The Mermaid Tale
28 Trégua
Notas iniciais
— Sente-se Sakura! – Temari pediu ao entrarem em um grande escritório mobiliado. Ela balançou um sino e logo um homem usando apenas uma calça de pescador apareceu e fez uma reverência.
— Minha lady, como posso servi-la? – indagou ainda fazendo o gesto de respeito enquanto Sakura observava a cena.
— Traga comida para a minha hóspede – indicou Sakura com a mão – E prepare algo para os imbecis que estão no porão – lembrou-se antes do homem se retirar para cumprir as ordens.
— Pensei que não fosse alimentá-los... – comentou para si, mas a loira foi capaz de ouvir.
— Não sou tão filha da puta assim – e sorriu ao ver a cara estranha que Sakura fizera – O que foi? Não esperava por isso?
— Na verdade não... – “e também não sei o que significa puta”, complementou Sakura em pensamento.
— Bem, acomode-se logo – e mais uma vez indicou a cadeira a sua frente – Temos muita coisa para conversar.
— O que você quer saber? – indagou ao sentar e encarou, temerosa, a loira.
— Tudo. – e sorriu ladina para o desespero de Sakura.
-*-
— O que faremos agora? – Naruto indagava enquanto colocava um pano no nariz para estancar o sangue e encarava o ruivo.
— Será que ela sabe sobre a flor mística? – Neji murmurou a questão para o Sabaaku.
— O que você acha que sua irmã pretende com Sakura? – Sasuke também questionou Gaara que permanecia calado, enquanto ajudava Neji com as bandagens do ferimento dele. – Gaara! – Sasuke chamou a sua atenção.
— Eu não sei! – esbravejou, levantando-se e indo em direção à porta – Droga, eu não sei o que Temari pretende! Ela está furiosa comigo e, geralmente, não tem piedade, mas... – interrompeu seu pensamento ao lembrar que a irmã, mesmo sendo uma pirata capaz de tudo, ainda era a sua irmã.
A mesma irmã que o ajudou diversas vezes quando ele se metia em encrenca, a mesma irmã que cuidou dele quando os pais morreram. Porém, ao mesmo tempo, ele sabia que havia a traído e que ela não esqueceria. A questão era, será que Temari seria capaz de punir os outros para atingi-lo?
— Não sabe mais o que esperar dela? – Shikamaru completou o pensamento do ruivo que concordou com a cabeça – Que problemático! – resmungou antes de sentar no chão imundo daquele local – Pelo visto vamos ter que esperar para ver o que acontece, já que não vejo nenhuma rota de fuga daqui.
— O que? – Kiba bradou sem acreditar no que ouvia – Está dizendo que teremos que contar com a sorte para sairmos daqui?
— Não – o Nara retrucou – Vamos ter que contar com a Grumete para sairmos daqui – explicou e Kiba começou a murmurar coisas como “Vamos todos morrer agora!”.
— Tenha fé, afinal... – Sasuke se pronunciou para a surpresa de todos – ...ela sempre se sai melhor que o esperado... — e sentou-se em um canto, deixando todos estáticos. Desde quando o Imediato defendia a Grumete?
— Realmente, se tem alguém que consegue mudar algo, essa é a Sakura – comentou Gaara sorrindo ao ver que ela havia conseguido até mesmo atingir o Contramestre de alguma forma, mas logo tratou de ficar sério ao ver o olhar irritado do Uchiha. Era melhor não abusar ou poderia morrer pelas mãos de outra pessoa antes que sua irmã o alcançasse.
—*-
Sakura não sabia o que fazer. Ela podia mentir, mas temia não ser o suficiente e Temari desconfiar de si, ou podia contar a verdade, pelo menos meia verdade, e ver quais eram as intenções da Sabaaku. Era estranho, mas, agora, a sós com ela, não a achava tão ameaçadora como quando a conheceu. Talvez aquela aura cruel se devesse apenas ao fato de estar irritada com Gaara ou por ter que se impor a tantos homens de uma única vez. E isso Sakura já conhecia bem, quantas vezes não teve que impor sua vontade para ser minimamente respeitada pelos companheiros que, antes, debochavam e a humilhavam por ser apenas uma Grumete ou por ser mulher?!
— O que houve? Por que me olha desse jeito? – Temari indagou confusa para a menina que a olhava com compaixão e compreensão.
— Só estava pensando como deve ser difícil comandar tudo isso – sorriu para a loira que arregalou os olhos sem acreditar no que ouvia – Eu já acho difícil ser Grumete, quanto mais ter uma posição de destaque como a sua.
— Essa posição, originalmente, não era minha – Temari comentou – Era para Gaara assumir tudo isso – e Sakura arregalou os olhos com o que foi dito enquanto a Sabaaku continuou com ressentimento na voz – Mas ele abandonou tudo, roubou-me e fugiu como um covarde. Fiz de tudo para estabelecer a ordem e o comando de tudo.
— Entendi – pensava que agora compreendia o motivo da irmã de Gaara odiá-lo tanto.
— Provavelmente não – desdenhou Temari. – Eu tive que tomar o poder, restabelecer a confiança de todos e mostrar do que eu era capaz, lutei contra diversas pessoas que tentaram me matar por ser considerada indigna, unicamente por ser mulher. Até hoje, existem pessoas que tentam usurpar o que batalhei para conseguir. Até hoje há pessoas que desejam me humilhar e dizer que sou inferior. – declarou com raiva.
Uma garota como aquela não podia entender o que era ter a vida de diversas pessoas nas mãos e como era os outros debocharem de si, não confiarem no seu trabalho e temendo a cada momento ser apunhalada por trás por acharem que não era competente. Mas Temari era. E ela provou. E ainda prova a cada dia enquanto mantém o comércio funcionando, faz acordos para proteger a ilha e afasta a Marinha Real dos negócios dali, ajudando a todos a terem como sobreviver para mais um dia.
Sakura ficou desconfortável com as palavras de Temari, mas sentia que a entendia, mesmo que não fosse a mesma situação, e, talvez, isso tivesse feito com que ela tomasse uma decisão e realmente contasse tudo a ela.
— Eu... você disse que quer saber de tudo, então vou te contar como entrei para o Kurama e conheci o seu irmão.
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Depois da narração de Sakura, Temari ficou a lhe encarar sem nada comentar sobre o que ouviu. Ela não expressava nada, apenas a olhava de forma séria enquanto refletia. Mas aquilo preocupava Sakura, era angustiante estar sendo testada dessa forma, não sabia se a pirata acreditaria em si, mesmo que tivesse sido sincera em todos os problemas que passara, tirando somente a parte de sua verdadeira origem. Mas ela contou sobre Ino, como quis ajudar a sereia e como Gaara esteve ao seu lado e fez com que Ino fosse libertada, assumindo a culpa no seu lugar. Também contou como o Sabaaku lutava e sempre estava a fazer graças junto de Neji, por vezes até mesmo sendo irritante, mas sempre um companheiro leal a todos no Kurama. No fundo, Sakura esperava poder ajudar o Sabaaku de alguma forma, já que o maior problema era ele ter uma rixa com a irmã o que causou todo esse alvoroço.
Temari não sabia ao certo o que pensar. Primeiro pelo fato de que diversas coisas que a garota contava eram incríveis demais para serem verdades. Sereias? Monstros de sombra em uma ilha repleta de névoa? Era tudo tão incrível, fora os ataques e as lutas que fizeram, era demais para si. Mas havia outra coisa que permeava os seus pensamentos, talvez até mais do que os feitos heróicos que vivenciaram. Gaara.
O Gaara que ela descrevia era alguém muito semelhante àquele de sua infância e ao mesmo tempo... ao mesmo tempo não acreditava que ele ainda seria assim depois do que lhe fez, depois do que fez a todos ali. Mas, tinha que dar o braço a torcer ao ver que a tal Sakura era realmente uma mulher de fibra por aguentar tanto tempo os mandos e desmandos daqueles piratas, ainda mais que era a única mulher no local no meio de completos estranhos, os perigos que a cercavam somente por isso eram incontáveis e ela estava na dúvida se a mulher era corajosa e determinada a voltar para casa a tal ponto ou se era totalmente ingênua. Olhou o rosto da Grumete novamente e decidiu que era um pouco dos dois. Os olhos verdes como duas esmeraldas transmitiam o brilho de alguém que via o mundo pela primeira vez e Temari se compadeceu dela, mas outra coisa também lhe chamou atenção nesse caso.
— Posso ser sincera com você? – foi a primeira vez que comentava algo depois de ouvir toda a história e notou que Sakura ficou nervosa a sua frente. Pelos deuses, a menina era muito fácil de se ler! Mas antes que ela se manifestasse, continuou – Não importa, serei do mesmo jeito. O que eu quero dizer é que você tem dois problemas.
— Como assim? – Sakura indagou confusa.
— O seu primeiro problema é o fato de que é muito fácil saber o que está pensando – e apontou para a ex-sereia que se encolheu na cadeira – Além disso, você passa essa ideia de ser uma garota muito inocente e faz com que automaticamente as pessoas tentem tirar vantagem disso!
Temari, de repente, levantou-se e Sakura apenas a encarava enquanto a pirata andava de um lado para o outro.
— Não me admira você ter passado por tudo isso! Olha só pra você! Você parece que não saber muita coisa da vida entre os piratas – começou a bradar e Sakura quis dizer que, em partes, ela estava certa, afinal ela realmente não sabia nada da vida entre os piratas, na verdade ela não sabia quase nada sobre a vida de qualquer humano, ainda era uma aprendiz. – Foi criada em berço e por isso atraiu a atenção do meu irmão e dos outros, é claro que eles iriam fazer qualquer coisa por dinheiro! – começou a juntar os fatos e Sakura apenas aquiescia com a cabeça, tentando entender onde a loira queria chegar.
— Mas pelo visto... – e virou-se para Sakura, suspirando antes de cruzar os braços – ...Pelo visto você conseguiu conquistar a confiança de todos eles. Mostrou a eles que também é uma mulher forte, mas você ainda tem que aprender que nem sempre pode confiar nos homens, principalmente no Gaara! – pontuou.
— Eu pensei que fôssemos companheiros e...
— Essa não é a questão! – Temaria a interrompeu – A questão é que eles são homens e sempre vão achar que podem nos enganar, sempre vão querer nos menosprezar – e enquanto falava apontava e se aproximava de Sakura que tentava se afastar da Sabaaku devido a forma com que bradava sua opinião – Sempre vão querer brincar com nossos sentimentos e você não pode deixar!
— Eu... – tentou falar novamente, mas não conseguiu.
— Aquele Imediato que você falou, esse é outro! Não permita que ele haja dessa forma e fique por isso mesmo! – bateu na mesa a frente de Sakura que pulou com o gesto – Ele não pode brincar com você!
— Você... você acha que ele está brincando comigo? – Sakura tentava entender o que aquilo significaria.
— É claro! Ele a beijou e depois a descartou como se fosse uma meretriz! – Temari falava com tanta certeza, que era possível ver o fogo irradiando dos seus olhos e aquilo fazia com que Sakura acabasse acreditando nas suas palavras.
Afinal, Temari estava sendo tão sincera e era uma mulher humana que conhecia melhor aos homens do que ela própria. Entender aquilo fazia com que se sentisse mal por ser tão inocente, por não conseguir perceber algo que estava na sua frente enquanto outra pessoa era capaz de identificar tudo somente ao ouvir sua história. Suspirou, ela ainda tinha muito a aprender sobre o mundo humano.
— E o que eu devo fazer agora? – murmurou para a loira que voltou a discursar entusiasmada.
— Você o fará pagar por isso! Irá mostrar que é uma mulher forte que não precisa dele para nada! – e internamente Sakura pensou que já estivesse fazendo isso ao não falar com ele ou ao rejeitar a ajuda dele, mas devia estar enganada, como sempre.
— E como eu faço isso? – foi então que Temari se calou e encarou Sakura mais uma vez.
— Primeiro eu preciso saber, o que você sente por esse Imediato? – e aí estava uma pergunta que Sakura não esperava.
Quando falou com Gaara e Neji sobre o beijo foi porque estava confusa com aquele momento que vivenciou com o Uchiha, mas se parasse para pensar em tudo... seria fácil dizer o que sentia, não?
— Eu... bom... – ainda tentou responder, mas deu-se conta de que aquilo seria mais difícil do que pensava. O que ela sentia por Sasuke?
Quando o conheceu o achou arrogante. E certamente ele não foi fácil de lidar enquanto fingia ser o Haru, pelo menos no início, mas depois... depois Sasuke a ensinou a lutar, a protegeu mesmo dizendo que não o faria e que ela devia aprender sozinha a se virar. Ele também sempre veio ao seu socorro, era teimoso e orgulhoso, achando que estava sempre certo, mas... também tinha o seu lado sensível, tinha um passado cruel e lutava todos os dias em busca de alcançar o seu objetivo. Além disso, era leal aos amigos, era forte, dançava bem e ele havia sido tão gentil consigo naquela noite do baile e...e...
— Acho que já sei a resposta – Temari comentou com um sorriso ao ver a forma como a menina ficara presa em outro mundo ao pensar no Imediato, e aquilo fez Sakura despertar.
— Como assim? O que eu sinto? – indagou, querendo que a humana lhe desse a resposta, ansiosa por algo que nem imaginava que fosse tão importante, até agora.
Temari sorriu para menina, achava que entendia o motivo do seu irmão ter se apegado tão rápido àquela garota. Aquele jeito dela parecia fazer com que as pessoas quisessem protegê-la de tudo, ao mesmo tempo em que se perguntava como aquela garota tão pequena e inocente conseguiu sobreviver a esse mar repleto de perigos junto com aqueles piratas. Com certeza, ela iria querer ver até onde a pequena Sakura iria.
— Antes de mais nada, ainda temos um acordo para fazer. – e Sakura arqueou uma sobrancelha, confusa – Eu estou disposta a deixar que os seus companheiros saiam vivos daqui e ainda posso ajudá-los com uma condição – e sorriu ao imaginar o que o destino a reservava daqui para a frente. Com certeza seria interessante, e Temari era esperta o suficiente para não desperdiçar um ótimo negócio quando via um.
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Sasuke observava entediado a cela onde estavam. Haviam deixado uma bandeja com comida para eles, algo que até mesmo Gaara se surpreendeu, mas não havia conseguido tocar no alimento. Mesmo que quisesse, estava preocupado. Não sabia o que Sakura estava passando e ainda que confiasse na garota e na esperteza dela, ainda assim... Levantou-se de forma abrupta, andando de um lado para o outro tentando dissipar os pensamentos que lhe corroíam. Ele não podia estar pensando em Sakura. Nem devia estar preocupado.
Deixar com que ela entrasse em sua vida, no navio, fora um erro, certamente. Antes ele não tinha aquele tanto de problema, antes ele somente pensava na sua vingança junto de Naruto e agora... agora ficava tentando arranjar um modo de falar com ela e pedir desculpas pelas palavras proferidas outrora. Bufou, estava ficando louco! E um completo tolo! Não mais iria se importar, ou foi isso que decidiu até a porta da cela ser aberta e por ela passar Sakura acompanhada de Temari.
— Sakura! Você está bem? – o Capitão foi o primeiro a questionar e Temari notou que a resposta da garota era importante a todos ali.
— Sim, conversei com Temari e ela irá nos ajudar – disse com um sorriso para a surpresa geral.
— Ela irá? – Gaara praticamente gritou, abismado com a notícia, e encarou a irmã que bufou irritada.
— A sorte de vocês é que Sakura está aqui, então decidi ser benevolente – explicou e os piratas suspiraram relaxando – Mas terá um preço, é claro – finalizou e os homens franziram o cenho com aquilo.
— Como assim? O que você quer? – Naruto indagou com um mal pressentimento, o que só aumentou ao ver o sorriso da Sabaaku.
— Eu vou receber um terço do que vocês receberem da Sakura.
— Como é? – todos gritaram surpresos, com exceção de Sakura que suspirou enquanto se perguntava onde conseguiria tanto dinheiro para satisfazer àqueles piratas gananciosos que pareciam se multiplicar cada vez mais.
—*-
Depois de muitas reclamações e muitos gritos por parte dos piratas do Kurama, Temari os calou ao dizer que se não aceitassem todos ficariam presos ali, e o fato de vários subordinados terem aparecido nesse exato momento contribuiu para que fosse aceito o trato. Agora todos estavam instalados em quartos confortáveis e foram convidados para um jantar agradável a fim de decidirem o caminho que iriam tomar pela manhã. É claro que a ideia de agradável de Sakura não era a mesma daqueles humanos estranhos, mas já estava acostumada com a música alta, os gritos eufóricos enquanto bebiam e os modos mal educados.
Temari havia lhe chamado para ficar ao lado dela, não queria que fizessem nenhuma gracinha com ela, seja lá o que isso quisesse dizer em termos humanos. Mas não esperava ver a loira sempre tão séria e até mesmo raivosa daquela forma. Temari ria e bradava assim como os outros humanos enquanto bebia diversas canecas de rum. Devia estar completamente bêbada, enquanto Sakura se mantinha na sua primeira caneca ainda traumatizada com a última vez que provara da bebida e acabou se metendo em uma grande confusão.
— Temari... – chamou a loira que a encarou com um sorriso enorme – Não acha que deve parar? – comentou timidamente e logo se arrependeu ao ver o olhar irritado da Sabaaku sobre si – É só para que não fique bêbada! – tentou amenizar as coisas.
— Ora, não seja boba! Não estou bêbada! – brigou e Sakura a olhou de forma descrente – Quer que eu te prove? – e sorriu maliciosa ao bater com a caneca na mesa e encarar a todos no salão até encontrar a figura do irmão junto a Neji, discutindo algo – Gaara! – gritou e, mesmo com todo o barulho, o ruivo voltou a sua atenção a irmã – Vamos ver quem bebe mais! – praticamente mandou.
Sakura arregalou os olhos, aquela mulher estava louca! Competir com Gaara? Ela sempre observou todos os humanos com quem convivia e ela tinha certeza de uma coisa: Gaara era o que tinha mais resistência ao álcool. Olhou para o Sabaaku, imaginando que ele negaria o pedido, ou ordem, mas ele apenas riu e se levantou indo em direção a irmã.
— Como nos velhos tempos? – indagou ao sentar ao lado de Temari que aquiesceu.
— Como nos velhos tempos... quem não conseguir beber mais terá que cumprir um desafio escolhido pelo vencedor – disse convicta de que ganharia, o que só fez o ruivo ficar mais animado.
Ele sempre bebia com a irmã quando ainda moravam juntos. Era uma competição animada, visto que nenhum dos dois queria perder e sempre rendia vexames por parte dos dois quando algum deles não aguentava. Só não imaginava que Temari fosse lhe chamar para fazer isso quando claramente ainda guardava rancor pelo o que aconteceu no passado. Talvez até fosse uma armadilha para si, mas ele não dispensaria aquele desafio. Nunca foi de fugir.
No momento em que Gaara aceitou o desafio, algo estranho aconteceu no salão e todos pareciam ter se reunido em volta da mesa para acompanhar o que, na visão de Sakura, seria uma completa burrice por parte de Temari. E quando as canecas começaram a ficar vazias e novas eram postas no lugar, era possível ouvir o coro de vozes que torciam, em sua maioria, para Temari. Apenas Neji, Kiba, Shino, Chouji, Naruto e Shikamaru clamavam o nome de Gaara. Não que isso afetasse o pirata de alguma forma, pelo contrário, dava até mais ânimo nele para se esforçar e vencer a irmã.
— Por Tritão... – murmurou Sakura ao contar dez canecas vazias ao lado de Temari. Ela já estava bebendo antes, então não era possível que ela estivesse bem naquele momento. Olhou a loira que sorria e continuava a beber como se nada estivesse acontecendo, assim como Gaara.
— Não imaginava que ela pudesse beber tanto – ouviu Shikamaru ao seu lado comentar tão aturdido quanto ela.
— Acha que ela tem chance? – questionou ao Timoneiro. Ele era o mais perspicaz dentre os humanos do Kurama, visto que foi o único que havia desconfiado de si e sobre o fato de ser mulher.
— Do jeito que as coisas estão... – e observou com atenção ambos os concorrentes – acho que fiz uma má escolha quando apostei – e sorriu ao ver Temari terminar mais uma caneca e rir. Ela realmente ficava muito mais bonita quando sorria dessa forma, pensou o Nara.
Sakura apenas ficou em choque com o que ouvira e em seguida olhou para o responsável das apostas que já rolavam ali. Sorriu. Iria deixar as coisas mais interessantes.
—*-
Aquela competição já durava muito tempo e Sakura estava cansada de contar canecas vazias. Já havia feito a sua aposta e agora pensava no que fazer quando viu Hiruzen em uma situação lastimável, jogado sobre uma mesa. A mão ainda segurando o inseparável cantil. Franziu o cenho sem entender o humano que sempre bebia do próprio cantil, ao invés de pegar uma das canecas. Ele devia ter muito apreço pelo objeto. Foi em direção ao homem e empurrou-o pelo ombro, tentando fazê-lo acordar, mas ele parecia estar morto, nem sequer se mexia.
— Ora, vamos lá, velhote! – reclamou consigo e o empurrou mais uma vez. Aquela cena a lembrou quando se viram pela primeira vez, mas não queria ter que jogar água nele como Gaara fizera antes – Acho que não tem jeito – e tentou puxar o cantil para jogar o líquido sobre o homem, mas não conseguiu.
— Macacos me mordam, larguem o meu rum! Biltres! Irei matar a todos! – Hiruzen bradou ao acordar de repente, puxando o cantil para perto de si. Sakura o encarou abismada, realmente ele era muito apegado ao objeto.
— Eu não estava tentando roubá-lo, só queria te acordar, Sarutobi – explicou Sakura e viu o olhar de reconhecimento no rosto do velho. Ele notou que era ela quem estava ali com ele.
— Sakura... – murmurou com uma voz rouca, quase saudosa e Sakura soube que ele não estava lúcido – Minha querida Sakura! – bradou antes de lançar-se sobre a ex-sereia, esmagando-a em um abraço.
— Oe, Hiruzen... – tentou falar em meio ao abraço, mas ele começava a murmurar coisas sem sentido, algo como “grande busca”, “fúria dos mares”, Sakura nem sabia o que pensar, visto que ela nem conseguia respirar direito de tão forte que o velho que lhe abraçava. Nunca imaginaria que ele pudesse ser tão forte.
De repente se viu livre do agarre de Sarutobi e ela respirou aliviada por isso, pelo menos até ver quem havia a salvado. O Contramestre segurava Hiruzen que continuava a balbuciar coisas sem sentidos enquanto Sasuke o balançava para que ele acordasse de alguma forma, tentando descontar um pouco a raiva que sentia ao ver o velho bêbado em cima de Sakura. Logo ele que jurara não se intrometer já estava ali, novamente, indo ao encontro dela. Mas ele decidiu apenas culpar o pirata que agora parecia voltar a dormir.
— Você está bem? – indagou à menina que parecia envergonhada por estar naquela situação.
— Sim, eu estava tentando levá-lo para algum lugar onde pudesse descansar, mas...
— Já imagino o que houve – interrompeu a jovem que franziu o cenho. Não foi a intenção dele cortá-la, mas ele ainda estava lidando com a própria raiva por não conseguir se manter longe dela.
— Certo, eu posso cuidar dele agora – foi direta, mas Sasuke fingiu nem ao menos ouvi-la e apoiou o velhote nas costas, pronto para carregá-lo – Sasuke, eu disse que...
— Eu quero ajudar – foi o que ouviu dele e Sakura o encarou aturdida – Diga para onde vamos – e esperou que Sakura o guiasse.
Eles foram em direção às escadas até chegarem em um corredor que continha diversas portas, demarcando os aposentos de cada um deles. Eles deixaram Hiruzen em um dos quartos em silêncio, ambos parecendo perdidos em seus próprios pensamentos. Sakura não sabia o que dizer, as palavras de Temari rondavam a sua cabeça e ela tentava negá-las a todo momento, preferindo ignorar a presença de Sasuke, não havia esquecido que estava irritada com ele, mas a única coisa que parecia vir até ela agora que estavam sozinhos naquele corredor na mansão de Temari era a resposta dada pela pirata:
“Ora, Sakura, isso não é óbvio? Você está apaixonada pelo Contramestre!”
Apaixonada? Ela? Por Sasuke? Impossível! Ele era grosseiro com ela a maior parte do tempo, apesar de que, de vez em quando, ele conseguia ser gentil também, como agora. Balançou a cabeça negando, ele também gritava consigo, e mesmo que tivesse razão, algumas vezes, ainda assim ela não aceitaria isso! Ela nunca imaginara se apaixonar, mas se fosse para isso acontecer... se fosse para gostar de alguém ela sabia que não seria por Sasuke Uchiha! Se ela se apaixonasse seria por alguém capaz de protegê-la, alguém com quem poderia dividir os seus fardos e a ajudaria, alguém que fosse gentil. Franziu o cenho quando automaticamente começou a recordar de quando Sasuke a protegeu em diversas lutas, quando ele a agradeceu por salvar a vida dele, quando ele contou sobre o seu passado, confiando em si. Por que parecia que ele se encaixava naquela descrição? Não! Jamais!
— Algum problema? – ouviu a voz do Imediato e olhou para ele que parecia encará-la demais – Está fazendo caretas aí já faz um tempo, sente-se mal? – indagou e ela estranhou, Sasuke estava preocupado consigo? Estava sendo gentil?
— Não, eu só... – e não soube como continuar a frase.
— Bebeu demais? Quer se deitar? – ele questionou novamente.
— Por que se importa? – respondeu com outra pergunta, ela podia estar nervosa ao lado dele, e completamente confusa, mas não o suficiente para esquecer que ele a magoara. Na verdade, se apegava a esse fato para negar a si mesma as palavras de Temari.
— Sakura...
— Você disse tudo o que queria naquele dia, então não era nem para você estar aqui comigo. – acusou e Sasuke se encolheu – Faça o que prometeu e me esqueça! – virou-se para sair dali, indo direção às escadas, mas foi impedida ao sentir Sasuke segurar o seu braço.
— Eu sei que eu errei! – ele disse de repente, pegando-a desprevenida ao trazê-la para tão perto dele – Eu errei, Sakura, eu sei disso... – ele murmurou perto dela.
— Você me julgou, me humilhou, disse coisas horríveis sobre mim... – reclamou Sakura, sentindo os olhos se encherem de lágrimas, mas não deixou que nenhuma caísse. Queria mostrar que estava muito sentida com Sasuke, ele não teria o seu perdão tão fácil. Não podia ter, porque se ela o perdoasse, se ela o perdoasse... o que isso significaria?
— Eu sei, eu estava com raiva, pensei que estivesse me enganando – e quando viu a garota se encolher perto de si, imaginou que ela estivesse triste consigo, mas Sakura apenas teve que reconhecer que, em partes, ela o enganava – Eu perdi tudo o que era importante para mim uma vez...
— Eu sei disso... seu irmão – Sakura respondeu ao recordar da conversa que tiveram.
— Então você entende o quanto é difícil eu confiar em alguém quando até mesmo o meu próprio irmão me traiu – ele falou de forma sofrida, ainda segurava no braço de Sakura, como se tivesse medo de que se a largasse ela fosse fugir de si. E ela percebeu isso.
— Eu entendo... – Sakura disse, abaixando a cabeça, mas Sasuke colocou dois dedos no queixo da garota, levantando o rosto dela para que ela lhe encarasse.
— Acho que ainda não entende – e sorriu de forma triste – Mas eu quero que entenda, e quero que me perdoe pelos erros que cometi. Podemos tentar novamente? Uma trégua? – pediu e Sakura arregalou os olhos sem acreditar que estava tendo aquela conversa. Era realmente o Imediato ali lhe pedindo perdão? Pedindo para recomeçarem? E agora o que ela diria? Recordou-se da conversa de Temari e ficou perdida sobre que caminho seguir. Deveria revidar agora? Ou aceitar a trégua?
Ela abriu a boca para proferir algo, mas nada saía e, de repente, ela se tornou consciente de que estava muito perto dele, que ele ainda segurava em seu braço e em seu rosto, que ele a olhava tão focado, como se o que ela fosse falar fosse tão importante que ele não poderia desviar a atenção. Tornou-se consciente de que, mesmo que não quisesse, a sensação de reviravoltas dentro de si parecia cada vez mais forte, e quando deu por si parecia que ambos estavam envoltos em um mundo próprio onde só havia os dois. Sem nenhum dos dois perceber, a distância entre eles ficava cada vez menor, Sasuke fazia um leve carinho no rosto de Sakura que fechou os olhos, em um convite mudo, fazendo o Imediato ter vontade de fechar qualquer espaço entre eles. E estava bem perto de concluir isso, quando algumas figuras surgiram no corredor.
— Sakuraaaa!! – a voz de Temari fez ambos pularem e se afastarem imediatamente. Todo o momento parecia ter se desfeito no ar – Aí está vocêêê! – cantarolou, sendo segurada por Shikamaru. Gaara vinha logo atrás, praticamente carregado por Neji.
— O-o que houve? – gaguejou aproximando-se da loira que a abraçou e em seguida falou algo baixinho apenas para a Grumete que corou, o que fez Temari rir de forma maliciosa ao encarar o Imediato que fingia que nada acontecia.
— Acho que essa louca já bebeu demais – Shikamaru foi quem respondeu, preferindo ignorar o que havia acabado de escutar da Sabaaku. Como estava ajudando-a a andar era óbvio que ele havia escutado tudo.
— Eu não sou louca, seu preguiçoso! – Temari bradou de volta e Sakura ouviu Gaara rir como se tivessem lhe contado uma piada.
— Eles estão completamente bêbados – Neji resolveu explicar e houve resmungos de discordância por parte de Gaara e Temari. – Viemos trazê-los para que pudessem dormir um pouco. E vocês? O que fazem aqui? – franziu o cenho estranhando o fato de Sakura estar tão próxima do Contramestre. Depois da briga dos dois, isso era algo bem difícil de ver.
— Ah... nós... bem – Sakura ficou nervosa, sem saber o que dizer. Porém, Sasuke interveio, para sua felicidade:
— O velhote também bebeu demais, estávamos ajudando-o – e apontou para o quarto onde tinham deixado Sarutobi.
— Aquele velho é outro imprestável – Shikamaru reclamou e novamente Gaara riu.
— Oe, Gaara pare de gargalhar assim! – Temari reclamou com o irmão, mas logo estava rindo junto com ele. E aquilo fez Sakura se lembrar de algo.
— Então, quem ganhou a aposta? – e logo a risada do ruivo cessou enquanto Temari parecia que ia pular de felicidade se não estivesse sendo segurada pelo Timoneiro do Kurama.
— Eu, é claro! – respondeu Temari.
— Se tivessem aceitado a minha revanche... – Gaara tentou persuadir a irmã, mas foi interrompido por Neji.
— Chega de beber, nenhum dos dois tem mais condições e já estão dando muito trabalho – reclamou.
— Vamos logo com isso, estamos perdendo tempo – Shikamaru concordou ao ajeitar Temari sobre o ombro, mostrando estar com dificuldade com a loira. Sakura, então, resolveu ajudá-lo enquanto Sasuke ajudava o Hyuuga com Gaara.
Sakura e Shikamaru ainda tiveram um pouco de dificuldade com Temari que insistia que estava bem, por isso, quando saiu do quarto, deixando apenas o Nara com a pirata, percebeu que estava sozinha. Neji e Sasuke já deviam ter saído dali. Suspirou recordando-se do momento que teve com o Imediato. O que aquilo significava? Ela nem foi capaz de respondê-lo.
Mas ela tinha que admitir, talvez... talvez ele fosse gentil e havia dito algo que ela jurava que nunca ouviria dele, ele pediu perdão e disse que estava errado, e ele também sabia ser adorável, quando queria. No entanto, isso não significava que ela estava apaixonada por ele, não é mesmo? Afinal, ela saberia se tivesse se apaixonado, não é? E por que ela ainda sentia formigar onde o Contramestre a tocara e sua barriga ainda revirava de nervoso ao pensar na proximidade dele?
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