The Only Exception
1 The Only Exception
“Takao.”
“Sim, Shin-chan?”
“Eu vou apresentar um concerto essa noite, no teatro de Tokyo. Você... seu assento está guardado.”
Takao segurou o ingresso entre os dedos enquanto terminavam de recolher as bolas dos treinos.
“E Takao?”
“Hum?”
“Se disser algo aos nossos veteranos, eu te mato.”
X
Ainda que sob a ameaça de Midorima, Takao não pôde deixar de sentir feliz pelo convite forçado, já que o rapaz não havia lhe dado brechas para dizer não. O seu assento era o número 12, entre as primeiras filas, provavelmente próximo à família de Midorima.
Enquanto se ajeitava em seu assento, cumprimentando as poucas pessoas que já haviam chegado por ainda ser cedo, Takao parava pra pensar no quanto isso era surreal. Ele sabia que Midorima tinha sido letrado no piano desde pequeno, pois a educação que seus pais haviam lhe dado era de primeira categoria. No entanto, sempre que parava para pensar em Midorima dez anos mais velho, não o imaginava tocando em concertos, muito menos sendo um jogador de basquete profissional.
Claro que ele possuía todas as qualidades para ambas as coisas – era, afinal, um jogador da Geração dos Milagres, e na opinião de Takao possuía a melhor habilidade de todas, já que nunca errava uma única cesta – mas Takao sempre o imaginara seguindo a carreira dos pais, assumindo a chefia do hospital que sua família detinha, pois era o mais lógico a se fazer.
Mas quando o viu entrar no palco, não pôde deixar de pensar em como ele parecia profissional com aquele terno negro cortado perfeitamente, na gravata borboleta bem alinhada e nos sapatos bem polidos, e pensava ser esse o motivo dos comentários de todos, quando na verdade era o sapo verde de pelúcia que ele colocou sentado ao seu lado no banco.
“Esse Shin-chan não tem jeito com seus itens da sorte.”, Takao não pôde deixar de dar um risinho, pois esse era o mesmo item que o havia acompanhado nos treinos daquela manhã.
Os olhos de Midorima percorreram rapidamente toda a plateia e por um segundo, Takao pôde jurar que olhava para ele. Já estudava com Midorima tinha quase um ano, e era capaz de reconhecer seus olhares. Ele sempre era confiante, mas detectou um quê de nervosismo daquela vez. Seria possível que as vezes até o Rei se sentisse intimidado pelo público? Era difícil de acreditar já que ele jogava na frente de um sem número de pessoas, mas talvez fosse diferente naquela situação.
Afinal, ele estava sozinho no palco. Não tinha o seu apoio ou o apoio de mais ninguém. Será que ele se sentia sozinho ali? Será que o havia chamado para ter seu apoio? Não, aquilo devia ser apenas sua imaginação. Takao tendia a imaginar demais coisas que não existiam. Afinal, Midorima era seguro demais de si para precisar do apoio de alguém.
Faltava poucos minutos para a apresentação. Midorima estava preparado, mas as três cadeiras ao lado de Takao ainda estavam vazias. Duas delas eram para seus pais, a terceira devia ser para sua irmã mais nova. Por que eles ainda não estavam ali? Observou Midorima dar um suspiro baixo quando recebeu o sinal para começar.
Então eles não vinham novamente. Midorima não devia estar surpreso com isso – ao menos Takao não detectou surpresa em suas feições – mas parecia... decepcionado? Ou conformado, ou qualquer coisa do gênero.
(Talvez ele realmente precisasse do seu apoio)
Quando as luzes do palco se concentraram nele, Takao sabia que a apresentação começaria e apertou as mãos contra o tecido da calça. A verdade é que ele estava nervoso por Midorima, pois era a primeira vez que veria uma apresentação dele.
O silêncio se fez em toda a plateia. Era como se todas as pessoas ali presentes tivessem prendido a respiração. Dentre os músicos, Midorima era conhecido como o jovem gênio. Takao havia escutado algumas pessoas comentando que ele poderia facilmente ser o novo Mozart se continuasse naquele ritmo, e sinceramente achava que estavam exagerando. Até ouvi-lo tocar.
Era como ser embalado em paz instantânea, como ser transportado para outra dimensão. A música que Takao imaginou que seria apenas uma versão de Beethoveen ou Mozart, na verdade havia sido composta pelo próprio Midorima, ouvira a senhora do seu lado esquerdo comentar.
“Então ele é mesmo um jovem gênio. Você é incrível, Shin-chan.”
Para Takao, era como vê-lo no basquete. A maestria com que ele dominava cada nota musical, era a mesma maestria com a qual acertava todas as suas cestas. Mas, diferente das quadras, ali ele não precisava de ninguém. A apresentação se estendeu ainda por algum tempo, e Takao se maravilhava enquanto o via tocar.
Era isso, Midorima era tão perfeito musico quanto era jogador. Como podia alguém alcançar a perfeição em tantos graus? O que Takao sentia por ele não chegava a ser inveja, mas algum tipo de admiração que superava a admiração comum que as demais pessoas possuíam. Era claro que Takao sabia o que aquilo significava – não era nenhum tolo – mas o fato é que nunca conseguia ultrapassar a muralha que havia entre ele e Midorima.
Embora fosse um jogador exemplar, tido como um gênio por causa da sua visão excepcional em quadra, e ser o único capaz de realmente fazer dupla com Midorima na Shutoku, ele sentia que havia um abismo entre eles. Midorima nunca realmente havia demonstrado algum sinal de que o queria por perto, e nunca havia lhe dado brecha alguma para crer que tinha alguma chance.
Poucas vezes, o havia visto ficar com algumas garotas da escola, mas até então, o único interesse que tinham em comum era o basquete. E embora achasse conhecer o bastante de Midorima, aquela era a primeira vez que o via realmente fora do basquete. Afinal, todas as vezes em que haviam saído fora de um jogo, havia sido para observar jogos dos outros, ou para comer após os treinos. Nunca haviam... feito nada que amigos faziam. Como por exemplo jogar videogame na casa dele, ou ir até a torre de Tokyo.
Aquilo fez com que Takao se sentisse pequeno por um momento. Será que não significava nada para Midorima além de alguém que lhe servia para todos os propósitos? Alguém que o puxava de um lado para o outro em seu carrinho, alguém que o ajudava até mais tarde nos treinos? Alguém que
(o queria?)
sempre estava ao seu lado... Isso devia significar alguma coisa, certo? Afinal, ele havia lhe chamado para o concerto, mesmo que de sua forma estranha e inquisidora. E havia dito que não dissesse a nenhum dos veteranos. Será que ele tinha vergonha?
Aturdido pelos próprios pensamentos, Takao se sobressaltou ao ouvir as palmas ao seu lado. Estava tão absorto em seus próprios pensamentos e embalado pela música que sequer percebeu quando a última nota foi tocada. Estava acompanhando todo o público batendo palmas, mas quando o olhar de Midorima, tão afiado que poderia facilmente cortá-lo ao meio, se focou nele, Takao sentiu-se nu. Forçou-se a olhá-lo pelo máximo de tempo possível, mas sentiu-se traído por si mesmo quando desviou os olhos, sem jeito.
“Por que sempre tem esse efeito sobre mim, Shin-chan?”
Já ao lado de fora, Takao reparou que chovia. Os pais de Midorima não haviam aparecido sequer para busca-lo. Isso devia ser mesmo triste. Takao morava com a irmã e a mãe, e eram uma família muito unida, então não conseguia imaginar como devia ser estar sempre sozinho, embora Midorima parecesse acostumado. Será que era por isso que ele evitava se aproximar de todo mundo? Miyaji havia contado a Takao que os pais de Midorima trabalhavam na maior parte do tempo, então era quase como se ele morasse sozinho embora fosse um estudante do ensino médio. Sua irmã mais nova passava a maior parte do tempo na casa dos avós ou com uma babá. Ele as vezes ficava com ela, mas era muito raro.
O encontrou parado como uma gárgula embaixo de um toldo, esperando a chuva passar, e por um momento o sentiu inalcançável. Era como encará-lo novamente pela primeira vez. O grande abismo da Geração dos Milagres entre eles, e nada mais.
“Não, as coisas não são mais assim, Takao. Ele não é inalcançável como antes.”
Takao se esforçou para que o tremelique em suas mãos cessasse e, com muita força de vontade, fez com que as pernas se movimentassem até lá, cobrindo a cabeça de Midorima com a sombrinha que havia trazido consigo.
- Aceita uma carona, Shin-chan? – Takao perguntou, exibindo seu melhor sorriso.
- Takao! Imaginei que já tivesse ido embora. – parecia que o tinha pegado em um momento em que estava distraído com seus próprios pensamentos, pois não o havia percebido chegar. Será que ele sentia tanto assim a falta dos pais ou estaria pensando em outra coisa? Deveria dizer algo?
- Eu.. estava indo. – desviou os olhos por um momento coçando a nuca. – Sinto muito por seus pais não terem vindo.
Pareceu que Takao tinha tocado na ferida, pois Midorima cerrou os punhos com força, e por um momento achou que o rapaz bateria nele.
- Não é incomum. Eles nunca vêm. – ele respondeu de maneira seca.
Surpreendeu a Takao o fato de ele te respondido. A verdade é que na maioria das vezes Midorima era tão fechado que nunca compartilhava nada com ninguém.
- Mas eu estou aqui, Shin-chan. – murmurou baixinho, tocando de leve seu braço. Midorima estava um pouco gelado. Há quanto tempo devia estar ali esperando no frio?
- Eu sei. Você sempre está. – ele murmurou baixo, tão baixo que Takao achou que havia sido apenas sua imaginação. Não pôde deixar de demonstrar surpresa por isso, mas se Midorima notou não disse nada a respeito. – Vamos, eu vou aceitar sua carona de sombrinha.
Takao abriu um sorriso largo e, juntos, seguiram caminho na direção da casa de Midorima.
- Shin-chan? – chamou, agarrado ao braço dele para que ambos pudessem se proteger do frio e da chuva. Estava feliz por Midorima não tentar afastá-lo, chamando-o de idiota ou qualquer coisa do gênero.
- Hum?
- Eu sempre vou estar.
Aquilo não era bem uma declaração, mas Midorima era inteligente o suficiente para subentender o que estava dito naquelas palavras. Ao contrário de Takao, ele não era do tipo que expressava sentimentos com tanta facilidade. Era verdade, Takao era seu melhor amigo, mas simplesmente o seu jeito de demonstrar isso era o tratando da forma que tratava. E tinha que admitir, talvez não se esforçasse o suficiente para demonstrar o quanto ele era importante, mas estava dando pequenos passos.
- Hoje... vai passar o especial dos jogos da NBA. Se quiser, pode dormir lá em casa e assistimos aos jogos juntos. – coçou de leve o queixo ao notar o brilho nos olhos de Takao.
- É sério mesmo, Shin-chan??? Está me chamando pra dormir na sua casa??? – ele agarrou em seu braço com tanta força e aproximou-se tanto que Midorima achou que fossem se beijar.
- Oe! Não me faça arrepender disso! – falou emburrado, mas era claro que não estava arrependido de sua decisão.
- Tudo bem, Shin-chan! Eu só preciso avisar a minha mãe e...
- Lá em casa você faz isso. Vamos logo.
- Hai!
Animado, Takao seguiu ao seu lado, pendurado em seu braço como uma namorada grudenta. Midorima olhou de canto e suspirou baixo. Provavelmente se arrependeria daquilo depois, mas Takao era sua única exceção.
X
Extra:
- Ei, Shin-chan, eu posso pegar algo pra bebermos?
- Claro, eu vou pegar algo para comermos enquanto isso.
(Alguns minutos depois)
- Shiiiin-channnnn – ele sentiu Takao se pendurar em seu pescoço, com um hálito forte de álcool, e antes que pudesse dizer algo, o sentiu lhe beijar os lábios.
- Oe, Takao...! – não teve tempo para reagir, pois ele o empurrou para o sofá, se sentando sobre seu abdômen.
- Vamos, não seja tãooo chato, Shiiin-channn! – ele deu um riso com as bochechas coradas, e antes que Midorima pudesse dizer algo mais, sentiu o líquido quente e dilacerante descer por sua garganta quando Takao empurrou, goela abaixo, o conteúdo da garrafa em sua boca.
(Mais alguns minutos depois)
- Vem cá, eu vou te mostrar quem é chato. – Midorima o empurrou contra o sofá, ficando sobre ele, sentindo um calor lhe subir pelo meio das pernas, mas não conseguia raciocinar muito bem. Que diabo de bebida era aquela que Takao havia pegado?
Antes que se desse conta, estavam se beijando novamente, desta vez não porque Takao o havia forçado.
(E em algum momento ele precisou forçar?)
Logo, estavam se entremeando no tapete. Uma camisa pra lá, outra pra cá. Braços e pernas se confundindo para todo o lado e um calor que nenhum dos dois sabia explicar subindo pelo ventre baixo até o rosto.
Parecia que ainda tinham muito a descobrir...
Notas finais
Papai ama você.
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