seria seu cardápio enquanto morasse em Forks. Precisava se re-acostumar. Não seria tarefa fácil depois que iniciara sua dieta de luxo com sangue humano limpo.
Na volta, resolveu passar na antiga mansão Cullen. Como imaginava, a casa estava limpa com os móveis cobertos por lençóis. Sabia que Carlisle não tinha se desfeito da propriedade e que pagava para que a deixassem sempre em ordem. Demorou pouco por ali, mas decidiu que ali ficariam suas coisas, não poderia ficar no centro da cidade as pessoas poderiam reconhecê-la.
Mas, ao sair da casa teve que parar por alguns instantes. Em frente à casa, várias pegadas de lobo. A terra ainda estava solta... Eram recentes. Levantou o corpo e aguçou todos os seus sentidos.
Não havia nenhum movimento dentro da floresta, nenhum cheiro diferente... Nada. Mesmo assim, sentiu um arrepio subir-lhe pelas costas. Sabia que as pegadas poderiam ser de qualquer um dos lobos que ainda se transformavam, mas por algum motivo desconhecido algo dentro dela dava a certeza de que fora Jacob quem esteve ali.
Depois de mais uma olhada ao redor, suspirou e viu que não tinha mais nada ali. Tomou o rumo de Forks e voltou a correr.
Entrou devagar e ouviu seu pai ao telefone. Falava com Rachel. Bella engoliu em seco e logo estava no centro da sala. Tinha chegado a hora.
- Você pode ir quando quiser Bells. Rachel disse que Billy está acordado e a sua espera. – Charlie abraçou a filha ternamente.
- Só preciso de um banho – ela deu um beijo na testa do pai e subiu.
Não demorou muito no banho, mas durante ele tentava encontrar uma razão para aquele pedido de Billy. Não fazia idéia de como seria recebida, não sabia como se comportar quando reencontrasse seus antigos amigos... Ela sentia um vazio no peito, uma sensação estranha, a qual fazia anos que não tinha...
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Bella saiu da casa de seu pai tentando deixar a mente vazia, não conseguiu. Ali, naquele lugar, na sua casa, todas as lembranças, os sentimentos humanos... Tudo a acompanhava.
A dor que ela sentia no peito não se comparava a qualquer dor física que já tivera. Percebia que já não tinha como fugir se quisesse mesmo ficar ao lado daqueles que ainda a mantinham na humanidade, teria que suportar todas as reações. Ou, poderia virar as costas a todos e simplesmente se entregar a sua nova natureza.
Não gostava se sentir dor, aquilo a deixava vulnerável. Sentia-se miserável, insignificante na vida de todos. Voltar ali as suas raízes significava recuperar um pouco da Bella humana, fraca e estúpida.
A vampira estava confusa. Queria dar meia volta e sumir no mundo, mas agora já era tarde. Começava a avistar as casinhas típicas de La Push. A reserva parecia estar mais populosa, mais pessoas caminhavam pelas ruas.
Como imaginava, seu carro atraia todos os olhares. A idéia de passar despercebida fora pro espaço.
Tomou a rua que levava a casinha dos Black. Mesmo sem saber por que, sua respiração se acelerou, era como se ela pudesse sentir algo pulsando dentro de si, quente, mas dolorido... Permaneceu por alguns instantes dentro do carro, observando o espaço ao redor.
A casa estava maior, a garagem ainda existia e o clima de lar estava ainda mais presente. Dois meninos morenos sorridentes saíram de trás da casa e correram até onde o carro estava.
- Ual... Esse é mais bonito do que o do tio Jake – um deles sussurrou.
Só aí Bella se deu conta do Land Rover estacionado ao lado da casa. Será que ele estaria ali? Não tinha mais como fugir, era hora dela encarar. Tirou as chaves da ignição e abriu a porta do carro. Os dois meninos se afastaram e a olharam espantados assim que Bella ficou de pé, fechando a porta atrás de si.
Sorriu ao ouvir os batimentos cardíacos dos pequenos se acelerarem.
- Olá. – ela tentou ser simpática.
- Oi. – os dois disseram em coro.
- Quem é você? – um dos pequenos franziu o cenho e perguntou desconfiado.
- Eu sou Bella. Vim visitar Billy. Ele é o vovô de vocês? – Bella abaixou-se até ficar a altura deles.
- Ele é vovô do meu papai, então, é nosso bisavô – a feição do menino que falava era séria e a vampira achou graça.
- E qual o nome de vocês? – ela perguntou sorrindo, o outro menino que estava calado, logo abriu um sorriso também e se pronunciou pela primeira vez.
- Eu sou Gabriel e esse é o Brian – ele gesticulava empolgado – O nome do nosso papai é David. E nossos vovôs são a vovó Rachel e o vovô Paul.
Bella por alguns instantes ficou paralisada, Rachel e Paul já eram avós. Todos os lobos já deveriam ter envelhecido, provavelmente estavam casados com seus respectivos imprinting’s, por isso a reserva estava tão movimentada.
Foi tirada de seus devaneios por uma voz feminina que se aproximava.
- Meninos... – houve uma parada – Bella? É você mesma? – era Rachel.
A imortal sorriu ao reconhecer a face de sua amiga de infância. As rugas e os cabelos grisalhos não diminuíam a beleza da nativa.
- Olá Rachel. – Bella se levantou ficando a poucos metros da amiga.
- Quem bom que veio. – inesperadamente, Bella se viu em meio a braços quentes e acolhedores. Retribuiu mesmo sem saber como fazê-lo.
- Seus netos são uma graça – ela falou assim que se afastaram.
- Sim. Eles nos enchem de alegria. – Rachel tinha um lindo brilho nos olhos.
- Não devia ter falado com ela... A tia Lee disse que ela era uma bruxa. – Brian cochichou no ouvido do irmão.
- Ah... Bruxas são velhas e feias. Olha pra ela, é mais bonita que a tia Susan.
Bella sorriu, realmente algumas coisas nunca mudariam, tipo, sua relação com a loba.
- Meninos, essa é Bella. Amiga da vovó e do tio Jake.
Bella sentiu uma pontada no peito, Rachel falava como se realmente eles ainda fossem amigos. Como se Bella fosse exatamente a mesma. Ela se sentia estranha...
Assim que piscou os olhos, algumas imagens se formaram e passaram a sua frente.
Ela viu flashes de três meninas e um menino correndo pela reserva... Duas das meninas com longos cabelos negros corriam a frente, outra bem branquinha de cabelos encaracolados vinha atrás, seguida de um menino menor, moreno, exatamente igual a Gabriel e Brian.
Os risos se misturavam, eram animados... O chão estava molhado e a lama saltava em suas roupas. Eles desviavam com destreza das pedras, dos galhos, das raízes... Tudo era diversão, até o riso do menino cessar...
Ele tropeçou em uma das raízes e caiu estendido no chão. As duas meninas da frente nem se deram conta, mas, a branquinha que vinha atrás, parou imediatamente e se virou para ajudar o amigo.
Foi aí que tudo fez sentido, a menina era Bella... O pequeno caído, todo sujo e chorando era Jacob. Tudo aquilo acontecera, há muito tempo atrás, na infância deles.
Ela voltou até ele e o levantou, ele tinha os olhos cheiros de lágrimas e um bico no rosto, mas assim que Bella o acolheu entre os braços ele sorriu levemente.
- Tudo bem, nem doeu... – ele deu de ombros.
Ela devolveu o sorriso, os dois se levantaram e tornaram a correr para alcançar as outras meninas. Estavam juntos, com as mãozinhas entrelaçadas e sorrindo um para o outro.
Bella foi trazida de volta a realidade por um toque suave e quente em sua mão. O pequeno Gabriel a segurava e tinha um lindo sorriso com covinhas. Brian ainda parecia desconfiado e estava no colo de Rachel. Bella sorriu olhando os dois pequenos que eram idênticos e ao mesmo tempo tão diferentes.
- Vem! Eu te levo até o quarto do vovô Billy – o pequeno puxava levemente a mão de Bella em direção a casa.
A vampira não sabia o que estava acontecendo consigo mesma. Estava ali em La Push sabendo que se despediria de Billy, mas desde o momento em que ela chegara à reserva, o sorriso e a alegria tinham voltado espontaneamente.
Bella apenas assentiu e deixou que o menino a levasse. Quando chegaram à pequena varanda, um barulho vindo da floresta a deixou em alerta. Aguçou os sentidos, e pouco tempo depois reconheceu a silhueta que saia detrás das árvores, Leah.
As duas se encararam a distância, o clima de tensão era quase palpável... Não que Bella a visse como a loba, sua inimiga natural... Mas sabia que Leah, agora a via assim. Sentiu novamente o peito doer ao constatar que esse provavelmente seria um sentimento compartilhado por Jacob.
Estava decidida a desviar sua atenção quando, outra figura alta e esguia se aproximou da loba. Era uma mulher lindíssima, mais linda que Leah, ou Becca e Rachel quando jovens.
- Ele não quer ninguém por perto. Expulsou-me da floresta... Mas eu sei que você ele ouvirá. – a loba sussurrava, mas mesmo assim Bella podia ouvir.
- Duvido muito. – a bela morena retrucou.
- Você é a única Susan... Agora vai logo! – Leah a empurrou para dentro da floresta.
Bella sabia que falavam de Jacob, ele estava na forma de lobo e certamente vagava pela floresta para não ter que vê-la. Isso não era novidade, mas a morena desconhecida sim. A vampira engoliu em seco, Jacob tinha encontrado sua companheira então... Novamente o chamado de Gabriel a trouxe de volta.
- Vem Bells, o vovô deve estar acordado.
Mesmo surpresa por ouvir seu apelido saindo da boca do pequeno, ela sorriu e entrou na casa. Ali sim, muita coisa tinha mudado. Os móveis novos e modernos equipamentos eletrônicos estavam organizados em uma estante. As paredes eram mais claras, o ambiente mais limpo... Mas uma coisa era imutável, o mesmo clima de lar de que Bella se lembrava...
Foi conduzida por Gabriel e seguida por Rachel e Brian até a ultima porta do corredor. De fora, ela já podia ouvir a respiração pesada e os ritmos cardíacos lentos, ao fundo um “bip” contínuo.
Quando a porta do quarto foi aberta, ela teve a visão de um ancião com a longa cabeleira alva se misturando a brancura dos lençóis. As mãos enrugadas repousadas ao lado do corpo grande, mas visivelmente debilitado... Seus olhos foram se abrindo levemente, até encontrar os de Bella. Dois orbes escuros fitavam a vampira com carinho e aos poucos um sorriso terno se emoldurou no rosto marcado pelos anos.
- Olá Bells. – a voz ainda era forte e profunda.
- Billy... – foi tudo o que ela conseguiu dizer, prendia um soluço involuntário que tentava lhe escapulir.
Ele lhe estendeu a mão e mesmo hesitante, ela se aproximou da cama aceitando. Não houve repulsa ao toque gélido de Bella, talvez, por que a temperatura de Billy estivesse quase tão fria quanto à dela. Mais uma vez ela teve vontade de chorar... Billy realmente os estava deixando.
- Desculpe-me pela demora... Só fui saber de seu pedido há dois dias – ela se sentou na poltrona ao lado da cama.
- O importante é que você está aqui – ele apertou a mão dela – E foi bem recepcionada? – ele olhou em direção a porta onde estavam os gêmeos segurando a mão de Rachel.
- Muito bem recepcionada... Duplamente. – ela sorriu na direção dos pequenos e da amiga.
- Você sempre será bem vinda aqui. – ele a olhou firmemente, e ela percebeu algo mais naquela fala.
- Sinto-me bem aqui... Isso é surpreendente. Em se tratando do que eu sou agora. – Bella desviou o olhar.
- Você passou muitos momentos aqui Bells, fez e faz parte de toda essa magia... Têm coisas que não se apagam, nem com os anos.
- Mas minhas escolhas me levaram a outro caminho, longe de vocês Billy... Mesmo assim, é estranho que eu... Sinta... Nunca imaginei que coisas pequenas me fariam tanta falta. Mas, agora não há nada que eu possa fazer em relação a isso. – a vampira deu de ombros.
- Nada é estático Bella, não em se tratando de nosso mundo rodeado de magia...
- O que quer dizer com isso Billy? – ela o olhou desconfiada.
- Por mais que você viva, não saberá todas as respostas. Não se puna tanto por escolhas equivocadas. Há muitas coisas em nosso mundo que estão fora de nosso alcance, fora de compreensão... – seu tom como sempre era calmo.
- Você fala com se eu tivesse apenas escolhido o curso errado na faculdade, e pudesse desistir e mudar tudo. Mas, fiz a única escolha onde não posso voltar atrás. – dessa vez um soluço escapou da garganta de Bella — Minha filha se casou Billy, lentamente está envelhecendo, vai me deixar um dia... Assim, como minha mãe doente, meu pai... Você. Eu sou poderosa e indestrutível, mas de que adianta se eu não posso proteger vocês do tempo? Os anos passaram e eu os deixei... Eu não vim ao casamento de Rachel e Paul, ao de Sam e Emily... Não vi os filhos de meus amigos nascerem e crescerem, e terem filhos... Mas os verei partir. Fui estúpida... Magoei pessoas que me quiseram bem, que cuidaram de mim quando eu mais precisei... Tornei-me um monstro... Perdi meu calor, minha vida... Meu sol... Perdi Jacob... E a troco de que? Poder, beleza, imortalidade?
Bella desabafava, despejava todas as suas frustrações. Todos os sentimentos vinham até ela de forma confusa, descontrolada... E tudo o que ela podia, era colocar para fora. Não sabia como, nem porque, só sabia que tinha que falar... E Billy parecia à única pessoa que a ouviria e a consolaria.
Era como se ele a tivesse chamado, para que ela falasse.
- Poucos humanos assumiriam seus erros, falariam sobre seus demônios... E você está aqui, uma imortal, ao lado de um moribundo fazendo tudo isso Bella... Acredite sua escolha não foi definitiva! Ainda há muitas que você terá que fazer, e essas sim, definirão quem você é.
Os dois se entreolharam e Billy puxou Bella para lhe dar um beijo na testa.
- O mais importante, não é isso... – ele falou apontando para o próprio corpo – Mas o que carregamos dentro dele.
- Gostaria que fosse mais simples, mais claro... – a vampira suspirou.
- Apesar de você ser uma imortal... Eu vivi mais que você Bella, e acredite, não tenho todas as respostas. Todo o meu conhecimento vem de meu povo, da magia que nos envolve.
- Por isso me pediu que viesse?
- De alguma forma, eu soube que você precisava estar aqui.
Bella o olhou ternamente. Poderia se irritar com Billy, ele a tinha feito se expor... Provocara um choro seco e dolorido nela... Mas, no fundo as últimas palavras dele pareceram um balsamo em meio a tanta dor. Tudo parecia mais leve, mais em paz... Ela estava se perdendo. Agora, parecia estar novamente em casa, de onde nunca deveria ter saído.
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