The Lost Selection
2 Capítulo 1 — Vida de Príncipe
Notas iniciais
Capítulo 1 — Vida de Príncipe
Trechos do Diário de James August Illéa
11 de Outubro
Eu ainda não me acostumei com a idéia de escrever sobre os eventos do meu dia a dia nessas páginas.
Eu acabei por ter que escrever aqui após a minha mãe, a rainha de Illéa, me obrigar a seguir a sugestão de minha psicóloga (em que fui posto para poder passar pelas dificuldades intacto psicologicamente de ser um membro da família real) de escrever minhas memórias numa espécie de caderno em algo que antigamente as pessoas chamavam de Diário, um livro escrito que comporta os eventos diários de seu dono do ponto de vista do mesmo. Assim que fui informado que deveria fazer isso, eu fiquei inconformado, e a duvidar da importância que esses registros teriam para o futuro, já que eu não acho que alguém iria querer saber sobre a monótona, repetitiva e solitária vida de um príncipe qualquer, que nunca fez nada de importante ou interessante na vida. Eu realmente não acredito que as gerações futuras vão querer saber sobre reuniões governamentais e dezenas e dezenas de lições sobre etiqueta real, política e como aprender a argumentar e convencer pessoas do que você fala. Apesar de que, na minha opinião, as aulas de esgrima bem interessantes, úteis e divertidas. Eu estou acostumado a saber de tudo sobre as informações dos países de meus futuros aliados e inimigos, as melhores formas de escrever discursos e como manipular pessoas, então um desconto de tudo isso, algo para me fazer usar meu corpo inteiro, esgotar os músculos e ativar minha adrenalina é extremamente satisfatório e bem-vindo para mim, por isso eu acabei por me ver esperando ansiosamente para a chegada das aulas de esgrima, como uma criança que conta os dias até o Natal e o seu aniversário.
Mas acho que escrever sobre o que acontece comigo possa tornar-se um hobbie e, quem sabe, me ajude a extravasar minha raiva e frustrações, além de poder me ajudar a abrir para alguém, ou alguma coisa, que não conte tudo para meus pais por obrigação real. Acho que essa é a melhor coisa do papel; ele não é fofoqueiro. Eu me sinto um pouco fechado e isolado do mundo na minha vida no castelo, já que não há muitas pessoas com quem posso contar ou conversar. A maior parte das pessoas que vivem no castelo são adultos e criados, as poucas crianças que aqui existem são os filhos e filhas dos empregados de Angeles, estes que não eram aprovados brincarem com o Príncipe Herdeiro, mesmo estando no meio da infância. Então, como dá para notar, minha infância não foi nada comum ou divertida, apenas uma série de lições e repreendas, o completo oposto da infância das crianças plebéias.
Eu cresci aprendendo a como tomar conta do Reino, como agir em reuniões e como se divide o Mundo em que vivemos, politicamente e economicamente. Tenho, até hoje, aulas diárias de Etiqueta, Política, Persuasão e Dança de Salão. Como pode ver, infelizmente, eu e minha vida somos bem monótonos e repetitivos e nada aventureiro ou prazeroso, como muitos pensam. A menos que você é, ou queira saber como é ser, um príncipe. Mas, para você curioso, devo lhe avisar que não há muitas alegrias em viver isolado de outras pessoas, preso em um castelo por toda a sua vida. Nunca beijei nenhuma garota, nunca senti os mais simples prazeres da vida como brincar de ciranda ou esconde-esconde, nunca fiquei sujo de tanto brincar na lama ou me esgueirei de meu quarto à noite escondido de meus pais para me encontrar com meus amigos, não, eu fui recusado a ter tudo isso por ser filho do rei de Illéa. Então, como disse, minha infância não foi nada parecida com a das outras crianças, já que eu não era como nenhuma outra. Eu sou a pessoa mais protegida de Illéa, já que sou o único Príncipe Herdeiro e a única pessoa com parentesco com meus pais e bisavô (o próprio Gregory Illéa) ou que jamais terá, já que minha mãe não pode ter mais filhos. Ela tem alguma doença genética que, pelos meus conhecimentos, a deixou mais fraca fisicamente e impediu que os óvulos saíssem do ovário. Assim, acabei por me tornar a pessoa mais importante, poderosa e protegida de todo o país.
Minha família é um dos grandes motivos para eu ser tão protegido, podemos dizer; meu bisavô, Gregory Illéa, mesmo com sua idade, tem uma obsessão para que tudo saia conforme o que ele planejou, algumas vezes me pergunto o que ele pensa dentro de sua misteriosa cabeça e sei que, assim como eu, ele tem seu próprio diário e acredito que seus pensamentos mais obscuros devem estar lá; assim como estou escrevendo como odeio ser príncipe e gostaria que tudo simplesmente mudasse e eu pudesse ser apenas um adolescente plebeu, eu acredito que meu bisavô escreva sobre seus planos e o que planeja para meu futuro, já que Gregory carrega essa atmosfera de análise precisa e metódica, como se tudo fosse um grande jogo de Xadrez e nós fossemos suas peças. Eu sabia que o sistema de Castas foi criado pelo simples motivo de que Gregory precisava elevar seus aliados e rebaixar seus inimigos, eu não sou ignorante; sei que meu bisavô não é flor que se cheire, mas as ações do mesmo me fazem questionar; se somos sangue do sangue, seria possível eu me tornar um jogador político? Eu poderia começar a aproveitar as sensações de manipular os outros, tanto como minha família aproveita? E o que seria necessário para eu me tornar como meu bisavô? E será que eu poderia…?
Eu acredito que escrevi muito hoje. Eu me sinto tonto, frustrado e estou morrendo de sono. E, somado a isso, meu pai solicitou minha presença logo cedo amanhã para tratar de assuntos urgentes; eu não faço a menor idéia do que isso significa, mas acredito que deve ser importante para precisar de minha atenção imediata. Por isso, acredito que irei deixar de escrever e me retirar para uma boa noite de sono.
Então, até amanhã, espero.
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