The Last Rebel
3 Simple Life
Notas iniciais
Às cinco da tarde, Mary Ann já aguardava na porta do Birmingham’s Groove, com seu currículo em mãos. No entanto não estava animada, pois sentia medo de que recusassem seus serviços. O Birmingham’s Groove era um bar, aparentemente antigo, e estava fechado. Mas quando o relógio acusou pontualmente cinco horas, a porta se abriu. Um homem muito alto levantou uma pesada porta metálica expondo o ambiente. Ele viu a menina sentada em frente à porta, e disse:
- Você é a menina que o Billy mandou aqui?
Mary Ann levantou-se e sorriu, timidamente:
- Sim, senhor... O senhor é o senhor...
- Chester McDoll – Ele se apresentou, estendendo a mão para a menina.
Mary Ann pegou a mão do homem, com delicadeza, e quase teve seu braço arrancado, tamanha a força com a que ele a chacoalhou.
- Ele me disse que a senhorita estava procurando um emprego aqui na cidade, não é?
- Sim...
- Entre!
A jovem seguiu Chester, que entrou no estabelecimento. O bar era grande, tinha mesas espalhadas por toda a parte, e um balcão típico de bar.
- Você já trabalhou em algum lugar? – Chester perguntou, entrando na área reservada, ficando atrás do balcão.
Mary Ann mostrou seu currículo, e Chester pegou a folha.
- Mas você só trabalhou arando a terra numa fazenda... Isso é...
- Sim, senhor Chester... Eu só trabalhei nisso... Mas posso aprender outra coisa.
Chester a olhou, ressabiado.
- Você me parece muito inexperiente, mocinha... Não é daqui...
- Não. Na verdade eu nasci e fui criada no haras MacCoy...
- Ah, sim! Na fazenda de reabilitação?
- Isso!
- Nunca fui lá... É famoso aquele lugar... Vários músicos que tocaram aqui no bar fizeram desintoxicação lá. E você...
- Sou filha de um funcionário...
Chester coçou o cavanhaque grisalho.
- Ah, menina, e por que saiu de lá?
Mary Ann estremeceu. Não sabia o que falar. Hesitou um pouco e falou, gaguejando:
- Eu... E... Eu quis... Ter mais experiência... Em outros tipos de trabalho...
Chester não acreditou, mas ignorou o fato:
- Bom... Preciso de alguém que limpe o estabelecimento neste horário, e depois servirá bebidas no bar. Acha que consegue?
A menina sorriu e acenou positivamente sua cabeça:
- Sim! Consigo! – Afinal de contas, não havia nada de difícil naquele trabalho.
- OK – Chester coçou o pescoço – Então o emprego é seu. Se quiser pode começar amanhã. Venha um pouco mais cedo para conversarmos sobre o salário.
Mary Ann sorriu. Conseguira o emprego.
No dia seguinte, três horas da tarde, já estava na porta do Birmingham’s Groove. Entrou quando Chester a chamou. Conversaram sobre o acerto salarial e ele ensinou a ela coisas sobre o bar. Como servir as bebidas, quanto era a medida da dose, e outras coisas.
Às cinco horas, Mary Ann já estava limpando o bar. Chester saiu e deixou outra funcionária, Melissa, em seu lugar. E, quando voltou, se assustou com o que viu.
Chamou Mary Ann, que já estava atrás do balcão:
- Mary Ann... Preciso falar com você!
A jovem estremeceu, assustada. O que haveria feito de errado?
- Onde você aprendeu a fazer faxina?
Ela abaixou o olhar, preocupada, esperando a demissão.
- Menina, eu fiz uma pergunta! Onde você aprendeu a faxinar?
- Desculpe, senhor Chester... Não está do seu gosto?
- Menina... Vou repetir a pergunta...
- Não tem necessidade... Aprendi sozinha, na fazenda...
- Pois eu quero te dar os parabéns! Está perfeito! Nunca ninguém limpou este bar como você!
Os olhos verdes de Mary Ann brilharam. Chester continuou:
- Agora espero que você se saia tão bem no bar como na limpeza.
Mas não foi o que aconteceu. A menina serviu doses erradas de whisky, de vodka, errou preparação de café, e houve muitas reclamações. Chester teve que ir para trás do balcão, a fim de resolver todos os problemas que Mary Ann criara. Um cliente chegou a ofendê-la.
No final do expediente, Chester a chamou para conversarem:
- Menina, gostei de você. Quero te ajudar. Hoje foi o primeiro dia, mas espero que você aprenda logo a parte do bar... Vou ter que te colocar na fogueira mesmo, como uma forma de você aprender. Vai ser difícil, mas vou te dar essa chance!
- Obrigada, senhor Chester! O senhor não vai se arrepender!
E Mary Ann saiu do Birmingham’s Groove caminhando, às duas da manhã daquela quinta-feira, primeiro dia de trabalho.
Andou um quilômetro e meio até o seu hotel. Chegou, pegou a chave na recepção e subiu. Entrou em seu quarto. E foi então que a depressão se instalou. Lembrou-se de tudo o que a havia levado até a cidade grande. O sofrimento causado pelas surras absurdas que seu pai lhe dava sem motivo. Por que ele era tão bruto com a própria filha? Ela não tivera culpa, não fizera o que ele a acusava por querer!
Dias se passaram, e a menina foi, aos poucos, pegando o jeito de trabalhar no bar. Os frequentadores já a conheciam pelo nome. Todos muito respeitadores. Na realidade, os homens que ali ia beber começaram a sentir um amor paternal por Mary Ann. E era isso que Chester também passou a sentir. Ela também começou fazer amizade, tanto com os frequentadores, como com sua gerente, Melissa, e os músicos que lá tocavam. O fato de os frequentadores do local se afeiçoarem de Mary Ann lhe rendia boas gorjetas.
E, com o passar dos meses, Mary Ann foi se tornando mais adulta, menos inocente.
Uma terça-feira, ela trabalhava tranquilamente no bar vazio, quando fitou, por acaso, a porta. E viu um rosto conhecido. Vestindo roupas de montaria, um chapéu caubói preto, faca na cintura, botas de couro. Era seu pai.
Imediatamente Mary Ann se abaixou, escondendo-se atrás do balcão. Francis se aproximou, bateu sobre a mesa e gritou:
- Não tem ninguém pra atender aqui nessa merda de bar?
Mary Ann, apavorada, suava frio, escondida sob a mesa do balcão.
- Mary Ann! Onde você está? – Chester gritou, sentado ao caixa – Aguarde um minuto, senhor... Já vamos atendê-lo...
- Mary Ann é o nome da disgramada da minha fia... Ela si mandô da fazenda faiz um tempo. I eu vim pra cá pra procurá aquela vagabunda!
Imediatamente, Chester olhou para baixo do balcão, e viu Mary Ann chorando em silêncio, assustada. Não entendeu o que acontecia, mas percebeu que a filha que aquele homem estava procurando era ela. Como não gostou da atitude do velho, decidiu esconder sua funcionária.
Aproximou-se do velho no balcão e perguntou:
- Ela deve estar no banheiro... O que o senhor quer?
- Whisky. Duplo.
E Chester serviu Francis, que tomou o whisky de uma vez só.
- Sabe... Si eu incontrá essa disgramada, li arranco as tripa com meu facão. I eu mi jurei qui hoje num saio daqui sem ela!
- Pra que tanta violência, senhor...
- Pruque aquela fia duma égua saiu sem falá nada pra ninguém. Sumiu nu mundo. Deve di tá trepano cum tudo quanto é vaquero pur aí pra vivê. Eu mato aquela fia da puta.
- Senhor... Tenha calma... – Chester começou a ficar nervoso, pois estava encobrindo sua funcionária.
- Óia, si u sinhô vê aquela vagabunda, faiz u siguinte: só mi precurá na fazena dos drogado. Meu nome é Francis.
- E como é essa garota?
- Branquela, zói verde, cabelo preto quase arzul, caipirona que só. Manda essa fia duma égua arrastada em carro di boi pra já i ralano tudo até chegá lá, per favô!
- OK, senhor Francis, pode ficar tranquilo que eu mando sua filha se a encontrar.
- Quanto é essa merda?
Mary Ann mal respirava, escondida atrás do balcão.
- Sete dólares.
O velho enfiou a mão do bolso, tirou o dinheiro e bateu uma nota de dez dólares no balcão.
- Fica co troco procê... Whisky caro dus cacete...
E deu as costas, saindo. Alguns clientes cativos do local escutaram a conversa e também se mantiveram calados. Chester aguardou um pouco e, ainda fitando a porta, falou:
- Pode levantar, Mary Ann. Ele já foi.
E a menina explodiu em um forte choro, antes de erguer-se. Quem viu a cena, sentiu pena.
- Melissa, leva a Mary Ann lá pra dentro, por favor...
E a gerente, uma senhora gordinha, de cabelos ruivos e curtos, levou a jovem para a parte reservada do bar, amparando-a.
Depois de alguns minutos, Chester entrou na cozinha, onde estavam Melissa e Mary Ann.
- Melissa, por favor, tome conta lá pra mim, preciso conversar com Mary Ann.
E Melissa dirigiu-se para o bar.
- Menina, você está louca?
- Eu posso explicar, senhor!
- Sim, e com certeza vou querer uma explicação! Como assim você saiu fugida da fazenda? Seu pai não sabe que você está aqui?
Mary Ann enxugou as lágrimas e começou a contar sua história a Chester:
- O que aconteceu foi que... Minha mãe morreu no parto, quando eu nasci. E desde que eu era um bebê ele me culpa pela morte da minha mãe...
- Sim... Bem coisa de capiau.
- A primeira surra da qual eu me lembro, eu tinha três anos.
Chester arregalou os olhos:
- TRÊS ANOS? ESSE HOMEM TE BATE DESDE OS TRÊS ANOS?
- Que eu lembre...
- Ah, não!
- E nunca teve motivo. Eu aguentei até fazer dezoito anos. Até que, uma noite, ele demorou a chegar à casa onde morávamos na fazenda, e eu adormeci. Ele não gostava que eu dormisse antes dele chegar e, quando me viu dormindo me espancou.
- Sei...
- Aí eu decidi sair. Fugi de lá às três da manhã. Pedi uma carona na estrada e vim para Birmingham.
- Menina! Você é louca! Por que não procurou a polícia?
- Ele me deixava com medo! Quando eu falava que ia procurar a polícia, ele dizia que ia me matar. Chegou a...
Chester abaixou o queixo e levantou as sobrancelhas, repetindo as últimas palavras de Mary Ann:
- Chegou a?
E Mary Ann levantou sua blusa, mostrando em sua barriga uma enorme cicatriz. Fora esfaqueada aos 14 anos.
- Meu Deus! – Chester exclamou ao ver o retrato da violência – Esse cara tem que ser denunciado!
- Não, senhor Chester, prefiro sumir... Esquecer que ele existe!
- Mas ele, pelo visto, não se esquece de você, garota!
Mary Ann continuou seu choro.
- Olha... – Chester bufou – Vamos fazer o seguinte: eu vou te ajudar a se livrar dele. Fique tranquila. Enquanto você estiver aqui, vai estar segura. Temos um quarto aqui, você já deve ter visto. Está desocupado. Vamos ao hotel onde você está morando, pegamos suas coisas e você fica morando aqui por um tempo.
- O senhor faria mesmo isso por mim, senhor Chester?
- Claro que sim! Não fui com a cara desse velho!
E Mary Ann abraçou Chester, que retribuiu o abraço, sem graça.
Após o bar fechar, Chester e Mary Ann seguiram para o hotel, de carro. Mas, ao estacionarem na porta, se assustaram com o que viram, através do vidro da porta: sentado na recepção do hotel estava Francis.
- Ele me descobriu, senhor Chester, o que vamos fazer? – A menina se desesperou.
- Calma. Vamos aguardar um pouco.
E esperaram alguns minutos. Mas o velho parecia que já sabia que a menina chegaria de trabalhar por volta de duas da manhã.
- É... Vamos fazer o seguinte. Vamos voltar para o bar, você dorme lá. Amanhã voltamos e pegamos suas coisas!
E assim fizeram. Pela manhã, Chester voltou sozinho ao hotel. Passou-se por tio de Mary Ann e conseguiu pegar sua mala e seu violão. Saiu de lá e voltou ao bar.
E Mary Ann passou o dia inteiro trancada no bar. Distraiu-se com seu violão. Às cinco horas, quando Chester e Melissa chegaram para abrir o bar, já o encontraram limpo. Sorriram com a eficiência da jovem.
Por volta de dez da noite, o bar estava parcialmente cheio. Mary Ann atendia os clientes no balcão, duas garçonetes circulavam garantindo o atendimento das mesas, Chester cuidava do caixa e Melanie fiscalizava todos os funcionários. Quando, repentinamente, Francis entrou pela porta e gritou:
- DISGRAMADA! EU SABIA QUI TU TAVA AQUI, FIA DUMA ÉGUA!
Mary Ann derrubou um copo que enxugava no chão, sentiu seu corpo tremer inteiramente. Fitou seu pai com desespero, assustada.
- Vamo pra casa, vagabunda!
A música parou. Francis se aproximou do balcão e esticou o braço, segurando o ombro de Mary Ann e a puxando com força. A menina se desequilibrou e caiu sobre a tampa do balcão, batendo o rosto com violência. O velho a pegou pelos cabelos e começou a puxá-la até a portinhola de saída do balcão. Ao chegar, enquanto abria a pequena porta, uma mão forte pegou seu pulso:
- Largue essa menina agora, velho desgraçado! – Era Chester defendendo sua funcionária.
- Ela é minha fia, quem manda nela é eu!
- Ela é maior de idade! Está trabalhando honestamente e não merece apanhar, é uma boa garota, humilde e decente!
O velho deu uma sonora risada, ainda puxando os cabelos de Mary Ann.
- Essa vagabunda? Trabaiando honestamente? Ela tá é dando pra tudo quanto é homi da cidade! Ondi já si viu, muié di família trabaiando atrais di um barcão num bar? Tá loco, sô!
- Quem aqui é louco é o senhor! Onde já se viu bater tanto numa filha que está ganhando dinheiro de forma honesta? E que fugiu de casa por conta das maldades que o senhor fez com ela?
- I quem é o sinhô pra falá qui eu bato nela?
- Oras! E não bate? Temos um bar inteiro de testemunhas aqui que o senhor a espanca! Basta olhar o que o senhor está fazendo!
E o velho soltou os cabelos de sua filha.
- E, se o senhor não der o fora daqui, vou chamar a polícia por agredir uma mulher, e em público!
- Ou então nós mesmos vamos dar um jeito no senhor. – Um homem de bigode, mal encarado, levantou de seu banco no balcão, ajeitando a calça por baixo da grande barriga.
Francis fitou os frequentadores do bar: todos em posição de ataque, prontos para cobri-lo de socos e pontapés.
Voltou-se para sua filha, que enxugava uma gota de sangue que havia escorrido de sua boca, amparada por Melissa.
- Agora ocê si livrô... Mais um dia eu ti pego, disgramada!
Virou-se e saiu sob vaias, xingamentos e pragas de todos os frequentadores do bar.
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