Notas iniciais
Há muito tempo.
Quando a Terra só tinha um único continente.
Em um lugar bem distante dela.
Entre as nuvens.
Havia um reino.
O reino das nuvens.
***
O reino das nuvens estava se preparando para o feriado que iria ocorrer no dia seguinte. Estava tudo corrido, pois o rei Sebastian estava terminando algumas análises da contabilidade do reino para uma melhor organização da nação durante o festival e havia também a organização para o desfile do feriado.
— Vossa majestade, está tudo pronto para a meu baile de maioridade — disse a princesa Amélia sobre seu aniversário que iria ocorrer em 5 dias.
Amélia era irmã mais nova de Sebastian e Lethoudus. A única filha mulher do antigo rei. Era uma jovem muito bonita, os olhos verdes como esmeralda. Também tinha cabelos avermelhados e ondulados que chamava atenção de todos que a viam.
— Assim que acabar o festival, irei preparar o meu baile.
Sebastian não respondia, pois estava prestando atenção no trabalho, porém estava atento.
— O bom é que o intervalo para a organização é de 5 dias, contando hoje.
— Você conseguiu arrumar seu par para dança? – perguntou o rei.
Amélia estava achando legal o fato de o irmão perguntar. Nunca que ele havia se preocupado com festas ou algo do tipo. Ela apenas deu uma risada inocente, uma vez que ela tinha alguém em mente, mas estava guardando em segredo.
— Eu já escolhi um cavalheiro que irá dançar com você, Amélia — disse o rei de sem ao menos olhar para a irmã.
Aquela notícia foi anunciada muito de repente. Tão de repente, que chegou ser deselegante por parte de Sebastian. Amélia não esperava e nem queria que Sebastian iria escolher alguém para ela dançar, na verdade ela não queria que escolhessem por ela.
— M-me desculpa, irmão, não entendi.
— Eu já escolhi o seu companheiro. Você irá dançar com ele. Após isso...
Ele parou de escrever e olhou para os olhos dela. Ela estava com uma expressão incrédula.
— Você irá se casar com ele... E é para a sua vida inteira.
Os olhos vermelhos do rei se encontraram os olhos verdes da irmã, gerando um tremendo desconforto na Amélia.
Sebastian era temido por tudo e todos. Dizem que ele matou o próprio pai, o antigo rei para tomar o trono. Ele era muito impiedoso e muito poderoso. Todos o consideravam um regicida, mas guardavam essa opinião longe do castelo para não sofrerem o pior.
A Família real, por sua vez são os descendentes do mago mais poderoso, que também conseguiu fazer a unificação do reino.
Todas as pessoas no reino das nuvens possuem uma quantidade de mana maior que as pessoas da Terra, ao ponto de conseguir fazer magia básica, porém apenas os magos, aqueles que possuem alta quantidade de mana para desenvolver magias complexas tiveram os títulos de nobreza.
O rei encarava a princesa de forma séria. Ele apoiou a cabeça em uma das mãos, deixando os cabelos pretos e curtos dar uma leve deslizada, tocando nos dedos.
— Mas Sebastian, eu já tinha convidado uma pessoa para ir comigo — disse a princesa numa tentativa de fazê-lo mudar de ideia.
— Cancela o convite — disse retomando a leitura do livro.
— Posso ao menos saber quem será meu companheiro?
Sebastian deu um sorriso de lado, como se estivesse tramando algo. Antes mesmo de dar a resposta, seus olhos ficaram um pequeno problema no tal livro que estava analisando.
— A conta não está batendo.
— M-me desculpe senhor, há algum problema — disse o nobre que estava ao lado.
— Está faltando 1456 Liens — disse folheando as páginas.
— Tem certeza, vossa majestade, o senhor pode ter se enganado.
— Eu fiz 3 vezes as contas e está faltando 1456 Liens.
O nobre olhou Sebastian. O rei estava impaciente.
— V-vo-vossa majestade, acredito que seja alguma construção que eu acabei esquecendo de anotar.
— O senhor pensa que sou um idiota não é mesmo?
— Como assim?
— O senhor não construiu nada no seu castelo. Até porque ontem eu vi os livros dos comerciantes e não havia materiais de construção vendido para o senhor.
— É... É... — O nobre estava começando a ficar sem saída.
— Eu analisei anteontem a entrada e saída de dinheiro, visconde. Não ironicamente saiu um valor que somando esse 1456 Liens, bate a conta.
— O senhor está me acusando de corrupção?
— Eu não estou o acusando. Estou apresentando os fatos. O senhor que está se denunciando, uma vez que mencionou algo que sequer veio a minha mente.
Sebastian olhou para o nobre. Os olhos vermelhos brilhavam de forma intimidadora. Ele estava sério, com um semblante sombrio.
*Odeio mentirosos*, pensava o rei, *por mim que acabasse com todos*
— Eu guardei esse dinheiro, queria fazer um projeto que o senhor não havia aprovado. Mas ele era bom para os moradores locais. Achei que seria bom...
— O projeto do poço?
— S-sim... A região, por causa do tornado, está seco. As pessoas estão com sede, não tem comida para elas, e perdemos parte da plantação.
O rei não respondeu. Pegou o caderno e entregou para o analista do castelo.
— V-vossa majestade?
— Você e sua família tem uma semana para sair de Winder. E arrumar outro canto que não me interessa.
— Eu sou o visconde daquelas terras.
Sebastian se virou e puxou o broche do visconde, quebrando com as próprias mãos e reduzindo a cinza.
— Visconde? Cadê seu título? — disse Sebastian sorrindo.
— Seu...
— Sua incompetência me enoja. E me enoja mais ver você achando que eu sou um mentiroso.
— Eu não estava mentindo, majestade...
— Eu não me importo se o que você disse é verdade ou mentira. Podia ser o gesto mais nobre de todo reino — disse Sebastian — Você mentiu para mim. Isso é intolerável.
Os olhos brilhavam de puro ódio.
— É assim que trato os ladrões.
Num estralar de dedos o nobre havia perdido toda roupa, ficando apenas com as íntimas.
O nobre gritava, principalmente de vergonha. Todos no castelo ficaram quietos. O nobre que tinha perdido o título estava com tanto medo de que não conseguia mover as pernas. Não era mentira que as pessoas da região passava fome e sede, porém não esperava que aquilo ia levar um rumo caótico.
Em questão de segundos o nobre conseguiu forças para sair correndo. No momento que ele estava saindo Lethoudus, príncipe das nuvens e irmão de Sebastian, entrou no salão.
O nobre tropeçou no príncipe, caiu, mas no susto se levantou e correu. Lethoudus ficou parado apenas olhando a situação.
— Não acha que exagerou dessa vez irmão? — disse o príncipe com um tom sereno.
Lethoudus era o irmão do meio. Tinha 24 anos, um ano mais novo que Sebastian. Tinha os cabelos preto da mesma cor do irmão. A diferença era que Lethoudus deixava compridos. Contudo os olhos eram verdes como da irmã.
Os estilos de roupas dos três também eram bem diferentes um dos outros. Sebastian utilizava mais camisas brancas e calças. Os acessórios que eram diferencial, pois sem as joias ele aparentava apenas um mercenário.
Lethoudus por sua vez tinha estilo mais nobre, porém preferia o uso do preto com detalhes em verde cintilante. E a Amélia era mais simples. Ela não gostava de joias e não se importava com isso.
— O que veio fazer aqui, Lethoudus? — questionou Sebastian enquanto lia um outro livro.
— Vim justamente questionar sobre o tornado. Diversas pessoas estão necessitadas, irmão.
— Isso não lhe diz respeito Lethoudus.
— Sebastian, o desfile e o baile de comemoração é amanhã. Daqui 5 dias é o aniversário de Amélia. Com que cabeça o povo vai comemorar esses dias se estão passando dificuldades?
— Eu já disse que isso não lhe diz respeito Lethoudus.
— Estou querendo ajudar.
— Basta — Sebastian jogou o livro no chão e se levantou — Eu não quero sua ajuda Lethoudus, eu não quero pessoas incompetentes para resolver assuntos sérios.
— Sebastian não temos mais tempo! Eu particularmente não me envolvo no reino, justamente porque você não quer, mas as pessoas tão passando fome! Não temos mais tempo!
— Você sempre se mete onde não é chamado, sempre quis se meter em assuntos do reino. Você pensa que sou um idiota?
Amélia olhou assustada os dois brigando. A qualquer momento podia explodir.
— Um dia, Lethoudus irei te matar na frente de todos!
Nesse momento Amélia tentou intervir. Porém tudo ficou embaçado. Foi então que ela teve sua primeira premonição.
***
Uma silhueta de um homem estava evidente. Ele usava uma coroa de um rei e atrás as nuvens passava iluminando aquele come com alguns raios do Sol.
De repente a cena troca e aparece esse homem misterioso lutando com o outro homem. Esse homem acerta uma espada no oponente. O homem que foi ferido foi jogado por alguns guardas no tornado.
A cena troca novamente e aparece o casamento de Amélia. Ela chorava, e estava indo contra a vontade. Os olhos dela de repente se apagaram e se escureceram, se tornando uma outra pessoa, mas com os olhos pretos como a noite mais escura.
Essa jovem ficava ao lado desse rei. Ela não chorava, mas não havia nenhum sentimento nela. Como se tivesse morrido.
***
Amélia acordou assustada. Estava no quarto. Ela viu o sofá e reparou Lethoudus olhando para cima pensando.
— Irmão — disse Amélia.
Lethoudus olhou para a irmã e se sentou.
— Está melhor, Amélia?
— Tive um sonho horrível. Dois homens lutando por causa de alguma coisa...
Ela olhou nos olhos do irmão. Estavam um verde diferente, como se estivesse distante de tudo e todos.
— Parecia você e Sebastian...
— O que aconteceu? — perguntou encarando-a.
— Não lembro, mas parecia que o Sebastian te matou, ele me obrigou a casar com alguém que não queria e havia uma mulher...
— Uma mulher?
— Sim, não sei quem é, mas os olhos dela. Era os olhos pretos, como se não tivessem vida...
Lethoudus ficou quieto. Ele já tinha ouvido falar sobre esse tipo de olho.
— O que pode ser? Uma premonição? — perguntou Amélia assustada.
— Pode ser muitas coisas. Não sei se é premonição... Não conheço ninguém que tenha olhos pretos... Bom...
— Bom...?
— Havia uma família de duques que estavam abaixo apenas da nossa família. Eles eram meio que especiais.
— Especiais como?
— Sabe como funciona a mana do nosso corpo?
Amélia ficou pensativa. Fez um gesto de "mais ou menos" com a cabeça.
— Bom, tanto na Terra, quanto nas nuvens seguem a ideia de que existem 5 elementos, e esses 5 elementos regem a natureza e geram equilíbrios.
— Faz sentido...
— O povo das nuvens são pessoas que possuem uma quantidade de mana maior que as pessoas da Terra, então é natural elas adquirirem poderes básicos, como fazer o solo crescer, acender o fogo, regar planta e tal. Mas isso é limitado.
— Eu ouvi dizer que os nobres têm mais mana e por isso são considerados magos.
— Exato. Porém há um limite também, cada nobre tem um elemento em específico. E isso pode ser visto pelos olhos.
— Como assim? — Perguntou Amélia de repente.
— Cada cor do olho representa um elemento — Lethoudus então representou por meio de magia — o fogo a cor vermelha. A água o azul. Terra o verde e o cinza representa o ar.
— Sério? Cada cor é um elemento? Que incrível!
— Sim, mas essa família em específico era diferente — Ele então olha a como se diversas lembranças passavam em sua cabeça.
— Diferente como?
— Os olhos eram naturalmente roxo, mas eles mudavam de cores.
Lethoudus ficou quieto, Amélia por sua vez ficou mais curiosa.
— Por quê? — perguntou a menina.
— Eles dominavam o elemento vácuo. Ele é diferente. O sentimento deles eram passados nos olhos.
A princesa ficou surpresa, e Lethoudus continuou.
— Quando nascem naturalmente os olhos são lilás, a medida que crescem e aprendem sentimentos novos, o mais predominante é o que fica.
— Entendo, mas o que tem a ver com os olhos que vi? — Perguntou a princesa confusa com toda aquela informação.
— Lembro de uma nobre dessa família ficar com os olhos pretos, mas foi por alguma coisa que ela ficou assim... Era como se ela morresse por dentro...
Amélia olhou distraída, as ideias surgiram na cabeça dela, mas nenhuma se fixavam. Lethoudus se levantou.
— Lethoudus...
— Sim?
— Cadê esses nobres?
— Todos morreram em um incidente...
Amélia não respondeu mais. Então ela entendeu do porquê o Lethoudus não ter certeza se era uma premonição ou um sonho qualquer.
De qualquer forma é estranho, pensou a princesa inquieta.
Lethoudus olhou para a irmã e começou a andar.
— Vai sair irmão?
— Preciso resolver essa questão do tornado.
— Lethoudus, toma cuidado. Sebastian não gosta que você...
— Amélia, tenho desconfiança que esse tornado não veio de forma natural...
— Como assim?
— Alguém que fez... O motivo não sei, mas preciso saber...
Quando Lethoudus saiu, Amélia apenas deu uma arrepiada, como se tivesse um pressentimento ruim.
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