No dia seguinte acordei só, tanto na cama quanto em casa. Todos haviam saído pra faculdade. Tomava meu café enquanto tentava assistir um programa na tv, mas aquele assunto não me saia da cabeça. Pensava que não conseguiria viver meus últimos momentos de vida como alguém normal novamente. A campainha tocou e era Sarah que ao me ver foi logo me abraçando e chorando.

- não chore senão fico mais pra baixo. – eu disse e ela enxugou as lagrimas que caiam.

- como você está, amiga?

- a mesma coisa. To péssima.

- ai, não to acreditando ainda no que me disse. Você falou sério ontem?

- nunca brincaria com algo como isso. Eu te amostraria os exames se eu ainda os tivesse, mas resolvi tacar fogo em tudo assim que botei as mãos nele.

- eu sinto muito. Sinto muitíssimo mesmo. Só em pensar que um dia você...um dia você...

- um dia irei morrer...é...um dia isso ia ter que acontecer não é?

- nossa! – abaixou a cabeça pensativa. Estava arrasada. – e o Gerard? – perguntou dessa vez me encarando.

- eu não disse nada pra ele. Eu não sei nem como dizer isso à ele.

- nossa! Que situação. Aquele fdp do Brian...ele não devia...

- eu já me conformei. Admito ter ficado muito brava com ele no começo, mas agora já estou mais conformada. Como pode isso? Você se dedica anos a um homem e pensa que sua vida é perfeita até descobrir que o cara pra quem você vive te trai e ainda te passa uma doença maligna...Eu to arrasada, mas ao mesmo tempo quero curtir o que me resta de vida. Só que não consigo sabe, não tenho ânimo pra nada.

- Eu vou te levar pra sair, vamos nos divertir como nunca, você vai ver.

- obrigada Sarah. Por tudo. – disse abraçando ela e pensando no Gerard e na difícil missão que eu tinha de revelar a ele sobre o verdadeiro resultado do exame.

Esperei o dia todo pelo Gerard que não chegava. Andava de um lado a outro da casa à espera dele até que ele chegou às sete da noite.

- oi Gee. Onde você estava até essa hora? – perguntei carinhosamente.

- ah...Tava com a Lyn.

- Lindsay? – fiquei um pouco enciumada. Ela já tinha até um nome carinhoso.

- é. Estávamos resolvendo umas paradas aí.

- “paradas aí”? – perguntei sarcasticamente. Ele então se irritou.

- lá vem você. Você não confia mesmo em mim em?

- é lógico. Estou te esperando faz tempo pra conversarmos sobre algo sério e você me chega a essa hora por que estava com outra.

- do jeito que está falando parece até que eu estava te traindo.

- quem sabe? – pronto, a conversa séria havia virado numa discussão agora.

- deixa de bobeira Rose!

- bobeira? O que acharia se eu passasse horas com outro?

- depende fazendo o quê.

- ta vendo. Até você pensa em maldade.

- eu não estou sendo maldoso. Só estou dizendo que depende do que estivesse fazendo com esse outro. Uma coisa lógica.

- ahan...Sei... – disse irritada de braços cruzados.

- esquece isso. Agora me diz o que tem de tão importante pra me dizer já que está aí ansiosa me esperando pra contar.

- é realmente sério Gerard. – disse irritada com o jeito dele falar como se o que eu tinha pra conversar com ele não fosse realmente sério.

- então fala.

- eu nem sei como te dizer isso, vamos nos sentar pra conversar melhor sobre isso. – quando íamos pro sofá nos sentar o celular dele tocou.

- só um minutinho que pode ser importante, Rose. – disse pegando o celular do bolso. – alô. Oi. – e abriu um largo sorriso. – cheguei agora. Pode sim. Ta bom, posso sim. Ok. Tchau. – e desligou. – Rose, será que pode deixar essa conversa pra outra hora?

- quem era?

- era a... – e respirou fundo. -...A Lindsay.

- ela de novo. – disse impaciente.

- não pense besteira sua boba. – e me beijou na testa. – estamos resolvendo coisas de shows. Estou tentando ajudar a banda dela. Fique despreocupada. Eu te amo.

- também te amo, Gerard. – disse séria como um robô.

- beijos. – ele me beijou depressa nos lábios e se foi.

O tempo foi passando e eu não tive coragem de dizer ao Gerard que estava com a tal doença. Eu sempre evitava manter relações sexuais com ele. Na verdade já fazia mais de um mês que não fazíamos amor. Eu sempre inventava uma desculpa diferente pra que nada entre nós acontecesse. Durante esse mês meu estado foi piorando, mas uma noticia meio boa apareceu. Eu estava grávida. O único medo era que a criança também pudesse nascer com Aids.

- bom dia, Sra. Hinster. Chegou cedo hoje. – disse Walker quando entrei na sala dele.

- sim. Estava ansiosa. Não consigo mais dormir só pensando nesse exame.

- eu tenho uma noticia que vai te deixar alegre.

- jura? Que bom! Estou precisando de noticias boas ultimamente.

- de acordo com os exames, seu filho tem 99% de chance de não nascer com a doença.

- ai que bom! – disse emocionada levando a mão no meu peito aliviada.

- isso ainda não está totalmente confirmado, só saberemos realmente isso quando a criança nascer. Aí sim faremos uma bateria de testes com a criança.

- ela vai se salvar. Se Deus quiser! – disse deixando algumas lágrimas escaparem.

Quando cheguei em casa passei a tarde inteira pensando na criança que eu esperava. Pensava no futuro dela. Eu tinha extrema certeza de que ela nasceria com a saúde perfeita. Agora eu tinha que decidir o que fazer. Conta ou não contar ao Gerard? Eu queria, mas ao mesmo tempo temia contar à ele por que aí teria que contar a história toda de eu estar doente e além do mais eu vinha pensando há um tempo em largá-lo. Ele não merecia estar ao meu lado me vendo morrer aos poucos. Eu só rezava pra que eu conseguisse sobreviver até o nascimento da minha criança.