The Loving Dead
6 Capítulo 6
Notas iniciais
Eu olhei pro Cássio que estava com a arma na mão. Ele me fitava com olhar de pena. Tom ainda estava parado no mesmo lugar, e eu? Estava em choque. O morto estava no chão e já não grunhia nem se mexia. Tinha dois buracos de bala na cabeça. E havia um corpo, um corpo de uma mulher... Minha mãe! Corri até ela.
— Não pude fazer nada, desculpa! — disse Cássio. Minha mãe estava acordada, no seu braço havia uma ferida profunda, a mordida do zumbi. O sangue escorria até a mão dela. Sentei-me ao seu lado e coloquei a sua cabeça no meu colo, acariciei os cabelos.
— Eu te amo, mãe! — eu disse. Lágrimas caiam pelas as minhas bochechas. Eu simplesmente não acreditava no que estava vendo. Tanto Tom quanto Cássio estavam igualmente em choque. Nenhum deles sabia o que fazer. Minha mãe olhava para meu rosto.
—Não... Não se preocupe — ela disse praticamente cuspindo as palavras. A morte se aproximava para ela. Fiquei em silêncio observando cada detalhe do seu rosto, os cabelos levemente avermelhados e os olhos pretos que pareciam relembrar cada momento da vida antes dessa porcaria de infestação de mortos! Eu odeio o que o mundo se tornou, se era para a humanidade ser extinta podia pelo menos ser sem esse sofrimento e esse medo.
— Mãe? — ela não respirava mais. Eu comecei ofegar, o ar não chegava aos meus pulmões. Eu estava com raiva e tristeza — Ahhhhhhhhhhhh! — eu gritei alto demais para atrair mais mortos, mas eu não me importava com isso. Se fosse para morrer algum dia, que fosse hoje perto da minha mãe.
— Nós temos que ir — disse Tom tentando me levantar.
— NÃO! Eu vou ficar com ela — eu disse tirando a mão dele de mim.
— Você sabe o que vai acontecer, Sophia! — Cássio disse.
— Eu não vou deixá-la aqui. Eu não quero que ela se transforme nesses monstros — olhei para o zumbi que a mordeu.
— Você sabe o que devemos fazer — Cássio falou mostrando a arma — Nós vamos atirar nela. Você não precisa ver isso — ele se aproximava.
— Não — eu disse levantando a mão para pegar a arma — eu faço isso!
Cássio e Tom ficaram em silêncio. Os dois estavam espantados com a minha decisão de consumar a morte de minha mãe. Eu também estava, porém todos nós sabemos que o mundo é outro. Nesse mundo os fracos não têm vez. Segurei a arma forte e apontei para a cabeça dela.
— Adeus, mamãe! — minha mãe abriu os olhos, a cor não existia mais. Ela tentava me pegar. Não esperei... Puxei o gatilho e o barulho ecoou por toda a mata. Acabou.
— Sinto muito — Tom disse. Ele me ajudou a levantar, minha calça estava cheia de sangue e a arma tremia na minha mão — Agora temos que ir, o tiro pode ter atraído mais zumbis.
—Mas eu não posso deixar o corpo dela aqui! — eu disse.
— Não temos como enterrá-la — Cássio disse um pouco cabisbaixo.
— Vamos — Tom pegou a arma na minha mão e entregou a Cássio, depois me puxou. Eu olhei para minha mãe pela última vez. O corpo dela ficaria ali, abandonado. Esse com certeza não era o fim que ela merecia. Vi algumas flores perto de uma árvore, corri até lá e colhi flores violetas — a cor que correspondia ao nome da minha mãe —, coloquei-as na mão dela.
Meu rosto estava pegajoso, passei a mão para tentar melhorar a situação, mas acabei me sujando com sangue. Cássio e Tom estavam em silêncio, eles estavam me guiando por um caminho que nenhum de nós conhecia.
— Onde estão os outros? — eu perguntei com a voz rouca.
— Jack disse para irmos em direção à estrada, assim que a horda passasse. Espero que eles já estejam lá — Cássio disse, tive a impressão que ele pensava em Bianca.
Continuamos em silêncio. A estrada estava próxima, paramos a alguns metros e observamos os carros. Não havia nenhum morto, eles já estavam bem longe há essa hora. Chegamos à estrada e não havia ninguém lá. Pensei o pior, eu sempre penso o pior. É difícil criar expectativas quando só o mal acontece, meu otimismo morreu junto com a humanidade. Agora eu estava sozinha, sem minha família.
— Vamos esperar, eles devem estar chegando — foi o que Cássio disse para nos animar.
Cássio encontrou sua moto caída no chão e com o retrovisor quebrado, porém ainda funcionava. Tom e eu ficamos procurando suprimentos nos porta-malas dos carros, já que a parte que eu carregava foi perdida na floresta.
— Você está bem? — Tom perguntou enquanto vasculhava uma sacola.
— Dá pra aguentar — eu disse colocando alguns remédios dentro de uma mochila — Só não quero perder mais pessoas. Espero que Jack, Jenna e Bianca estejam bem.
— Eles estão — Tom disse para me confortar. Mas no fundo sabíamos que era bem difícil sobreviver. Ao longe eu via Cássio parado pensando na vida. Eu pensava na vida também, na vida que estaria vivendo se nada disso tivesse acontecendo. Concluiria o ensino médio e estaria prestes a entrar na faculdade de veterinária, conheceria caras legais e faria amigos, viajaria pelo mundo, enfim, seria feliz. Porém mais que feliz, eu teria a minha família. Eu viveria em vez de me esconder de mortos. E hoje eu juro pra mim, eu vou parar de me esconder.
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