The Nature Kingdom
9 Descobertas
Notas iniciais
— Sapo? Que sapo, Kate? — Perguntou Gary, com um tom de curiosidade.
Ele agachou-se também, aproximando-se da amiga e do arbusto que ela investigava. A garota apontou para determinado ponto em meio às folhagens. Em tal ponto, parecia haver algo alaranjado, de colorido bem vivo. Não dava para ver muita coisa, mas, analisando um pouco melhor, os adolescentes chegaram à conclusão de que aquilo era uma pequena pata, com quatro dedos extremamente magros.
— Olhe, olhe. Parece que está se movendo. — Comentou Kate, em um sussurro.
Cada vez mais curioso, Max juntou-se aos amigos, cerrando as pálpebras, em uma tentativa de melhor enxergar a criatura.
De fato, o animal se movia, bem lentamente. Aos poucos, foi se revelando, perdendo a timidez. Primeiro, mostrou sua face, que era dona de uma tonalidade esverdeada, bem mais viva do que o verde das folhas que o cercavam. Seus olhos eram marcantemente arredondados e levemente saltados. Possuíam uma coloração laranja avermelhada e pupilas profundamente negras e estreitadas, como as de um gato. Os jovens comtemplavam, admirados, o anfíbio até que, de repente, saltou sobre o pescoço de Kate, assustando a todos.
— Tira esse treco de mim! — Gritou a loira, caindo no chão e debatendo-se incontrolavelmente.
— Desculpe-me, senhorita! — Respondeu o sapo, saltando para longe da garota.
— Eu odeio sapos! Eles são nojentos! — Reclamou, voltando ao seu estado normal.
Depois que a agitação havia acabado, Max se aproximou do bicho, que agora se resguardava em um canto. Gary permanecia agachado, ainda em frente ao arbusto, mas virado na direção do pequeno ser. Kate afastava-se cada vez mais, cruzando os braços e resmungando, em baixo tom, mais coisas sobre animais rastejantes e grudentos.
Repentinamente, Max se deu conta de que conhecia aquela espécie, provavelmente, de alguma aula de Biologia. Tudo ia perfeitamente ao encontro dos detalhes que conseguia lembrar. Patas alaranjadas, corpo em um tom vibrante de verde, contando ainda com alguns detalhes em azul e amarelo nas laterais. Aquela só podia ser uma rã de olhos vermelhos. Claramente, poderia ser classificada com algum nome difícil, em latim, mas disso o garoto jamais se lembraria.
— Oi — disse ele, um pouco sem jeito. — Como você se chama? Quer dizer... Você tem algum nome?
— Não, não, não, cara, tudo errado — exclamou Gary, aproximando-se do parceiro. Seu tom de voz era alto e agitado, contrastando com o de Max. — Quando um animal fala, a primeira pergunta a fazer é por que diabos essa criatura tá falando!
— Respondendo à sua pergunta e já me apresentando, — começou o sapo, olhando fixamente para Max — meu nome é Ducere.
— Du quem? — Perguntou Gary, achando o nome bastante bizarro.
— Ducere, meu rapaz. — Repetiu o anfíbio, calmamente.
— Tá, tudo bem. Isso não explica a minha pergunta.
— Calma, Gary! Deixa o sapo na dele! — Disse Max, irritado com o amigo. Se havia uma característica comum entre Kate e Gary, e entre a maioria das pessoas na Terra, era a falta de paciência. A cada dia, a vida cotidiana parecia fazer questão de apressar a todos, fazendo com que quisessem sempre uma resposta ou uma tomada de decisão o mais rápido possível. E ele não podia culpá-los por isso; o mundo vivia dessa forma.
— Desculpa. — Disse o moreno, ligeiramente envergonhado.
— Creio que uma explicação, meu jovem, não é muito necessária — declarou Ducere. — A fala é apenas uma maneira de comunicação entre dois ou mais seres. No caso, eu e você.
— Ele fala igualzinho a Faon, isso não pode ser boa coisa. — Comentou Kate, se aproximando um pouco.
— Eu só acho estranho um animal irracional estar usando esse tipo de comunicação. — Respondeu Gary, ignorando a fala da amiga.
— Cale a boca, Gary! — Ordenou Max, ainda irritado.
— Pelo jeito, vocês não são daqui, não é mesmo? — Perguntou o anfíbio, mudando de assunto. Ele parecia observar cuidadosamente cada detalhe dos jovens, desde o pijama até as expressões faciais.
— É, nós viemos da... — Max começou a dizer, mas interrompeu-se e encarou os amigos. Talvez, aquela não fosse a hora de contar toda a verdade. — Nós viemos de bem longe, digamos assim. — Concluiu, sorrindo.
— E não estão aqui há muito tempo, estou certo? — O sapo tornou a perguntar. Parecia estar desconfiado, o que era perfeitamente normal.
— Sim, está — respondeu Max, rapidamente. — Acho que, daqui a pouco, completará um dia.
— Agora me diga, anfíbio, você vive por aqui, na floresta? — Gary indagou, aproximando-se mais um pouco.
— Sim, meu rapaz, eu vivo por aqui. Ocasionalmente, vou à cidade e... — Ducere começou a responder, mas foi interrompido por Kate, que, saindo de onde estava, esquecia-se do susto que tomara.
— Você disse cidade!?
— Sim, eu disse — respondeu o sapo, fazendo cara de desentendimento. — Por que tamanha surpresa?
— Bem... — começou Max — Nós ainda não conhecemos tal cidade.
— Então é pior do que eu pensei! — Exclamou o animal, encolhendo-se e balançando a cabeça, como se quisesse negar suas conclusões mentalmente. — Vocês vieram de algum lugar realmente longe daqui. Talvez, de algum lugar além das fronteiras!
— O que você quer dizer com fronteiras? — Gary perguntou, cada vez mais curioso.
— Nada disso importa agora! — Exclamou Kate, aparentemente feliz. — Você tem que nos levar até essa cidade. E imediatamente!
— Tá maluca, Kate? Ainda tá de noite. — Lembrou Gary.
— Gary está certo — constatou Max. — Não podemos ir muito além agora. Seria perigoso demais. Temos de voltar à cúpula e dormir. Aliás, — continuou, após uma breve pausa, coçando o queixo, como se estivesse tendo uma ideia — por que você não vem com a gente, Ducere?
— Agora é você quem está pirando, Max. — Disse a garota, em tom de desaprovação.
— Você aceita? — Perguntou Max a Ducere, ignorando completamente a acusação da amiga.
— Bom... Acho que não vejo nada de errado nisso.
Max, então, fez sinal para que o anfíbio pulasse em seu ombro, como uma forma de carona. O sapo rapidamente respondeu ao gesto e, em pouco tempo, ele e o jovem já andavam de volta à cúpula.
Gary não precisou pensar duas vezes para acompanhar o amigo, saindo ligeiramente de onde estava. Kate, porém, apenas virou-se para acompanhar, com os olhos, o andar descontraído do grupo. Suas feições eram de espanto e indignação: a mesma cara que sempre faz quando não quer que algo aconteça. Depois de alguns segundos em silêncio, perguntou, vendo que os amigos estavam realmente decididos de seus atos:
— Gary, você ainda concorda com tudo isso? Como pode?
— Desculpe-me, mas Ducere tem razão — respondeu ele, sem se dar ao trabalho de olhar para trás. — Não estamos fazendo nada de mau.
— Que se dane, então! — Gritou a garota. — Vão sem mim!
Apesar da fala, a adolescente pôs-se rapidamente a acompanhar os companheiros. Definitivamente, não concordava com a ideia de se envolver com mais um desconhecido. Principalmente, quando o desconhecido era um sapo falante. Mas, para sua infelicidade, sabia que seu medo não a deixaria durar por muito mais tempo se estivesse sozinha.
–//-
Brevemente, eles chegaram à cúpula; a poucos passos dela, na verdade. A essa altura, Kate já andava lado a lado dos amigos, porém sem olhar diretamente para eles. Do lado de fora, já era possível avistar Gaia dormindo tranquilamente, no mesmo lugar de antes, um pouco afastada do buggy.
Tomando o maior cuidado possível, o grupo adentrou a cúpula silenciosamente. Gaia não poderia suspeitar que eles estiveram fora. Tudo o que menos queriam agora eram mais problemas. Enquanto os amigos já se preparavam para dormir novamente, Max parou em frente ao buggy e perguntou:
— Onde você geralmente dorme, Ducere? — Ele sussurrava.
— Bem, eu tento variar o máximo que posso, apesar de não haver muitas opções — o anfíbio respondeu, parecendo ponderar sobre o que falara. — Mas, em geral, costumo dar preferência às árvores, que são mais seguras.
— É... Acho que não temos nenhuma árvore aqui, dentro da cúpula... — Max comentou, quase como uma lamentação.
— Ah, não se preocupe — disse Ducere, percebendo o pesar da fala do garoto. — Aquelas pedras perto da cachoeira vão ser mais do que satisfatórias.
Assim, o animal desceu do ombro do jovem com um gracioso salto e dirigiu-se, rapidamente, às pedras citadas. Max ficou observando o sapo. Estranhamente, o colorido de seu corpo parecia menos chamativo ali. E ele era tão pequeno, que Gaia, quando acordasse, poderia nem notar sua presença. Além disso, a mulher viera de outro planeta, entendia de magia – ainda que um pouco menos do que Faon – e conhecia a Verdade há mais tempo. Sendo assim, não ficaria tão chocada com o fato de Ducere poder falar e nem faria o mesmo escândalo que Gary e Kate fizeram.
Max saiu rapidamente dessa linha de pensamento e concentrou-se na tarefa de preparar-se para dormir. Dirigiu-se para o mesmo local onde antes tentara dormir – sendo interrompido pela rebeldia de Kate –, o buggy. Dessa vez, ele e Gary dormiriam dentro do veículo, enquanto a garota ficaria do lado de fora, em razão de sua insistente birra, que, aos poucos, ia sumindo.
Não chegou a olhar a foto dos pais novamente; acabou esquecendo. Tantas coisas para pensar e refletir... A chegada de Ducere, a ida de Faon, as criancices de Kate, o recente encontro com os Minerradorres. Eram tantos pensamentos, que acabou adormecendo rapidamente.
–//-
Max foi o primeiro a acordar. Quando tentou se levantar, sentiu uma incômoda dor nas costas. Dormir no banco de um veículo não era algo muito confortável, ainda mais quando se tratava de um buggy, com seu tamanho reduzido. Por isso, acabou desistindo e permanecendo deitado, pensando.
Um dos primeiros assuntos que vieram à sua cabeça foi a teimosia, rebeldia, infantilidade e imaturidade de Kate – algo que estava irritando-o há tempo. Rapidamente, lembrou-se de quando ainda estavam na Terra, depois do primeiro contato com Faon e Gaia. Naqueles dias, a amiga estava encorajando-o cada vez mais. Talvez, sem esse apoio, ele teria desistido, recusando o convite do mago. Mas assim que o grupo embarcou na missão, ela pareceu mudar de opinião instantaneamente. Será que ela não queria ter vindo? Pensou. Ela podia ter recusado. Ela sabia disso...
De repente, um barulho discreto – aparentemente, vindo de fora da cúpula – interrompeu suas reflexões. Apesar de estar protegido ali dentro, Max sentiu uma onda de ansiedade e aflição percorrer seu corpo. Seriam os mineradores?
Levantou-se o mais rápido que pôde, tentando ignorar a dor nas costas. Tomando o cuidado de não fazer muito barulho, andou até a margem da área protegida pela cúpula. Dirigiu um olhar levemente assustado para a floresta, procurando a origem do som. Mas o que viu conseguiu, nem que por alguns segundos, aliviar toda a tensão que guardava.
Faon andava em sua direção, com a ajuda de seu velho cajado. Trajava as mesmas roupas de sempre, mas agora elas tinham um aspecto mais limpo e elegante. Porém, ele parecia um pouco mais cansado, levemente abatido. Pelo jeito, as viagens intergalácticas e a busca por ferramentas não foram algo muito relaxante, o que era compreensível.
O mago continuou a andar, cabisbaixo, só levantando a cabeça quando se aproximou da cúpula. Quando viu Max, tratou de colocar um sorriso no rosto, parecendo até mais animado.
— O que está fazendo acordado, meu jovem? — Faon perguntou, em tom descontraído, respirando profundamente logo em seguida. — Esse planeta possui uma rotação mais veloz. Você não deve ter dormido nada.
— Digamos que o buggy não é a coisa mais confortável do mundo. — O adolescente respondeu, também em tom de brincadeira. — Mas vamos ao que interessa: descobriu em que planeta nós estamos? Conseguiu as ferramentas?
— Calma, homo sapiens, não me apresse tanto. Deixemos os outros ouvirem também!
E, dizendo isso, o velho largou seu cajado – que permaneceu levitando ao seu lado – e bateu palmas fortemente. Foi um dos barulhos mais altos que Max já ouvira em toda a sua vida, o que o fez tapar os ouvidos com as mãos e se afastar. Todos acabaram acordando, assustados, levantando-se rapidamente de onde se encontravam.
— Quem morreu? Quem morreu? — Perguntou Gary, parecendo um pouco atordoado com o despertar repentino.
— Meus tímpanos, provavelmente — zombou Kate, irritada por ter sido acordada daquela maneira.
— Bom dia a todos, primeiramente — o mago saudou.
— Ai, ai, bom dia, pessoal! — Disse Gaia, espreguiçando-se lentamente. Em seu rosto, havia um leve sorriso, indicando que ela, ao contrário dos outros, não se sentia incomodada ou irritada por ter sido acordada. — Desculpe-me, Faon, eu planejava acordar antes de sua chegada, com uma recepção melhor — completou.
— Ai, quanta bajulação... — Kate bufou, já sentada no chão, esperando as notícias, sem qualquer sinal de empolgação.
— Não há problema algum, querida Gaia. Acho até que me adiantei. Mas vamos ao que importa sem mais dilação! — Ele começou a anunciar, aumentando o tom de voz. — É com muito contentamento que anuncio que o buggy terá seu merecido concerto!
Instantaneamente, o humor de todos pareceu melhorar. Até mesmo o de Kate, que já pensava em pedir para que a levassem de volta para casa, acabando com todas aquelas chatices. Gaia celebrou com palmas alegres, alargando seu sorriso no rosto. Gary e Max comemoraram com um típico high five.
— Então quer dizer que poderemos voltar à missão? — Perguntou Gary, mais parecendo Max, que tornava a falar sobre a bendita missão frequentemente.
— Sim, estaremos saindo daqui em breve, meu jovem!
— E sobre nossa localização? — Perguntou Max, cada vez mais interessado nas “boas novas”. — Conseguiu mais informações sobre esse planeta e... sobre o... — ele parecia hesitar, incerto se a pergunta poderia magoar Faon de alguma forma — sobre o motivo da sua magia não funcionar tão bem?
— Essa parte é a mais curiosa, devo admitir.
— O que quer dizer com isso? — Kate perguntou, inesperadamente.
— Consultei alguns Registros e perguntei a alguns de meus amigos mais próximos. Conforme minhas posteriores conclusões, ninguém parece saber da existência desse lugar.
Os ânimos dos ouvintes rapidamente mudaram de empolgação, animação e interesse para surpresa, desentendimento e ainda mais interesse. Houve uma breve troca de olhares entre o grupo e alguns até já se encontravam boquiabertos. Faon, percebendo aquilo, resolveu continuar:
— A primeira constatação foi que o planeta não possui dono e sequer foi descoberto, ou seja, não se encontra nos Registros. Esse fato seria perfeitamente normal, se não estivéssemos em uma das galáxias mais movimentadas e povoadas do Universo! — Ele gesticulava, conservando, porém, uma séria expressão no rosto. — Vários dos meus amigos Inspetores concordaram com isso, até mesmo os mais antigos, que já inspecionaram diversos tipos de planeta. Dessa forma, deduzi que algo ou alguém está mantendo esse astro invisível aos olhos de viajantes espaciais.
— Por meio de magia? — Perguntou Gaia.
— Possivelmente, minha cara. Muito possivelmente.
— Talvez seja por isso que o acidente aconteceu! — Raciocinou Gary.
— De certa forma, sim. Eu não lembro exatamente de ter visto esse lugar antes de entrarmos na atmosfera. Mas... Tudo aconteceu tão depressa... — Faon ponderou, como se tivesse dificuldades de lembrar-se do ocorrido, o que o deixou calado por um tempo. — Bem, o fato é que essa mesma magia pode estar bloqueando meus poderes por aqui. Estamos lidando com algo muito poderoso — conseguiu concluir.
— E as ferramentas? Como as conseguiu? — Max perguntou.
— Bem — o mago riu discretamente —, acho que essa parte é a mais simples e menos emocionante, mas já que perguntou...
Sem terminar o que dizia, Faon dirigiu a mão a um dos bolsos laterais e começou a procurar pelas ferramentas. A demora e o empenho do homem em achar os objetos fazia parecer que o bolso era muito maior do que seria normalmente, o que sempre deixava os jovens surpresos e curiosos. Enquanto realizava a árdua busca, o velho fazia várias caretas, variando sua expressão facial de desentendimento a indignação, o que não deixava de ser engraçado. Em alguns momentos, até deixou escapar sussurros como não, não pode ser isso e maldição, onde eu deixei essas geringonças?
Depois de alguns demorados minutos, ele finalmente deu o primeiro sinal de que conseguira achar os objetos, quando um sorriso iluminou seu rosto. Ao retirar sua mão do bolso, carregava os mais variados tipos de ferramentas e instrumentos bizarros. Analisando bem, até que alguns se assemelhavam a ferramentas humanas, como alicates e chaves de fenda. Mas o conjunto chamava atenção muito mais por seus elementos excêntricos e sem qualquer função aparente, do ponto de vista dos adolescentes.
— Todos disponíveis para qualquer Inspetor, assim como o manual — explicou, tirando, por último, um livro de tamanho médio, com aparência de muito antigo.
— Tá... Ok... Agora estou impressionado — declarou Gary. Dessa vez, seu tom de voz não permitiu concluir se ele estava ou não brincando. Mas como não era algo muito relevante, os outros decidiram ignorar.
— E o que faremos agora? — Perguntou Gaia.
— Você e eu — Faon começou a responder — teremos de ficar aqui para reparar o veículo. O máximo que pudermos. Os pequenos, por sua vez, estarão dispensados.
Em comemoração, os jovens ergueram os braços, soltando silenciosos suspiros.
— Ensinar a vocês como usar todas essas ferramentas levaria tempo demais e, no nosso caso, tempo é algo que não pode ser desperdiçado. Além disso, como seria sua primeira vez, acidentes são mais do que esperados — concluiu.
— Nem precisa de mais explicações — disse Gary.
— Então, como diriam vocês da Terra, mãos à maca!
Enquanto Gary ria indiscretamente do erro de Faon, Max se levantou e dirigiu-se ao velho, lembrando-se do convidado que se mantinha entre as pedras. Abaixando seu tom de voz, falou ao mago:
— Eu preciso te contar algo antes.
— Diga, jovem. É grave? — O homem perguntou, claramente preocupado.
— Não, não é nada de mais, mas...
Ao invés de terminar a resposta, dirigindo-se apenas a Faon, Max optou por seguir até onde calculou que seria o ponto central da cúpula, a alguns centímetros do lago. Trocando olhares entre Gaia e o velho, anunciou, aumentando seu tom de voz para que todos pudessem ouvi-lo claramente:
— Senhoras e senhores, eu apresento-lhes... — Ele torceu para que o anfíbio também estivesse escutando e saísse da pedra assim que ele concluísse a fala. — Ducere!
Nos primeiros segundos, nada aconteceu, o que deixou o garoto um pouco frustrado. Em razão do que acontecera na madrugada anterior, quando o sapo saltou sobre Kate, ele achava que o animal apareceria espontaneamente, sem aquele drama de novela, totalmente desnecessário. Mas dois minutos já tinham se passado; todos em extremo silêncio, à espera; e o bicho sinal algum havia dado. Ele poderia ter fugido durante a noite, enquanto todos dormiam. Como Max pôde ser tão bobo de ter acreditado em um anfíbio falante? Devia ter seguido seus instintos, que o alertavam para desconfiar de tudo e de todos.
— Há algo de errado, Max? — Gaia tomou a iniciativa de perguntar.
— Desculpem-me... — Ele abaixou a cabeça. — Achei que ele ainda estivesse aqui.
— Quem, meu jovem? Quem estava aqui? — Faon apoiava-se firmemente em seu cajado, com olhar curioso.
— Acho melhor deixar pra lá. — Desanimadamente, começou a andar em direção ao exterior da cúpula. — Nós vamos dar um passeio por aí, está bem?
Assim que o garoto atravessou a cúpula, seus amigos seguiram-no, preocupados com a tristeza estampada no rosto do amigo. Faon decidiu não fazer qualquer questionamento, nem mesmo repreendê-lo. Apesar de não ter entendido o que acontecera há pouco, compreendeu que o garoto precisava refrescar a cabeça. Mais hora, menos hora, todos acabam precisando.
–//-
— Ninguém nunca me escuta, né? — Kate se aproximou do amigo cabisbaixo.
— E como você queria que soubéssemos que o sapo ia dar no pé? — Gary logo se colocou em defesa de Max.
— É lógico que ele ia! É tão óbvio. — Ela gesticulava. — Em pouco tempo, depositamos muita confiança em algo que mal conhecíamos. — Deu uma pausa. — Ah, qual é? A decepção seria muito maior se ele fosse um amigo de anos... Mas ele não era!
— Deixa o Max sossegado, por favor? Deixa ele...
Nisso, uma folha amarelada caiu lentamente das folhagens das árvores, ziguezagueando no ar com sutileza, pousando, finalmente, bem aos pés do jovem tristonho.
Ele, então, parou sua lenta caminhada e pôs-se a observar a folha por alguns instantes. Percorreu, mentalmente, o trajeto contrário ao do percorrido pela folha, indo do chão e seguindo até o topo das árvores, pousando seu olhar ali, nas folhagens, que balançavam conforme o vento. Parecia absorto em meio à paisagem, como sempre ficava ao entrar em contato com a natureza. Dessa forma, o susto não poderia ser maior quando uma coisinha verde e alaranjada saltou velozmente sobre seu ombro.
— Ducere! — Sua felicidade agora era evidente. Ergueu o anfíbio no ar, com o máximo de cuidado possível, logo depois o colocando de volta ao ombro. — Você voltou!
— Eu peço mil perdões, mas senti que devia sair dali quando aquele estranho homem apareceu. — Anunciou, sem parecer muito abalado.
Gary e Max trocaram olhares, rindo. Apesar de ninguém ter notado, Kate também abria um sorriso inocente no rosto, como uma criança que descobria um brinquedo novo no parquinho. Estava feliz por ver o amigo sorrindo novamente, como uma eterna criança que não descobriu a maldade de crescer.
— Pensei que você não ia aparecer mais. — Max contou, diminuindo o tom de voz.
— Alguém está com fome? — Desviou do assunto. — Descobri há pouco uma árvore repleta de pequenos frutos. Parecem estar bem apetitosos.
Só então que os adolescentes deram conta da enorme fome que estavam sentindo. Pelo que podiam lembrar, a última refeição foram as frutas amareladas, que comeram pouco depois de Faon ter partido. A simples menção da palavra fome fez Gary salivar por inteiro.
Em poucos instantes, o grupo encontrava-se correndo em meio às árvores, contente, sem se preocupar com o fato de que aquele caminho poderia não ser o certo. Uma refrescante corrente de ar batia em seus rostos quentes e em seus pijamas sujos. A luz do sol tocava seus corpos de maneira suave e educada, atravessando a espessa folhagem das árvores.
Rapidamente, depois de alguns contornos, os jovens, por fim, localizaram a majestosa árvore, que era notavelmente menor do que as outras, com um tronco de diâmetro menor também. Suas folhas eram donas de uma coloração esverdeada bem mais clara do que a folhagem das outras. O tom até chegava a combinar com o corpo de Ducere. Os pequenos frutos, que se distribuíam fartamente pelos galhos, lembravam muito as amoras terrestres. Em geral, possuíam coloração avermelhada, alguns um pouco mais rosados, outros mais alaranjados. Mas, naquele momento, tudo aquilo pouco importava. As frutinhas pareciam perfeitas para aqueles três estômagos vazios.
–//-
O quarteto continuou sua caminhada. Enquanto Gary cantarolava alguma música distraidamente, Kate ia refletindo, enquanto beliscava algumas amoras restantes que carregava. Já não sorria como antes, mas não por estar com raiva ou mal-humorada. O fato era que não compreendia o comportamento de Max naquele planeta.
Durante todos aqueles anos de amizade, Max sempre fora muito... Na dele. Alguns poderiam até considerá-lo como um garoto introvertido. Na verdade, ele apenas demorava um tempo até aprender a confiar nas pessoas. Demorava a se acostumar com estranhos e com novos amigos. Desconfiança foi sempre uma de suas características mais marcantes. Por isso, acabava sendo o mais prudente e sensato do grupo, pensando muito antes de tomar qualquer decisão. Mas, quando se decidia, mergulhava de cabeça naquilo. E assim eram suas amizades. Demoravam a nascer, mas eram sempre firmes e prolongadas.
Ali, durante aquela missão, naquele planeta, porém, tudo pareceu mudar. Não que ele estivesse sendo imprudente ou algo semelhante. Mas, até agora, já havia depositado sua confiança em dois completos desconhecidos: Faon e Ducere.
O primeiro poderia muito bem se passar por humano e, às vezes, parecia somente um velhinho simpático. Mas Max sabia muito bem que aquele ser não era humano. Viera de muito longe, tinha posse de um conhecimento mil vezes mais profundo (ainda que o garoto conhecesse a Verdade) e, através de sua poderosa e misteriosa magia, era capaz de coisas que os jovens jamais imaginariam.
O segundo era ainda pior, de acordo com a linha de pensamento de Kate. Era um sapo. Falante. Que eles conheceram por acaso, em uma floresta de outro planeta, algo absurdamente inimaginável para a mente humana. De fato, o animal não aparentava possuir poderes sobrenaturais ou mesmo uma sabedoria maior do que a do mago. Em compensação, falava de maneira sábia, calma e pausada, assim como Faon, o que também irritava a garota. Mas o grande problema era o fato dele parecer apenas uma criatura mitológica surreal, na qual Max acreditava de olhos vendados, digamos assim.
Algo está muito, muito errado nisso tudo, concluía a adolescente. E eu preciso descobrir o que é. Só não sei como... Se eu pudesse, pelo menos...
— I’ve asked about you and they’ve told me things — cantarolava Gary, feliz, interrompendo qualquer pensamento importante da amiga. — But my mind didn’t change. I still feel the same…
— Quer parar com isso, Gary? Que coisa mais chata! — Kate reclamou, lançando um olhar sério para o companheiro.
— Isso, minha querida, é arte — ele disse, em seu conhecido tom sarcástico —, algo que você jamais irá compreender. É algo extremamente refinado, que a sua cabecinha vazia nunca...
— Gary, só um minutinho, por favor... — Max pediu, falando de forma bem pausada, deixando a boca aberta logo em seguida.
O moreno dirigiu-lhe um olhar meio que ressabiado, depois rindo do amigo, enquanto balançava a cabeça em tom de desaprovação. Max parara repentinamente e, agora, estava com os olhos vidrados em alguma coisa à frente, com aquela feição típica de quando ele se encantava com as coisas. Mas, então, Gary finalmente decidiu verificar o que impressionava o jovem dessa vez, levantando a cabeça. E, realmente, não tinha como não ficar boquiaberto.
Para um planeta cheio de árvores e plantas, totalmente perdido no Universo, aquela cidade era simplesmente incrível.
Vielas e ruas completamente construídas com pedras amarelo-esbranquiçadas, que pareciam estar gastas devido ao tempo, nem muito pequenas, nem muito grandes, quase sempre perfeitamente encaixadas. Casas de apenas um andar, todas construídas, aparentemente, com o mesmo material, enfeitadas, em sua maioria, com pequenos jardins suspensos no parapeito das humildes janelas. Algumas imponentes torres, de quatro ou cinco andares, de poucas janelas, erguidas em pontos estratégicos, parecendo vigiar os arredores. No que parecia ser a praça central, uma majestosa fonte jorrava sua água cristalina, alegrando aos pássaros, que se refrescavam por ali. Os bancos de madeira estavam todos vazios, como se esperassem o próximo convidado a se sentar. O comércio, onde os apressados fregueses podiam comprar de quase tudo, distribuía-se não somente pelo “centro” da cidade, mas nos subúrbios mais afastados também. E, finalmente, ao longe, destacava-se um suntuoso castelo, de várias torres, janelas e passarelas. Aparentemente, a parte central encontrava-se dividido em camadas cada vez menores, lembrando um bolo de casamento. Podia estar enganado, já que o castelo estruturava-se no ponto mais distante da cidade, mas, por um momento, Max pôde jurar que a construção era feita de areia.
— É, meu amigo — Gary começou a falar, suspirando —, acho que vamos ter que mudar seu apelido.
— Como? — Max perguntou, desinteressado na fala do outro jovem, sem tirar os olhos da maravilha que se estendia à sua frente.
— Ora... Felicidade Urbana!
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