The Mafia
2 002 — Darkness

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— Illinois, 31 de Dezembro de 1991. 12:32 PM.
Antes de mais nada, algo importante: a penitenciária Marion fede a cadáver em decomposição, o que é algo estranho vindo d'O Buraco de onde ninguém sai. E, por Deus, estamos nos anos noventa; os tiras poderiam limpar as celas toda vez que alguém morresse aqui. Porque para mim morrer não é problema, mas morrer deitado no vômito alheio é completamente nojento e anti-higiênico, além de que minha família não está pagando um advogado caro para que eu fique cheirando essa merda nesse muquifo dos infernos.
Ok, certo. Eu não tenho família e meu advogado é um incompetente, mas e daí? Poderia ser pior, não poderia, Victor? Sim, poderia. Eu poderia estar morto agora, poderia ter sido sequestrado, poderia ter levado uma surra, poderia até ter sido expulso do apartamento onde moro pela milésima vez. Mas, invés disso, aqui estou eu. O grandioso Victor Bertinelli está escrevendo sua autobiografia em... Um pedaço de papel higiênico sujo. Preferia ter ficado no orfanato. Lá pelo menos tinha uma cama macia. Ah, eu mataria por uma cama macia agora. Com um travesseiro de penas e um cobertor quente, e talvez umas mulheres bonitas e cerveja. Não, não. Vodca seria melhor. Vodca sempre é melhor.
E... Vamos ver o que tem aqui, porque afinal vocês devem estar ultra curiosos em saber qual é o lugar onde um cara como eu vai bater as botas e eu sou um cara legal com meus fãs. Mesmo que vocês não existam. Meh. Detalhes, detalhes inúteis que ninguém está interessado em saber. Enfim. Aqui temos uma cama mais dura do que os pães que a Madre Angela fazia, um vaso sanitário de aço que me dá náuseas só de chegar perto — meus queridos amigos foras-da-lei, por favor, aprendam boas maneiras e deem descarga depois de deixar uma arma biológica. Victor agradece. — e... Ah, ali estão as famosas grades! Eles nem nos dão aquelas canecas legais para ficar batendo na grade. Os tiras de Illinois são muito sem-graça. Os de Dallas eram mais divertidos. Principalmente o John. John jogava xadrez comigo.
O ano deve estar acabando agora. Posso ouvir os fogos de artifício. Boom. Boom. Parece um tiroteio. Tiroteios são legais. Ao menos quando você não leva um tiro de uma escopeta. Meu amigo Al morreu assim. É. Triste. Mas é passado, o que importa agora é o futuro. Quanto tempo falta para que eu seja libertado? Dois dias? Duas semanas? Dois meses? Dois anos? Não sei. Já parei de contar no dia número cinquenta e isso faz um tempinho. Não importa mais, eu acho. Pelo menos consegui o habeas corpus e logo saio daqui, aí vou poder retornar a minha vida do crime. Isso se eu não morrer aqui. Eles pararam de me dar água; significa que me querem morto? Talvez querem que eu morra para que alguém novo possa entrar aqui. Só para ter o mesmo fim que eu depois.
Seria legal se, no caso de que eu me livre desse inferno, eu pudesse chamar uns caras e formar uma gangue. Tipo aquelas gangues legais em Los Angeles. Talvez a gente conseguisse ir para Chicago e falasse com um daqueles caras grandes; eles teriam algum trabalho ou algo do gênero. Wow. Boa ideia, Victor. Pelo menos você teria alguém para relatar quando estivesse sendo interrogado e diminuiriam a sua pena, pelo menos um pouquinho. Além de que seria legal, seria muito legal. E talvez a gente pudesse crescer...
... E se tornar uma máfia.
Máfia. Máfia. Máfia.
O que eu sei sobre máfias? Al Capone? A máfia siciliana? Chicago Outfit? Scarface? O Poderoso Chefão? Raios, como eu começaria uma máfia sem conhecer nada sobre o assunto? E o pior: a ideia está infectando minha mente. Não é boa; é perfeita. Uma irmandade lutando contra os tiras... Pelas mulheres, pela adrenalina e pela grana. Ah, perfeito. Tudo o que um garoto de dezoito anos como eu mais quer na vida. Adrenalina. E ainda ganharia dinheiro com isso. E talvez fizesse alguns amigos. Ou não. Ninguém vai com a minha cara mesmo. Mas mesmo assim... É. É isso o que eu vou fazer. A maior e mais perigosa organização do mundo. A KGB versão criminosa, a Al Qaeda da Máfia... A CIA iria nos temer, ah, ela iria. A minha máfia.
É. Parece que agora você tem um objetivo em mente, Sr. Victor Bertinelli.
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