The New Continent
12 Capítulo 11 - Pelos olhos azuis da loira.
Notas iniciais
Loren
05 Fevereiro, 2200, 08:17.
Por muito tempo não pude imaginar que voltaria a estar em paz, sossegada em um canto com quatro paredes, protegida de todos os medos e horrores que assolavam o espaço exterior. Era estranha a sensação de andar vendada por caminhos desconhecidos sem a menor idéia de um fim que me espera. Continuava a seguir, pois não pudera ficar estática no meio de uma ventania.
A luz do sol surgia na ponta da imensidão do oceano, trazendo um conforto passageiro. A brisa tropical entrara por uma das janelas balançando as redes ao meu lado. Fitei ao redor e Will não estava mais lá. Um aperto de angustia fez o coração se acelerar, provocando em mim uma busca imaginária a um lugar de refúgio. Respirei fundo algumas vezes antes de levantar, porque minha intenção real era nem mesmo ter acordado.
Cambaleie até a cozinha e peguei uma fruta em uma das cestas de alimentos, logo em seguida fui até a entrada da cabana e sentei num dos poucos e curtos degraus da escada da entrada, avistando a paisagem enquanto me deliciava com a pequena fruta suculenta, seu gosto era levemente azedo contendo uma textura parcialmente líquida incomum a qualquer outra fruta que já comi.
Olhei meu relógio e me surpreendi ao ver que já estava atrasada para as tarefas do dia, procurei por Tina pela faixa de areia da praia e aproveitei para caminhar um pouco, estranhei ao fato de não tê-la encontrado. Voltei à cabana e subi até o segundo andar, parei no hall central e escutei murmúrios silenciosos de uma conversa de um dos cômodos, parei em frente a uma cortina de folhas e solicitei:
— Olá, posso entrar?
— Loren? — Uma voz perguntou no cômodo a frente.
— Sim, sou eu! — Exclamei.
— Entre fique a vontade — Entrei num cômodo semelhante ao do dormitório do primeiro piso; redes espalhadas pelos cantos; prateleiras e até mesmo a posição das janelas; com exceção de uma escrivaninha posicionada ao fundo do quarto. Berry estava sentada em uma das redes enquanto Tina estava deitada numa ao seu lado. — Algum problema? — Disse Berry com curiosidade.
— Não, na verdade eu ia perguntar a mesma coisa, porque eu e Tina marcamos de nos encontrar hoje mais cedo para pescar e ela não apareceu.
— Desculpe Loren... — Disse Tina em uma voz rouca e falha.
— Tina não acordou muito bem hoje, está ardendo em febre e parece que vai ficar de repouso para o resto do dia. — Afirmou Berry em um tom desanimada.
— Mas... Ela já tomou algum tipo de remédio ou algo parecido? — Indaguei.
— Não temos remédios por aqui, as coisas não são tão simples assim. Ela apenas tomou um pouco da polpa da fruta que lhe trouxe mais cedo... Apesar de que você me deu uma ótima ideia, teria como você ficar aqui com a Tina uns segundinhos eu já volto.
Berry saiu apressadamente do cômodo deixando apenas o silêncio. Andei em direção a rede em que ela estava sentada e instintivamente, Tina olhou para mim:
— Loren, por favor, chegue mais perto. – Aproximei-me devagar pedindo que continuasse a falar. — Isso pode até parecer loucura, afinal nos conhecemos faz uns dois dias, mas pra mim parece que foram anos. Não sei explicar bem, mas confio em você. — A fala foi interrompida por vários recuos de tosses — Então, por favor, eu gostaria de te pedir uma coisa. Se eu não sobreviver, por favor, fique junto com eles, acredite são ótimas pessoas, sendo assim não desista de lutar para sobreviver, não deixe isso passar pela sua cabeça de maneira alguma, a vida é um bem precioso, não desista dela tão fácil assim. Faça com que as coisas possam dar certo. — Suplicou em meio a lágrimas e soluçares.
— Pare com isso Tina, isto é só uma febre qualquer. Logo você ira estar bem novamente. Tenha fé. – Insisti em animá-la.
— Não é bem assim, as coisas são diferentes agora, me tornei um fardo perto de vocês. Bom, lembra quando me perguntou sobre o Oliver. — Confirmei positivamente com a cabeça. — Então, ele morreu desta doença, estávamos procurando por um antídoto para esta febre repentina, quando achamos uns pequenos grãos perto do vale a noroeste do continente, bem ele ameniza os sintomas, mas não foi o suficiente para deixá-lo vivo, creio que comigo isto não será diferente, tenho certeza de que Berry irá pedir para que você vá atrás deles por mim, mesmo sendo perda de tempo.
— Pare, por favor, eu não quero escutar isto de você. Onde foi parar aquela garota forte e determinada a viver e ter a oportunidade de voltar ao mar.
— Eu não consigo nem ao menos ficar de pé, quanto mais voltar a surfar, Loren esse é o fim da linha para mim. Eu apenas te peço para que seja forte, por você e pelos outros. — Suplicou a morena.
— Como você pode me pedir isto, pensando em desistir de si mesma. — Retruquei. — Eu não vou deixar que isso aconteça pela primeira vez eu encontrei paz desde que vim para cá. Eu não vou permitir que essa paz acabe assim... — Berry entra no quarto gritando pelo meu nome, antes mesmo dela continuar... — Eu aceito, eu irei atrás dos grãos.
— Tina já conversou sobre tudo com você não é mesmo. Você tem certeza? — assenti — Tudo bem, Pietra já esta lá embaixo a sua espera, ela irá te auxiliar a qualquer problema. Aqui estão os dados das sementes. — Ela apenas enviou uma mensagem de seu relógio para o meu, abri o documento e um holograma das especificações da semente, estavam todas ali.
Antes de ir passei até a rede, apertei as mãos de Tina e beijei sua testa, desejando uma palavra de incentivo e ela se voltou para mim indagando:
— Por que está fazendo isto por mim? Não há motivo para isto, já que nos conhecemos há poucos dias.
— Antes de vir para cá, eu não tinha a menor chance de viver, vocês de alguma forma me fizeram ter esperança para continuar, além do mais você foi quem melhor me acolheu e talvez esta seja minha forma de agradecer por abrigarem um peso inútil. – Umas gotas de lágrimas decaíam do meu rosto durante o discurso. – Na verdade, estou fazendo isto por nós duas.
Ela sorriu e assimilei aquilo como uma livre aprovação para seguir em frente. Desci as escadas; Berry e Pietra estavam num pequeno cercado da parte dos fundos da cozinha. Berry nos entregou nossas mochilas com os equipamentos e nos instruiu alguns detalhes, nos desejou sorte e se voltou para dentro da cabana. Eu e Pietra seguimos em direção a floresta, ambas focadas e determinadas a cumprir uma missão.
Nunca me imaginei nem perto daquele cenário tendo base as ruas asfaltadas e iluminadas da grande Paris. A saudade latejava em meu pensamento, tudo parecia como um sonho maluco sem fim. Nada daquilo fizera sentido desde que cheguei, e a procura por estas respostas deixava-me a beira do surto. Todo aquele lugar silvestre e infestado pelo natural aguçava meus instintos e inquietava a minha pressa.
O silêncio deixava a viagem pesada, éramos como duas estranhas numa monotonia de ações sequências. Tentei quebrar o gelo com algumas perguntas diretas, entretanto todas ignoradas. Continuamos a caminhar até chegar à margem de um rio repleto de rochas grossas e íngremes, Pietra subiu sobre uma delas e me ofereceu sua mão como ajuda.
— Não precisa, eu posso fazer isto sozinha. – Retruquei.
O arrependimento começou logo na primeira tentativa de subida, quando arrastei o joelho sobre a pedra áspera e ganhei um novo corte personalizado.
Está tudo bem? Tem certeza que não quer ajuda?- Me assustei a ouvir suas primeiras palavras.
Não se preocupe eu estou bem. – Ela agiu de forma indiferente e saiu pulando os pedregulhos com extrema facilidade e rapidez.
Concomitantemente fui revendo seus passos e imitando os devagar com muita cautela, ela esperava do outro lado impacientemente com um semblante entediado. Depois de um enorme esforço veio-me um sentimento de satisfação, e nem mesmo a cara mal humorada da minha companheira me tirou o sorriso.
Percorremos a selva passando por toda a botânica daquele local. Era deslumbrante passear por todo um universo alternativo que aquele lugar nos proporcionara, parecia um mundo de fantasia que de alguma forma tinha vestígios da realidade. Num meio a tanta informação, algo tomou privilégio sobre a minha visão fixando o olhar, era uma criatura semelhante a um pássaro, ele possuía um par de antenas com pequenos círculos transparentes; suas penas brilham em movimento com a sua cor do arco íris por completo juntamente aos seus olhos; tinha uma ao invés de duas patas e um bico curto e arredondado.
Lenta e gradativamente fui me aproximando do “animal” hipnotizada por sua beleza e delicadeza. Ouvia no fundo a distancia a voz Pietra que ecoava sobre minha cabeça, mas não consegui compreender suas palavras. Quando fiquei a centímetros do bicho, uma força maior que a gravidade me fez cair no chão. Era outra criatura semelhante a um chipanzé com garras enormes e chifres retorcidos; sua pele era acinzentada com marcas enigmáticas amareladas; seus olhos eram carmesins e sua boca larga, infestada de dentes de tamanhos variados e afiados almejava o meu corpo.
Fui despertada de um transe vital, entretanto tal situação me levou a ficar em choque. A Saliva amarelada do animal caia sobre o meu rosto, me causando náuseas. Pietra, então, apanhou uma pedra posta ao chão e jogou sobre ele para mudar sua atenção. Sua ação foi um sucesso exceto pelo fato de que a criatura ao reagir, arrastou suas garras sobre as bochechas deixando um arranhão que escorrera sangue.
Pietra corria para afastar a “coisa” quando ele saltou sobre ela. Usava seus braços contra os dele para se proteger. Os dois se remoíam no chão e era perturbador escutar aqueles gritos, tinha vontade de fugir para longe e desaparecer daquele clima de tensão, porém eu não cumpriria meu objetivo e continuaria a ser fraca. Não sabia o que fazer até avistar o animal descamar a pele dos braços da morena.
Não sei o que aconteceu, a cena foi tão rápida e assustadora, que nem ao menos sei como descrever ou explicar. Só tomei conta da situação quando presenciava um serrote em uma das mãos e a cabeça da criatura na outra. Pietra se contorcia de dor, mas estava aliviada por tudo ter acabado. Caí de joelhos no chão e larguei as coisas das mãos, fiquei paralisada sem pensar em absolutamente nada. — Eu havia decepado aquela criatura.
Um longo período de tempo se passou e eu não conseguia me mover até que o pequenino “pássaro” voou até mim se esfregando carinhosamente sobre as pernas, sorri e voltei a controlar novamente o meu eu. Pietra já estava de pé com seus braços enfaixados para estancar o sangue pronta para outro desafio como se nada houvesse acontecido.
— Você está bem? – Perguntei
— Não se preocupe comigo, levante e vamos logo. – Disse a morena Séria.
— Depois disso tudo, você realmente não sente nada. O que é você? Será que eu não mereço nem ao menos um agradecimento. – Falei indignada.
— Me desculpe se abraços não são a minha forma de demonstrar afeto. Na verdade eu prefiro não sentir e, alias não esqueça que eu me arrisquei por você da mesma forma, não lhe devo nada. – Desdenhou a morena séria.
Não podia perder tempo com bobagens, levantei peguei minhas coisas e continuamos a percorrer a mata. O "pássaro" resolveu nos acompanhar voando até repousar sobre meu ombro e adormecer, a partir dali declarei a chamá-lo de Maffy. Andamos em subida o resto do caminho até chegarmos à ponta de um vale, donde pudera observar um horizonte gigantesco e belo, era fascinante e merecedor de uma fotografia. A vegetação das sementes ficava no meio das encostas. Antes de qualquer decisão declarei que está responsabilidade seria minha, com isso comecei a criar coragem e agir.
Deixe minha mochila junto a Maffy. Peguei uma corda amarrei com os equipamentos prendendo os na árvore e desci o vale, quando cheguei ao final, lá estava Pietra e o Maffy recolhendo as sementes dos arbustos.
— Mas... Como chegaram aqui embaixo tão rápido? – Disse descrente.
— Você não aprendeu nada, se não fosse tão convencida, saberia que tem uma rampa de terra logo ali ao lado.
Por um instante repensei o dia e entendi tais decisões. Não precisara eu demonstrar força fazendo tudo sozinha. O sol já estava se pondo e estava na hora de voltarmos. Retomamos toda a trajetória até finalmente está de volta à cabana ao anoitecer. Estava exausta e com fome, entretanto subi a escada animada com as sementes e entrei no cômodo do da alcova. Berry e Tina estavam nos mesmos locais:
— Graças a Deus, que bom que vocês chegaram... Trouxeram as sementes? – Disse Berry preocupada.
— Sim, trouxemos. – Retirei as sementes do bolso e as entreguei a ela, que imediatamente desceu correndo para prepará-las.
Aproximei-me de Tina e ela ardia em febre, seu corpo debatia-se como numa convulsão, tentava acalmá-la numa tentativa falha. Pedia para que Berry se apresasse, logo, em seguida ela trouxe o chá das sementes e deu a Tina, conforme o tempo foi passando seu corpo foi se acalmando e retomando a normalidade. Ficamos esperando ela reagir, todavia não anunciava nenhuma resposta. Berry desceu para ver os ferimentos de Pietra e eu fiquei junto a Tina. Coloquei a mão sobre seu peito e o coração da morena parecia não bater mais.
Fui invadida por uma multidão de emoções, queria gritar, chorar, quebrar tudo em minha volta, no entanto fiquei boquiaberta ali sem demonstrar nenhuma emoção. Não conseguia entender como as coisas podiam terminar daquela maneira.
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