The New Continent
15 Capítulo 14 – Território das chamas.
Notas iniciais
Cory
14 de fevereiro, 2200, 20:06.
Toda a luz que as chamas exalavam refletia em nossos olhos amedrontados em choque, afetando a profundidade de nossas almas em pânico. Senti o tempo transcorrer lentamente, enquanto via Ralf e seus companheiros correrem em direção aos destroços e começarem a entrar em ação sem ao menos se preocupar com as labaredas ao redor. Observava tudo em minha volta, mas meu corpo não conseguia reagir, apenas vagava fitando toda aquela desgraça sem ter ideia de como tudo aquilo foi acontecer.
Conforme eles iam retirando as estruturas dos montes de cinzas, crateras eram formadas no chão de onde, começaram a aparecer os restos mortais dos falecidos, pedaços de mão, perna, braços e cabeças que ainda não tinham sido consumidos pelo fogo. Era como se uma guerra avassaladora tivesse devastado aquele ambiente inundado pela destruição. Os gritos das agitações se esvaiam no pensamento, e eu cambaleava como um andarilho desnorteado.
Não demorou muito para as estruturas cederem, fazendo com que a cabana principal desmoronasse por inteiro, formando um vácuo subterrâneo de destroços, fazendo com que me despertasse do transe. Desesperados eles vão até o subsolo da cabana principal que nem ao menos eu soubera que existira. Todos gritavam por nomes, quando um desespero tão grande me consumiu a lembra de Will. Comecei finalmente a agir, retirando galhos e folhas do caminho até encontrar uma mão suja e pálida no meio de toda aquela bagunça empoeirada.
Fiquei receoso de tocar e descobrir aquilo que eu não queria acreditar ser. Chamei Nofre para me ajudar a retirar os outros entulhos. Gradativamente o corpo foi se revelando, quando retiramos a ultima viga de madeira, um misto de emoções invadiu meu corpo me deixando estático mais uma vez. Era Quaila, mesmo com alguns arranhões seu corpo se mantivera sem ferimentos graves. Nofre gritou por Ralf que teve a mesma reação do que a minha ao vê-la estirada. Diferentemente de mim, ele correu até ela; pôs a em seu colo e a abraçou firmemente. Conferiu em seguida seus batimentos cardíacos e seu semblante foi tomado de lágrimas pesadas de solidão.
— Não, Quaila, por favor, fala comigo, por favor.... – Ele repetia essas expressões varias vezes aumentando cada vez mais sua entonação. Sua dor transpareceu em mim e em todos ali.
Era angustiante não poder fazer nada e nem ao menos imaginar como tudo aquilo tomou tal proporção. Ralf continuava recolhido com Quaila em seus braços tentando sanar a dor. Jihan tentou se aproximar sendo rejeitado pelo líder. No meio de toda aquela confusão, a chuva, começou a cair fortemente ajudando a apagar as chamas. Deixamos Ralf a sós e partimos a procura de outras pessoas. Depois de horas de um longo trabalho encontramos vários corpos queimado sem nenhuma noção de quem eram. Perdi as esperanças de encontrar alguns vestígios de qual corpo seria o de Will, mas não havia nada que podia ser aproveitado dali.
As noticias eram de mal a pior, ninguém sobreviveu, aquele vilarejo se foi por inteiro, deixando um líder num universo vazio. Retornamos até Ralf que se encontrava de pé parado na entrada da caverna, seu semblante era indecifrável, aos poucos ele foi se aproximando cada vez mais rápido.
— Foi você, Foi você ... –Ralf repetia enquanto se aproximava de mim, até chegar tão perto para me atingir com um murro na face que me fez cair no chão – Foi você, seu desgraçado, você planejou tudo isso, filho da mãe. – Mais uns chutes e comecei a ser pisoteado. Estava confuso e não conseguia me levantar sendo espancado. – Seu traidor de merda...
— Por favor, pare e me escuta. –Berrava em meio à falta de ar nos pulmões.
— Cale a boca e morra em silêncio, idiota. – Gritou o mais velho dando maior força aos chutes e soco.
Meu corpo não aguentava mais aquela dor, um chute na minha cabeça, fez meu mundo rodar e o nariz sangrar incessantemente. Nofre e Jihan ficaram estáticos sem questionar o líder.
— Saiam daqui – ordenou o moreno – Vocês não precisam ver isso.
Os Rapazes assustados se distanciaram, surpreendido com a atitude do companheiro. A bota de Ralf posicionava-se sobre minha cabeça para ser esmagada, quando um gritou salvou-me da morte.
— Não faz isso Ralf, por favor. – Uma voz vinha de dentro da caverna, olhei para o lado com dificuldade e lá estava Will acompanhado de Zenaya. – Não foi ele quem fez tudo isso.
— Confie nele Ralf. – Acrescentou Zenaya. – Não faça essa besteira, ele não é o verdadeiro culpado.
Ralf parou suas ações, enquanto, Jihan e Nofre, vieram me ajudar a se recompor. Zenaya deixou Will apoiado em um canto e foi de encontro ao líder para acalmá-lo. Tudo aconteceu tão rápido, como se o tempo estivesse dessa vez acelerado. Colocaram-me ao lado de Will, enquanto os outros se reuniram para conversar.
— Você está bem? – Perguntou o ruivo.
— Não da para mentir que sim, mas eu vou ficar bem. E você como está? – Falava com a boca inchada e dolorida. – alias muito obrigado.
— Não foi nada, apenas estou pagando a dívida que tenho com você e acredite comigo foi bem mais fácil –Ironizou – Mas eu estou me recuperando, já consigo dar alguns passos e acredito que amanhã estarei bem melhor.
— Estou feliz que não tenha morrido, na verdade eu já tinha perdido as esperanças de vê-lo novamente... Afinal o que aconteceu por aqui?
— Eu já disse que não vai se livrar tão fácil assim de mim, eu sou duro na queda. E aprendi a ser assim com um amigo que não me deixou desistir, obrigado. E sobre o quê aconteceu aqui eu não faço a menor ideia, quando eu acordei tudo já estava pegando fogo, não conseguia levantar, então comecei a gritar por ajuda, e depois de algum tempo, quase sufocado, Zenaya apareceu para me tirar de lá, quando saímos do vilarejo, todos já estavam mortos. Escondemo-nos no mato próximo a caverna e ficamos por lá, até que escutamos uns gritos e viemos atrás de vocês. Ela me disse que tudo isso foi por causa de um cara chamado Herly...
— Espera, o Herly fez tudo isso? Como? – indaguei.
— Sim, na verdade eu não sei como nem o porquê, mas acho que para isso você vai ter que descobrir sozinho.
A conversa parou no instante que a reunião daquele grupo acabou e eles vieram andando até nós, seus semblantes todos sérios, comecei a me preparar para o pior.
— Cory, me desculpe por todo mal entendido. — Disse o sem jeito – Hoje cedo você disse sobre um local onde gostaria de levar todos nós para nos unirmos, bom nós aceitamos seu convite.
Não sabia como me expressar diante daquela noticia em meio aquela situação tão conflituosa. Apenas assenti com a cabeça, e todos pareceram aliviados.
— Vejo que já está muito tarde, acho melhor passarmos a noite por aqui e partimos amanha logo cedo, vocês concordam?
Todos pareceram aceitar a ideia e então nos reunimos dentro da caverna para nos proteger da chuva, em seguida retiramos os alimentos que tínhamos na mochila para fazermos uma pequena refeição e conseguirmos recuperar um pouco da energia daquele dia fervoroso. Nenhuma palavra se quer cortava o som naquele lugar, somente as goladas e dentadas, todos estavam de luto. Reunimos cada um em seus cantos para dormir naquele chão áspero e frio, escutando as goteiras caírem do topo da gruta, pensando nos novos rumos que tomariam nossas vidas.
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