The Lost Boy.
1 Capítulo 1
Notas iniciais
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Sirius Black olhou ao redor amaldiçoando a falta de vontade de James em iniciar uma conversa decente, o Potter estava encolhido em um canto fazendo gestos curtos e expressões rudes para qualquer um que ousasse de aproximar. Era pedir demais que ele, por uma única vez, tentasse sufocar o nervosismo? O Black se perguntava amargamente, entretanto, entendia em partes a situação desesperadora que era conversar na visão distorcida do amigo.
Isso não o impedia de se remoer em preocupação, na verdade, o menor dos motivos era suficiente para deixar Sirius em pânico e força-lo a agir como um pai. Remus na véspera de uma lua cheia sabia muito bem como era irritante preocupa-lo e, infelizmente, o Maroto mais velho era um poço sem fundo quando o assunto era receios e hesitações.
Talvez fosse seu passado onde ninguém se importava consigo. Talvez fosse um traço defeituoso de sua personalidade. Seja o que for, os mais próximos já tinham entendido que Sirius Órion Black não consegue se conter; e lá vai ele de novo, correndo – tropeçando miseravelmente – em direção a Remus e Peter que estão no outro lado do salão comunal, não se esqueça que Sirius faz de tudo para ignorar os chamados das garotas. Como ele poderia ser tão egoísta enquanto um de seus irmãos estava isolado e, muito provavelmente, querendo sumir?
Se um dia o fizesse não poderia continuar vivendo. Seria algo novo, doentio e errado. Estava em sua personalidade hiperbólica ir aos extremos da preocupação com quem considerava importante em sua vida falsa.
Ali residia mais um problema, a vida que ele leva; correndo de festa em festa, rodeado das mais variadas moças, sempre com um copo de bebida na mão e um cigarro entre os lábios é tão falsa que enjoa. As mentiras bem contadas reluzem em ouro e escarlate e, cada vez mais, Padfoot se sente uma serpente em corpo de leão, com sentimentos de superioridade profunda e prepotência absurda. É novidade dizer que ele odeia cada traço de seu modo de agir, que às vezes não passa de piadinhas bobas para alegrar o estado de espírito dos amigos e em outras conseguem ser comentários mordazes e cheios de veneno.
E ele ria, como ria. Gargalhava alucinado e aquilo fechava sua aparência de lunático; cabelos sujos – faz quanto tempo que o Black não lava os? –, pele pálida sempre adornada com hematomas negros conseguidos em brigas para defender seja lá quem for – Marotos, Marlene, Dorcas, Frank, Alice e Lilly –, olhos cinzentos que brilham de modo febril e os arrependimentos gritando a cada vez que perde a paciência com a piedade que Peter dirige a si mesmo.
Ou com as paranoias de James. Ou com o sofrimento auto imposto de Remus. Ou com ódio que Marlene sentia da própria aparência. Ou com a dispersão de Dorcas. Ou com as atitudes melosas de Frank e Alice. Ou com o medo de Lilly.
Por bem ou por mal, o Black é atento ao menor dos defeitos e o mais ridículo dos deslizes. Seus olhos cinzentos capturavam até a mais insignificante das características e criavam distorções imensas. Ele reclamava das fofocas que percorriam Hogwarts, mas ao mesmo tempo estava sempre lá com um sorrisinho desalmado e um ar de quem tem poder suficiente para julgar.
Será que ele sabe o quanto é julgado pelos outros?
Quem saberia? Sirius Black é um enigma que espalha boatos terríveis, todavia, odeia que façam isso com seus amigos. Se isso não é hipocrisia, pensava consigo mesmo enquanto empurrava os outros para poder passar, jamais irei descobrir o real significado dessa palavra, e uma expressão de deleite tomava seu rosto, qualquer um pensaria que era algo relacionado as quantidades de álcool que podiam ser percebidas até no ar, contudo, era pura satisfação ao notar que não se importava em ser um hipócrita de merda, apenas era um.
Esse era um problema de Sirius, ele não sabia o que significava consequência, e simplesmente fazia. Acabava perdendo a cabeça para a impaciência e sinceridade ácida, terminava a noite chorando após gritar com James. Mais uma para a sua lista pessoal de antíteses, que era extensa e cheia de arrogância.
Ele não quer ser comparado com a família. Mas alguém já disse que os Black se parecem até nos esboços de suas aparências e personalidades? Porque parecem; o mesmo cabelo negro – ou castanho – cheio e cacheado, os mesmos olhos cinzentos que brilham de insanidade, as feições aristocráticas são exatamente iguais. Já disseram para ele que todos que nasceram na sombra do Toujours Pur têm um comportamento clássico de crianças mimadas e eloquentes? Que escolheriam a vida de dez que importam no lugar de dez mil desconhecidos?
Sirius Black diz que é diferente, contudo, ele não é. Só mais um deles.
Tropeçou mais uma vez nos cadarços dos coturnos, tão acostumado com o acontecimento que o sorriso ácido em seu rosto sequer vacilou. Remus e Peter conversavam distraidamente, mas expressões idênticas e maliciosas estavam desenhadas em seus rostos, era mais que óbvio que já tinham notado as intenções travessas que flutuavam ao redor de Padfoot. Não havia ninguém em Hogwarts inteirinha que não soubesse identificar o barulho das botas de combate ou as risadinhas pretenciosas que rasgavam autoestimas.
Não era difícil enquadra-lo em um estereótipo; o típico garoto que só implora por poucas coisas como mulheres, bebida, cigarros, alguns amigos tão loucos quanto ele mesmo e problemas. Daquele tipo de garotinho mimado e arrogante que tem que levar uns tapas para ver se aprende a viver respeitando o poder de suas frases e não sobreviver em um campo de batalha feito de palavras banhadas em ódio e intolerância.
Intolerante. Black não passa de um maldito intolerante que coloca seus próprios amigos em uma encruzilhada moral sabendo que a personalidade hipócrita e de várias facetas do rapaz pode atacar em qualquer momento. Foi por causa disso que Peter Pettigrew nunca admitiu para o tão querido amigo que era bissexual e que Remus Lupin enterrou o segredo de sua demisexualidade no dia que o “irmão” faleceu. Talvez todos tenham que ser incinerados em uma fogueira de hipocrisia moral.
O irônico é que, se soubesse desses fatos e se esses fossem públicos, Sirius partiria com a varinha em punho para defender os amigos de qualquer pessoa munida de ódio do mesmo modo que ele era. A tão doce falta de escrúpulos, não é mesmo? A falta de escrúpulos para defender pessoas que deveria odiar apenas porque essas são algo para você é tão comum para o Black que faria uma pessoa com princípios rígidos vomitar e chorar de tamanha sujeira.
Ele chega ao lado dos amigos. James ainda está quieto no outro extremo do salão. O sorriso do Black não vacila e desperta receio profundo em quem se aventurasse por entre suas nuances psicóticas e, infelizmente, nenhum dos dois diriam não ao convite feito com palavras muito bem calculadas para serem aceitadas a qualquer custo:
— Venham comigo – Começou colocando as mãos nos bolsos da jaqueta de couro de dragão que usava com tanto orgulho e ostentava rasgou menores. Os outros jovens se encararam nervosos, mas jamais conseguiriam negar algo a ele. – Precisamos arranjar alguém para tirar Prongs do poço da depressão dele. – Eram palavras cruéis, uma forma sádica de apresentar a situação, frase que jamais usaria na frente do referido, afinal, seria muita falta de tato, e só faria a pessoa que lhe aceitara de braços abertos se sentir ainda pior.
Era sempre assim, ele ajudava – media os comentários mordazes – quem lhe fizera alguma coisa e alfinetava os que lhe eram indiferentes. Na cabeça perturbada dele, aquilo não passava de meritocracia, na visão de qualquer bruxo ou trouxa normal, era um complexo de superioridade que deveria ser estudo pacientemente. Isso acendia preocupação no peito dos amigos, que previam o dia que Sirius seria punido por tal comportamento, não temiam o modo, mas sim as consequências, sabiam muito bem que aquilo teria consequências catastróficas para a realidade que o Black vivia, estouraria a bolha de perfeição que ele se isolara.
Ninguém se preocupava mais que o próprio Padfoot, porém este não temia o dia que seria destronado. – Sabia que aquilo ocorreria um dia, então por que sentir medo do futuro? – Sentia o coração parar na possibilidade de quebrar ainda mais Remus, ou de fazer com que Peter chorasse, ou que James fosse embora para que, finalmente, percebesse que tomara o rumo errado. Sabia que estava longe das atitudes certas, só não via motivos para mudar o caminhar cambaleante de sua vida.
Uma antítese ambulante. Uma hipérbole gritante. Um maldito garoto que só faz o que não deve e ainda sorri durante as detenções.
O Lupin respira fundo. Peter está com os olhos castanhos cerrados como alguém que não quer ver um desastre. E parecia realmente que um cataclismo balançaria o local quando Moony respirou fundo mais uma vez e disparou uma única palavra que fez o ar parar:
— Não. – A monossílaba pairou no ar como uma ameaça. Talvez fosse. Mas Sirius permaneceu calado quando Peter tomou a palavra: — Ele está esperando Lilly, Pads. E você deixa-lo sozinho com ela. Goste você de Evans ou não goste. – O Black não percebeu que a boca se tornara uma linha fina ou que as suas sobrancelhas estavam arqueadas. Talvez soubesse sim, afinal, eram as reações de praxe sempre o nome daquela vadia ruiva era mencionado.
Haveria alguém mais sem graça e destoante de James na comunidade bruxa? Com certeza não, ou menos era assim que Sirius pensava. Uma desgraçada que destruíra seu trabalho minucioso de colocar Potter para cima. Todos os dias ele sentia uma vontade imensa de asfixia-la, então se lembrava dos efeitos que aquilo teria no amigo e se limitava em maquinar vinganças. Ninguém mexeria com seu irmão novo e sairia impune. Prongs era seu irmão, e ele jamais toleraria tais atos contra alguém que amava.
E como aquele masoquista insistia em um amor doentio por aquela puta?! Não via como, e por isso e o ciúmes perturbador, tentava ao máximo afasta-los mesmo que significasse levar alguns socos e ter até sua décima quinta geração recoberta das mais variadas pragas. Nos dias bons apenas seria admoestado, nos piores terminaria brigando com todos que chegassem perto de si.
Era uma convivência caótica. Regada a, literalmente, socos e abraços. E talvez fosse pelos restos de sua amizade com os três que ele assentiu, colocou o melhor sorriso no rosto e pegou uma garrafa de uísque de fogo, chamando a todos para um joguinho com a finalidade de animar o lugar.
Só mais uma desculpa para se embebedar.
Essa era a sina de Sirius Black, estar preso entre a honra e a hipocrisia. Acorrentado na criação dura e no afeto que hoje recebia. Ser metade serpente e metade leão. Amar com todos as forças que tem no peito, mas não conseguir suprimir a arrogância que veio consigo. Amado pelos que estavam próximos, admirado pelos que eram cegos e não viam seus pecados, odiado pelos que podiam enxergar seus erros gritantes. Mas que poderiam fazer? Todos somos pecadores e os olhos de um jamais poderão julgar o outro quando o ser é repleto de ganância, inveja, repulsa e hipocrisia.
Estamos falando de Sirius Órion Black, ele tem a fala suave com um pouco de maldade.
Notas finais
Me senti destruindo uma boa imagem, mas eu acho que o tempo na guerra e em Askaban deve ter feito algo nisso.
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