Ela se ajoelhou, envolvida pelo ar rançoso e pela escuridão fria.

Foi nesse momento que sua nova vida começou.

Um tremor repentino abalou o lugar que ela estava e o único som que se ouvia era o barulho de metal rangendo contra metal. O movimento súbito acabou a derrubando e ela engatinhou até o canto daquele local. Sentando-se no chão, a garota recolheu as pernas e as abraçou tremendo de medo e suando frio.

Esperou até que seus olhos se acostumassem com a escuridão e quando finalmente conseguiu, percebeu está presa em uma espécie de velho elevador num poço de mina.

Sons de correntes e polias ecoavam na estrutura do compartimento, o elevador sem luz ia para trás e para frente durante a subida, o que causou náuseas na menina; o cheiro de óleo queimando só piorava sua situação.

A vontade de chorar era muita, mas ela simplesmente não conseguia.

“Meu nome é Lisa”, pensou.

A única coisa que conseguia se lembrar era isso, seu primeiro nome.

Sua mente funcionava normalmente, afinal ela entendia onde estava e qual era a situação que se encontrava. Várias informações inundaram seus pensamentos, como a chuva, o sabor de ovos e bacons, o por do sol, as luzes da cidade e de pessoas caminhando em várias direções diferentes indo para seus empregos.

Mas o essencial ela não lembrava, como o motivo de ela está ali, num elevador, subindo sem parar. Tentou visualizar o rosto de seus pais, mas não conseguiu.

Todos os rostos que tentava lembrar pareciam possuir uma mancha fantasmagórica.

Lisa não se lembrava de absolutamente ninguém e de nada que fez durante a vida.

O elevador sacolejava sem parar, porém, a essa altura ela nem se importava mais. Tentou lembrar a quanto tempo estava ali, mas não obteve êxito, podiam ser minutos ou até mesmo horas.

O medo desapareceu no mesmo instante em que a velocidade do compartimento diminuiu até parar completamente.

Apesar de começar a ficar nervosa, a garota se levantou no completo silêncio e escuridão, e tratou de reconhecer melhor onde estava. Segurando a parede, ela tentou achar uma brecha onde pudesse abrir o cubículo e ir embora.

Como se fosse tão fácil assim.

Tentando gritar por ajuda, Lisa percebeu que não adiantava fazer nada a não ser esperar.

Sentando-se novamente onde estava antes, ela avistou uma forma diferente no lado oposto a ela. Engatinhando foi até o objeto e o pegou sem medo.

Uma faca.

Com cautela para não se cortar, colocou em seu bolso a arma e a guardou no bolso da calça jeans para caso precisasse se defender.

Um rangido estridente foi ouvido e Lisa sentiu um frêmito de preocupação no peito.

Uma linha reta de luz apareceu no teto e automaticamente a garota fechou os olhos por estar acostumada a escuridão. A linha de luz se alargou e um som pesado revelou duas portas de correr sendo abertas por alguém do outro lado.

Desviou seu olhar da abertura e com as mãos nos olhos aguardou com que se acostumassem com a claridade repentina.

— É uma menina?

O medo comprimiu o peito.

— Seu Cara de Mértila! É uma garota! Uma garota gostosa! – uma voz fina falou animada.

Com uma vontade imensa de sumir, Lisa voltou seu rosto para o som daquelas vozes.

Tinha vários, vários garotos olhando para ela, alguns mais jovens, outros mais velhos

Todos homens.

Ver vários rostos assim acabaram por confundi-la.

Eram todos adolescentes.

Parte de seus temores diminuíram.

Uma corda foi jogada e Lisa enfiou seu pé no laço na extremidade da corda e se segurou enquanto era içada para cima.

Mãos estenderam-se na sua direção, umas tentando a puxar, outras apenas confirmando se ela era de verdade e ainda haviam outras que pegaram em lugares do seu corpo a incomodando.

Ela sentiu como se o mundo girasse e uma chuva de emoções fez com que ela se contorcesse. Quando conseguiram a tirar dali e a colocaram de pé, o coro de voz cessou e apenas uma voz soou:

— Bem vida a sua nova vida de merda, Trolha. Bem vinda à Clareira.

***

Lisa se levantou se sentindo enjoada e sacudindo a poeira de suas roupas. Ainda atordoada com tudo, ela virou a cabeça de um lado para o outro tentando assimilar tudo.

Foi quando ela viu uma abertura.

A porta que a salvaria.

Estava em um vasto pátio bem maior do que qualquer campo de futebol, cercado por muros cinzentos enormes – cobertos por uma hera espessa – que formavam um quadrado perfeito ao redor de onde estava e no meio de cada parede havia uma abertura que até onde conseguia vê levava a corredores enormes.

Era sua oportunidade perfeita.

Era por ali que ela sairia.

Em um movimento rápido, a menina tirou a faca do bolso e apontou para um garoto loiro na sua frente.

Todos se olharam assustados e começaram a ri da garota.

— Escute... – um menino branco de cabelos pretos tentou falar.

— Escute você! – ela retrucou surpresa com o som da sua própria voz – Onde estou?

Obviamente ela não ia sair correndo sem saber de nada.

— Você está presa aqui, Novata! – uma voz manhosa disse.

Ela olhou na direção de quem falava e viu um garoto alto, loiro, com queixo quadrado e um nariz estranho.

— Onde estou? – repetiu apontando a faca para o menino que só sabia ri.

— Calma. – o loirinho que parecia até ser uma boa pessoa – Você está...

— Está presa aqui. – o garoto de nariz estranho interrompeu o outro.

Aquilo foi o suficiente.

Todos olhavam para ela atentamente quando ela se pôs a correr em direção a uma das aberturas daquele lugar.

Com a respiração desregulada, os músculos gritando de dor e o suor grudando sua roupa no corpo, ela correu o mais rápido que pôde.

Quando estava chegando bem perto da porta, seu coração deu uma batida a menos quando um garoto de feições asiáticas apareceu de maneira inesperada ao redor de um canto à frente, entrando na passagem principal de uma das saídas à direita dela e da Clareira.

O garoto a olhou confuso, mas ainda assim não diminuiu a velocidade.

Coberto de suor, com o rosto vermelho e com a camisa azul arregaçada até o braço deixando visível seus músculos, o tal asiático estava – ela não sabia porque – entrando naquele lugar, mas não ia a impedir de sair dali.

Lisa parou por um momento olhando para trás e viu que tinham uns garotos tentando a alcançar e gritando coisas sem nexo. Quando olhou para frente pronta para voltar a correr percebeu o asiático bem na sua frente.

— Sa-saia. – murmurou ofegante apontando a faca para ele.

Ele nem se mexeu.

— Saia, por favor. – soluçou deixando uma lágrima escapar – Preciso sair daqui.

— Você não vai querer sair. – o asiático disse a encarando fixamente e dando um passo a frente encostando-se na faca – Me mate, Fedelha. Vamos.

— Saia. – ela apertou um pouco, mas não a ponto de machucar, a faca em sua camisa colada no corpo devido ao suor.

— Você não que ir lá. – ele disse.

Percebendo que os seus captores já se aproximavam, ela perguntou:

— O que tem lá?

— Você não quer ir lá. – o menino repetiu – Ainda mais agora.

Sem outra alternativa, ela apertou a faca em sua mão e desferiu um golpe contra o braço do asiático.

Surpreso com a garota ele olhou para o ferimento e depois na direção dela, porém, a mesma tinha aproveitado o momento de distração para correr em direção aos muros.

— Idiota. – ele sussurrou e sem muito esforço se jogou em cima dela a protegendo de cometer suicídio.

Foi quando um estrondo alto elevou-se no ar, fazendo Lisa se encolher com o corpo do asiático em cima dela. O barulho foi seguido de um som áspero e arrastado. Ela começou a tentar tirar aquele garoto de cima dela. Os muros estavam se fechando, mesmo que ela não soubesse explicar como, e com eles sua única saída de sair dali ia embora.

— Saia de cima de mim. Me deixe ir! – ela gritou enquanto sentia o sangue do ferimento que tinha causado no garoto sujar seu braço.

— Você vai ficar exatamente aqui mocinha. – ele disse segurando os braços da Lisa.

Ela olhou para o lado e viu que sua faca não estava tão longe assim.

— Nem pense nisso. – o menino percebeu o que ela pensava.

Mas ela não conseguiu o ouvir direito. Lisa estava fascinada demais, assustada demais, abalada demais com os fechamentos da sua salvação.

Os muros desafiavam qualquer lei da física e o som – e o peso do garoto em cima dela – fez seu corpo tremer.

Sua chance de ir embora estava acabada.

Teria que ficar com aqueles garotos desconhecidos e o pior, não tinha mais sua faca para se defender.

Buscou observar as outras aberturas que tinha visto no local.

Todas estavam se fechando.

— Hey. – o garoto em cima dela chamou.

Seus olhos se encontraram.

O desespero de repente passou.

Lisa respirou fundo.

Naquele simples olhar ela conseguiu ler a alma daquele garoto, assim como ele leu a sua.

Algo estranho.

Algo inesperado.

Algo totalmente novo, mas que parecia antigo.

O menino viu o medo, a força, a inocência e a coragem dentro daquela garota esquisita. Já ela, viu bravura, pânico, determinação e receio estampado no rosto do asiático.

Foi como se eles já se conhecessem. E não só antes de chegarem sabe se lá onde estavam agora, mas sim desde sempre.

— Está tudo bem. – ele sussurrou assim que os muros se fecharam por completo cessando aquele barulho.

E ela acreditou.

De alguma forma soube que com ele ali, ficaria bem, talvez não completamente.

Mas bem, ela ficaria.

[...]

Notas finais
Qualquer erro ortográfico, avise, por favor.
Espero sinceramente que gostem.
Beijos leitores. Amo vocês!