The Lost Hero

3 Memórias Conturbadas


Está me ouvindo? Você parece bem distante dessa vez...

Acredito que em breve você me esquecerá, assim como foram das outras vezes...

Ouça com atenção...em breve todas as suas dúvidas serão sanadas e sua vida irá mudar por completo, mas tenha uma coisa em mente, o corpo e o legado não são importantes, mas sim o seu coração...

[...]

Outra vez...aquele mesmo sonho...

Chega á ser algum tipo de piada de mau gosto da minha própria mente, porque tentar relembrar de algo que será esquecido de maneira repentina? Nunca entenderei isso...

Ainda teria mais tempo para dormir afinal de contas ainda tenho que seguir viagem então seria necessário poupar alguma energia, mas infelizmente sou do tipo de pessoa que tem uma certa dificuldade em pegar no sono, tenho que estar em alerta á todo momento.

Mesmo já estando acostumada á viajar por aí ainda assim é difícil relaxar, toda vez um lugar novo, um objetivo novo, não sei ao certo mas talvez por conta da minha suposta idade acabei sendo introduzida bem cedo á uma vida de uma aprendiz de aventureiro.

É um tanto conturbado essa minha vida, sem um local fixo para chamar de lar, todas ás noites acampando em florestas, clareiras, cavernas, planícies ou passando á noite em tavernas ou hospedarias em alguma vila ou Cidade próxima, por alguma razão acabei me acostumando á isso.

No momento estava deitada em um acampamento improvisado.

Não é tão confortável quanto parece mas dá para passar á noite bem.

Era utilizado uma tenda improvisada da qual não precisava ser levada novamente, poderia ser deixada de lado, isso serviria para indicar á potenciais viajantes que é um local seguro para se passar a noite.

Sem falar que uma fogueira foi feita ontem á noite, aparentemente estamos em uma estação gelada, apesar de não ter uma coberta eu podia utilizar o manto que utilizo para cobrir minhas roupas.

Elas não são tão pesadas, aliás são bem finas, quero dizer não existem muitas roupas de tamanho pequeno para jovens aventureiros como eu.

Mas já havia acordado de qualquer forma então dificilmente iria dormir novamente.

O sol já estava na posição ideal, já estava na hora de acordar de qualquer forma.

— Bom dia.

— Bom dia...

Quem a saudava era um homem, por mais que sua voz fosse um tanto grossa ele apresentava uma aparência bem jovial.

— Parecia mais imersa dessa vez, deixe-me adivinhar, o mesmo sonho outra vez?

— Sim...

Ela mesma sabia que esse tipo de sonho era recorrente de sua parte então não se surpreendeu com o fato daquele homem ter indagado isso, porém sua expressão de revolta era duvidosa não se sabe ao certo se era por ter acordado bem mais cedo que o normal ou pela razão trivial de não se lembrar do sonho que teve.

— Será que isso tem algum significado?

— Lá vem você com essa pergunta novamente, acredite garota, se eu tivesse á resposta dessa pergunta eu te daria.

Como esperado uma resposta rude.

Tenho tido esse mesmo sonho enigmático de maneira recorrente, achei que um adulto poderia ter a resposta mas parece que estava enganada.

Apesar da sua dura resposta eu já tenho uma noção de sua personalidade.

Garrick Cliffwood é o seu nome.

Assim como eu ele era um aventureiro porém alguns ranks acima do meu, comparado á ele eu sou uma novata, ainda mais sendo bem jovem.

Diferente das minhas roupas que são bem básicas as dele são feitas sob medida contando com uma proteção leve em seus braços e pernas, ele precisaria de mais liberdade e menos peso para movimentar-se.

Ele utiliza uma espada de tamanho médio, parece ser leve mas seu cabo é bem robusto, diferente de sua lâmina de aço.

Nos conhecemos á um mês atrás e de uma maneira completamente conturbada, demorou um bom tempo até que as apresentações fossem feitas.

Era compreensível afinal dada a maneira que cheguei nesse lugar a aproximação seria difícil.

Ele foi a primeira pessoa da qual tive algum contato depois de muito tempo...quero dizer talvez já que não tenho recordações de tudo o que havia acontecido antes.

Uma série de eventuais acontecimentos nos levaram á essa cooperação.

Mesmo não tendo um vínculo como mentor e aprendiz trabalhamos juntos em algumas missões nesse meio tempo.

Ele aproveitou para me ensinar algumas coisas, mas não por preocupação mas sim como uma garantia, ele não poderia ter um peso morto ao seu lado.

Talvez ele tenha se sentido responsável de certa forma e está me mantendo até agora, mas acredito que algum dia ele acabará me largando, já espero por isso há algum tempo.

Mas por enquanto podemos nos considerar companheiros esporádicos de viagens.

— Ao menos parece ter dormido melhor essa noite.

— Verdade... Montar o acampamento perto do córrego foi uma boa ideia.

— Não te disse, um local aberto é o mais ideal, sem falar que podemos conseguir comida e ficar fora de perigo, sem falar que o som da água é um tanto relaxante.

Ele é realmente um aventureiro experiente.

Antes de montarmos nosso acampamento tivemos que nos certificar dos arredores.

Depois disso foi questão de coletar recursos.

Qualquer graveto e folha seca seria útil para fazer uma fogueira.

A comida acabou sendo coletada aqui mesmo, ervas selvagens e peixes do córrego se bem limpos podem ser consumidos sem nenhum risco de envenenamento.

— Para onde iremos agora?

Ele possuí um pequeno mapa.

Um item como esse é oferecido pela guilda de graça para seus aventureiros, pelo menos foi o que observei da última vez em que estivemos lá.

Porém esse acabou sendo comprado em uma loja de equipamentos por um preço baixo, afinal estaríamos viajando fora de uma rota não planejada.

Claro que esse não é um mapa completo apenas informa o território da cidade em que nos hospedamos há alguns dias atrás e uma rota utilizada por comerciantes e donos de terra.

— Bem, se seguirmos por essa direção estaremos em um pequeno vilarejo chamado Fynch , eles são uma rota comercial isolada para à Cidade do Oeste.

— Eles estão sendo atacados?

— É possível, há relatos de uma vinda repentina de monstros nesse território, foi estimado uma ajuda da Capital nos próximos dias, mas estão lidando com outros problemas da mesma situação.

— Acha que podemos dar conta?

— Garota, eu já te disse que não sei de tudo, mas sempre tenha a certeza de que vai acabar morrendo, sair com vida nesses casos é uma consequência.

Um tanto pessimista, suas lições sempre acabam dessa maneira.

Por mais sério que fosse em suas respostas, na maioria do tempo ele tem um certo senso de humor indecifrável.

— Mesmo assim alguém tem que fazer alguma coisa não é? Se não for a guilda, nem os cavaleiros da capital, quem será que vai ajudá-los?

— Nós?

— É...mas não temos muita escolha não é verdade? Pegue suas coisas, vamos partir.

— Certo.

Além da guilda o papel da proteção fica para ás forças armadas da Capital, segundo o que ele havia mencionado um tempo atrás.

Estamos localizados em um grande país chamado Arventia.

Uma terra abençoada com os ventos, ocasionalmente calmos e outras vezes fortes.

No momento estamos nas terras do oeste desse mesmo país, se quiséssemos ir para a Capital provavelmente levaríamos muitos dias andando.

Mesmo fazendo um mês que estou aqui nunca fui para esse lugar, mas sempre que ele comenta eu tenho ciência de sua importância, afinal é o centro desse país.

Estávamos prestes á seguir viagem agora.

Comemos bem ontem á noite então não precisaríamos nos preocupar com a refeição da manhã.

Comigo não havia muita coisa para ser levada.

Embora minhas roupas não contem com alguma proteção leve como ás de Senhor Garrick diria que elas são adequadas para mim.

Um vestido não iria ser adequado para viagem então utilizo um shorts com uma meia-calça e botas de couro pequenas com sola firme para evitar escorregões.

Assim como minhas botas minha blusa também contava com algumas partes de couro, elas eram de mangas mais longas.

Não fiz muito questão da cor então estou utilizando um conjunto parcialmente preto, acredito que com exceção das botas e shorts marrons o restante está aceitável.

Agora em questão de equipamentos eu não estava levando muita coisa.

Eu não podia utilizar uma espada, afinal elas demandam muito dinheiro ainda mais aquelas feitas sob medida, eu não poderia utilizar á dele se fosse o caso...quer dizer não outra vez, ela é muito pesada para mim.

Então comigo havia um par de adagas de ferro, seriam mais do que o suficiente para lidar com esse tipo de trabalho.

Comigo também havia uma aljava com algumas flechas, possuo no momento umas cinco, assim como um arco de madeira com cabo de fio fino de seda.

Não sou uma boa atiradora mas poderia lidar com ameaças á uma certa distância apenas atirando uma flecha então seria eficiente para viagem.

As adagas ficavam em um suporte que ficavam no cinto que segurava o meu short, uma de cada lado.

O arco eu podia atravessar sob o meu corpo assim como ele o faz ou guarda na aljava para facilitar na hora da locomoção.

Eu não possuo um cantil de água muito menos algum tipo de alimento, não temos nem sequer uma bagagem.

Geralmente ás coisas que possuímos ocasionalmente são essas tendas que compramos quando paramos em uma cidade, para montarmos nosso acampamento do lado de fora, depois disso é apenas questão de descarte.

— Tudo pronto?

— Sim.

— Então vamos seguindo, a caminhada será longa.

Após os preparativos seguimos então nossa viagem.

Já faz um mês que estou seguindo jornada.

Até então não tive nenhum progresso na recuperação das minhas memórias.

Aliás eu nem sequer sei se tenho algo importante para me lembrar, tudo parece tão nítido porém tão vago.

Poderia ao menos desistir de tudo o que estou fazendo até o momento, seguir uma viagem como essa é beirar á loucura.

Mas algo em meu interior diz que eu devo continuar seguindo esse caminho.

Talvez para ajudar pessoas...me fortalecer...ou apenas por estar perdida...eu não sei dizer, talvez no decorrer dessa viagem ás coisas acabem ficando mais claras para mim.

Mas até lá terei que lidar com tudo isso sem ter ideia de como eu vim parar aqui e quem eu sou...