A parede de cimento era fria, assim como o ar gélido da noite sem estrelas, mas aquilo não me incomodava. Tentava controlar minha respiração, mas a adrenalina correndo por minhas veias apenas acelerava-a ainda mais. Segurva a arma em minhas mãos com firmeza, estas provavelmente eram as únicas partes de meu corpo que não tremiam. Por mais que houvesse sido treinada a suprimir minhas emoções e manter a calma em situações como aquela, era quase impossível.

Observei atentamente o local a minha volta, assimilando cada objeto que já havia visto. Uma das primeiras coisas que me ensinaram havia sido prestas atenção em tudo ao redor e fazer um rápido reconhecimento de território. Estavamos em alguma espécie de terreno baldio, com grande quantidade de esconderijos, mas eu sabia exatamente a localização de meu alvo. Os segundos passavam, silenciosos, e aquilo me incomodava. Queria que tudo acabasse logo.

-Renda-se, Bishop, e prometo não colocar uma bala entre seus olhos! -ameacei, sem sair de trás da pequena parede que me protegia.

-Você nunca irá me pegar vivo! -ele respondeu, ofegante. A raiva em sua voz era perceptível e, por algum motivo, aquilo me fez sorrir. O protocolo dizia que eu deveria conceder a chance de arrependimento mas, caso isso não funcionasse, teria autorização de prosseguir com violência para atingir meu objetivo. E não hesitaria em fazê-lo.

-Isaac. -sussurrei, com cuidado para não ser ouvida pelo inimigo, observando a pequena raposa amarela e peluda mover-se devagar em minha direção para receber minhas instruções. -Estratégia de Escape número 4.

Ele assentiu, um pouco confuso, mas executou o comando. Saltou de trás da parede de cimento em um rápido movimento, chamando a atenção do homem barbudo que escondia-se atrás de alguns latões. Este virou-se para atirar mas, antes de fazê-lo, o Fennekin começou a disparar diversas brasas poderosas contra o chão, em todas as direções. Quando ele cessou o ataque, uma cortina de poeira havia sido levantada, mas o inimigo não parecia, de qualquer maneira, ferido. Assim como o esperado.

-Ha! Vocês erraram todas! -ele ria, mas não ousava sair de trás de seu enconderijo. -A Alpha já teve melhores agentes. Talvez, o problema esteja em treinar crianças. -de certa forma, sua última frase me incomodou de uma maneira inexplicável. Mas eu não deixaria seus insultos me atrapalharem, não quando estava tão perto de concluir minha missão.

-Nosso objetivo nunca foi atingir você. Bom, até agora. -respondi friamente, mas o sorriso sádico ainda estava estampado em meu rosto. Ás vezes me perguntava como criminosos tão 'habilidosos', por assim dizer, podiam ser tão burros. Ele estava agora perdido, como um cego em tiroteio, devido à toda a poeira. Quase literalmente. -Isaac, me mostre o caminho! -ordenei.

Sem hesitar, meu parceiro pôs-se sobre suas duas patas traseiras, apertando um dos milhares de botões em sua coleira metálica. Nesta, um pequeno compartimento foi aberto, revelando uma lente vermelha que foi posicionada em frente ao seu olho, permitindo-o enxergar quase perfeitamente. Assim, não foi difícil localizar o alvo e, ao fazê-lo, disparou um uma esfera de fogo potente contra a grande lata a que o protegia, colocando-a em chamas e, assim, em meio a fumaça, foi possível ver a silhueta de um homem alto, que se levantara para tentar seu último recurso. Ele apontava sua pistola em minha direção, e parecia que não iria pensar duas vezes antes de atirar. Não foi necessário estudar sua expressão para notar o quão nervoso ele se sentia; afinal, ele estava vulnerável, e não tinha um plano formado. Suas ações eram previsíveis. Rolei para o lado antes mesmo de ouví-lo disparar, esquivando-me da bala agilmente. Isaac correu em sua direção como um raio, tentando distraí-lo, o que me deu a chance perfeita de ajoelhar-me e mirar.

Dentro de milésimos de segundo, pude ouvir seu grito atordoado cortar a noite. Agora, a poeira já baixava, tornando possível enxergar melhor novamente. Olhei para o sangue vermelho que escorria pelo chão, e o homem derrubado segurava sua perna com força onde a bala o atingira, tentando estancar o sangramento. Não tinha intenções de matá-lo; isso seria bom demais após tudo que aquele bandido havia feito. Ao seu lado, a raposa amarela rosnava ferozmente, certificando-se de que ele não iria tentar escapar ou pegar sua pistola, que havia sido lançada alguns metros de distância, provavelmente por um golpe de Isaac.

Aproximei-me para recolher a arma do chão e guardei-a em um dos bolsos de minha jaqueta à prova de balas. Era como o meu troféu após uma noite de perseguição e agitação, e certamente o líder ficaria feliz ao saber que havia tido sucesso, embora isso não fosse muito surpreendente. Olhei ao redor ao ouvir as sirenes dos carros da polícia se aproximando, e abri um sorriso novamente.

-Fim de jogo para você. -não fiz esforços para segurar minha risada, e Isaac parecia compartilhar do mesmo divertimento que eu.

-Desgraçada! -ele gritou, enfurecido, respirando com certa dificuldade. -Da próxima vez que eu te encontrar... Você não vai ter tanta sorte, menina. -ameaçou, mas não conseguiu me intimidar. Afinal, por que teria medo de um homem de mais de trinta anos que acabara de ser derrubado por uma garota de pouco mais de um terço de sua idade? Era patético, mas devia reconhecer que não era tão fácil me vencer em meu próprio jogo.

-Veremos. -virei-me de costas, deixando o homem caído para trás. Agora que a parte difícil havia sido feita, ele seria responsabilidade das autoridades.

Chamei por meu parceiro, que estava logo atrás de mim. Desaparecemos do terreno abandonado à tempo de não sermos vistos pelos oficiais. Uma vez mais em segurança, escondidos pelas árvores de grandes folhas, pudemos assistir ao nosso 'amigo' sendo preso e encaminhado à viatura.

-Dois anos atrás desse canalha. -suspirei, enquanto uma sensação de alívio percorria meu corpo. Não mais teria que escutar aquele nome, que causava dor aos meus ouvidos. -Missão cumprida, agente I3731. -sorri para o Fennekin ao meu lado.

-Mais um ótimo trabalho em equipe, agente M3233. -ouvi ele responder, estendendo-me sua pata, a qual eu toquei sem hesitar.

E, naquele momento, a mesma sensação que me preenchia toda vez ao completar uma missão invadiu meu corpo. Era, provavelmente, a melhor coisa que já sentira em minha vida. Em meio à escuridão da noite, nós dois caminhamos, sem pressa alguma, em direção à viatura da Alpha que nos esperava à alguns metros, atrás das altas árvores. Mais uma missão cumprida.

Notas finais
Então, o que acharam?
Resolvi fazer nesse prólogo apenas uma das milhares de missões cumpridas por Maddie e Isaac, só para situar você na história da Alpha e afins. :3
Vejo vocês no próximo capítulo o/