The Last Alliance Broken

1 Prólogo: Do Açúcar à Pólvora


A infância, e sua simplicidade… As vezes tudo que queria é poder voltar no tempo onde as “missões” eram uma aventura extracurricular, quase um passa tempo


Sei que muitas vezes nossas ações salvaram o mundo, mas… Ainda assim existia ali uma leveza, uma inocência que apenas aquela vida poderia entregar.


Enfrentamos ameaças sérias, monstros terríveis. Vimos companheiros morrerem, muitas vezes para nos proteger, porém…


A infância tinha o gosto de algodão doce. Mesmo com monstros terríveis, tudo era envolto numa doce ilusão de que bastava seguir o plano de alguém, e o mundo seria salvo. Parecia até um jogo, e a vitória sempre vinha, deixando na boca um sabor adocicado que encobria o medo real. Era um mundo pintado com as cores vibrantes de um parque de diversões, não com a paleta de cinza e vermelho de…


—DAISUKE!


Um chacoalhar brusco nos meus ombros.


—Cara, acorda! Porra, precisamos SAIR DAQUI!


Meus olhos ardem ao abrir, a visão é uma mancha d'água e poeira. A silhueta de Takeru é a primeira coisa que se forma no borrão. Seu rosto não estava sujo de poeira; estava encrostado dela, misturada com suor e um filete escuro de sangue que escorria da sobrancelha até o queixo. O ar que puxei não cheirava a pólvora; saboreava a pólvora. Era um gosto ácido e metálico que grudava no céu da boca. Meus músculos não doíam; eram cordas de aço superaquecidas, travadas em um grito silencioso. A audição voltou não como um som, mas como um zumbido agudo de pressão, abafando os ruídos do mundo real.


— Anda logo, cara! A missão falhou, precisamos sair daqui!


Aos poucos comecei a me lembrar. Do inferno que estávamos vivendo. Tudo, muito longe do gosto doce que havia invadido minha mente. Takeru tinha os olhos arregalados, vasculhando todos os lados, esperando eu reagir. Mas não conseguia. Meu corpo pesava uma tonelada. Eu não estava sangrando, não. Nenhum osso quebrado parecia perfurar a pele. Era algo pior: o comando entre o cérebro e o corpo havia sido cortado. Meu sistema nervoso era um traidor.


Foi primeiro um zumbido. Não o zumbido de um inseto, mas o de uma máquina de costura industrial, metálica e perfeitamente ritmada. Depois, o som de lâminas cortando o ar, um "whoosh-whoosh-whoosh" que não anunciava um inimigo, mas um processo. Um processo de eliminação. A expressão de Takeru não era apenas de horror; era de reconhecimento. Era o olhar de quem ouve o carrasco afiar o machado. Os drones não tinham ódio, não tinham medo. Eles apenas cortavam. Eram a morte sem alma, o aparador de esperanças.


Tentei inutilmente me mover. Precisávamos sair dali. Éramos alvos fáceis, estáticos, e eu era um prisioneiro dentro de mim mesmo.


— Agora já é tarde — O escolhido da esperança, ironicamente, foi o que decretou nosso fim. Sua voz era plana, resignada. O inimigo nos vira.


Ranger os dentes foi um ato automático. As explosões ao redor soavam como música clássica, perto do pavor psicológico que o zumbido mecânico e insistente das hélices causava, se aproximando cada vez mais.


Fechei os olhos e cerrei os punhos, pronto para o que tivesse que vir. Até que…


— PUNHO DE FOGO!


A explosão se misturou com o estampido de metal sendo retorcido e estilhaçado. Pequenos fragmentos quentes choveram sobre nós. Estávamos salvos. Por enquanto.


— Flamedramon?! — O misto de surpresa e alívio tomou minha voz, rouca. — Obrigado por…


— Deixe os agradecimentos para depois! — a voz do digimon era urgente, sem espaço para cerimônias. — Precisamos recuar até o portão urgente. Koushiro está nos aguardando!


— Acho que o Daisuke está ferido, e não consegue sair daqui. — A explicação de Takeru fazia sentido, mas era a explicação errada. Era choque, não ferimento.


— Pegasumon!!


O digimon pousou ao nosso lado, levantando uma nuvem de terra e detritos.


— O que foi, Takeru?


— Daisuke.. você consegue voar com ele para tirá-lo daqui?


— É suicídio. A artilharia antiaérea está ativa. Precisaria fazer manobras bruscas para desviar. Eu o derrubaria daqui a dez segundos.


— Eu… — A palavra saiu como um rosnado, forçada para fora dos pulmões contra a vontade de todo o meu corpo. Empurrei-me para cima com os braços trêmulos, uma onda de agonia incendiária percorrendo minha coluna. — É só… o impacto. — Mentira. Cada célula gritava que era uma mentira. — Flamedramon! Vamos mudar para Raidramon, agora! Você é nossa saída. Takeru, comigo. Pegasusmon, voo rasante, cubra-nos.


— Daisuke, você vai — A voz de Takeru era puro pânico, um fio de esperança se desfazendo.


— NÃO TEMOS TEMPO! É UMA ORDEM — gritei, e a dor da explosão vocal valeu a pena pelo silêncio que se seguiu. — É a única opção. Movimentam-se!


Todos me encararam, e mesmo a contra-gosto, obedeceram.


Uma luz vermelha brilhou, trazendo Flamedramon de volta à forma de V-mon. Imediatamente, uma aura azul cintilante envolveu o pequeno digimon, alongando seu corpo, reformulando sua silhueta em um novo e velocíssimo ser. Quando a luz se dissipou, Raidramon estava ali, reluzindo sob a fumaça, e por suas ventas o ar escapava como o ronco de impaciência de uma fera.


Takeru não perdeu um segundo. Com movimentos rápidos e decisivos, ele me puxou para as costas do digimon quadrúpede. Eu tentava argumentar, encontrar uma posição melhor, mas ele já enrolava cordas de rápida liberação ao redor das minhas pernas e tronco, me prendendo à armadura de Raidramon.


— Não discuta, Daisuke! — sua voz era cortante, um misto de urgência e medo. — Cada segundo parados aqui nos torna alvo. Segura firme.


Antes que eu pudesse responder, ele levou a mão ao rádio no ombro, sussurrando em voz rápida e tensa: — Joe, Joe, tá ouvido? Precisamos de suporte médico na saída! Daisuke pode ter fraturas internas, foi arremessado pelo impacto de um morteiro…


Um morteiro.


As palavras dele foram a chave. De repente, a memória me atingiu com a força de um trem.


Estava correndo em direção ao alvo. O prédio branco e azul a minha frente. Não.. Aquele não era um prédio qualquer. Era o QG do Comandante… Ou melhor, do traidor do digimundo Wallace. Aquele rato que usou seu título de "Escolhido" como um passe para o poder, que se vendeu para a OTAN e transformou parceiros em armas. Que perseguiu e caçou todos os escolhidos americanos que se recusaram a segui-lo. Michael, Maria, Steve… tantos outros. Ele precisava pagar. E eu, Daisuke Motomiya, estava a metros de colocar a bomba que silenciaria sua voz para sempre. A vingança seria minha.


Até que um clarão. Não um ruído, mas um silêncio súbito e absoluto, seguido por uma força primordial que me parou. Um gigante invisível que me agarrou e me arremessou como um brinquedo quebrado. O mundo girou, esverdeado, e então… escuridão. A vingança, escapando por entre meus dedos.


— …o rádio não funciona, merda! — o praguejar frustrado de Takeru me trouxe de volta ao inferno presente. Ele deu um golpe seco no equipamento. — A interferência está forte. Vamos ter que sair no grito. Pronto? Vamos!


Raidramon rugiu e partiu como um raio. Pegasusmon alçou voo baixo, suas asas cortando a fumaça logo acima de nós.


Para mim, tudo se transformou em uma sequência surreal. Era como se a realidade passasse em câmera lenta e sem som. Eu via os clarões das explosões, o vulto de Pegasusmon lançando espinhos de luz que perfuravam drones metálicos, o Raidramon desviando em zigue-zague de foguetes que impactavam o chão atrás de nós, lançando terra e pedras ao vento. Era um balé silencioso e mortal, onde o único som era o sangue pulsando em meus ouvidos, um tambor abafado e frenético.


Eles abriam caminho através daquele hades, um duo letal contra a chuva de aço e fogo. Até que… ele surgiu.


Não foi um som que o anunciou, mas uma pressão. O ar ficou pesado. Uma silhueta metálica, ágil e aerodinâmica, plantou-se em nossa frente com velocidade sobrenatural, bloqueando a única rota de fuga. Os olhos verdes sob o visor azul não brilhavam com a familiaridade calorosa de outrora, mas com o brilho frio de um predador programado.


Era Rapidmon. A evolução perfeita e mortífera do Terriermon de Wallace. A arma definitiva do traidor.


— LÂMINA DO TROVÃO! — o rugido de Raidramon foi abafado pelo som do raio de poder que ele liberou pelo chifre.


—CHAMA PRATEADA! — a voz de Pegasusmon ecoou, e um raio de energia saiu de sua testa, como um eixo cortando o ar.


Os dois ataques mais poderosos que tínhamos se fundiram em uma lança de energia devastadora que voou em direção ao digimon. A luz foi cegante, o impacto, ensurdecedor. A poeira levantou uma cortina espessa e paramos, aguardando com ansiedade o resultado.


Quando baixou, o coração gelou em meu peito. Rapidmon ainda estava de pé, sua armadura impecável agora com leves queimaduras.


Flutuando, tomou sua posição de triângulo, para liberar seu ataque mais poderoso. Seus pés e mãos começaram a brilhar, em um dourado familiar, mas agora pervertido em um tom mortífero. Ele se ergueu, pronto para aniquilar suas presas. Estávamos indefesos. Era um fim irônico e amargo: morto pelo parceiro de quem queria vingar-se.


— TRIÂNGULO DE OUR…


E então, veio de trás dele.


Um som. Um "SHHHUUU-UMP!" gutural, um turbilhão cortando o ar com violência inenarrável, interrompendo o ataque eminente


A ponta aguda e reluzente do Martelo de Zudomon surgiu do nada, acertando Rapidmon em um ponto preciso da armadura, causando um CRACK metálico e mortal.


O digimon android vacilou. Seus olhos piscando erráticamente por uma fração de segundo — quase como um pedido de socorro silencioso de alguém que estava ali apenas seguindo ordens — antes de desintegrar-se em uma cascata de dados, retornando ao QG.


E atrás da nuvem de dados que se dissipava, lá estava ele. Zudomon, imponente como um farol de força, com Joe em suas costas, seu rosto um misto de fúria determinada e alívio furioso.


— Recuem! Deixem comigo! — a voz bradou firme e confiável, rasgando o barulho da batalha.


O martelo voltou como um bumerangue para a mão do digimon marinho, que, sem perder um segundo, o ergueu acima da cabeça e o desferiu com toda sua força no solo, como se fosse um deus nórdico.


O impacto foi colossal. Não foi um tremor, foi um terremoto. O chão rachou sob nossos pés, e uma onda de choque invisível derrubou drones e soldados, criando um perímetro de caos instantâneo.


— Agora! — Joe gritou.


Não precisávamos ser avisados duas vezes. Raidramon já estava se movendo, acelerando para a brecha que Zudomon abrira. E então, uma luz dourada e intensa envolveu o digimon marinho. Quando se dissipou, Nefertimon, em toda sua graça celestial, desceu dos céus como um anjo vingativo. Num movimento fluido, recolheu Joe e Gomamon em sua sela, garantindo que ninguém seria deixado para trás.


— JOIA DO NILO!


Seu grito não era de raiva, era de pura determinação. Ela disparou não furiosamente, mas metodicamente, como uma sentença sendo cumprida. Feixes de energia rosa-celeste atingiram com precisão cirúrgica os tanques, as artilharias e qualquer ameaça que pudesse cruzar nosso caminho. Cada explosão era um passo mais perto da liberdade, um obstáculo varrido do mapa.


E então, após o fogo e o estrondo, veio a visão que sustenta qualquer soldado em combate: a linha de chegada.


À frente, através da cortina de fumaça e poeira, a luz familiar do Digiportal cintilava como um farol. E diante dele, um vulto que fazia o coração apertar de alívio: Hikari. Seu rosto, iluminado pela energia do portal, era um quadro de preocupação, mas seus olhos brilhavam com uma fé inabalável.


— Vamos! — Ela não gritou. Sua voz, calma mas urgente, cortou o caos como uma lâmina afiada, um antídoto sonoro para todo aquele terror. — O portal está logo ali!


Era tudo o que precisávamos ouvir. Raidramon investiu com tudo o que tinha restado de força, e Pegasusmon voou baixo, fazendo uma escolta aérea. Nefertimon assumiu a retaguarda, sua simples presença sendo um escudo contra qualquer perseguição remanescente.


Éramos um único organismo, ferido mas coeso, cruzando aquele campo maldito em fuga desesperada, rumo à segurança, rumo à luz, rumo a casa, ou o que chamamos de lar, recentemente


A luz do portal nos cegou temporariamente, mas quando retornou, estávamos todos lá... Digimundo, o único lugar em que poderíamos estar em segurança.


Mesmo com todos lá, essa aparente vitória, não tinha gosto açucarado, mas ferroso, como sangue.


O movimento parou. A adrenalina que mantinha meu corpo unido começou a se dissipar, e uma agonia surda tomou conta de cada músculo, cada osso.


Com dedos trêmulos e descoordenados, lutei contra as presilhas das cordas que me prendiam às costas do que de Raidramon. O metal clicou solto.


— Daisuke, espera! — a voz de Takeru soou alarmada, ao meu lado.


Mas era tarde demais. Tentei deslizar para baixo, mas minhas pernas simplesmente não existiam. Era um boneco de pano. Meu corpo, traidor até o fim, inclinou-se pesadamente para o lado e despencou em direção ao chão.


— Peguei!


Foram duas vozes ao mesmo tempo. Joe, com a força prática de quem lida com emergências, e Takeru, com o desespero de um irmão, me agarraram antes que minha cabeça atingisse o solo. Eles me segurarem de forma a me apoiar em seus ombros com cuidado, mas mesmo o movimento suave fez o mundo girar violentamente.


A luz azul celeste envolveu mais uma vez meu parceiro digimon que regrediu a um exausto chibimon, tombando exausto, sendo acolhido por Gomamon.


— Idiota! Você podia ter se machucado seriamente! — Joe já estava com os dedos no meu pulso, checando meu ponto de pressão, seus olhos clínicos examinando as pupilas dilatadas.


Antes que eu pudesse articular qualquer desculpa, um vulto castanho se atirou sobre nós. Hikari envolveu Takeru e depois a mim em um abraço tão forte quanto frágil, seu rosto enterrado no meu ombro sujo de fuligem.


— Eu pensei… eu pensei que vocês não iam voltar — sua voz era um sussurro quebrado, carregado de um medo que ia muito além da preocupação. — Não saberia o que fazer se perdesse qualquer um de vocês. Não de novo.


A culpa, amarga e pesada, juntou-se à dor física. Nós a fizemos passar por isso.


Foi quando Koushiro se aproximou, seu rosto iluminado pela luz suave de um tablet, mas sua expressão era sombria.


— Esta foi por pouco — ele disse, sua voz carregada de uma gravidade que fez todos se voltarem para ele. — E não foi por acaso. Wallace estava preparado. As defesas estavam calibradas exatamente para o nosso ponto de inserção. De alguma forma… ele sabia que estávamos chegando.


A informação ecoou em minha mente, mas as palavras começaram a se distorcer, como se ouvidas debaixo d'água. A voz do Koushiro, a respiração ofegante do Hikari, os comandos rápidos do Joe… tudo começou a se afastar, abafado por um zumbido crescente. Minha visão escureceu nas bordas, o rosto preocupado do Joe foi o último a desaparecer.


— …hemorragia interna provável… precisa de tratamento intensivo agora… a discussão… fica para depois… — eram os últimos fragmentos que eu conseguia capturar, enquanto era carregado para longe.


Na iminência de apagar totalmente, cercado pelos ecos das vozes dos meus amigos, uma última pergunta ecoou na escuridão que me consumia: Será que tudo isso é certo?


Será que se não tivéssemos nos separado depois daquela vez… se ainda fôssemos um grupo como antes… se tentássemos do jeito do Taichi… isso teria acontecido?


Taichi… faz quanto tempo que não penso no antigo "senpai"?


E então, a escuridão não trouxe apenas o silêncio, mas uma memória. Não do campo de batalha, mas de um tempo mais quente, mais brilhante. De como tudo começou…