The King
39 Fria Sensatez.
Notas iniciais
Capítulo 39 – Fria Sensatez.
Itachi não gostava daquilo.
Não gostava de falar para Naruto a história de Kasumi, quando nem ela sabia sua própria história, mas não via outra opção.
Aquele garoto, embora imaturo e impulsivo, era o Rei da nação do Fogo. Era nas mãos dele que a vida de Obito estava. Seria ele, no final das contas, que daria o veredicto sobre o destino do Uchiha. Portanto, Naruto deveria estar ciente de tudo.
Itachi não sabia o porquê de aquela história perturbá-lo tanto. Era só um mercenário, pelo amor de Deus! Independente das raízes, e da injustiça que sofrera, agora era um assassino, talvez um assassino cruel.
Que importava se tinha sido o adorado irmão da mãe? Que importava se, um dia, fora o amado pai de sua esposa? As pessoas mudam, não é? O que garantia que ele continuava sendo um pobre injustiçado, vítima das circunstâncias?!
Não. Ainda que ele fosse o diabo personificado, merecia um julgamento justo; merecia ser punido pelo que fez, mas também absolvido pelo que não fez.
Por Mikoto e por Kasumi, Itachi tinha que ser justo.
Então, como um bom e fiel soldado, ele contou tudo ao seu rei.
– Obito Uchiha foi o único filho homem de Madara, meu falecido avô. – Ele contou ao loiro. – Mas foi renegado da família graças aos sentimentos que desenvolveu por Rin Nohara. Os pais não aprovavam, então tinham um caso secreto... E o resultado desse caso foi a Kasumi. – Itachi pôde ver, pelos olhos de sua majestade, o quão surpreso ele estava. Mas Naruto não disse nada.
Apenas continuou sério, olhando-o com uma frieza madura que fazia com que os irmãos Uchiha lembrassem que, de fato, aquele garoto, mesmo tão jovem e inexperiente, era o soberano da nação do Fogo.
– Meu avô expulsou-o de casa ao descobrir as pretensões de meu tio, que queria ter o bebê e ficar ao lado da senhorita Nohara.
– E como isso não veio a público?! – Sasuke estava pálido, e não conseguia aceitar o que ouvia. – Irmão, isso tudo...
– Os Nohara também não abençoavam a união, então isolaram a casa e fingiram que a grávida era a senhora Nohara. – O mais velho explicou. – Todos pensavam que Rin estava noiva de Kakashi, então nenhuma desconfiança surgiu... Talvez, Obito e Rin planejassem fugir... – O conselheiro refletiu. – Mas o incêndio aconteceu antes que pudessem fazê-lo.
– Certo... – Naruto murmurou lentamente, pensativo. – Você está me dizendo que esse homem é inocente dos crimes que foi julgado no passado, mas e sobre agora? Ele está na Torre, com uma companhia bastante suspeita. Mentiu ao rei, e imagino que também tenha mentido à família. – Itachi anuiu imediatamente. – Seja franco, Itachi. Você acredita que Tobi esteja aqui por coincidência?
Itachi hesitou.
Hesitou, porque sabia que sua resposta poderia decidir o destino daquele homem. Irmão de sua mãe, pai da mulher que ele amava... A vida dele podia estar em suas mãos, naquele momento.
Mas, quando ergueu os olhos negros até o rei, foi sincero: — Não. – Falou com convicção. – Eu não acho que seja uma simples coincidência. – Confessou. – Esse homem perdeu a mulher que amava, perdeu a liberdade, perdeu a filha... Francamente, em comparação aos demais mercenários, creio que seja ele o mais preocupante. Nagato perdeu os pais, mas tem a filha para zelar, Yahiko tem a noiva... Obito foi injustiçado, e deve odiar muito a nação do Fogo, por causa disso. No entanto, diferente dos outros, ele não tem motivos para se segurar.
– Além de Kasumi. – Sasuke verbalizou seus pensamentos.
– Kasumi é a futura duquesa Uchiha. Obito sabe que ninguém tocaria nela.
– Está me dizendo, — Naruto os interrompeu. – Que é bem possível que esse homem seja uma ameaça. Mas, ainda assim, não quer que ele morra. – Não foi uma pergunta. Foi uma afirmação, e o conselheiro pôde perceber isso.
Os olhos negros se estreitaram, e ele baixou a fronte.
– A morte de Obito, agora, não vai resultar em nada. – Foi sincero. – Poderíamos condená-lo apenas pelo fato de ter mentido ao rei... Mas Nagato negaria qualquer conhecimento da traição, e continuaria na Torre. Nós não sabemos o que a akatsuki tem em mente, majestade.
– Não. – Naruto o interrompeu mais uma vez. – Nós sabemos exatamente o que eles têm em mente: um golpe de Estado. Ficar fingindo que não percebemos disso é tolice. – Sasuke anuiu em concordância.
– De fato. – Murmurou. – Mas não podemos expulsá-los da Torre sem provas. Nawaki ainda tem seguidores, mesmo depois de tantos anos... Chutar o filho dele do palácio pode causar revolta. – O rei suspirou longamente, e jogou-se sobre uma das cadeiras, exausto.
Ele odiava situações delicadas. Era sempre muito estressante!
– Então, continuaremos do jeito que estamos. – Ele decidiu, e acenou com a mão num gesto banal. – Vamos continuar sentados, observando cuidadosamente os movimentos daquele ninho de cobras. Quando eles derem sinal do bote, pegamos os bastardos.
– É mais fácil falar do que fazer. – Sasuke bufou. – Golpes de Estado são a especialidade daqueles malditos. – Naruto deu os ombros.
– Observar é o mais sensato a se fazer. “Mantenha os amigos por perto, e os inimigos ainda mais perto”... Não é assim que um rei deve ser?
Ele disse isso com um sorriso forte, confiante, que fez com que Itachi sorrisse.
– Por enquanto, quero que faça o que pedi: tenha certeza de todos os que sabem sobre minha falta de memória. Se Nagato sabe, é porque ouviu de algum lugar... E eu quero saber de onde. – O conselheiro anuiu.
– Imediatamente, majestade.
~
Neji lembrava-se com perfeição, de seu primeiro encontro com Hinata.
Ele tinha oito, quase nove anos, e ela seis.
Foi depois de ele e sua mãe receberem a visita dos conselheiros, que lhes disseram sobre a morte do “corajoso Hizashi Hyuuga, que havia dado a vida para proteger seus governantes”. Os conselheiros, o rapaz se lembrava, deram um belo discurso sobre os méritos do falecido Hyuuga; exaltaram suas qualidades e não citaram seus defeitos. Mas suas palavras não foram suficientes para consolar a pobre viúva.
A mãe de Neji havia adoecido poucos dias depois daquilo, e Hiashi veio buscá-lo. “Você será o futuro líder da família”, foi o que seu tio disse para convencê-lo a se afastar da mãe.
Neji chegou à mansão principal dos Hyuuga numa manhã fria de outono, e de cara encontrou-se com a prima. Uma bela garotinha, que corava com muita facilidade, e ficara o tempo inteiro escondida atrás da saia da mãe.
Foi a ela que Hiashi pediu para acompanhá-lo até seu quarto.
Lembrava-se de que os dois seguiram muito tímidos até a área infantil; lembrava-se das tímidas palavras de apresentação e, principalmente, lembrava-se de quando ela se agachou, com os olhos claros estupidamente preocupados e perguntou num murmúrio envergonhado: “Onde está doendo?”. Uma frase simples, que serviu de estopim para que ele chorasse a noite inteira.
Neji não contou a ela o que lhe doía. Nem porque chorava... Mas ainda assim, Hinata ficou ao seu lado, chorando com ele vez ou outra, e desculpando-se, caso o tivesse magoado.
Provavelmente, foi naquele instante em que ele se apaixonara.
Ele tinha oito anos, mas sabia que gostava da prima mais do que qualquer pessoa, e que gostaria dela assim pelo resto de sua vida.
Mas os sentimentos dela não eram, nem nunca seriam recíprocos.
Agora, mais de dez anos depois, ele sabia disso.
Estava encostado à parede da sala de visitas da rainha, observando as primas falarem animadamente, numa conversa divertida, sobre o flagra daquela manhã.
Francamente, ele não conseguia entender os motivos de Hanabi achar tudo aquilo tão engraçado, mas estava muito sombrio para censurá-la por isso. E, para falar a verdade, ainda que não estivesse, não falaria nada. Estava muito focado no rosto de Hinata para isso.
Ela estava feliz. Simplesmente... Radiante! Mais alegre do que nunca. Com olhos brilhantes e um encantador sorriso estampado nas faces.
Obviamente apaixonada.
– Você está bem? – A voz preocupada de Tenten despertou-o de seus devaneios.
–... Eu estou bem. – Ele murmurou, mas era uma clara mentira. – É só que... – Estreitou os lábios. – Ela parece... Tão feliz... Sempre fico surpreso quando vejo o que esse homem faz à Hinata. Desde pequena, tudo o que se relaciona a ele faz com que minha prima aja com intensidade. Quando ele foi dado como morto, ela chorou como se tivessem arrancado parte de sua alma; quando ele estava afastado, ela se isolou, e entristeceu-se como se estivesse a ponto de morrer. E agora, que ele está próximo...
Ele não se sentiu capaz de prosseguir, e Tenten sentiu-se péssima pelo amado.
– Neji, eu...
– Não, não diga nada. – O rapaz implorou. – Eu estou sendo estúpido, neste momento. Sempre soube que uma hora ou outra ela se casaria, e sempre torci pela felicidade de Hinata... Sinto-me um hipócrita, por estar agindo dessa forma... Eu estou bem. – Ele tornou a afirmar, mais para si mesmo do que para a moça. – Vou ficar bem...
Tenten não acreditou nisso; e ainda que Neji claramente quisesse paz e solidão, não quis sair do lado dele. Na verdade, ela aproximou-se mais; sentia seu rosto enrubescer, e seu peito queimar ao roçar o ombro no braço dele. Se Neji percebeu sua tentativa de aproximação, ela nunca ia saber, pois naquele momento, um dos guardas adentrou a sala de visitas e anunciou Kiba Inuzuka.
– Kiba? O que ele faz aqui...? Deixem-no entrar. – A rainha permitiu, e o filho do conde, sem sequer esperar que o guarda avisasse, apareceu. Ele adentrou a saleta com um sorriso gigante. Fez uma mesura pomposa, que arrancou uma risada encantadora da rainha; puxou as mãos da soberana e beijou-as, como se a venerasse.
– Minha belíssima majestade, como vai esta manhã?
– Confusa, na verdade. O que faz aqui tão cedo?! – Kiba deu os ombros.
– É o seu aniversário, oras! Então vim vê-la! – Hinata cerrou os olhos, desconfiada.
– Sabe muito bem que meu aniversário é amanhã, Kiba. – Ele lhe ofereceu um sorriso travesso.
– Oh, é mesmo?! Amanhã?! Então creio que terei que vir vê-la mais uma vez. – Ele estreitou os lábios e balançou a cabeça num falso lamentar. Hinata riu, não por achar aquilo particularmente engraçado, mas porque estava muito risonha naquela manhã.
– Infelizmente, a rainha não estará na Torre, amanhã. – A voz de Naruto soou da porta de entrada, e todos os olhares seguiram até o rei.
O Uzumaki sorriu à esposa, e seguiu diretamente a ela, sem perder tempo olhando para os demais. – Não estarei? – Ela arqueou as sobrancelhas com surpresa, tentando seu máximo para esconder a satisfação de vê-lo tão cedo.
– Não estará. – Ele afirmou; puxou as mãos da esposa e beijou-as carinhosamente, sem quebrar o contato visual.
– O baile não será na Torre? – Kiba questionou à Hinata, mas foi Naruto quem respondeu:
– Não. Não teremos um baile este ano. – Hina estreitou os olhos, desconfiada, e Naruto tornou a sorrir.
– Sem baile? Mas ela é a rainha! Não, ainda que não fosse... Isso é absurdo! Toda mulher de boa família merece, no mínimo, um baile de aniversário!
– Senhor Inuzuka, estou abismado! – Naruto exclamou visivelmente irritado. Os olhos azuis focaram-se nos castanhos do rival. – Abismado com sua falta de senso! Por que diabo eu escutaria a opinião sobre o que fazer por minha esposa de um homem que sequer é casado? – O rosto de Kiba ficou vermelho.
– Deveria escutar a opinião de alguém que... Conhece sua esposa, há muito mais do que você. – Naruto arqueou uma das sobrancelhas, e um sorriso maldoso e sugestivo nasceu em seus lábios.
– Mas não tanto quanto eu. – Garantiu.
Kiba o odiou por ver o rosto de Hinata avermelhar-se, o odiou por oferecer a esposa um sorriso encantado, ao notá-la corada e o odiou ainda mais, quando se aproximou dela, tão descaradamente, e roubou-lhe um beijo na frente de todos.
– N- Naruto! – Ela exclamou com censura, mas a vergonha dela pareceu diverti-lo. Percebendo isso, Hinata suspirou.
Ela ajeitou os cabelos, um pouco nervosa, mas alheia aos sentimentos obscuros dos demais homens presentes naquela sala. Tornou a sorrir para o amigo de longa data, um pouco constrangida, mas sem menção de compreender sua dor. – Eu fico grata pela consideração em vir visitar-me, Kiba. – Ela foi sincera.
– Sim, sim. Ficamos muito felizes por lembrar-se do aniversário da rainha. É surpreendente! – A ironia na voz do rei foi quase cruel, mas Kiba não se importou.
– Gostaria de vê-la no seu aniversário, Hinata. – Ele apelou à antiga Hyuuga. – Faz quase dez anos que estamos juntos... – Naruto não gostou do sorriso triste dela.
– De manhã, eu posso...
– De manhã, estará ocupada. – O Uzumaki garantiu.
– Então à noite...
– À noite, estará mais ocupada ainda. – Ele deu um sorriso maldoso à esposa, mas ao invés de corar, Hinata se incomodou.
Por que ele estava fazendo aquilo?!
– Não é possível que eu passe o dia inteiro ocupada. – Murmurou revoltosa. Naruto deu os ombros.
– Eu posso dar um jeito. – Disse simplesmente; Hinata abriu a boca para retrucar, mas lembrou-se que eles não estavam sozinhos.
Então, respirou fundo; olhou para o amigo, ofereceu-lhe um sorriso com falsa tristeza e disse: — Então, acho que teremos que passar esta manhã juntos, Kiba.
Naruto enrijeceu, e ela adorou isso.
– Já que vou estar ocupada amanhã, tenho que aproveitar os meus momentos livres hoje. Não posso negligenciar um amigo tão precioso.
– Estou certo de que ele sobreviveria. – Naruto retrucou, incomodado.
– Não tenho dúvidas disso, mas... – Hinata se calou quando Sasuke surgiu repentinamente. Ele apenas olhou para o rei, um olhar sugestivo, depois fez uma mesura rápida, disse-lhes “bom dia” e saiu da sala. Naruto conteve a vontade de praguejar.
– Acho que devo ir... – Ele murmurou a contragosto, e sentiu o estômago revirar, quando viu os olhos tristes da esposa. Ele riu; beijou-lhe o rosto e sussurrou apenas para ela ouvir: — Não estava irritada?
Hinata enrubesceu, desviou o olhar e preferiu não respondê-lo.
– Até mais, querida. – Naruto beijou a cabeleira azul antes de se afastar; despediu-se dos outros com um aceno e saiu da sala de visitas da esposa.
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Naruto rodeou os corredores da Torre por mais vezes do que considerava necessário, apenas por segurança, antes de entrar em uma sala de brinquedos na ala infantil.
Sinceramente, achou muito engraçado encontrar Sasuke e Shikamaru ali: o primeiro, brincando com a sorridente sobrinha, e o segundo, ajudando o pequeno Asuma a montar algo com um dos brinquedos. – As pessoas falam que é hora de eu ser pai, mas olhando para vocês agora... – Ele balançou a cabeça em negação. – A ideia parece sinistra. – Sasuke estreitou os olhos, mas Shikamaru sorriu.
O conselheiro pôs o menininho sobre a perna esquerda. – Bem, foi você quem nos chamou aqui. Pensamos que seria mais convincente aparecermos com crianças. – Naruto anuiu. – Kurenai está ocupada repassando suas anotações para Jiraya, então não desconfiou quando fui buscar o Asuma para brincar. – Sasuke suspirou longamente.
– No meu caso, Sakura e Itachi estão ocupados com Kasumi. Hinata está ocupada com a princesa, mas ainda assim, todos estranharam quando pedi ficar com Akane. – Ele corou um pouco. – Isso vai render uma cota de piadas para meu irmão, então espero que seja um assunto importante, soberano. – Shikamaru olhou surpreso para Sasuke, ao notar a ironia usada; estava abismado com a falta de decoro de um reles guarda para com um rei.
– Por Deus, é importante. Ou eu jamais deixaria minha esposa com aquele cachorro-abutre. – Sasuke sorriu de canto, divertido com a expressão revoltosa do melhor amigo.
– Cachorro abutre? – Shika estreitou as sobrancelhas, confuso.
– Não tem importância. – Sasuke se apressou em cortar o assunto. – Naruto, devo dizer que estou bastante incomodado com o fato de ter excluído meu irmão dessa reunião. – O loiro suspirou.
– Eu sinto muito por isso, mas sejamos sensatos, Sasuke... – Estreitou os lábios. – Itachi está em uma situação bastante delicada sem as minhas suposições. – Ele virou-se para Shikamaru. – Eu lembro vagamente de que, quando os conselheiros morreram, um boato rondou a Torre... De que o trabalho tinha sido perfeito demais para alguém de fora realizar. – Shika anuiu.
– Essa foi uma das premissas para inocentar os Sunas.
– Você esteve na cena do crime, certo? No quarto dos conselheiros. – O Nara anuiu. – E conhece bem as técnicas aprendidas no exército.
– Sim, majestade...
– Encontrou alguma semelhança? – Por um instante, o conselheiro não pôde compreender.
–... Está suspeitando de alguém do exército? – Ele questionou num fio de voz, mas Naruto o tranqüilizou quando negou.
– Pelo menos ninguém do exército atual... – E olhou para Sasuke, que enfim pôde compreender o rumo da conversa.
– Você acha que...?
– Como Itachi mesmo disse, aquele homem tem tudo para querer se vingar do alto escalão. Os conselheiros ainda estavam vivos, na época de Rin Nohara. Devem ter tido uma opinião forte na hora da decisão.
– Rin Nohara...? Conselheiros? De que estão falando?!
– O tal Tobi, nós achamos que possa ser Obito Uchiha. – Naruto explicou. – Segundo fontes de Itachi, aquele homem foi usado como bode expiatório no caso Nohara. – Shikamaru estreitou as sobrancelhas, surpreso.
– Um Uchiha?! – Naruto suspirou.
– Eu tive a mesma reação. Mas não temos tempo para esse tipo de explicação agora, e tenho certeza que, depois que pesquisar um pouco, vai entender muito mais do que eu e Sasuke juntos. Basicamente, ele foi renegado e, portanto, já que não era mais um Uchiha, foi uma vítima aceitável. – Revirou os olhos azuis enquanto dizia. – De qualquer forma... Shikamaru, você acha que um soldado do Fogo poderia fazer aquilo?
– A minha primeira impressão foi que só um soldado do Fogo poderia fazer aquilo. – Shika confessou. – Um soldado de Elite. Mas Orochimaru também era da elite do exército, então achei plausível suspeitar dele... – O conselheiro suspirou.
Aquele caso não devia estar encerrado? Era realmente muito problemático ter que gastar energias nele mais uma vez. – Parando para pensar, acho que apenas um elite não seria capaz daquele estrago com tanto pouco tempo. Pensar que um Uchiha realizou a chacina faz muito mais sentido. – Ele teve que admitir.
Sasuke não soube se devia sentia-se lisonjeado ou ofendido com aquela insinuação.
– Até hoje não identificamos aqueles dois, que entraram na coroação como representante do país dos Ventos. Se conseguirmos associá-los à Akatsuki...
– Pegaríamos os safados. – Sasuke completou, compreendendo os pensamentos do amigo. Naruto sorriu, e anuiu.
– Temos que ser cautelosos, no entanto. – Shikamaru murmurou pensativo. – Se está entre nós três, deve ficar somente entre nós três. Não podemos levantar suspeitas... A Akatsuki é uma organização de mercenários profissionais. Ao se sentirem minimamente acuados... – Naruto anuiu.
– Eu sei. E é por isso os chamei aqui... Sasuke, eu gostaria que você continuasse observando a princesa Karin de perto. Hinata disse que não acredita que ela faça parte da akatsuki, mas talvez tenha sido enganada... – Ele suspirou longamente. – Quero que fique atento às ações dela. Além disso, quanto mais próximo está de Karin, mais próximo de Nagato fica. – Sasuke anuiu. – E Shikamaru, você pode conseguir informações privilegiadas sem levantar suspeitas. Quero que comece procurando relatórios do caso Nohara. – Shikamaru concordou, e então tornou a suspirar.
– Sei que é problemático, mas Sasuke, eu acho que deveria tirar sua esposa da Torre o quanto antes. – Ele comentou repentinamente, surpreendendo os dois outros. – Ela é a única testemunha efetiva viva da invasão. Pode ter ouvido alguma coisa. Se os tais Akatsuki suspeitarem de algo... – O Uchiha empalideceu. – Também acho que seria melhor aconselhar Itachi a tirar a esposa do palácio. Se as coisas ficarem sérias...
– Não. – Naruto foi firme ao negar. – Kasumi fica.
Afinal, se tinha alguma maneira de aquele vingador se sensibilizar, certamente o fato de estar diante da filha. E, como rei, ele definitivamente faria de tudo para deixar aquele homem quieto.
~
Hinata passou a manhã inteira com Hanabi e Kiba; a tarde inteira com a princesa e Sasuke, e parte da sua noite com Kasumi e Sakura.
A manhã passou-se muito lentamente, depois da visita do marido; a tarde foi exaustiva e a noite, embora tranqüilizadora – uma vez que Kasumi começava a demonstrar melhoras efetivas – havia sido tediosa. Não devia haver, no mundo, coisa mais tediosa do que ficar sentada num sofá, perto do leito de uma doente, vendo uma médica cuidá-la...
Ela balançou a cabeça para afastar os pensamentos maldosos.
Não. Não era assim que ela se sentia! Em geral, gostava bastante daquelas companhias, e nunca, nos quase dez anos em que conhecia Kasumi, sentiu-se entediada em sua companhia, ainda que ela estivesse acamada. Mas Hinata estava muito agitada naquele dia.
Naruto tinha passado o tempo inteiro ocupado, fazendo sabe-se lá o quê, com só Deus sabe quem, e por quê. Graças a isso, nem almoçou, nem jantou ao lado da esposa.
Hinata estava colocando suas últimas esperanças na noite; rezava para vê-lo no quarto, esperando-a, mas suas sentiu-se uma estúpida quando ele não apareceu.
A rainha tinha tido um dia longo, e uma noite curta; então, ainda que estivesse decidida a esperá-lo acordada, bastou deitar a cabeça no travesseiro para adormecer, e não conseguiu vê-lo chegar.
Sua noite passou num piscar de olhos; ela não tinha sonhado, nem acordado durante a madrugada inteira, e de manhã, quando despertou, a primeira coisa a ver foi a imensidão azul dos olhos do homem que amava.
Naruto não só estava muito acordado, como bastante disposto; parecia estar desperto há horas. – Bom dia, majestade. – Ele cumprimentou-a com um beijo demorado. – Fico feliz que tenha acordado. Estava começando a ficar preocupado.
– Preocupado? – Ela estreitou os olhos, confusa.
– Passou a noite tão quieta que eu pensei que estivesse morta. – Ela riu. – Não foi engraçado. – Ele garantiu, estreitando uma das sobrancelhas.
– Sinto muito... – Ela se sentou com um pouco de dificuldade, bocejou longamente e ajeitou os cabelos desalinhados. – Que horas são?
– Tarde. – Naruto se levantou, e ela notou que já estava vestido. – Muito tarde para fazermos o que eu queria fazer essa manhã. – Ele lhe estendeu a mão, e ofereceu um sorriso maroto que fê-la enrubescer. – Agora só teremos tempo para o desjejum, antes de seguir para o nosso destino.
– Oh, é verdade... – Hinata aceitou a mão dele, e levantou-se preguiçosamente, bocejando mais uma vez ao fazê-lo. – O misterioso destino de aniversário...
– Ontem eu passei o dia inteiro planejando isso, então se sinta grata. – Ela riu mais uma vez, e ele sorriu por isso. – Vamos, princesa... O seu dia vai começar.
~
Sasuke era um bom marido. Atencioso, gentil e, às vezes, até carinhoso.
Mas quando convidou a esposa a um passeio a cavalo naquela manhã, e amarrou-lhe uma faixa sobre os olhos, prometendo uma grande surpresa, Sakura realmente surpreendeu-se.
Eles seguiram no garanhão negro que pertencia à Sasuke desde que entrara na guarda real por ansiosos trinta e cinco minutos. – Espere um segundo. – O Uchiha falou-lhe quando alcançaram o destino. Sakura soltou-o, sentiu-o descer e enrubesceu quando as mãos fortes seguraram sua cintura para descê-la do cavalo.
– Eu posso tirar isso? Começo a ficar agonizada. – Ela murmurou tímida, e ouviu Sasuke rir.
– Não, ainda não. – Fê-la segurar seu braço. – É uma surpresa, afinal. – Sak franziu o cenho.
– Surpresa, não é? Aposto que vai me mostrar a casa. – Mais uma vez, ouviu-o rir. – Por favor, Sasuke-kun!
– Uma surpresa é uma surpresa. Não fique muito ansiosa, senhora Uchiha. – Ela fechou a cara, mas não tornou a insistir.
De fato, naquele momento, eles estavam em frente à residência que seria do casal de agora em diante: uma casa que o guarda considerava pequena – mas que só era pequena em sua concepção –, aconchegante e acolhedora. Sua estrutura lembrava um chalé, mas era grande demais para ser um; um jardim florido à entrada e estábulos ao fundo do terreno.
Sasuke havia pagado um bom preço naquela importante aquisição, e considerando que pouquíssimas reformas eram necessárias para que pudesse considerar o local a residência perfeita, graças ao aviso de Shikamaru no dia anterior, imaginou que fosse o mais sensato levar a esposa o quanto antes.
A equipe de criados já havia sido contratada, e estariam acomodados até o fim da tarde; Sasuke passou por uma dúzia deles enquanto guiava a esposa pelos largos corredores, pelas escadas e pelas portas dos quartos, sempre pedindo silencio com o olhar, e cumprimentando-os com um aceno.
– Sasuke-kun, isso é muito óbvio para você chamar de surpresa. – Sakura tornou a insistir. O Uchiha riu mais uma vez, parou em frente a uma porta, abriu-a e empurrou a esposa para dentro do quarto.
– Quanta impaciência, senhora Uchiha! Se for tão óbvio, devia ficar mais calma.
– Eu quero ver a casa. – Ela se explicou. – É muito frustrante não conhecer sua própria casa, sabia? – Ele roçou o nariz no dela, fazendo-a calar-se subitamente.
– Pronto. – Ele murmurou baixo, afastou-se um pouco e soltou a faixa do rosto da moça – Eu queria que esse fosse o primeiro cômodo a encontrar.
Sakura piscou cinco vezes antes de sua visão normalizar, e enrubesceu ao ver a expressão ansiosa do marido. Com a cabeça, ele apontou para um canto do cômodo.
Os olhos verdes seguiram imediatamente até o ponto indicado, e ela sentiu o estômago revirar ao enxergar o berço de madeira exageradamente grande. -... Eu pensei que manteríamos segredo... Até não poder mais... – Ela murmurou perturbada, enrubescida e inexplicavelmente constrangida.
Sentiu os braços do amado envolver-na. – E vamos. – Ele roçou o nariz no rosto dela, que sorriu timidamente, encantada com o móvel. – Era o meu berço. – Ele explicou. – Mamãe é muito cuidadosa com essas coisas... Akane usa o do meu irmão.
Sakura riu. – Julgando o fato de serem ricos, é um costume engraçado. – Sasuke deu os ombros. – Mas, a sua mãe... Ela não vai desconfiar...?
– Mamãe sabe de tudo. – Sasuke deu os ombros. – Ela sempre desconfia, e sempre está certa, mas não vai nos pôr contra a parede tão cedo, então não se preocupe.
– Mas ela...
– De qualquer forma, mamãe me deu isso. Disse para guardarmos para o primeiro filho. – Sakura sentiu o rosto queimar. – Mas não acho que ela pense que o bebê está a caminho. – A Uchiha suspirou longamente, estupidamente constrangida, e tornou a olhar para o móvel.
– É lindo... – Murmurou.
– Eu imaginei que fosse pensar isso. – Sasuke beijou-lhe o rosto. – E você vai poder decorar o quarto como quiser. Não. Vai poder decorar a casa como quiser... Gaste quanto puder querida! – Os olhos verdes reviraram timidamente divertidos. – E, aproveitando que estamos aqui, vou levá-la até o nosso quarto. É maior, e eu pretendo comprar um berço para lá também...
– Sasuke-kun, o que é isso? – Ele calou-se, olhou-a de canto e notou que o fitava com olhos desconfiados. Divertidos, mas desconfiados. – A casa ainda precisa de reforma. – Ela apontou para uma parede com rachaduras. – Por que me trazer agora?
– Oh, são apenas detalhes. E não é a dona da casa que deve cuidar desse tipo de coisa? – Ela estreitou os lábios, completamente desacreditada. – Vamos, meu amor. Não desconfie do seu querido esposo.
Sakura cruzou os braços, e ficou séria. – Você quer me tirar da Torre? – Ele sentiu o estômago revirar. -... Por causa da princesa...?
De certo modo, também era por causa da princesa. Sasuke estava ciente de que Sakura não se agradava com o fato de ele estar tão próximo de uma mulher que evidentemente lhe demonstrava interesse. Especialmente porque Fugaku mostrava-se muito agradado do interesse dela.
Então, ele não queria expor a esposa grávida a uma situação que considerasse minimamente humilhante.
Por tanto, de certa forma, também era “por aquela mulher”. No entanto, o que ele disse à Sakura foi:
– Não a quero próxima de mercenários. – O que também não era mentira. – Eu devo observá-los, são as ordens do rei, e não quero que se envolva. – Sakura suspirou longamente, descruzou os braços e aproximou-se do esposo. – Eu a quero segura...
Sasuke fechou os olhos ao sentir as mãos dela alisarem seu rosto. – O melhor lugar para mim é perto de você, Sasuke-kun... – Ela encostou a testa na dele.
– Não, não agora... – Sasuke fitou-a, e sentiu o peito queimar ao enxergar os acalentadores orbes verdes fixos ao seu rosto. – Eu não a quero perto daquelas pessoas... Nem do tal Tobi, nem do tal Nagato... Por favor, compreenda.
Sakura suspirou longamente, mas por fim assentiu. De que adiantava discutir, se era ele quem decidiria, no final das contas?
– Obrigado... – Ele alisou suas faces, e beijou-a docemente. – Agora, senhora Uchiha... Acho que devíamos conhecer o nosso quarto...
~
Assim como em todas as manhãs desde que chegara à Torre, Karin, após a diária visita matinal à enfermaria, seguiu para a sala de visitas da rainha.
Ela havia chegado cedo, mas Naruto e Hinata já estavam sentados à mesa, comendo seu desjejum. – Oh, desculpe! – A princesa exclamou ao vê-los, constrangida, temendo tê-los interrompido.
Mas nenhum deles pareceu insatisfeito com sua presença. – Não se preocupe com isso, alteza. Ainda é cedo. – A rainha sorriu-lhe gentilmente.
Naruto se levantou ao entender que aquela garota devia ser a filha de Nagato, e foi quase instantaneamente copiado pela esposa. – Acredito que ainda não se conheçam... – Karin anuiu. – Este é sua majestade, o rei Naruto Uzumaki. – Apontou para o marido enquanto dizia.
O rei, educado, baixou a fronte em cumprimento à moça, que rapidamente providenciou uma mesura desajeitada. – Esta é a princesa Karin, filha de Nagato.
– É uma honra conhecê-lo, majestade! – Karin soltou, exaltada e envergonhada.
Naruto sorriu-lhe, sinceramente divertido com tanta pompa mal feita; aproximou-se da prima e beijou-lhe a mão, gentil. – É um prazer conhecê-la, Karin. Ouvi muito a seu respeito, durante a viagem. – Hinata sabia que era tolice incomodar-se com aquilo, mas não pôde evitar.
Ela segurou as mãos, baixou os olhos e fitou o carpete, constrangida por seu ciúme infantil. – A rainha também falou muito ao seu respeito, majestade. Sasuke... – Ela pigarreou. – O senhor Uchiha também. – Naruto arqueou uma sobrancelha ao perceber o rosto da moça avermelhar-se pela menção ao amigo, mas preferiu não comentar; afastou-se e fez menção para a esposa sentar-se.
– É verdade. Esqueci-me que toma o desjejum com a rainha, perdoe-me por isso. – A ruiva corou, e negou com a cabeça.
– Não há com que se preocupar, majestade. – Ela garantiu, constrangida.
– Oh, não. É claro que vou me preocupar! – Naruto exclamou. – Vamos, sente-se. – Ele puxou uma cadeira para ela, que imediatamente o obedeceu. – Hoje é o aniversário de Hinata, e eu tenho planos para o dia, então acordamos cedo.
– Aniversário...? Oh, parabéns, majestade! – Karin segurou suas mãos; sorria sinceramente. – Mas... Planos? – Ela lançou um olhar interrogativo à Hinata, que deu os ombros.
– Ao que parece, é um destino misterioso. – Ela murmurou com falsa indiferença, e observou o marido sentar-se com um sorriso encantadoramente satisfeito.
Karin não pôde deixar de sorrir. Eles pareciam tão apaixonados! E Hinata estava tão feliz, se comparada aos outros dias...
– Por que não nos acompanha, alteza? – Naruto sugeriu de repente, e a ruiva mais uma vez sentiu o rosto queimar graças à ansiedade. – Será um dia cansativo, não vou mentir. Mas pelo que Hinata me disse, você parece ter o sangue Uzumaki em suas veias, e por isso é muito agitada. – Olhou para a esposa como se a provocasse.
– Não diga coisas estranhas. – A rainha pediu, constrangida.
– De qualquer forma, — o rei tornou sua atenção à prima. – O que acha? Aposto que vai gostar. – Karin serviu-se com um pedaço modesto de pão.
– Sinto que estou dando um tiro no escuro ao dar minha resposta sem saber de seus planos, majestade, mas... – Deu os ombros. – Por que não?
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