O dia havia amanhecido em festa. As pessoas estavam comemorando o dia em que houve a unificação do reino das nuvens, onde o maior mago de todos os tempos, conseguiu unificar todos os povos das nuvens se tornando em uma única nação, e então se tornando o primeiro rei.

Todos estavam na rua principal esperando os carros passar com a família real, os descendentes do poderoso mago.

O desfile se iniciava meio-dia, e era basicamente as bandas escolares do reino, o desfile militar e alguns nobres, incluindo a família real fazer aparições à nação. Entretanto, desde que Sebastian se tornou rei, ele quebrou os protocolos em não participar desses eventos, por não gostar desse tipo de coisa, e por consequência fazer as pessoas não reconhecer o rosto do rei. O que de uma certa forma, uma estratégia do rei.

Era um dia muito cheio, onde quase toda a nação se acumulava num único lugar, então os comerciantes aproveitaram para vender as coisas diretamente na rua, uma vez que seria mais rápido e prático as vendas.

A rua principal tinha uma vantagem, que na verdade foi um planejamento muito bem estruturado para quando tiver eventos em que poderia haver muitas pessoas: ela era muito larga e comprida. Por isso não tinha problema em abarrotar as pessoas num ponto.

Quando o desfile começou, a entrada era a banda dos colégio e logo atrás estava um carro com Amélia e Lethoudus. Enquanto a princesa acenava para todos, Lethoudus observava e sorria, sem se aparecer muito. Atrás iam os nobres e os cavaleiros tanto do rei.

— Acho isso entediante para não dizer chato — disse Lethoudus com a mão na cara para não entregar o sentimento.

— Eu gosto, é diferente — disse Amélia cumprimentando os súditos — tem muitas pessoas, me sinto acolhida.

— Você ainda dou um desconto, irmãzinha, você quase não sai do castelo, nem para ver o jardim.

— Pois é, e dependendo de quem ele escolher como meu marido, nunca mais vou ver a rua.

Amélia ficou com os olhos cheios d'água. Ela se sentou no carro para disfarçar as lágrimas. Lethoudus se aproximou e abraçou a irmã.

— Vou conversar com ele a respeito desse assunto — disse acariciando a cabeça da irmã.

— Não Lethoudus, não vai falar nada. Por favor....

— Por que não? A gente tem que falar com ele!

— É que... Tenho medo de acontecer o pior...

Lethoudus entendia a preocupação dela. O sonho que Amélia teve sobre uma briga entre ele e Sebastian. Ela via que Sebastian ia matar o irmão, então desde esse dia ela evitava ao máximo o encontro dos dois.

— Amélia, minha irmã — disse Lethoudus com um olhar preocupado — foi aquele sonho não é mesmo?

— Eu sei que é apenas um sonho, mas desde aquele dia fico pensando horas, dias sobre...

— Eu te garanto que não vai acontecer nada. Nem comigo... — ele então deu um toque no nariz da irmã — E nem com você.

A princesa olhou triste. Ela buscava uma garantia de que aquilo não iria acontecer.

— Não quero que case com quem o Sebastian escolher. Isso não é justo. Por isso me sinto obrigado a resolver isso.

— Mas e se vocês...

— Amélia, minha irmã. Ele é um tirano, mas ele não vai me matar somente por causa de um pedido. Até porque seria um tiro no pé dele fazer isso.

Amélia deu um sorriso tímido e abraçou novamente o irmão.

— Prometo não morrer, mocinha, preciso salvar uma princesinha de um casamento que um maluco está planejando.

Amélia finalmente deu um sorriso convencido. Após isso eles voltaram a acenar as pessoas do reino.

O príncipe ficou observando as pessoas. Elas estavam alegres e agiam de modo simples. Ele via aquela felicidade natural e alguma coisa nele se comovia. Queria ser feliz como eles, pensava, mas tenho minha irmã para cuidar.

O desfile ia terminar em frente ao castelo. De lá os nobres partiam para suas respectivas casas.

Antes era diferente, bem antes do pai de Sebastian, Amélia e Lethoudus ser rei, o baile era emendado logo após o desfile.

A mudança ocorreu pois o antigo rei reparou que era muito cansativo para os participantes, principalmente porque era uma festa que durava muito tempo.

O fato de ser longo era que havia muitas paradas em uma rua longa, seja pela banda que fazia alguma apresentação ou o próprio exército fazer alguma aparição especial.

Durante uma parte da rua, que era onde tinha bastante lojinhas, algo deixou Lethoudus um tanto quanto curioso. Um homem alto, de cabelos pretos e curto, usando uma capa preta estava em uma das esquinas parado de costas para o desfile.

Que homem esquisito, pensou enquanto reparava os trajes. Lethoudus não conseguia ver o rosto do homem.

Aquelas roupas eram familiar. Ele então se lembrou de quando criança via muitos mercenários ao redor do castelo, mas devido a uma tentativa de traição, o antigo rei extinguiu a todos.

Um mercenário? Que eu saiba meu pai havia banido eles do reino, pensou enquanto encarava aquela silhueta. O homem misterioso então desapareceu num piscar de olhos.

— Droga — no desespero Lethoudus deu um pulo do carro.

— Irmão? — disse Amélia assustada.

— Continua o desfile — gritou o príncipe — volto já!

O príncipe virou a mesma esquina em que estava o misterioso homem, e descobriu que ali era um beco sem saída que dava acesso a uma porta.

Ele andou devagar em direção à porta, e ao chegar em frente a ela, ele virou a maçaneta com muita cautela.

— Trancado — murmurou o príncipe tentando forçar a porta.

— Vossa majestade vai ficar muito bravo com o senhor, vossa alteza.

Uma voz familiar passou pelos ouvidos de Lethoudus, ele se arrepiou de susto e sem demonstrar se virou devagar para ver quem era.

— Rubens? — disse surpreso — o que faz...

— Eu vi o senhor pulando o carro. Não apenas eu, mas todo mundo.

— A-acho que me equivoquei.

Rubens reparou que o rapaz estava desconfiado. Lethoudus não tirava a mão da maceneta.

— Aí é apenas o depósito de minha loja — disse apontando para a porta — gostaria de ver algo?

— Acho que seria rude da minha parte dizer que sim — disse o príncipe sem graça.

— Não será – disse andando em direção ao príncipe – eu no seu lugar faria o mesmo.

Rubens pegou a chave da porta e então abriu. Não havia boa iluminação, apenas um amontoado de caixas um pouco organizadas e algumas coisas largadas no canto. O local também era pequeno, o que facilitava na procura.

— Satisfeito? — disse Rubens.

— E-eu realmente...

— Não se preocupe rapaz, eu também sou desconfiado.

Lethoudus ficou com uma cara sem graça.

— Você tem todo direito de questionar seus súditos. Não fique assim.

— Sebastian vai querer minha cabeça depois disso.

— Te garanto que uma boa desculpa vai convencer não só ele, mas todos do reino.

Lethoudus ficou quieto por um instante.

— Alteza. Sua irmã deve estar preocupada.

O príncipe então se ligou do que ocorreu e desistiu de ser relutante. O vendedor arrastou Lethoudus para fora e trancou o galpão novamente. Acompanhando o príncipe, ele reparou que o desfile havia parado.

Todos estavam olhando para ele parado. Sem ao menos ter alguma reação.

Aquilo nunca tinha ocorrido antes.

Lethoudus quebrou um dos protocolos do desfile.

— Acho que eu passei mal — disse Lethoudus — carros me enjoam.

As pessoas começaram a questionar se ele estava bem, alguns nobres até chegaram perto dele para perguntar como ele estava.

Por mais que a desculpa era das piores, o que fez todos ficar convencidos era a palidez do príncipe. O fato é q ele estava pálido pelo fato de o desfile ter parado e que com toda certeza o irmão iria falar sobre o ocorrido.

— Podem continuar a festa, gente. Não acho que um dia importante deve ser prejudicado por minha culpa — disse Lethoudus.

Aos poucos as pessoas retomaram a atenção para o baile. Lethoudus, por sua vez se senta no banco sem ao menos olhar a irmã.

— Lethoudus o que foi isso? — disse Amélia preocupada.

— Nada não irmã.

— Como nada, você saiu do carro com tudo e começou a correr. E não era enjoo, você não passa mal com tanta facilidade.

— Eu achei que fosse uma pessoa na verdade.

Amélia olhou o irmão preocupada.

— Me perdoa irmã, eu realmente precisava ver.

— Eu não disse nada, só acho que você vai ouvir muito Sebastian.

— Eu vou falar com ele.

— A questão não é essa...

— Ei! Não fique assim, vou resolver isso, prometo.

Amélia não falou mais nada, não havia mais o que falar. Ela voltou sua atenção para o desfile. Lethoudus por sua vez ficou com aquela figura enigmática na cabeça.

***

Após algumas horas, Rubens voltou para o galpão. As luzes estavam acesas e então ele não teve que se preocupar em ligar a luz ou esbarrar nas caixas da frente. Ele deu de cara com um homem sentado numa cadeira folheando uns livros.

— Por pouco ele não te vê, eu ia ficar em maus lençóis — disse o vencedor sem graça.

— O erro foi meu. Vacilei nos trajes e na aparição — respondeu — Não existem mais mercenários, desde que meu pai acabou com todos.

Sebastian estava disfarçado de uma pessoa comum, para não chamar atenção. De início estava folheando um livro quando olhou para Rubens.

— Para a sua sorte que ninguém sabe dessa história e somente os nobres sabem como é a sua cara — disse o vendedor pegando algumas folhas do ambiente.

— Não precisa ficar assustado Rubens, aqueles ratos não fazem nada a não ser feder e gerar gastos para o reino.

O fato de ninguém saber quem era Sebastian o auxiliava na saída do castelo. Ele tirava todo o luxo e usava uma simples capa preta para a se disfarçar.

Acontece que ele ficava parecendo um mercenário, e para não ficar de saia justa, ele deixava na rua somente guardas que eram realmente da confiança dele.

Poucas pessoas sabiam da história dos mercenários, no reino das nuvens. O reino havia conseguido abafar para não gerar possíveis boatos e fazer eles serem vistos como heróis.

— Você não me mostrou isso Rubens — disse mostrando o livro — os nobres costumam esconder os gastos, mas você esconde o prejuízo que está tendo.

— Eu não preciso do auxílio do reino Sebastian. Fora que esse prejuízo eu mesmo que causei

— Às vezes acho você meio idiota, com todo respeito — disse rindo — esse valor bate com aquele nosso plano.

Rubens riu.

— Sebastian, o que os nobres iam falar se eu apresentar um rombo de 1453 Liens, o que batia com o rombo do visconde que você derrubou?

— Tem razão.

— Ainda bem que posso ser desleixado com você sem me preocupar com a cabeça ser cortada.

Sebastian deu uma leve risada. Rubens era um dos poucos homens que conhecia Sebastian desde criança, consequentemente era uma das poucas pessoas que havia uma confiança.

— Talvez — disse rindo.

— Mas majestade, você foi genial naquele golpe.

— O Gilbert e Henry foram no castelo dele.

— E então?

— Os livros que ele me mandavam eram falsos. Havia um rombo de mais de 840 mil Liens, somando os outros meses.

— Caramba...

— Mas você sabe o motivo de estar presente aqui.

— Sei, mas antes preciso te falar. Lethoudus veio aqui ontem.

— Quando você me conta assim, com certeza não é para me falar que ele veio comprar plantinhas.

— Veio comprar sim, mas ele questionou sobre o tornado.

— Esse homem agora ficou fixado nessa porcaria de tornado.

— Sebastian, ele está chegando perto...

Sebastian olhou rindo de Rubens. O rei havia o envolvido demais na encrenca.

— Vou resolver isso já. No dia do baile vou acabar com a raça dele.

Rubens anotou a informação que o rei queria em um papel, ao entregar, Sebastian se levanta e vai para a frente da loja. Mesmo com o jeito truculento, ele havia uma certa postura de nobre.

— Rubens!

O vendedor olhou e Sebastian jogou para ele um saco cheio de Liens.

— O valor certo do prejuízo.

— Você não vale nada Sebastian, ainda vai se ferrar por causa disso!

— Vamos dizer que é o preço da informação.

O homem riu, não adiantava questionar. Sebastian era muito teimoso.

— Obrigado meu amigo! — disse Sebastian fazendo um gesto de reverência ao amigo.

— Boa sorte majestade.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.