The Oncer Games
1 A maldição
Notas iniciais
“Então a rainha furiosa lançou sua maldição para destruir a felicidade de Snow White e seu amado Prince Charming. Uma maldição que os levaria para uma terra sem magia e onde cada ser vivo teria aquilo que mais amava arrancado de si. Um lugar onde o único final feliz seria o de Regina, que reinaria destruindo a todos com sua maldade...”
– Henry está na hora de fechar esse livro – Não era a primeira vez que eu lhe pedia, e a cada vez seu gato Archie arranhava minhas pernas por tras. O bichano nunca iria gostar de mim.
– Mas Kat...
– Feche-o antes que eu jogue fora.
Eu nunca faria isso de verdade. Henry e eu sempre tivemos uma vida difícil em um mundo onde viver já não era fácil, e aquele livro era, de alguma maneira, uma forma dele ter esperanças enquanto ainda podia. Porque ter esperanças nos tempos em que vivemos era tudo. Alias, esperança era tudo o que havia nos restado... Até o momento em que até isso seria arrancado de nós.
Me repreendi ao pensar nisso porque com o nome de Henry sendo inscrito só uma vez não seria chamado, não poderia. E caso eu fosse sorteada... Porque as inscrições eram acumulativas, e Henry tinha feito doze anos ontem, era sua primeira colheita. E não deixei que ele pegasse tésseras, que eram uma troca de uma ficha a mais com seu nome por grão e óleo, eu pegava por mim e por ele todos os anos pois era permitido pegar para cada membro da família.
Bem, caso meu nome fosse sorteado.... Um estranho calafrio subiu pela minha espinha ao pensar isso, porque eu me virava com minhas flechas na mata além dos limites da Campina na hora da caça, mas na Floresta Proibida haveria gente treinada para matar humanos, animais e qualquer outra criatura, pois mesmo sendo proibido todos sabiam que esse treinamento existia. No entento eu, com os meus doze papeizinhos que estavam prestes a virar quinze, tinha um risco bem maior de ter o “grande triunfo” de ser escolhida como Tributo. E se fosse esse o caso, Henry iria ficar com o nosso tio Leroy, ou provavelmente o enviaram para lar da comunidade, pois desde que o nosso pai morreu, tudo o que Tio Leroy fazia girava em torno da bebida.
Uma vez ele bateu em nossa porta, cambaleando e cheirando muito mal. Fiquei com medo de abrir, mas daí ele começou a chorar e resmungar que ele deveria ter morrido e não meu pai, que era um homem tão bom que criou duas crianças que não eram suas. Depois escutei um barulho de muitas coisas caindo e ele se calou. No dia amanhã seguinte o arrastaram feito um porco de volta pra casa.
Nosso pai de fato era um homem muito bom. Ele havia pegado Henry e eu, duas crianças sujas largadas na cerca “elétrica” que circundava o distrito doze, nos dando esperança e chance de sobreviver. Não lembro dos nossos pais de verdade, nem sei o que aconteceu com eles. Provavelmente morreram de fome e tiveram seus corpos arrastados pelos Pacificadores – que eram guardas da Presidente.
Henry deixou o livro de lado quando lhe entreguei a caneca de leite da Lady, sua cabra, quentinho. Me sentei ao seu lado na cama, ele não havia dormido a noite toda com medo da colheita. Estávamos com roupas emprestadas da familia do meu parceiro de caça Gale. Um conjunto, de short e camiseta, azul claro velho, desbotado e com rasgos que tive que remendar, de seus irmãos mais novos para Henry. E um vestido verde, de pano fino, também muito desgatado e sem um formato exato, que devia ter pertencido a sua mãe, para mim. “Combina com seus olhos Catnip”, falou ele ao me entregar, depois ficou todo sem graça e envergonhado.
Ao acabarmos de beber o leite, Henry e eu nos dirigirmos à praça, onde aconteceria a inscrição para os Oncer Games. Uma competição brutal, onde os escolhidos – uma menina e um menino de cada distrito – tem a missão de sobreviver e matar os adversários, caso os monstros que vivem na Floresta Proibida não o faça. Só um sobrevive, e salva seu distrito da fome por um ano, e o ganhador recebe fios e mais fios de ouro. Era a forma que a Capital havia encontrado de manter controle sobre os doze distritos de Storybrooke. Basicamente, onde a Presidente Regina Snow jogava crianças de doze a dezoito anos numa floresta cheia de monstros, e no final de cada dia para se certificar de que não teríamos chances, soltava dezoito lobos famintos. E tudo isso era transmitido pela TV, como uma piada de mal gosto.
Na fila – que era separada por idade – enquanto esperávamos o sorteio, avistei Gale. Assim como eu e Henry, com nossos olhos e peles claras, ele era bem diferente, praticamente o oposto, do resto do pessoal da Costura – area onde morávamos no Distrito 12. Era alto, de pele clara, cabelo escuro, olhos azuis e um nariz que completava os traços fortes de seu rosto. Depois que começou a mancar, Henry veio com a história de que ele era o Pinóquio voltando a ser de madeira.
Depois que o prefeito Whale acabou de falar, seu longo discurso sobre a destruição da America do Norte, a criação de Storybrooke reerguida da escuridão e a importancia do Oncer Games – que recebeu esse nome pelo trocadilho infame do fato de que as criaturas da Floresta Proibida lembravam seres da mitologia e dos contos de fadas. Ele se sentou ao lado de Jefferson Abernathy, o vencedor vivo do Distrito 12, um homem de olhos profundos e amargurados, que vivia com um cantil prateado na boca e depois o enfiava de novo no bolso do seu sobretudo elegante.
Então Effie Gold, a pessoa de sexo não identificado que apresentava o sorteio dos Oncer Games, que era transmitido ao vivo pra toda Storybrooke, se posicionou na frente do palco.
– Feliz Oncer Games! E que a sorte esteja sempre ao seu favor, meus queridos – falou Effie com seu sotaque irritantemente forçado da Capital. Ela usava uma peruca roxa de estava torta e um vestido justo e colorido – Primeiro as damas – ela levantou um dedo ao dizer isso e se dirigiu ao recipiente redondo e transparente a esquerda, onde ficava os nomes das meninas.
Durante o intervalo que tirei para respirar. Effie anunciou a sorteada, e o ar que liberei não voltou pra mim. Katniss Swan.
Era eu. Ela tinha dito o meu nome. Todos começaram a olhar em volta como se se perguntassem se não eram eles a tal Katniss Swan. Então fechei meus olhos que ardiam, para obrigar as lágrimas a voltarem e forcei minhas pernas bambas a se moverem. Caminhei olhando para o chão tentando encontrar a coragem perdida. Ao subir no palco, enquanto me anunciavam como vencedora e entre a explosão de aplausos encontrei o olhar tristonho de Henry. Mas eu não ia chorar com câmeras me filmando.
– Agora vamos ao tributo masculino – disse Effie em um tom alegre.
Olhei para Gale para desejar boa sorte, porque o nome dele estava dentro do recipiente a direita muito mais vezes que o meu. Porém quando ouvi, meu coração acelerou, não podia ser verdade, eu estava tendo um pesadelo ou Effie havia dito Henry Swan?
Enquanto meu pequenino irmão caminhava tremulo em direção ao palco. Minha visão foi borrada por lágrimas e eu senti uma dor tão grande que quase cai no chão como o Tio Leroy. Não poderia ser... Ao ver Henry se aproximar e eu sem poder fazer nada porque só um menino poderia se voluntariar no lugar de outro, e vice-versa. E eu já tinha sido escolhida, o que significava que eu teria que matar...
Afastei esse pensamento de mim. E naquele momento eu queria que as histórias do Henry fossem verdade. Ele tinha uma teoria de que nós eramos os personagens do seu livro, presos nesse mundo pela maldição da Madrasta Má. Eu e ele eramos Emma e David, os filhos da Branca de Neve e do Principe Encantado e só nós dois poderíamos recuperar o final feliz de todos.
Mas aquela era a realidade, a cruel realidade, nossos pais tínhamos nos abandonado, e se não fosse por um mineiro que nos achou jogados na cerca, estaríamos jogados no lar da comunidade.
Eu estava prestes a perder a esperança, estava sem ar, vendo Henry caminhar em camera lenta com o olhar assustado fixo em mim.
Quando fui interrompida por um grito.
– Eu me ofereço – disse uma voz firme e rouca.
Um rapaz forte, de cachos meio dourados no topete e barba mal feita, deu uns passos a frente. Eu o conhecia de outra situação pela qual sou grata a ele até hoje. Mas seria melhor ele do que Henry.
– Qual seu nome? – perguntou Effie demonstrando um tanto de surpresa.
– Graham Mellark – respondeu ao subir no palco.
Graham Mellark, meu herói, meu salvador, a quem eu devia a minha vida e a do Henry, mas teria que tirar a sua. Essa era a nossa maldição, ver pessoas que nunca tínham nos feito nada morrerem ou sermos obrigados a mata-las. Nesse caso, Graham tinha feito algo por mim, e estava fazendo de novo agora... O que tornava tudo pior.
Vi Gale entregar Henry para o Tio Leroy. Eu preferia que ele ficasse com a maldição do seu livro, que eu havia conseguido ano passado na feira com a velha cega da sopa e lhe dei de presente de aniversário. Era melhor assim, ele com a sua maldição e eu com a real.
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