The One That Got Away
40 Deixe-me Ir
Notas iniciais
Narcisa olhou-se no espelho, a imagem que ali refletia a assustava um pouco. Não a roupa, mas sim o rosto, as lágrimas haviam cessado, mas a tristeza não.
Hoje era o dia, o último adeus, o adeus definitivo. O dia em que ela e Lúcio assinariam o divórcio.
–Dona Narcisa? –Hermione bateu na porta.
–Pode entrar Hermione. –A mulher respondeu.
–Quer ajuda com a maquiagem? –Ofereceu-se.
–Meu rosto está tão ruim assim? –Perguntou com a feição triste.
–Bom, se a senhora quer mostrar á ele que está sem dormir a dias, pode ir assim. – Disse sincera.
–Venha aqui, querida. Ajude-me. –Narcisa sentou-se em uma poltrona e logo Hermione começou a fazer a maquiagem.
–Está pronta. –Hermione anunciou e Narcisa olhou-se no espelho. A maquiagem havia melhorado muito as olheiras.
–Muito obrigada, querida. –Narcisa abraçou-a rapidamente. –Por favor, não deixe Draco sozinho, enquanto eu estiver fora. –Pediu e Hermione assentiu e saiu do quarto.
Narcisa desceu as escadas e devagar, a arritmia estava muito irregular naquela tarde, o coração estava batendo descompensadamente rápido e de um minuto para o outro batia tão fraco que poderia parar de bater em segundos.
A mãe de Draco encarou a grande porta de madeira e caminhou até ela, abriu as portas e trancou-se no escritório. Pela primeira vez ela estava entrando ali em dias, ela encarou as paredes e percebeu que os quadros que continham a foto dela e de Lúcio já não estavam mais nas paredes, então percebeu que talvez o amor que um dia havia significado tanto, já não significava absolutamente mais nada.
O amor que uma vez esteve pendurado na parede
Costumava significar algo
Mas agora não significa nada
O silêncio persistia em dilacerar o coração da mulher. Desde que Lúcio havia ido embora, os corredores eram totalmente silenciosos, sem a voz de Manuela brincando ou assistindo algum desenho rindo, não tinha o som da voz de Lúcio, que mesmo baixa fazia falta.
Os ecos sumiram no corredor
Por mais que ela quisesse aquelas vozes de volta, por mais que ela quisesse a presença de Lúcio de volta, ela não conseguia esquecer a dor que sentira piorar no último mês do ano passado. A dor que ela sentiu ao beijar o futuro ex-marido pela última vez, ainda doía lembrar da noite de 31 de Dezembro.
Mas eu ainda me lembro
A dor de dezembro
Agora sim era a gota d’água, agora já não existia mais nada a se dizer. Nem mesmo um adeus. Já era tarde demais para os dois. Narcisa saiu do escritório e pediu para que o motorista tirar o carro e então foi em direção ao escritório de seu advogado.
Oh, não há nada que você poderia dizer
Sinto muito é tarde demais
Lúcio estava no escritório do advogado de Narcisa, ele estava cansado de olhar o relógio no pulso. Quando tirou os olhos relógio, a porta se abriu e lá estava ela. Parecia estar bem.
–Senhora Black, devo adverti-la de que está atrasada. –O advogado da mulher pronunciou-se.
–Sinto muito, acabei passando tempo demais no escritório de minha casa. –Disse enquanto sentava-se.
Lúcio não direcionou o olhar para ela, mas em sua mente passavam muitas coisas. “Então quer dizer ela havia ido ao escritório, deve ter sido a primeira vez desde que fui embora” seu subconsciente dizia sem parar. Mas por que ela demorou tanto em um lugar que havia ficado quase totalmente vazio, assim como ele mesmo. Porque era exatamente assim que ele se sentia... Vazio.
Você voltou para descobrir que eu tinha ido embora
E aquele lugar está vazio
Como o buraco que foi deixado em mim
Os advogados conversavam algumas coisas, Lúcio mantinha os olhos no relógio e Narcisa olhava fixamente para o chão.
–Poderia ser mais rápido, deixei meu filho em casa e não gosto de ficar longe dele. –Narcisa demonstrou pressa.
Lúcio mal pôde acreditar que Narcisa estava com tanta pressa para assinar o documento que decidiria a vida dos dois para sempre. Era como se ela nem ao menos se importasse, era como se para ela o casamento dos dois já não significasse nada. Era estranho estar perto da mulher que ele sempre julgara ser a mulher de sua vida e ela estar com pressa de assinar o divórcio. Para ela ele não significava mais nada, mas para ele não era isso que ela significava. Ele sentia como se o que ele sempre achou que fosse não existisse. Ele sempre havia achado que eram almas gêmeas, apesar de tudo. Achou que fossem predestinados um para o outro.
Como se fossemos absolutamente nada
Não é o que você significava para mim
Pensei que fossemos destinados um para o outro
Os documentos foram colocados em cima da mesa, Narcisa seria a primeira a assinar. Lúcio abaixou a cabeça, o coração parecia estar para estourar para fora do peito. Uma única assinatura e tudo estaria acabado para sempre, e não existia nenhuma palavra que pudesse mudar o destino dos dois. Era tarde demais.
Oh, não há nada que você poderia dizer
Sinto muito é tarde demais
Narcisa olhou para os documentos em sua frente e sentiu um aperto enorme no coração. Ela segurou a caneta e encarou os papéis, mas sua mente voou longe. Ela lembrou-se de quando viu Mirela ao lado de fora de sua casa, mas essa lembrança fora queimada dando lugar á imagem de Manuela correndo pelos corredores da casa. Ela lembrou-se das últimas brigas com Lúcio, mas essas também foram queimadas, dando lugar á imagem do nascimento de Draco. Ela conseguiu ver nitidamente a imagem de dois grandes olhos azuis a encarando, implorando por carinho. Lembrou-se também, da primeira vez que Lúcio pegou Draco no colo, o bebê ficou tão pequeno enroscado nos braços do pai, eles eram completamente idênticos, Draco era a miniatura do pai.
Eu estou me livrando destas lembranças
Tenho que deixá-las ir, deixe-as ir
Então, de uma hora para outra todas as lembranças conturbadoras, tristes e assustadoras, foram queimadas. Narcisa havia conseguido despedir-se da dor, queimar as coisas ruins de sua vida. Havia deixado-as ir.
Eu disse adeus, queimei tudo
Tenho que deixá-las ir, deixe-as ir
Narcisa empurrou os papéis de volta para o advogado, as lágrimas estavam presentes em seus olhos, a alma parecia estar leve. Lúcio olhou para ela com um olhar assustado, com um fio de esperança transpassando o coração.
–Senhora Black, o que aconteceu? Algum problema? –O advogado da mulher encarou-a preocupado.
–Não me chama assim, não estou pronta para ser chamada assim. Não estou pronta para ser uma mulher separada. Não consigo mais viver naquela maldita casa vazia. Eu não sei mais me acostumar sem Lúcio e sem Manuela em casa. Não quero e não vou ser chamada de Black, eu sou Malfoy. Narcisa Malfoy. –Desabafou.
–Você está querendo dizer que... –Lúcio começou e esperou que ela completasse.
–Eu estou dizendo que eu queimei todas as lembranças ruins, estou dizendo que eu quero começar uma vida nova, estou dizendo que as coisas vão dar certo. –Narcisa disse quase sem respirar direito.
–E dessa vez, eu não vou te deixar ir. Nunca mais. –Lúcio sorriu aliviado.
–Nem eu. –Levantou-se e abraçou bem apertado.
Eu as deixo ir (e agora eu sei)
Uma nova vida (está neste caminho)
E quando é certo (você sempre sabe)
Então, desta vez (não vou largar)
Lúcio olhou bem dentro dos olhos daquela que agora continuava sendo a sua esposa, e conseguiu enxergar dentro daquela imensidão calma palavras que não estavam sendo ditas, mas o olhar de Narcisa diziam. Eles diziam “Para o amor nunca é tarde demais”.
Só há uma coisa a dizer aqui
O amor nunca vem tarde demais
Então os dois saíram do escritório e foram no carro de Lúcio para a mansão. Estavam tão felizes, que talvez nunca houvessem sido tão felizes assim. Libertos de lembranças tempestuosas, os dois disseram adeus aos “eus” do passado e estavam prontos para uma nova vida.
Eu me livrei daquelas lembranças
Eu as deixei ir, eu as deixei ir
E duas despedidas trouxeram esta nova vida
Não me deixe ir, não me deixe ir
Oh, Oh
Oh (não me deixe ir, não me deixe ir, não me deixe ir)
Lúcio e Narcisa entraram na mansão e subiram diretamente para o quarto de Draco, que por sua vez estava com os olhos inchados de chorar pelo término do casamento de seus pais.
–Draco? –Narcisa falou ao entrar no quarto.
–Já assinaram o divórcio? –Disse ainda de costas e assustou-se ao se virar e assistir os pais de mãos dadas. –Pai e mãe? Juntos? –Piscou várias vezes, achando que fosse um sonho.
–Nós desistimos de nos separar. –Lúcio anunciou e Draco levantou-se e abraçou a mãe e o pai de uma só vez.
–Estou muito feliz por vocês, por mim e pela Manu. –Draco disse animado.
–Falando nisso, eu tenho que buscar Manuela e fazer as malas e voltar para cá. –Lúcio lembrou-se. –Eu vou indo, mais tarde volto com Manuela. –Lúcio abraçou Draco e deu-lhe um beijo no topo da cabeça.
Lúcio desceu as escadas e Narcisa ia junto com ele. Antes de entrar no carro, Lúcio selou a esposa e olhou bem dentro dos olhos dela.
–Eu nem lembro a última vez que eu falei isso, mas eu amo você. –Declarou-se.
–Eu também amo você. –Beijou-o.
–Nunca mais me deixe ir. –Lúcio pediu.
–Eu nunca mais vou deixar você ir. Nunca mesmo. –Afirmou.
Não vou deixar você ir
Não me deixe ir

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