The Neighbourhood
1 Matt Brenner
Notas iniciais
Não lembro de muita coisa da noite passada. Acho que foi uma noite bem mórbida, quer dizer, devo ter bebido bastante, não tenho certeza se fui para casa com alguma garota. Minha cabeça dói bastante, talvez por conta da música alta da balada. A noite passada foi um completo borrão, porém isso que deixa tudo estranho, nunca me esqueci das noites por ter bebido, creio que tenham colocado alguma droga dentro de minha bebida. Se foi isso que aconteceu, tenho sorte por estar bem, não me machuquei, não sinto dores, além, é claro, da minha cabeça que está quase explodindo. Também acho que não machuquei ninguém, caso isso tivesse ocorrido, eu não me perdoaria. Eu curso medicina. Eu tento curar as pessoas, e não as machucar.
Enfim, tento tirar esse pensamento de minha cabeça, apesar que forço minha memória a lembrar do que eu esqueci. Levanto-me vagarosamente de minha cama, estou quebrado, mal consigo me sustentar. Mas isso é normal depois de noites assim. Ponho uma cueca qualquer que pego de meu armário, ela era azul. Logo em seguida, acho uma camiseta gola V de mesma cor e visto-a.
Faíscas voavam em minha cabeça. Essa foi a primeira lembrança que consegui identificar. Faíscas. Fogo. O que isso significava?
Peguei uma bermuda, e me apressei em vesti-la. Escutei minha mãe gritar meu nome, para o café, eu acho.
Ah, minha mãe... ela é a melhor pessoa que alguém poderia conhecer, é doce e meiga, é gentil com todos, inclusive comigo. Apesar de tudo que já aprontei, de tudo que já fiz ela passar, ela continua comigo, dando o mesmo amor que recebo desde que nasci. Com certeza eu sei que ela desaprova a maioria de minhas ações, mas pais são assim mesmo. Falando em pais, o meu está morto. Foi a alguns anos, ele estava muito doente, e ninguém conseguiu salvá-lo. E, logo, será ela.
Minha mãe tem câncer.
Isso pode parecer egoísta de minha parte, quer dizer, eu vou para a balada enquanto ela fica aqui sozinha, correndo risco de morte. Mas ela mesma que diz que preciso ter essa diversão de vez em quando. E, após muito insistir, ela consegue fazer com que eu vá.
Mais uma vez ela me chama, e eu saio de meu quarto como se nada tivesse acontecido.
— Olá, bom dia! — Ela me cumprimenta, com um sorriso largo.
— Bom dia, mãe. Estou quebrado. — Digo passando a mão na nuca.
Vou em direção ao banheiro e adentro-o, ela continua falando comigo.
— Ah, então desculpa por acordá-lo tão cedo. Mas é que lembrei que você tem faculdade hoje. — Ela sorri baixinho. — Lembra?
— Lembro sim. Obrigado, então. — Minha voz batalhara contra o barulho de minha urina chegando ao vaso e vencera, ficando levemente mais alta.
Ao terminar, saio e olho-a a luz dos raios de sol matinais. Ela é linda. Seus olhos juntos, cabelo bem repartido caídos até seu cotovelo, seu nariz fino e pequeno. Tudo. Ela consegue, mesmo com a doença, se preocupar com a aparência, procura sempre ficar “apresentável” para as outras pessoas.
— O que tem para comer? — Pergunto, disfarçando minha paralisia momentânea que tive ao olhá-la.
— Torrada. — Ela colocava as xícaras na mesa.
— Ótimo! Você é incrível.
Após meu comentário, sentamo-nos e comemos. Vez ou outra algum dos dois puxava assunto. Nós não falávamos sobre meu pai, pouco antes dele morrer, ele se separou de minha mãe. Ele morreu de esclerose amiotrófica. Aprendi em meu curso que não existe uma cura definitiva para tal doença, porém tem como retardar os efeitos a fim de ganhar alguns anos a mais de vida. Não aconteceu com ele.
Minha cabeça lateja, e escuto um grito.
Quando menos imagino, estou ofegando, com as mãos apoiadas ao joelho, e com o olhar vazio e distante. Acho que lembrei de algo. Não sei o quê, nem como. Apenas algo que aconteceu na noite passada. Levantei da cadeira, cambaleando, e sai batendo nos móveis. Minha mãe ficara preocupada, provavelmente perguntando o que estava acontecendo. Mas a única coisa que ouvia, eram barulhos, ao longe, que não faziam o menor sentido. Não conseguia responder nada.
O sangue sucedeu os gritos que ecoavam em minha cabeça. Não tinha certeza se naquele momento eu estava gritando de terror do que estava acontecendo, eu estava fora de si. Virei o rosto bem a tempo de ver minha mãe correndo de casa, acho que foi chamar alguém.
Eu sentia que logo minha cabeça explodiria. A dor, seguido de gritos e sangue. O que isso significava?
Segui até o banheiro para tomar algum remédio, e jogar uma água cara. Entrei sem me preocupar em fechar a porta. Encontrei um remédio que não consegui ver o nome direito, porém o formato dele me era familiar. Tomei-o, e coloquei um pouco de água vinda da torneira na boca. Engoli e esperei que o efeito fosse rápido.
Saí do banheiro, para chamar minha mãe e dizer que já estava tudo bem. Não era verdade, mas do jeito que ela estava, acho que não seria uma boa ideia ela correr por aí por minha causa.
A dúvida continuava a rondar minha cabeça, o que eu teria feito ontem?
Eu matei alguém?
Não! Não posso ter feito isso. Não sou do tipo de pessoa que faria isso. Não parece certo, e algo dentro de mim diz que eu não o fiz.
Enquanto eu me perguntava essas coisas, ia em direção a porta, que parecia ligeiramente mais distante que o habitual. Meus passos não faziam barulho como o habitual. Os sons dos pássaros já não soavam como o habitual.
Tudo estava diferente, não sei como, moro aqui a mais de dez anos, e isso nunca me aconteceu.
Me senti deslocado, como se não pertencesse mais ali.
E não pertenço mesmo.
Esse pensamento me veio assim que encosto na maçaneta da porta. Levo um pequeno choque com o toque frio de meus dedos no metal, e sou trago de volta a realidade. Minha cabeça ainda doía, e mil coisas passavam e não deixavam eu assimilar o que estava acontecendo.
Giro a maçaneta.
A porta se abre.
Vejo seu rosto. E sua mão erguida com uma faca nas mãos.
A faca vem de encontro a minha barriga. Sinto sua entrada, rasgando cada tecido meu.
Cuspo um pouco de sangue. Não demora muito para sentir uma leveza no corpo e cair no chão, quase desfalecido. Com os olhos ainda abertos, vejo a rua vazia. Eu morreria e ninguém estaria lá para testemunhar. Escutei os passos de meu assassino ecoando pela calçada fria.
Minha camisa azul, agora ganhara uma tonalidade avermelhada.
Passados alguns segundos, da última casa da rua, vejo a porta se abrir e minha mãe sair de lá com alguém.
Não consegui mais assimilar nada.
Meus sentidos iam se acabando um por um. Não sentia mais o toque do chão gelado em minha pele; depois o canto dos pássaros acabara; em seguida não senti mais o cheiro das plantas ao meu redor; me senti mudo, apesar que não falara nada desde então; e, por fim, minha visão escureceu.
Eu parti.
Fale com o autor