The Nature Kingdom
3 Por que eu?
Notas iniciais
Revirou-se na cama, levantando-se lentamente, por causa do sono. Olhou para o relógio sobre o criado mudo que havia do lado de sua cama. Seis horas da manhã; ainda era cedo. Normalmente, ele acordava às seis e meia. Mesmo assim, raios de sol invadiam seu quarto pela janela, cuja cortina estava aberta, conferindo ao ambiente uma luminosidade bastante incômoda aos olhos de quem acabara de acordar.
Dirigiu-se ao banheiro, desanimadamente, prevendo o longo dia que teria pela frente. Primeiramente, apoiou-se na pia com as duas mãos; estava um pouco sem forças ainda, já que não havia tomado seu revigorante café da manhã. Depois, olhou-se no espelho, tentando lembrar-se de quem realmente era. Não que houvesse esquecido, obviamente, mas, em meio a tanto sono, essa era uma das poucas coisas que vinham à sua cabeça.
Max Crowe era um adolescente de quinze anos comum. De cabelos e olhos profundamente negros, possuía altura adequada à idade; nem muito alto, nem muito baixo. Magro, mas nem tanto; de pele branca, mas que, às vezes, era um pouco rosada.
Vivia em Concordia, uma pacata cidadezinha do Kansas, com menos de seis mil habitantes. Morava com seus pais em uma bela casa de dois andares e que possuía um grande quintal. Frequentava a escola normalmente, tinha planos de se tornar um grande engenheiro no futuro. Sua vida não era a mais emocionante, mas ele vivia bem.
Era um garoto tímido para os desconhecidos, mas bem comunicativo com os amigos, que não eram muitos. Às vezes, gostava de ficar na dele, lendo livros ou assistindo televisão, mas na maior parte do tempo, gostava de ficar com os amigos, fazendo o que quisessem fazer. Era estudioso e bastante esforçado. Sabia que teria que se dedicar muito para chegar aonde queria. Além disso, era criativo também. Nada de muito extraordinário, mas conseguia bolar rápidas ideias para solucionar problemas.
Sua maior qualidade, talvez, fosse o empenho que colocava nas coisas que fazia e disso se orgulhava. Com relação aos defeitos... Bem, talvez fosse sua timidez, mas também havia a desconfiança. Para ele, todo mundo mentia a maior parte do tempo. Sabia que não devia pensar assim, mas não conseguia mudar. E isso, associado com a timidez, impedia-o de conhecer novas pessoas, fazer novos amigos e viver momentos mais emocionantes.
Qualidades e defeitos à parte, ele era normal. Muito normal. Achava até que sua vida era desinteressante demais. Não tinha uma mania estranha ou um parente cheio de histórias para contar. Nunca vivera uma grande aventura e nem mesmo uma grande paixão. Adorava matemática. Isso era um pouco estranho, já que a esmagadora maioria dos jovens não possuía essa mesma paixão. Em compensação, odiava Linguagens e tinha problemas em História, como muitos outros. Seu esporte favorito era o ciclismo; não gostava de legumes em geral; e amava música eletrônica. Normal.
Depois dessas rápidas lembranças, Max conseguiu, finalmente, voltar ao normal, menos sonolento agora. Afastou-se da pia, na qual estava apoiado anteriormente. Passou a mão levemente por entre seus fios negros de cabelo. Ao olhar-se novamente no espelho, ele parecia mais aceso, mais acordado e mais vivo, podendo sentir isso, apesar de ainda não ter tomado o tão almejado café da manhã.
Quando voltou ao ambiente de seu quarto, pôde perceber, conforme mostrava o relógio, que só se passaram breves cinco minutos. Decidiu, assim, sair dali e descer até o primeiro andar de sua casa, onde a cozinha encontrava-se. Talvez, poderia achar alguma fruta por lá.
A claridade dos outros ambientes era um pouco menor, forçando-o a acender algumas luzes. Desceu rapidamente as escadas, quase escorregando por causa das meias, e, ao chegar à cozinha, ficou levemente surpreso com a presença dos pais. Se havia algo engraçado no cotidiano daquela família era o fato de que era ele quem acordava os pais, e não o contrário. Dessa forma, não era para o casal estar ali, mas eles estavam.
— Oi! Bom dia. — Disse o garoto, sorrindo.
— Olá, filho! — Disseram os adultos, em uníssono.
— Está com fome? — Perguntou a mãe.
— Poderia comer um boi por inteiro, literalmente. — Respondeu.
O pai sorriu. Por ser um homem relativamente sério e pensativo, ver o pai com um sorriso no rosto era bem legal. Às vezes, aquelas feições alegres pareciam trazer certa calma ao ambiente.
Os dois sentaram-se à mesa, enquanto a mãe preparava algumas torradas com geleia para eles. O pai pegou o jornal que estava sobre a mesa e começou a se deleitar com sua leitura. Max observou-o por um tempo.
Ele vestia seu tradicional roupão azul-marinho, que em muito se assemelhava com o da mãe, exceto pelo fato de que o dela era suavemente amarelado. Mesmo sendo cedo, ele já estava com seus óculos discretos e elegantes, uma vez que necessitava deles para ler. Seu cabelo grisalho estava um pouco bagunçado, mas quase não dava para notar. Seu rosto era magro, porém saudável e sua pele possuía uma coloração amarelada, levemente queimada pelo sol. Além disso, sua face começava a apresentar algumas rugas; sinais da idade.
Em geral, ele não se parecia muito com o filho. Inegável era o fato de seus comportamentos terem traços semelhantes. O homem parecia ter sido como o garoto na juventude: reservado para a maioria, mas aberto com quem convivia e gostava. Mas as características físicas estavam longe de assemelhar-se. O pai não possuía olhos profundamente negros e nem pele ligeiramente rosada.
Os pensamentos do jovem foram interrompidos pela mãe, que colocou um prato com duas torradas em frente a ele. Depois, contornou a mesa, colocou outro prato com torradas em frente ao marido e, finalmente, sentou-se.
A mulher era apenas três anos mais nova que o pai de Max, mas a diferença parecia muito maior. Em qualquer situação, ela conseguia manter-se bonita e jovial e Max apreciava tal qualidade. Seu cabelo era castanho, às vezes parecendo um pouco avermelhado. Sua pele, sem sinais da idade, era branca como a do filho, mas nunca rosada. Assim como os do homem, seus olhos não possuíam a coloração negra presente nos do adolescente; eram simplesmente castanhos. Max acreditava que não conseguia encontrar alguns de seus traços físicos nos pais, porque só uma combinação perfeita da aparência da mãe com a do pai poderia trazer tais características a ele. Na maior parte do tempo, preferia ignorar todas essas bobagens.
Quando terminou a refeição, o garoto voltou ao quarto correndo, já que gastara bastante tempo ali pensando e, provavelmente, começava a se atrasar. Trocou de roupa, ajeitou o cabelo sem muito zelo e escovou os dentes, tudo de forma bem rápida. Desceu as escadas novamente, deparando-se com a mãe, que o esperava com sua mochila. Contente, ele beijou-a em sua bochecha, pegando a mochila. Depois, deu um forte abraço no pai, que se mantinha de pé ao lado da esposa.
Pronto para sair, Max abriu a porta da sala de estar, sendo tomado por raios de sol e por um leve vento frio. Depois de alguns passos para fora de casa, ele olhou para trás, dirigindo o olhar aos pais. É... Poder chama-los de família é realmente muito bom.
–//-
Aquele dia parecia ser só mais um na vida do adolescente. Era uma quarta-feira de verão, com clima agradável. Até agora, as aulas foram completamente normais; algumas tediosas e outras nem tanto. Nesse exato momento, por exemplo, o Sr. Lewis, professor de Geografia, explicava alegremente a economia da África Subsaariana.
Max estava quase pegando no sono. Ele deixou sua cabeça cair lentamente sobre o caderno, lembrando-se do tanto de coisas que tinha de fazer ao chegar em casa. Preso em seus pensamentos, levou enorme susto quando Kate, sua melhor amiga, que se sentava atrás dele, deu um chute em sua cadeira. Levantando-se levemente, chegou mais perto e cochichou:
— Você já dormiu semana retrasada. Não lembra o que ele disse? Max, se você dormir mais uma vez na minha aula, teremos de chamar os seus pais. — Ela fazia excelentes imitações.
— Quem disse que eu estou dormindo? — Perguntou ele, levantando a cabeça rapidamente.
— Ah, não, imagina. Está só treinando para morrer... — Brincou a garota.
Ele olhou para trás, encarando a amiga. Ela era bem bonita, na verdade. Era loira e possuía olhos azuis, o que encantava vários garotos. Mas não Max, é claro. Eles eram amigos há bastante tempo e, apesar de algumas discussões de vez em quando, não conseguiam se imaginar tendo outro tipo de relação.
De repente, o chão começou a tremer. Os alunos trocaram olhares rapidamente, encarando o professor logo em seguida. Até mesmo ele parecia assustado. Era um terremoto, de fato. Não parecia ser muito forte, mas ainda sim representava perigo.
— Fiquem debaixo de suas carteiras, crianças. — Ordenou o homem, agachando-se logo em seguida.
Antes que Max pudesse fazer qualquer coisa, algo do lado de fora chamou sua atenção. Ele olhou pela janela e percebeu algo como uma nuvem de fumaça, descendo dos céus lentamente. A fumaça era azulada e não muito densa. O garoto acompanhou a nuvem com os olhos, enquanto ela descia. Sem pensar muito, levantou-se, de tão grande que sua curiosidade era.
— Max! Debaixo da carteira! Agora! — Gritou o professor.
Ele não moveu um músculo sequer, nem para obedecer, nem para responder. Apenas continuou observando a fumaça. Quando finalmente atingiu o chão, ela começou a tomar formas. Formas humanas. Duas, para ser exato. A primeira era um homem bem velho, de barba comprida e branca, assim como seus cabelos. Vestia algo entre uma túnica e um manto – era difícil definir – de um azul claríssimo. Portava um cajado também. Já a segunda figura era uma mulher, um pouco mais jovem e, com certeza, mais bonita. Tinha cabelos longos, castanhos e cacheados. Vestia um vestido verde bastante bonito, de aparência medieval.
Repentinamente, Max sentiu uma estranha atração pelos hominídeos. Uma sensação de calor invadiu seu corpo, fazendo-o suar. Não era como se ele gostasse das criaturas ou algo do tipo. Apenas sentia que devia se aproximar.
Indo contra todas as indicações, começou a correr, em direção à porta. Passou direto pelo Sr. Lewis, que dirigiu um olhar furioso a ele, mas não falou nada. Toda a classe encarou o garoto instantaneamente, incluindo Kate, que, por instinto, resolveu segui-lo.
Ao sair da sala, a dupla olhou de um lado para o outro, verificando se não havia ninguém no corredor. Por sorte, o lugar estava vazio. Com o coração acelerado, eles seguiram rumo à entrada do colégio, passando por várias outras salas. Quando finalmente saíram, puseram-se a correr pelo gramado, em direção às formas humanas.
Estranhamente, à medida que iam se aproximando, o terremoto ia suavizando-se, até parar por completo. Max sentiu que o calor em seu corpo fazia o mesmo. Os hominídeos olharam para ele, sorrindo, e começaram a cochichar entre si. O adolescente continuou correndo, até ficar de frente a eles.
— Olá, jovem homo sapiens! Nós viemos em paz, com o intuito de fazer uma grande proposta. — Anunciou o homem, com uma voz tão velha quanto sua aparência. Apesar disso, era imponente e bastante vigorosa. — Meu nome é Faon, sou um dos Inspetores da Cidade Mãe. E essa aqui — disse, fazendo referência à mulher — é Gaia, dona de um planeta.
Por um momento, Max ficou em silêncio. Parecia estar em estado de transe, hipnotizado pelos hominídeos, que, curiosamente, falavam sua língua. Quando voltou ao normal, um turbilhão de pensamentos invadiu sua mente, mas ele decidiu ignorá-los, respondendo à Faon rapidamente:
— Meu nome é Max. E essa aqui é minha amiga Kate. Desculpe-me, mas... Acho que não estou entendendo nada por aqui. Na verdade, nem sei por que estou aqui, falando com vocês. — De repente, sentiu que estava um pouco tonto.
— Ora, você está aqui por que eu chamei! — Exclamou o velho, animadamente. — Sei que sua jovem cabeça talvez demore um pouco para compreender, mas... Tudo vai estar bem claro daqui a pouco! Deixe-me só achar o que eu preciso.
E dizendo isso, o homem começou a procurar por algo nos bolsos laterais de sua túnica. Depois de alguns minutos, quando finalmente achou o que queria, tirou de lá um pequeno embrulho de papel. Desdobrou-o, revelando uma pequena quantidade de um estranho pó roxo. Colocou uma pitada do pó em sua mão livre e soprou-a no rosto de Max. O garoto se assustou inicialmente, mas decidiu não reagir.
— Apenas respire normalmente. — Instruiu Faon, em tom calmo.
Depois de hesitar por um momento, Max fez o que o homem dissera. A princípio, sentiu uma sensação bastante incomum, como uma coceira no nariz, que adentrava cada vez mais em suas narinas. Mas, depois de alguns segundos, acabou sentindo uma forte dor de cabeça. A mais forte que já sentira em toda a sua vida.
Era como se um caminhão lotado de informações estivesse despejando-as em sua mente. Várias imagens vieram à sua cabeça. Imagens de vários lugares, pessoas e épocas, não só da Terra, mas também de outros planetas e até mesmo de outras galáxias. O estranho é que ele jamais vira coisa parecida. Nem mesmo em filmes de ficção científica.
De repente, começou a entender a origem do Universo e como era seu funcionamento. Palavras como Superiores, Supervisores e Inspetores vieram em mente, junto com as imagens. Querendo entender, ou melhor, conferir o que havia acontecido, perguntou à Faon:
— O que... Foi isso? — Ele mal conseguia pronunciar as palavras com clareza. Estava quase que balbuciando.
— Isso, meu garoto, é a Verdade. Cada planeta, povo e ser tem sua própria concepção sobre o Universo e sua existência em geral. Existem várias religiões, credos e conceitos, mas só a Verdade dos Superiores é a real. — Explicou o velho, dando uma pausa. — E agora, para não deixar a mocinha curiosa...
Ele colocou mais um pouco do pó em sua mão livre, soprando-o em Kate. Por um momento, nada aconteceu. Mas em poucos segundos, a garota já estava boquiaberta, recebendo as mesmas informações que Max recebera. Quando voltou ao normal, olhou alegremente para Faon. Seus olhos brilhavam de felicidade.
— Isso é simplesmente incrível! — Exclamou a loira.
— O que eu ainda não entendi — disse Max, depois de alguns segundos — é a razão de sua vinda até aqui. O que exatamente vocês querem comigo?
— É aí que a situação se complica. — Disse o homem, dando uma pausa e respirando profundamente, como se estivesse elaborando uma boa explicação. — Quando eu estava inspecionando o planeta de Gaia, coisas que não deveriam acontecer aconteceram.
— Como assim? — Perguntou o jovem, curioso à história.
— Só eu posso fazer modificações em meu planeta. — Falou Gaia, depois de tanto tempo calada. — E um animal apareceu por lá, justo quando Faon estava fazendo a inspeção.
— Mas o que isso tem de errado? — Perguntou Kate, igualmente curiosa.
— Não fui eu quem colocou aquele ser lá. Esse é o problema. — Esclareceu a moça. — Eu só tinha colonizado meu planeta com espécies vegetais.
— Ou seja, alguém estava tentando sabotar a inspeção. — Acrescentou Faon.
— Mas você não é a única pessoa que pode modificar seu planeta? — Perguntou Max, um pouco confuso.
— Existem alguns seres, mais poderosos, magicamente falando, que podem fazer algumas modificações também. — Explicou o homem. — Os Inspetores, por exemplo.
— O fato é que quando chegamos à Central de Inspeção, havia um suposto incêndio acontecendo. — Continuou Gaia.
— Decidimos, bravamente, seguir até a origem do incêndio. A essa altura, eu já estava achando tudo muito estranho. Afinal, Inspetores têm poder suficiente para apagar qualquer fogo e há vários Inspetores na Central, sempre.
— E quando chegamos lá... Bem... Não havia incêndio algum. Era só um dispositivo capaz de produzir fumaça.
— Então era tudo uma armação? — Perguntou Kate.
— Positivo. — Afirmou Faon.
— Mas quem armou o incêndio é a mesma pessoa quem sabotou a inspeção? — Questionou Max.
— Sobre isso ainda não temos certeza, mas achamos que um grupo poderoso e influente pode estar envolvido. Também não temos muita certeza quanto ao objetivo disso tudo, mas, provavelmente, envolve mudança de Registros ou conquista de poder. Talvez as duas coisas.
— Tá, mas... Como você acha que podemos ajudar e... Sem querer ser interesseira, mas o que ganhamos com isso? — Perguntou Kate.
— O que vocês ganham com isso? Bem... Além de prevenir uma possível catástrofe Universal, acho que ainda posso oferecer um pouquinho mais. — Disse Faon. — A paz na Terra, quem sabe?
Max e Kate trocaram olhares. A paz mundial? Parecia coisa de filme de ficção. Era simplesmente um sonho para milhares, até mesmo milhões de pessoas. Sem mais conflitos, sem mais guerra, sem mais discussões desnecessárias... Parecia impossível, sim. Mas ainda assim, parecia muito bom.
— Todo e qualquer ser devidamente feliz. — Continuou o velho. — E para isso, meus jovens, vocês só têm que concordar em embarcar nessa jornada comigo e com Gaia.
Max deu um passo para trás, repentinamente, com um mau pressentimento invadindo sua mente. Ele já passara por aquilo cerca de um milhão de vezes, mas não conseguia evitar. Era a desconfiança, começando a atuar. Por que alguém confiaria em um simples garoto para salvar todo o Universo? Aquele homem realmente acreditava que eles tinham alguma chance de conseguir? O que tinha por trás daquilo tudo?
Quando percebeu, todos estavam olhando para ele, um pouco assustados. Faon abriu a boca para dizer ou perguntar algo, mas, rapidamente, o jovem o interrompeu:
— Por que eu?
Fale com o autor