The Next Queen - Interativa
13 Capítulo 11 - Não existe amizade sem amor, nem amor sem amizade
Notas iniciais
Capítulo 11
Não existe amizade sem amor, nem amor sem amizade
Selecionada Harriet Aurora Jackson Alyn
— E se você precisar escrever uma carta? – perguntou Harriet.
— Por que eu precisaria escrever uma carta se posso simplesmente ligar para a pessoa? –Sunray rebatou.
— Mas cartas são mais românticas – insistiu a selecionada — Caso estivesse apaixonada por um homem, preferia receber dele uma carta ou um telefonema?
— Se eu estivesse apaixonada por um homem e ele me mandasse uma carta, a amassaria e jogaria na cara dele. Seria muito cara de pau me mandar uma sendo que eu não conheço as letras.
— Mas...
— Te aconselharia a desistir senhorita – interrompeu Norway, com um sorriso no rosto – Essa aí é um caso perdido.
Harriet deu uma risadinha, mas fez que não com a cabeça. Longe dela desistir depois de apenas algumas tentativas. Achava simplesmente horrível demais que Sunray não soubesse ler nem escrever e, apesar da falta de interesse por parte da criada, estava determinada a lhe mostrar a importância e a utilidade disso. Infelizmente, até aquele momento, não conseguira nada além de fracassos.
— O que achou de seu cabelo, senhorita? – perguntou Lírio, que havia passado a última meia hora tentando organizar a confusão emaranhada de fios da selecionada.
Harriet olhou para si mesmo no espelho de sua penteadeira e soltou um arquejo de admiração. Grossas ondas castanhas emolduravam seu rosto de pele bem clarinha, com a parte de cima de suas madeixas presas em uma sucessão de tranças decoradas com flores verdadeiras.
— Está lindo!
Lírio sorriu, orgulhosa de si mesma.
— Que bom que gostou. E o detalhe das flores realmente deu vida a mais ao penteado.
— Literalmente né – comentou Norway, provocando algumas risadas entre as criadas.
As flores tinham sido ideia de Harriet. A garota adorava o ar livre, e uma sensação de paz sem tamanho a invadia sempre que sentia o vento bater em seus fios castanhos; o sol a aquecer com toda a sua magnitude nos dias frios; a superfície delicada das flores e folhas em contato com sua pele descoberta. Ao colocar os olhos nos jardins do palácio pela primeira vez, seu queixo caiu e seus olhos se encheram da mais profundo admiração, e, determinada a levar uma parte dele para onde quer que fosse, pedira a suas criadas para colherem algumas flores para ela. Certamente ninguém sentiria falta. Havia tantas e de tantos tipos diferentes!
— Sabe, uma vez eu estava aprendendo a fazer um penteado... – Lírio começou a dizer, mas Sunray a interrompeu.
— Que tal se você contar esse caso depois? Sabemos o quanto eles podem demorar e a senhorita Harriet tem que descer para o Grande Salão em alguns minutos.
Uma expressão de descontentamento se espalhou pelo rosto de Lírio, mas ela se calou. Harriet fora avisada sobre como muitas vezes a garota começava a falar e não parava mais, e lançou um olhar de agradecimento para Sunray, ao qual ela retribuiu com um aceno de cabeça. Era estranho como conhecia suas criadas a menos de um dia, mas já começava a se afeiçoar a elas. Lírio com sua animação constante, Sunray com seu altruísmo e Norway com sua gentileza. Mas de todas as três, essa última era a que mais fascinava Harriet. Mesmo com sua deficiência, Norway não hesitava em ajudar, estava sempre sorrindo e era eficiente como ninguém mais conseguia ser.
Ao vê-la tateando a mesa ao lado da cama em busca de um pincel de maquiagem, a selecionada não conseguiu evitar e perguntou se ela precisava de ajuda.
— De modo algum, senhorita. Só não me acostumei com a disposição das coisas no quarto ainda. Mas eu vou – respondeu Norway, e depois de um segundo, encontrou o pincel e o agarrou – Viu só?
Harriet sorriu para a criada, só era uma pena que ela não conseguisse ver isso. Norway não usava a bengala que o palácio havia lhe fornecido, ela a odiava com todas as suas forças. Invés disso se locomovia por ecolocalização, então estava sempre estalando os lábios e a língua. Na primeira vez que Harriet a viu, achou isso tremendamente estranho, já que, só de olha-la, não era possível de modo algum perceber sua cegueira. Norway se movia com segurança e tinha lindos olhos verdes que estavam sempre fixos em algum ponto. Foi só quando ela comunicou sua condição que a selecionada finalmente entendeu.
— Já fez alguma amiga senhorita? – perguntou Lírio, enquanto pegava um estojo com vinte tons diferentes de sombras e o aproximava do vestido verde escuro de Harriet para ver qual combinaria melhor com o tom do tecido.
— Já. Vocês três – Harriet indicou com a mão as três criadas.
Lírio riu.
— Estou lisonjeada, mas quis dizer entre as outras selecionadas.
— Ah sim. Entre elas não.
— Você não tem que se sentir mal por isso. Está aqui a um dia apenas – comentou Norway.
Harriet concordou com a cabeça, mas não disse nada. Um dia, duas semanas, um mês. Independentemente do tempo, desconfiava que nunca um laço mais forte com alguma das outras garotas iria surgir, simplesmente devido ao fato de que seu pai a havia aconselhado a não fazer amizade com elas. “Elas são suas concorrentes”, ele disse. “E podem querer te fazer mal”. Harriet confiava no seu pai. Ele já havia feito tanto por ela que não duvidava nem por um segundo que só queria seu bem. Mas ao mesmo tempo não sabia quanto tempo ficaria no palácio, e passa-lo todo sem amigas seria bem difícil. Em casa ela tinha seus avós e seu pai. Ali ela não tinha ninguém. Porém foi só conhecer suas criadas que todos os seus temores a abandonaram. As selecionadas podiam não ser suas amigas, mas elas seriam.
Quando Lírio terminou de aplicar uma camada de maquiagem no rosto de Harriet, a garota se levantou da penteadeira e caminhou até o espelho de corpo inteiro pregado na porta do seu guarda-roupa. Sorriu diante de seu visual. Tudo combinava de forma harmoniosa e passava uma impressão de garota delicada e feminina que ela adorava. Restava esperar para ver se Nicholas também aprovaria. Era a primeira que Harriet o veria que não pela televisão, e tinha que admitir que estava bem mais nervosa do que gostaria. A garota tinha um excelente controle de suas emoções, mas para sua eterna frustração, muitas vezes a ansiedade e o nervosismo não estavam incluídos nisso. E se acabasse cometendo alguma besteira ou falando algo que não devia? Rezou com todas as suas forças para Deus não deixar isso acontecer. Tinha que ser perfeita, sempre perfeita.
O barulho de um caminhão chegando ao palácio tirou subitamente Harriet de seus pensamentos. Uma entrega de comida, provavelmente. O quarto que tinha sido designado a ela dava vista para a entrada, invés de para o lago como era nos quartos do lado direito, então conseguia ouvir o veículo claramente quando a porta da varanda estava aberta. Mas sinceramente ela não se importava. Quando prestava muita atenção, além de carros e caminhões, conseguia escutar os empregados conversando lá embaixo, e uma das coisas que Harriet mais adorava era ouvir as pessoas falarem sobre qualquer coisa, seja sobre uma história, sobre sua vida, sobre até coisas que ela não gostava, mas simplesmente sentar e ouvi-las falar. E como poderia fazer isso caso sua varanda não se abrisse para nada além de uma infinidade de azul?
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Selecionada Serena Licoski
Quando chegaria sua vez? Serena se perguntava. Mais de quinze garotas já haviam sido chamadas, mas não ela, nunca ela. Seu lábio inferior já estava ferido de tanto que o mordera, o gosto metálico de sangue invadindo sua boca e se misturando com o sabor desagradável do batom rosa que usava, formando uma combinação estranha que começava a deixa-la enjoada. O imenso controle emocional da garota estava falhando hoje, e o pior é que, olhando ao redor da mesa onde estava sentada, todas as outras selecionadas pareciam muito mais tranquilas do que ela.
— Vocês não estão ansiosas? – Serena não pôde deixar de perguntar.
Julieta levantou os olhos da torta de nozes e chocolate que comia e deu uma risadinha.
— Ansiosa? Que nada. Quanto mais tempo sua alteza real levar para me chamar, mais tempo eu vou poder aproveitar essa maravilhosa torta.
Serena sorriu, mas no seu caso, nem a comida conseguia lhe distrair. Toda hora seus olhos se voltavam para Nicholas, quase involuntariamente. Ele se sentava num sofá de couro no canto do Grande Salão, vestindo um terno azul marinho que destacava seus olhos. Estava bonito, da mesma forma que naquela noite alguns meses atrás, quando os dois se viram pela primeira vez. Será que ele se lembrava dela? Serena esperava que sim, mas talvez aquele momento não tivesse sido nem de longe tão memorável para ele quanto foi para ela. E o fato de que nunca haviam estado novamente no mesmo ambiente até aquele dia só ajudava a confirmar suas suspeitas de que ele não a reconheceria. No anterior, as companhias da garota tinham sido apenas suas criadas, as selecionadas e a princesa Kate, que lhes passou algumas regras básicas de etiqueta sobre como se portar diante da família real, coisas que Serena já sabia, mas que imaginava que muitas outras garotas não.
Na mesa em que estava sentada havia espaço para cinco cadeiras, e todas estavam ocupadas. Na maioria das outras espalhadas pelo Grande Salão, se sentavam apenas três selecionadas, e em algumas só duas. Mas Serena não estava reclamando, pois uma das coisas que a motivaram a se inscrever para a seleção foi viver novas aventuras e fazer novas amizades. Ela havia se dado bem com Julieta logo no começo. A garota era bem enérgica e um pouco louca, o que a lembrava de sua melhor amiga, Juliet. Até o nome era semelhante. Outras que conheceu já eram mais ariscas e até irritantes, e das quais preferia manter certa distância. Mas para infortúnio seu e de Julieta, umas dessas se aproximava nesse exato momento.
— Gente! – Anya tinha acabado de voltar de sua conversa com Nicholas e exibia um grande sorriso no rosto – O príncipe me convidou para almoçar com ele hoje! Vocês acreditam?
— Não, eu não acredito – murmurou Julieta baixinho. Serena trocou um olhar de cumplicidade com ela e ambos sorriram uma para a outra.
Anya não era uma má pessoa, de jeito nenhum, mas era falante, incrivelmente falante, e animada ao extremo. Estava sempre se mexendo, e ria de qualquer coisa. Essa energia constante dela irritava Serena e Julieta, e havia vezes em que as duas, de tão cansadas de ouvirem a voz aguda da garota, tinham que sair de perto dela para não manda-la calar a boca. Se esse era o tipo de pessoa por quem o príncipe se sentia atraído, a estadia de Sena no palácio estava fadada a ser curta.
— Senhorita Serena – a selecionada levantou os olhos surpresa e se deparou com a princesa Kate a encarando – É sua vez de conversar com o príncipe.
Essas simples palavras bastaram para fazer as mãos da garota começarem a suar, mas se controlou ao máximo e tentou manter um sorriso agradável no rosto.
— Ah sim, claro.
Serena se levantou da cadeira, alisou um pouco a barra de seu vestido floral creme e, se controlando para não morder o lábio mais uma vez, seguiu Kate até o lado oposto do salão, mas antes que pudesse dar mais que dois passos, sentiu uma mão a segurando.
— Boa sorte – disse Julieta, sorrindo – Ou melhor, quebre a perna. Desejar sorte da azar, certo? Mas, enfim, você entendeu o que eu quis dizer.
Serena deu risada e assentiu com a cabeça.
— É claro. E boa sorte para terminar de comer esse tanto de comida que você colocou no prato – apontou para o monte de tortas, pães e bolos sobre o qual Julieta estava debruçada – Vai explodir antes de acabar com metade.
— Pff, improvável. Mas tem grandes chances de esse vestido que estou usando rasgar. Esses tecidos são macios, mas frágeis demais. Claramente não foram desenhados para acomodar garotas do meu apetite.
Sena riu novamente e estava prestes a lhe responder quando mudou de ideia. Não era bom fazer alguém da realeza esperar, então se despediu da amiga e foi atrás de Kate. O príncipe se levantou quando a viu se aproximar. 1 metro e 84 de altura, seis centímetros a mais do que ela, já que escolhera usar uma sapatilha sem salto naquele dia. Curvou o corpo em uma elegante reverência, e ele beijou delicadamente os nós dos dedos de sua mão direita, fazendo suas bochechas corarem um pouco.
— Sente-se por favor – disse Nicholas, indicando a poltrona em frente ao sofá.
Serena fez o que lhe foi pedido, enquanto o príncipe dava um sinal para Kate começar a contar o tempo que tinham para conversar. Cinco minutos cronometrados.
— Então senhorita Serena, o que está achando do palácio? – perguntou ele.
— Aqui é lindo. Ou melhor, mais que lindo. É quase como um sonho – respondeu a garota, torcendo para que seu nervosismo não estivesse tão aparente.
— Mas imagino que deve ser meio confuso, devido ao tamanho.
Serena concordou com a cabeça.
— É verdade. Mas ao contrário do que se poderia esperar, não acho isso ruim. É como uma nova aventura a cada vez que eu abro uma porta ou passo por um corredor.
Nicholas olhou para a garota com curiosidade, parecendo um pouco admirado com a resposta dela.
— Nunca pensei por esse lado, mas acho que você está certa. E o que mais lhe agradou até agora?
Serena colocou uma mecha de cabelo atrás da orelha enquanto pensava. Nicholas não parecia muito preso a formalidades, então decidiu que não iria se prender também.
— A companhia está sendo bem agradável – respondeu, em um tom provocador.
Nicholas riu e levantou uma sobrancelha.
— Você está falando de mim ou das outras selecionadas?
Serena curvou os lábios em um sorrisinho.
— Digamos que dos dois.
— Boa resposta – disse ele, e se curvou no sofá para olhar a selecionada com mais atenção – Seu lábio está sangrando. O que aconteceu?
Se sentindo meio envergonhada, Serena levou a mão a boca para limpa-la, o que deixou seus dedos vermelhos. O príncipe ao ver isso, lhe entregou seu lenço de bolso.
— Tem certeza? – perguntou Serena, segurando o pedaço delicado de tecido – Não acho que manchas de sangue saiam com facilidade.
— Absoluta – o príncipe respondeu, com um sorriso torto no rosto – Lenços de bolso são inúteis até chegar a hora de ajudar uma donzela em necessidade.
A garota riu.
— Que romântico da sua parte – apontou para sua boca – Isso não é nada. Eu tenho mania de morder o lábio quando fico nervosa. Só isso.
— Você está nervosa?
— Eu estava – corrigiu. Àquela altura se sentia bem à vontade. Conversar com o príncipe tinha se revelado ser muito mais fácil do que esperava.
— Uau, não sabia que minha presença era tão intimidante – comentou Nicholas em um tom brincalhão.
— Não é você exatamente. O intimidante é o fato de você ser meu príncipe e futuro rei.
Nicholas assentiu.
— Entendi. Pesada é a cabeça que usa a coroa, não? – o modo como a voz dele oscilou ao dizer isso pareceu carregar tanta tristeza que Serena ficou tentada a pegar sua mão, mas se controlou. Sabia que não seria apropriado, afinal essa era a primeira vez que os dois se falavam.
Nicholas fixou seus olhos azuis nos da garota por alguns segundos, e por mais que estivesse tentada a desviar, ela retribuiu o olhar.
— Você me é tão familiar, e eu não sei porque – o príncipe murmurou — É tão frustrante.
O coração de Serena acelerou.
— Nós já nos vimos antes, Alteza. Em uma festa.
Nicholas curvou a cabeça, com interesse.
— Uma festa?
Serena deu um sorriso enigmático.
— Sim, uma festa. Precisa de mais uma dica?
— Por favor – respondeu ele, com uma sombra de sorriso nos lábios.
— O anfitrião da festa era Andrew Cardinaux, e ela foi dada alguns meses atrás.
Nicholas pensou por alguns segundos e riu.
— É claro! Você estava de vestido vermelho. Mas foram duas dicas invés de uma.
— Considere a segunda como um bônus. Na festa nós nos vimos e trocamos um sorriso, mas foi só. Estou realmente surpresa que você ao menos se lembre de mim.
— Você não devia se desvalorizar, senhorita. Não é alguém fácil de esquecer.
Serena olhou o príncipe nos olhos procurando algum traço de piada ou sarcasmo, e quando não encontrou nenhum, seus lábios se abriram em um sorriso radiante. O príncipe se preparou para dizer algo, mas se calou quando
Kate se aproximou dos dois.
— O tempo acabou alteza.
Nicholas franziu a testa em desagrado.
— Mas já? – suspirou e olhou para Serena – Obrigada pela conversa senhorita.
Ambos se levantaram e Nicholas depositou um último beijo na mão da garota antes de ela se afastar, ainda com o sorriso no rosto. Foi só quando se sentou novamente em sua cadeira que percebeu que o príncipe não a havia chamado para um almoço nem nada do tipo como havia feito com Anya. Isso seria bom ou ruim? Serena não fazia ideia, mas sabia que aquela com quem Nicholas conversara era ela mesma, e não faria nada de diferente caso lhe fosse dada a chance.
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