The Next Queen - Interativa
2 Capítulo 1 - Por bem ou por mal
Notas iniciais
Capítulo 1
Por bem ou por mal
Suor escorria pela testa de Nicholas, deixando seus cabelos negros ainda mais negros. Estava cansado, visivelmente cansado, mas Henry, seu treinador de esgrima, não diminuía a velocidade dos movimentos. Mirava o flanco esquerdo do garoto, e ao vê-lo girar para se defender, atacava o direito.
Nicholas se sentia frustrado, frustrado e cansado, mas não pediu para encerrar a luta até que seu braço estivesse tão dolorido que ele estava com dificuldade para erguer a espada. Rumou para o chuveiro, a água quente ajudando a relaxar os músculos e amenizar um pouco da dor, e depois de devidamente vestido, foi procurar pela irmã, se dirigindo para o lugar mais provável de ela estar, a biblioteca. Enquanto caminhava, notava que o clima no palácio ainda estava pesado por causa do vexame que seu pai dera em sua festa de aniversário, dois dias atrás. É claro que ele ficou chateado, mas não era como se fosse alguma novidade. Rei Robert já era conhecido por sua bebedeira exagerada e pelas gafes que acabava cometendo quando estava bêbado.
Ao chegar as portas duplas da biblioteca avistou a irmã, Alice Schreave, com seus cabelos lisos e brancos que chegavam até um pouco abaixo dos ombros e olhos de um tom de azul tão claro que quase pareciam roxos, lendo um livro grosso sentada em uma das poltronas espalhadas pelo cômodo. Ela levantou os olhos quando ouviu o irmão chegar e sorriu. Alice era gêmea de Nicholas, mas os dois não se pareciam nem um pouco. Tanto é que Alice tinha a infelicidade de ser albina, e Nicholas não. Porém a garota não era só gêmea do príncipe herdeiro, como também onze minutos mais velha que ele. O trono deveria ser dela por direito. Mas então a garota nasceu, e Katrina se deparou com aqueles cabelos brancos e pele tão clara quanto a neve. Agarrado ao tornozelo dela, vinha Nicholas, absolutamente perfeito, com grandes olhos azuis e cabelos pretos finos e sedosos. Era só questão de tempo para que o casal real, ou melhor, a rainha, decidisse que o herdeiro do trono deveria ser Nicholas, e não Alice. O albinismo não interferiria em nada na capacidade de ela ser uma boa rainha, mas para a Katrina o fato de ter uma doença a deixaria descrente frente ao povo e a nobreza. Onze minutos deram o trono para Alice. Uma doença genética o tirou dela.
— Bom dia irmã – Nicholas cumprimento enquanto entrava na biblioteca. Ele sempre se espantava com a magnitude do cômodo, não importava quantas vezes já havia estado ali. Era um lugar de móveis escuros e chão de madeira, com um pé direito altíssimo. No centro figurava um grande lustre banhado a ouro e logo abaixo dele, um conjunto de sofás de veludo vermelho escuros. Em cada um dos cantos da sala havia uma escada em curva que levava para o segundo andar da biblioteca, que consistia em passarelas envoltas por uma cerca de madeira trabalhada com entalhes de folhas e flores. Havia inúmeras estantes de mogno escuro espalhadas pelos dois andares, e em cada uma, havia centenas de livros dos mais diversos tipos. Mas é claro que os mais raros não ficavam ali, onde qualquer um podia lê-los. Eles ficavam na biblioteca particular da mãe, em que ninguém além dela tinha acesso – O que você está lendo?
Ela virou a capa do livro e leu:
— A história dos reis de Illéa: de Gregory a Robert Schreave
— Parece... — pensou por um segundo na palavra certa
— Extremamente enfadonho?
— Exatamente – Nicholas disse e abriu um sorrisinho – Eu prefiro continuar a ler a saga O Senhor dos Anéis. Já estou no último livro e quero saber como termina
E foi em direção a estante que ficava logo em frente a escada no canto leste da biblioteca. Pegou o livro para logo se sentar no parapeito da grande janela que tinha vista para os jardins. Aquele era seu lugar favorito para ler. Além de ser calmo e quieto, a vista dos jardins era linda, e o ajudava a viajar para os mundos fantásticos dos livros que lia.
— Ou você pode simplesmente ver os filmes... – comentou Alice voltando a olhar para o próprio livro
— Você mais do que ninguém sabe que não é a mesma coisa – disse Nicholas. Os gêmeos compartilhavam o gosto pela leitura. Quando pequenos, costumavam passar horas na biblioteca lendo juntos e quando achavam uma parte que achassem interessante, eles copiavam em um papel e pregavam num caderno que nomearam de “Diário dos leitores”. A intenção era usar esses fragmentos como inspiração para os dois fazerem os seus próprios livros juntos. Mas é claro que isso nunca aconteceu. O máximo que eles fizeram foi escrever algumas ideias, mas por falta de tempo, nenhuma delas foi para a frente.
— Sim eu sei. Mas você não devia ler agora. Mamãe está te procurando e você sabe como ela odeia esperar – disse Alice
— E o que ela quer comigo?
— Não sei, ela não disse. Só disse para você ir até o escritório dela
Intrigado, Nicholas guardou o livro e foi ao encontro da mãe. Ela era uma pessoa difícil de prever, então ele não fazia ideia do que queria com ele. Bateu hesitante na porta e quando ouviu o “entre”, a abriu e se deparou com Katrina em pé, vestindo um longo vestido vermelho. Ela era uma mulher muito bonita, mesmo não sendo mais tão jovem, e Nicholas via os olhares que os guardas, os conselheiros e os homens em geral lançavam em direção a ela. Isso o incomodava um pouco pois, mesmo ela lhe dando nos nervos, ainda era sua mãe.
— Nicholas, sente-se – ela disse com uma expressão impassível no rosto
O escritório da mãe não era nem de longe tão grandioso quanto o do pai, e Nicholas apostava que ela odiava isso. Mas achou melhor não comentar. Deixar a mãe irritada nunca o havia trazido nada de bom.
— Vou ser bem direta. Você já tem vinte anos e é hora de você arranjar uma esposa
Nicholas arregalou os olhos em choque diante das palavras da mãe, e sua boca se contorceu em fúria.
— Você só pode estar brincando! Já tenho vinte anos?! Está mais para ainda tenho vinte anos! Eu não preciso e nem quero uma esposa!
— Sim, você precisa. Seu pai já está mais velho e com seus... hábitos – Katrina disse com repulsa – Ele não vai viver por muito tempo. É preciso que você esteja casado antes de assumir o trono. E que maneira melhor de isso acontecer do que com a realização de uma seleção?
— Uma seleção? Sério? – Nicholas estava surpreso que a mãe tenha concordado com uma coisa como a seleção, levando em conta o seu óbvio desagrado em relação a pessoas de castas mais baixas.
— Seríssimo, apesar de que tenho que confessar que não era minha primeira opção. Na verdade, nem estava entre as minhas opções. Mas seu avô me fez ver que é a melhor coisa para o momento. Uma distração enquanto resolvemos nossos óbvios problemas. Tenho certeza que não preciso te dizer quais são – ela disse, levantando as sobrancelhas
— Não, não precisa – Nicholas disse apertando o braço do sofá em uma tentativa de controlar sua fúria – E se eu disser não?
Katrina riu com desdém
— Isso não é uma opção querido filho. Você vai ter sua seleção. Cabe a você decidir se vai aceitar por bem ou por mal
— É uma bela escolha essa que você está me dando
— Não é escolha nenhuma
— Exatamente – e se levantou e saiu da sala. Nicholas precisava urgentemente de um tempo sozinho para pensar
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