The Madness of Liddell

1 "O seu tempo está chegando, está chegando sim..."


O dia estava ensolarado, sem nuvens no céu que pudessem cobrir os raios de sol, o ar era fresco e perfumado, e cheirava a madeira e a folhas de pergaminho. A luz do dia que vinha da janela batia no rosto de Alice, que abriu os olhos lentamente, piscando. Ah, Alice adorava dias como aquele. Onde o céu era brilhante, as flores abriam e os esquilos brincavam furtivamente pelas árvores.

Ela levantou de sua grande cama de dossel, e colocou os pés descalços no chão, sentindo o piso frio de madeira. O dia estava realmente encantador, e ela não demorou a correr na ponta dos pés até o jardim. Alice se sentia como uma bailarina graciosa, saltando pela grande mansão Liddell, descendo a escada gigantesca e majestosa, e passando pelas salas vazias com pisos de porcelanato impecáveis. Ao abrir a porta dos fundos da casa que dava para o jardim, a brisa foi imediatamente soprada em seu rosto, levantando seus cabelos e passando por seus braços nus. Alice suspirou profundamente, enquanto sentia o cheiro de terra fresca e do maravilhoso perfume das flores. Ela sorriu para si mesma, apreciando a paisagem fantástica que tinha seu jardim.

Alice amava flores. E árvores. Na verdade, Alice adorava tudo que tinha em seu jardim. Desde um pequeno riacho onde era proibida de nadar até o labirinto de cercas-vivas que o pai havia pedido a um florista encantador para fazer. Quando tinha sete anos, Alice havia pedido o jardim de aniversário para seus pais, que riram de imediato com o pedido da filha, achando que era uma piada. “Pensei que fosse querer bonecas, querida”, disse seu pai. “Ou um vestido. Eu iria hoje mesmo a cidade encomendar um ao melhor costureiro de Londres”, falou a mãe. “Mas mamãe”, dizia Alice, insistente, “Para que eu iria querer um vestido se eu já tenho um? E papai, porque uma boneca se posso ter um jardim inteiro só para mim?”. No fim das contas eles acabaram decidindo que a filha poderia ser a dona do jardim, se ajudasse a cuidar das plantas. E cá está ela hoje, com dezessete anos cuidando de seu pequeno-grande jardim.

-Oh, céus! Alice, vá se vestir!

Alice se virou com um pulo, surpresa. Era Frankie, um de seus irmãos mais velhos.

A família de Alice era grande. Seu pai, Henry, era vice-chanceler de uma famosa universidade britânica, e diretor de uma escola. Sua mãe, Amatis, era filha de um dos homens mais conhecidos e respeitados do Reino Unido. Ah, e também tinha seus irmãos e irmãs. A filha mais velha do casal Liddel, era Charlotte. Ou como Alice a chamava, Lottie. Lottie era bela, e tinha um corpo, assim como o da mãe, bonito e esbelto. Seus cabelos loiros eram os mais sedosos que Alice jurava já ter visto, e ela tinha sempre muitos pretendentes. Logo depois de Lottie, nasceram os gêmeos Edith e Matthew. Matthew era mais sério que seu próprio pai, e era muito severo, principalmente em relação a Alice. Edith não era tão bela quanto Lottie, mas tinha algo que era de se invejar: Sua inteligência. Não havia nada que Edith não sabia, quer dizer, quase nada. Era Edith quem dava aulas para Alice, e muitas vezes era um tanto dura demais. Depois dos gêmeos nasceu Frankie. Frankie era um garoto bonito, bem mais bonito que Matthew. E bem mais interessante também, Alice achava. Ele era engraçado, e adorava contar piadas para Alice. Os pais dos garotos não gostava quando ele contava histórias engraçadas, pois era inapropriado. Depois de Frankie veio Alice. Cabelos loiros, quase brancos, a pele com sardas e os olhos azuis acinzentados, como uma lua. A doida Alice. A que não era a mais bonita, com curvas esbeltas. A que era esperta e inteligente, mas nunca mais do que Edith. A que não era responsável como Matthew... Provavelmente, Frankie era o único irmão com que Alice se identificava. Quer dizer, tinha Benjamin, mas ele tinha apenas 6 anos de idade. Puxa, crianças eram tão mais divertidas. Porque as pessoas não podem ser crianças pra sempre?

-Frankie! –Disse Alice, dando um tapa de leve em seu ombro esquerdo. –Você quase me matou de susto!

-Desculpe. Não foi minha intenção assustá-la. Mas é melhor você subir e colocar um vestido. Sabe o que mamãe fará se te ver de camisola do lado de fora de casa?! –Ele disse, falando a ultima frase cochichando.

-Eu simplesmente... não entendo! Não temos vizinhos.Ninguém fora da família ira me ver. E afinal, qual o problema com a camisola? Ele vai até o meu tornozelo... Não é como se fosse inapropriada ou algo do tipo.

-Alice. Eu também não vejo problema algum. Mas veja bem, nossa mãe não gosta. E temos que seguir as regras dela.

Alice não entendia porque era obrigada a fazer tudo o que os outros mandavam. Quando era criança, achava que quando moça poderia seguir suas próprias regras. Mas ela continuava tendo que obedecer. Será que as pessoas, algum dia, qualquer que fosse esse dia, fariam algo que realmente tivessem vontade?

-Se esse mundo fosse meu, tudo seria diferente. –Disse Alice, passando os dedos delicadamente por entre as pétalas de uma margarida –Nada era o que é, porque tudo era o que não é. E também, tudo o que é, por sua vez não seria, e o que não fosse, seria. Você me entende?

-Ham... Na verdade... Não. –Disse Frankie, revirando os olhos.

-Bom, tudo bem. Eu também não me entendo as vezes... –Falou Alice, dando de ombros. –Mas no meu mundo, as flores falariam. E eu contaria coisas para elas... Como histórias! Quem me dera ter um mundo meu... Só meu, e só pra mim.

Frankie riu.

-Céus, papai vai te internar se te ouvir falando essas coisas...

-Você me acha louca? –Alice perguntou, sentando na grama fresca do jardim, acompanhada pelo irmão.

Ele ficou quieto por alguns segundos.

-Não. –Frankie disse, coçando a cabeça. Ele olhou para a Irmã. –Acho que você é uma garotinha que pensa muito, e acaba passando dos limites as vezes. Mas eu te conheço desde que você era um bebê. Você não é maluca, Alice. Apenas é inteligente o suficiente para imaginar o impossível.

Alice sorriu.

-Eles acham. Que eu sou louca, digo.

-Quem? –Frankie perguntou.

-Papai, mamãe. Lottie e Edith. A cidade toda cochicha sobre a maluca dos Liddell. E Acho que Matthew quer me levar para um manicômio... –Alice falou.

-Matthew não fará isso. Eu não deixarei. É uma promessa.

Frankie estendeu o dedo mindinho para Alice. Ela o apertou com seu dedo mindinho.

-Agora é uma promessa de dedinho. –Ele disse.

Alice riu. Era o que eles faziam quando ela tinha aproximadamente oito anos.

Um arbusto próximo aos dois se mexeu.

-Ei. –Disse Alice. –Você viu aquilo?

-Aquilo o que? –Disse Frankie, olhando para o local que Alice apontava.

-No arbusto! Alguma coisa se mexeu!

-Devem ser uns esquilos sem graça. Deixe pra lá. Vamos entrar em casa, você precisa colocar uma roupa.

Então, em meio as folhas verdes que pairavam no chão, ele apareceu. Mais uma vez. E sua aparência ficava mais horripilante a cada aparição. As orelhas caídas e deformadas, empapadas em sangue. Os olhos suplicantes, e uma cartola suja de terra. E o que mais a perturbava: O corpo que pendia aquela cabeça não era de coelho, e sim, de humano. Alice engoliu o grito agudo. Não, não, não, não... Ele não podia aparecer. Não hoje. Não naquele dia.

-Alice... –Disse Frankie, a despertando. –O que está olhando?

O coelho continuava imóvel, apenas a observando e segurando um relógio de bolso dourado com suas mãos ossudas. Sua boca não se movia, mas Alice conseguia ouvir sua vos fria percorrer por seus ouvidos e lhe provocando calafrios. “O seu tempo está chegando, está chegando, o seu tempo está chegando, está chegando sim...”.

-Alice... –Falou Frankie. –Alice, você está me machucando.

Só então a menina percebeu que apertava a mão de Frankie. Ela soltou a mão do irmão rapidamente.

-Desculpe. Pensei ter visto uma abelha. –Ela disse.

O coelho já não estava mais lá quando ela tornou a olhar novamente para o mesmo lugar.

-Você viu o coelho, não foi? –Perguntou.

Alice odiava mentir, principalmente para Frankie. Quando Alice era pequena, aquilo era perfeitamente normal e aceitável. Mas quando ela foi ficando mais velha e continuava insistindo que tudo o que via era real... Aí as coisas começaram a se complicar. Como se precisasse ser criança para poder acreditar em algo impossível. Mas já fazia um bom tempo em que ela não contava a ninguém o que via. Aquilo estava deixando todos preocupados. Seu pai, Henry, estava passando vexame por toda a cidade pois todos circulavam a fofoca de que sua filha via “bichos gigantes, metade gente, metade bicho.” .E sua mãe não tinha mais amigas, todas riam dela pelas costas. Lottie não tinha mais tantos pretendentes, afinal, quem quer se envolver com alguém cuja a irmã é maluca? Edith ficava frustrada, assim como todos na verdade... Porque a filha deles tinha de ser daquele jeito? Porque, com tantas pessoas no mundo, com tantas meninas, porque tinha de ser Alice a ver aquelas alucinações? Ela foi mandada para diversos médicos, e até mesmo passou alguns meses em hospitais. Então, depois de um tempo, quando todos pareciam desesperados por ajuda, ela fingiu estar bem. Não contava mais sobre quando o coelho a vinha visitar, e nem sobre conseguir ouvir as flores cochicharem sobre o novo corte de cabelo ridículo da mãe de vez em quando.

-Não seja ridículo, Frankie. –Respondeu Alice, secamente. –Não tenho mais... essas coisas loucas. Lembra-se?

-Eu espero que seja verdade, Alice. Porque se algo estiver acontecendo com você, gostaria muito que me contasse. Você sabe que eu não sou como os outros. Eu vou te ajudar.

-É claro que sei. Só... Só era uma abelha. Vamos, eu tenho que colocar outra roupa.

Junto, os dois entram pelos fundos da casa. Mas secretamente, Alice olhava disfarçadamente pelo canto do olho, atenta com qualquer movimento que aquele coelho maldito podia fazer se voltasse a aparecer naquele dia.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.