The King
33 Capítulo XXXIII – O que poderia ser.
Notas iniciais
Capítulo XXXIII – O que poderia ser.
Os Nohara não eram conhecidos por sua importância, mas por sua respeitabilidade.
Assim como seus ascendentes, o senhor Nohara – o único Nohara nascido de sua geração – era o cobrador de impostos da cidade; um homem educado, bonito e culto. Tinha qualidades impecáveis, e inegáveis.
A senhora Nohara tinha um sobrenome pouco conhecido, pertencia a uma das poucas famílias de “novos ricos” da época de guerras. Era bela, sorridente e gentil; a última de cinco irmãos, e a terceira garota. Seu dote não foi muito alto, mas seu casamento, feliz.
Os últimos Nohara tinham tido apenas uma filha, nascida de um parto tão complicado que fez a senhora Nohara perder quaisquer possibilidades de gerar outra criança, mas seu marido não se importou.
Eles cuidaram de sua menina como se fosse parte de sua alma.
Para eles, Rin Nohara era a coisa mais importante do mundo.
A garota Nohara cresceu na mansão de sua família, uma residência grande o suficiente para ser sustentada com as condições financeiras do pai, num canto afastado de Konoha.
A mansão principal dos Uchihas era a única residência – ocupada – razoavelmente próxima à dos Nohara, portanto Obito e Mikoto Uchiha eram os mais próximos de “amigos de infância” que a filha única do cobrador de impostos poderia ter tido.
Quando tinha dez anos, Kakashi Hatake tornou-se órfão. A senhora Nohara era a última parenta de sangue viva do garotinho, e ele o dela. Como não tinham – e nem poderiam ter – mais filhos, o senhor Nohara não se importou em tê-lo como tutelado.
Quanto mais as crianças cresciam, mais forte se tornavam os desejos dos pais, quanto mais o tempo passava, mais claros ficavam os seus planos em aproximá-los. E juntamente com as intenções dos pais, talvez até um tanto influenciada por eles, mais cresciam os sentimentos da mocinha.
Quando tinham treze anos, a situação era a seguinte: Rin era apaixonada por Kakashi, que assim como Obito, também a amava. Mas ainda que seus sentimentos fossem verdadeiros, Kakashi Hatake não pensava em uma união tão cedo; estava ocupado demais tentando orgulhar o nome de seu falecido pai no exercito.
Kakashi era genial, e logo arrumou um jeito de ir a batalhas, ao contrário de Obito, a vergonha da família Uchiha.
Embora um bom soldado, ele nunca era bom o suficiente para o pai permiti-lo viajar com o exército.
Mas isso não foi de todo ruim.
Rin Nohara debutou em sua décima quarta primavera, e foi na época de bailes que seu melhor amigo tornou-se interessante aos seus olhos.
Diferente de Kakashi, Obito tinha tempo, disposição e muito carinho para dar.
Ele sempre estava nos bailes; sempre exigia sua primeira dança; sempre se oferecia para acompanhá-la – ao lado de sua mãe – até a casa que haviam alugado mais ao centro da cidade imperial. Ele sempre era atencioso, sempre era cuidadoso e tentava seu máximo para ser prudente.
Lia seus poemas, e os elogiava; lia os livros indicados, e a indicava outros; posava para suas pinturas, e fazia rabiscos, dizendo ser ela.
Estava sempre ao seu lado.
E foi assim, estando ao seu lado, que os sentimentos dela começaram aflorar, ocasionando em um incidente inesperado, numa noite inesperada.
Era o aniversário de vinte e um anos da senhora Mikoto Uchiha, e a irmã de Obito havia feito questão de organizar um grande baile de máscaras com o único objetivo de deixar o pequeno filho feliz. Embora não se falassem há muito, Rin continuava sendo uma amiga de infância, e foi naturalmente convidada.
Foi naquele evento que Obito furtivamente convidou-a para uma excitante aventura: ele a levaria até o terraço dos Uchiha, para que pudessem ver as estrelas. Iriam sozinhos, e tentariam fazer com que a fuga não fosse percebida.
Aquela foi a primeira vez que Rin não fez questão de ficar o tempo inteiro ao lado dos pais ou de Kakashi, mas não seria a última.
Quando alcançaram o terraço, sozinhos, os corações de ambos batiam com uma força surpreendente.
Obito a convidou a se sentar, mas ela recusou; eles então se aproximaram dos balaústres medianos, e ali, o Uchiha começou a apresentar-lhe as constelações.
Rin não se interessava muito por estrelas, mas ao estar ali, ao lado dele, enquanto o rapaz Uchiha apontava para cada uma delas, apresentando-as com propriedade, não pôde deixar de reparar em seu doce sorriso.
Naquele momento, os olhos de Obito estavam serenos e felizes como ela nunca tinha visto antes. O par de orbes negros brilhava, e mais parecia um calmo céu noturno.
Era espetacularmente encantador.
Obito era um bom rapaz. Ele a havia convidado com a mais inocente das intenções, simplesmente porque queria ficar perto da amada. Mas ao vê-la paralisada, olhando fixamente para seu rosto, tão adorável, com os lábios entreabertos, como se estivesse surpresa consigo mesma, ele simplesmente não pôde se conter: segurou a ponta de seu queixo, e timidamente o ergueu; ele pressionou seus lábios com uma leveza apaixonada, e quando a viu fechar os olhos, enfim a beijou.
O primeiro de muitos beijos.
Embora no começo se sentisse tímida e hesitante, Rin logo se deu por vencida diante dos adoráveis sorrisos do mais alegre dos Uchiha. Ele estava claramente feliz por ser visto como um novo pretendente, e não estava disposto a permitir que ela simplesmente fingisse que nada havia acontecido.
Embora suas visitas não fossem estranhas aos Nohara, elas se tornaram ainda mais frequentes.
Rin e Obito se viam quase diariamente, e o comportamento do Uchiha nos bailes logo se tornou motivo para falatório.
Todos comentavam sobre a possibilidade da união do senhor Uchiha e da senhorita Nohara, e diziam em quão lamentável e desvantajosa seria essa união para os Uchiha.
Não tardou até que Madara decidisse conversar com o senhor Nohara.
Nenhum dos filhos jamais teve certeza do conteúdo daquela conversa, mas dada a reação do senhor Nohara após o acontecimento, estava claro que o duque desaprovava qualquer tipo de aproximação entre os jovens. A partir de então, Obito fora proibido de visitar a amada.
Infelizmente para os pais de ambos, o proibido parece ser mais atraente aos jovens do que o correto, e quanto mais se viam obrigados a se afastar, mais fortes se tornavam os sentimentos que os uniam.
Para ganhar a aprovação do pai, Obito esforçou-se como nunca, e logo seu talento fora de fato reconhecido para o exército; ele tornou-se um assassino muito eficiente. Mas não importava o quanto se esforçasse, o quanto subisse na carreira militar, o quanto fosse reconhecido, nada parecia ser o suficiente.
Quando completara dezesseis anos – Rin ainda estava com quinze – as intenções do duque ficaram realmente claras: ele queria casá-lo com Shizune – que como qualquer mocinha solteira que acaba de debutar, estava ansiosa pela atenção do talentoso herdeiro dos Uchiha – a atual protegida da princesa Tsunade. Obviamente, Madara queria influência dentro da realeza, mas Obito não estava disposto a um compromisso que não fosse com a pessoa que amava.
Ter ciência das intenções do duque Uchiha apavorou o casal, e o medo, a paixão, o desespero e a carência levaram-nos ao ápice de sua irresponsabilidade.
Foi no entardecer, enquanto Rin e Obito estavam escondidos entre os arbustos, à sombra da árvore favorita da senhorita Nohara, sobre uma toalha de piquenique, que Kasumi Uchiha fora concebida.
Poucos meses depois, após muitíssimos acontecimentos, os Nohara descobririam sobre a gravidez, e diante as recusas da filha de tirar a criança, trancaram-na na mansão afastada e anunciaram a todos na cidade que logo surgiria um novo Nohara, filho dos patronos da família.
A notícia que rondava Konoha era a de que a senhora Nohara estava grávida e doente. Não podia receber visitas, além das do médico – que era, ironicamente, Shizune, por pedido do próprio Obito. Todos pensavam que o único motivo para que Rin Nohara, a boa noiva de Kakashi Hatake, não aparecesse mais na cidade era porque estava cuidando da mãe.
Obito só revelou a situação de Rin à sua família quando as insinuações de Madara sobre o casamento com Shizune (pois Shizune e Obito estavam naturalmente mais próximos, graças à gravidez da Nohara) ficaram insustentáveis. Por recusar-se a abandonar a amada, fora prontamente enxotado da Uchiha.
Independente de ser ou não herdeiro de um duque, Obito ainda tinha um posto admirável no exército: era o comandante da polícia militar. Mas mesmo assim, os Nohara não aceitaram uma união. Recusavam-se a casar Rin com qualquer um que não fosse Kakashi Hatake, ainda que o próprio Kakashi tivesse desistido efetivamente de qualquer relacionamento após ter conhecimento sobre a gravidez.
Diante à complicada situação imposta por ambas as suas famílias, planejar uma fuga foi inevitável.
Eles teriam ido imediatamente, mas por ser muito jovem, Obito sabia que tanto Rin quanto o bebê precisavam dos melhores cuidados possíveis, então tudo foi adiado. A senhorita Nohara mal tinha completado dezesseis anos quando deu a luz. O bebê havia nascido prematuro, fraco e doente, com sete meses, na segunda semana de janeiro.
Os avós batizaram-na de Kasumi Nohara, e a garotinha ficaria em segredo até que a filha única do casal perdesse a barriga pós-gravidez.
Obito soube da notícia por Shizune, que havia realizado o parto naquela mesma manhã. Ele e a amada sinceramente mal podiam esperar para fugir daquele lugar, para enfim ficarem juntos. Mal podiam esperar para se casar, tornarem-se um casal aos olhos de Deus. Queriam batizar a menininha como sua filha, e sabiam que viveriam felizes. Com ou sem dificuldades, eles estariam eternamente juntos.
Mas tudo deu errado.
Naquela tarde – como em muitas outras – Obito foi sondar a residência dos Nohara na esperança de uma brecha para a fuga. Uma brecha para, no mínimo, enxergar sua pequena menininha.
Mas ele se deparou com a visão do inferno ao encontrar a residência dos Nohara em chamas.
O cão da família latia desesperadamente, como se quisesse espantar as labaredas da casa, e Obito deparou-se com Shizune, que estava bestificada olhando para o desastre. Após exigir que ela chamasse ajuda, ele adentrou sem hesitação. Como poderia hesitar?! Sua família estava lá dentro!
A única coisa que lhe restava estava lá dentro.
Não demorou até encontrá-las: Rin estava com ela, protegendo-a, como ele imaginou que estaria. Para salvá-las, Obito sacrificou metade de seu corpo. Mas embora tivesse salvado a amada das chamas, não pôde salvá-la do profundo ferimento no peito.
Rin morrera em seus braços, após balbuciar poucas palavras.
“Cuide dela” foi sua última frase.
E, por Deus, ele faria isso mesmo que custasse sua vida.
Naquela noite, Obito seguiu atordoado até o único lugar em que podia imaginar ter algum tipo de ajuda: ele foi até Mikoto.
Embora não estivesse completamente ciente da situação, sua irmã pôde facilmente decifrar que um desastre havia acontecido, após ver a sobrinha e o irmão, feridos e sujos na porta de sua casa.
Fugaku não estava em casa, e pela primeira vez desde o início de seu casamento, ela deu graças aos céus por isso.
Mikoto não só abrigou-os, como mandou um servo de confiança procurar Shizune imediatamente.
A garota era apaixonada – completamente apaixonada – por Obito. Ela também havia cuidado de Rin durante sua gravidez, e graças a ela, Kasumi havia nascido; além disso, Shizune havia presenciado o horror do incêndio, então jamais ofereceria resistência para ajudar, diante àquela situação.
Ela tratou das feridas do amado, e cuidou de sua filha.
Na manhã seguinte, todos os empregados comentavam sobre o fato de que os Nohara haviam sido assassinados. Todos diziam que o principal suspeito era Obito, e comentavam que, de fato, devia ter sido ele.
Ele não esperou nem mais uma manhã para sumir da cidade com a filha. E desde então, as suspeitas de todos haviam sido “confirmadas”.
Porque, afinal de contas, quem cala, consente.
~
Kakashi e Obito deviam disputar desde o ventre.
Suas disputas eram as mais diversas possíveis: quem era o melhor da academia, quem era mais alto, quem conseguia o cargo mais importante, quem conseguia fazer mais dinheiro sozinho.
O Hatake havia vencido Obito em tudo, exceto em relação à Rin.
Embora no começo sempre ganhasse a atenção de garota – e sem muita dificuldade, diga-se de passagem – tudo se esvaiu quando ele decidiu dedicar-se mais à carreira militar do que a ela. De alguma forma, ele perdera seu afeto para Obito.
Obito e Kakashi nunca haviam se gostado, mas passaram a se odiar depois da morte da moça.
Obito o odiava por considerá-lo parcialmente culpado pelo incidente, o odiava por omitir verdades que poderiam fazer de sua vida mais fácil. E Kakashi o odiava, especialmente, por ter roubado o amor de Rin, por tê-la deflorado, por tê-la desgraçado.
Mas naquele momento, o ódio de ambos estava em seu ápice. – O que você pensa que está fazendo, torturando sua filha daquela maneira?! – Kakashi rugiu para Obito, que estreitou os olhos. – Como você pôde chegar tão baixo, a ponto de renegar sua própria filha? A ponto de fazê-la sofrer?! Como você chegou tão baixo, Obito?! – E espancou suas cicatrizes.
Embora doesse como um inferno, o Uchiha resistiu ao grito; tentou desvencilhar-se, mas a verdade era que ele estava cansado, cansado e triste, e Kakashi estava furioso. O Hatake o puxou pela gola da camisa, e jogou-o sobre o chão; começou a chutá-lo sem piedade, e Obito se encolheu. – Como você pôde fazer isso com a Rin?! Você devia cuidar dela, não fazê-la sofrer! – Embora os chutes fossem dolorosos, nada era pior do que aquelas palavras.
E nada era pior do que o fato de aquelas palavras estarem saindo da boca do maldito que Obito mais odiava no universo. – De nós dois, você era o único... – Kakashi apertou os punhos. – O único que ainda tinha uma chance, um motivo para viver. O único que ainda tinha um pedaço dela com você! Então, como você pôde-...?! – Obito gargalhou em alto e bom som; acertou a panturrilha de Kakashi com o cotovelo, com força o bastante para fazer o outro cair sentado ao chão; ajoelhou-se e acertou a cabeça na do velho rival.
– Chance?! – Ele gritou. – Que chance eu tinha?! Diga-me! Diga-me, como eu poderia criar uma criança sendo renegado, procurado por todos no país do Fogo e aliados! O pedaço da Rin, eu confiei a você! – Ele agarrou a gola do Hatake com os olhos cintilando em ódio. – Confiei minha filha a você!
– Tudo o que você fez foi ser egoísta! – O soldado gritou, furioso. – Diga-me, Obito: você criaria uma filha minha e da Rin? Diga como faria isso, porque eu não soube como fazer! – Ele cerrou os dentes. – Toda vez que eu olhava para aquela menina, via mais de você, do que dela... Então como eu poderia amá-la?! – Ele riu. – Eu não conseguia nem olhar para aquela bastarda... Mal podia suportá-la! Foi um peso tirado das minhas costas, quando sua irmã se ofereceu para-... – Foi calado por um soco forte em seus lábios.
– É você, o bastardo! – O moreno gritou. – Eu sempre, sempre soube que não passava de um maldito, Kakashi Hatake. O único motivo de eu cogitar confiá-la a você foi porque... Foi porque... – Ele cerrou os olhos. – Porque Rin confiaria! – Kakashi riu.
– Rin não era egoísta, como você! Ela se esforçaria até a última gota de seu suor, e não precisaria vir até mim. Minha Rin jamais confiaria a filha a mim, porque sabia que fazê-lo me machucaria!... Mais que isso, Rin seria corajosa. Ela jamais entregaria a filha a qualquer um que fosse. Pelo motivo que fosse!
– Minha filha estava doente! – Obito gritou. – Eu nunca, jamais abriria mão da Kasumi, se não fosse por ela! – Sentiu seus olhos queimarem. – Mas minha filha estava doente demais para que eu fosse egoísta!
– Ela continua doente! Kasumi é uma criança doente, porque você e Rin foram irresponsáveis o bastante para gerá-la! E é por ela ser doente que eu estou aqui! – O Hatake acertou um soco na boca do estômago do rival, que se encolheu, e então o golpeou com a cabeça, quebrando seu nariz e fazendo-o cambalear. – E é porque ela é uma pobre criança doente, sem culpa, que eu estou aqui! Porque ainda que eu a deteste por ser tão parecida com você, ela ainda é a filha da Rin! Ainda que eu a odeie, não vou permitir que você, justo você, faça-a sofrer!
– E o que você quer que eu faça?! – O grito de Obito foi estridente. – Você quer que eu vá lá, diga que ela é a filha de um renegado, de um foragido?! Eu jamais faria isso. Não vou estragar o futuro da minha menina. Eu posso não ter sido duque, mas Kasumi será duquesa um dia, quando aquele maldito Fugaku ir ficar com meu pai, no inferno! Eu não me importo em ser cruel, desde que seja para o bem dela!
– Kasumi passou a vida inteira pensando em você... – Kakashi lhe revelou entre dentes. – Ela passou a vida inteira sofrendo por estar longe de você, e ainda assim... – Obito cerrou os olhos.
– Se estivesse no meu lugar, o que você faria? – E de repente, o outro não sabia o que responder. – Se estivesse no meu lugar, você diria que é pai dela? A Rin morreu como uma pura noiva bondosa. Você mancharia o nome dela? Você estragaria o nome da Kasumi? – Kakashi trincou a mandíbula.
– Então, desde o começo, não devia tê-la levado...
– E que diferença faria? Se eu tivesse fugido sem ela, Kasumi ainda seria sua tutelada, e por ser a prova viva do amor que Rin sentiu por mim, você a odiaria. – Mais uma vez, Kakashi não pôde respondê-lo. – Mas você poderia ter dito a verdade... – Obito se sentou com dificuldade, e com as costas da mão, limpou o sangue que escorria do nariz quebrado. – No mínimo, poderia ter dito que eu e Rin nos amávamos, e que não tinha motivos para que eu fizesse aquilo. – Kakashi paralisou. – Se tivesse feito isso... Eu não teria fugido. Eu continuaria no exército, e criaria Kasumi como minha tutelada. Faria de minha filha uma dama, como Rin foi um dia... – Ele piscou rápido. – Se você não tivesse sido egoísta, nem eu nem a minha filha estaríamos na situação atual.
– Eu... Nunca... – Kakashi recuou, atordoado diante as palavras. Obito sorriu, mas estava furioso; o rancor em seus olhos era quase palpável.
– Você quis se vingar de mim... De mim, e da Rin, porque nos amamos, porque tivemos uma filha... Você quis se vingar. – O moreno apertou os punhos. – E por causa da sua vingança medíocre, a felicidade que eu poderia ter com minha filha não passa de “o que poderia ter sido”! Então não me chame de egoísta, Kakashi! Porque não há ninguém, neste mundo, que seja mais egoísta do que você, maldito! – O Hatake levantou-se, zonzo, e recuou. – Se a Rin estivesse viva, te amaldiçoaria. – Aquela era uma grande mentira. Rin podia ter deixado de amar Kakashi como homem, mas ainda o amava. Além disso, ela era boa demais para culpá-lo ou odiá-lo por qualquer coisa. Ainda assim, Obito deliciou-se por ver dor nos olhos escuros do rival, adorou vê-lo sofrer por ouvir suas palavras. – Se há algum egoísta... Se há algum bastardo... Se há alguém, de nós dois, de quem Rin se envergonha, saiba que esse alguém é você.
Kakashi não podia ouvir mais nenhuma palavra de rancor.
Ele não suportaria imaginar Rin Nohara viva o odiando. Então, deixou o quarto assim que seus sentidos permitiram, e correu, correu ensanguentado pelos corredores, sem rumo, perturbado.
Sempre soube que omitir os sentimentos de Rin por Obito era cruel, sempre soube que escondendo aquilo, estaria condenando o rival à eterna vida de fuga, mas nunca parou para pensar naquilo como vingança propriamente dita.
Ele nunca havia pensado naquilo como uma vingança para Rin.
Realmente queria se vingar dela? Talvez, inconscientemente, tivesse tido aquele pensamento. Talvez Obito estivesse certo, e fosse por isso que havia omitido aquela preciosa informação, que de fato facilitaria a vida do amado de sua amada, e da filha dela. Talvez nunca tivesse se aproximado de Kasumi por raiva dela, e não dele.
Afinal, Rin o tinha trocado por alguém inferior. Inferior em qualidade, cargo, e inteligência. Ela o tinha trocado, e isso o causava raiva e rancor.
– Hatake?! – Uma voz preocupada soou, mas ele não conseguiu pensar em nada para responder; apenas continuou andando, sem rumo.
Continuaria, se a mulher não o tivesse pegado pelo braço. – Senhor Hatake! – Ele tentou despertar, e vislumbrou o rosto preocupado de Kurenai Yuuhi.
– Eu estou bem... – Mentiu com a voz fraca. Kurenai franziu o cenho, duvidosa, e suspirou cansada.
– Está ensanguentado. – Lhe disse. – Venha, eu vou cuidar disso.
~
Mikoto ficou francamente surpresa, quando o filho a visitou tão pouco depois de ela deixar a Torre, mas Itachi parecia extremamente perturbado, então ela não o questionou; apenas permitiu que ele entrasse, convidou-o para um chá e levou-o até sua sala de visitas particular sem avisar à Fugaku sobre sua presença.
– O que o trouxe aqui? – Mikoto lhe perguntou enquanto servia o chá. Àquela altura, Itachi estava sentado à mesa, com um olhar distante, pensativo e um tanto hesitante. – Quer resolver as coisas com Kasumi? – Os olhos dele se estreitaram, e ela soube que a resposta era “não”. – Então...?
– Quero que ela fique aqui... Por um tempo... – O rapaz pareceu tão hesitante que Mikoto duvidou que aquela realmente fosse sua vontade.
A duquesa terminou de servir o chá; colocou um prato com biscoitos ao lado do filho e sentou-se em seu próprio lugar.
Bebericou de sua própria xícara, suspirou longamente e encarou o filho com seriedade. – É por causa daquele homem? – O conselheiro empalideceu.
–... Ela... Ela lhe disse... – Mas Mikoto negou antes que ele pudesse concluir. Itachi estreitou os olhos, encarou os biscoitos e trincou a mandíbula. – Kasumi fez algo estúpido, por causa daquele homem... Eu poderia perdoá-la, sabe? Poderia, se ela me explicasse, mas ela... – Ele suspirou. – Ela é teimosa demais. Não quer me dizer qualquer coisa, então a única coisa que posso imaginar é que está interessada... – Ele cerrou os olhos. – Ou então se sente atraída por aquele mercenário.
Mikoto sabia que Itachi estava sofrendo sinceramente com aquela dolorosa dúvida, e o fato de saber a verdade, e não poder contá-lo cortava-lhe o coração.
Itachi era um bom homem e, mais do que isso, era um homem fiel. Ela sabia disso, porque o ensinara a ser um homem fiel. E era pelo fato de estar ciente da fidelidade do filho para com o rei que sabia que não poderia confiar-lhe a verdade sobre Obito e Kasumi.
Imaginava que, ainda que ele aceitasse não dizer, guardar aquele segredo o sufocaria aos poucos. – Mamãe, se você sabe de alguma coisa... – O murmurar dolorido dele a fez suspirar longamente.
A duquesa pousou sua xícara sobre o pires; ergueu as mãos sobre a mesa e puxou a do filho gentilmente. – Meu querido filho... – Ela suspirou. – Meu amado e querido filho... Você deve saber que sua esposa o ama. – Ele sentiu o rosto enrubescer, e os olhos queimarem.
– Amar? – Ele riu, sem humor. – Como ela pode me amar, comportando-se daquela maneira? – Escondeu o rosto com a mão livre. – Aquela mulher é teimosa como uma mula... O que eu devo fazer? O que eu devo pensar, quando ela se comporta dessa maneira?
–... Querido, — Mikoto começou com muita hesitação. – Sei que... Sei que tem direitos sobre sua esposa; estou ciente de que ela deve ganhar sua confiança, mas... – Ela cerrou os olhos. – A verdade é que esse é um assunto muito mais delicado do que o seu casamento. – Itachi ergueu os olhos para a mãe, visivelmente confuso. – “Senhorita Nohara” ou “senhora Uchiha”... Para Kasumi, esses nomes não significam nada. Sua esposa é uma garotinha perdida e confusa... Ela está bambeando, há anos, em uma tênue linha. Ela não é uma selvagem, mas também não é uma dama.
– E o que esse maldito homem tem a ver com a confusão da minha esposa?! – A Uchiha pareceu hesitar ainda mais.
–... Para Kasumi... – Ela murmurou lentamente. – Esse homem é a resposta que ela procura para saber quem é. – Itachi levantou-se de súbito.
– E para quê ela quer uma resposta?! – Questionou com fúria. – Ela é uma Uchiha, a senhora Uchiha! Minha esposa, futura duquesa... – Ele estreitou os olhos. – A mãe dos meus filhos... – Apertou os punhos. – Eu dei meu nome, minha fortuna, todo o meu ser a essa mulher! Para quê ela precisa de respostas?! Eu não sou o bastante?! – Mikoto riu, e tornou a beber do chá.
– Jamais pensei que ouviria algo tão insensato e imaturo de você, meu filho. – Ela suspirou longamente. – Que egoísta da sua parte, querer que ela viva apenas por você, quando sua própria vida não se resume à ela. – Os olhos negros ergueram-se até os do mais jovem, frios e analíticos. Ele soube imediatamente que Mikoto estava irritada com sua atitude. – Se tudo o que você viveu até hoje fosse uma mentira, Itachi... Se você, de uma hora para outra, descobrisse que não é quem pensa que é, como reagiria?
–... É claro que eu não posso saber disso. – O conselheiro bufou. – Ela não pode simplesmente seguir em frente? Comigo... Com a nossa família...
– Como ela pode seguir em frente, se está perdida? – Itachi não respondeu. – Se você quer que ela fique algum tempo aqui, vou permitir. – A duquesa esclareceu. – Mas isso é realmente o que você quer? Ficar longe da sua esposa, dos seus filhos? Porque Akane, naturalmente, virá com a mãe.
– Ela é muito imprudente, mamãe. Eu simplesmente não sei como controlá-la, não sei como sustentar essa situação. Um casamento faz-se com confiança, e eu confio nela, mas...
– Confia mesmo? Pois eu acho que, se confiasse, não imaginaria esse tipo de coisa.
– Eu só não sei o que pensar!
– Pois então vou aconselhá-lo: não pense nada. Sua esposa o ama, você a ama, e isso é o que realmente importa.
– Mas ela-...
– Kasumi sempre faz coisas imprudentes. – Mikoto deu os ombros. – Na verdade, me admira a sua surpresa. – Itachi imaginou que, talvez, se ele contasse à mãe o tamanho da besteira feita, Mikoto não estaria tão do lado dela. Mas ele não queria falar. Não queria se envergonhar, muito menos difamar a esposa.
–... Mãe. – Ele ficou sério. – Por favor, diga-me quem é esse homem. – Pediu com firmeza. Mikoto olhou para a xícara, alisou a boca da porcelana e suspirou. Não parecia nem de longe disposta a falar sobre aquilo, e Itachi percebeu. – Pelo menos me fale o que esse homem é para a minha esposa!
–... Não é o que você está pensando. – Ela garantiu, e ergueu os olhos para fitá-lo. – Não é atração, nem desejo... Aquele homem é o único que pode dizer à sua esposa quem ela é de fato. E isso é tudo.
Itachi tornou a se sentar, um pouco cansado da discussão; ele serviu-se do chá – que não estava mais quente – e biscoitos, e antes de ir, pediu à mãe para que preparasse o seu antigo quarto para a esposa.
~
Hinata estava sentada no mesmo sofá, tomando o mesmo chá de sempre, na mesma sala em que passava todas as manhãs, ouvindo Hanabi tocar a mesma musica que treinava desde o começo da semana, mas ainda assim, ela se sentia estranha.
Não era pela falta de Kasumi, nem Kurenai. Não era pela falta das gracinhas do bebê Yuuhi, nem pela ausência da desafinada voz de Konohamaru Sarutobi – que sempre era obrigado, por Hanabi, a cantar alguma coisa.
Era algo muito além daquilo.
Ela se sentia... Vazia.
Isso era estranho, não? Se sentir vazia, quando na realidade deveria se sentir completa. Finalmente havia completado os seus objetivos, afinal.
Hinata Hyuuga havia passado meses tentando seduzir seu marido, tentando fazê-lo se apaixonar, meses tentando cumprir seu papel de esposa. Meses longos e trabalhosos, mas que lhe renderam uma noite mágica ao lado do homem que ela finalmente podia dizer que amava com convicção.
Ela havia finalmente tinha se tornado a rainha do país do Fogo, como sua família desejava e havia se tornado a mulher de Naruto, como ela desejava. Isso deveria deixá-la feliz, e até poderia estar, se o marido agora não estivesse a quilômetros de distância...
Ou se ele tivesse sussurrado ao menos uma vez que a amava, na noite anterior.
Hinata cerrou os olhos, escondeu o rosto e respirou fundo.
Não, ela não podia ser tão exigente. O fato de ele estar decidido a respeitá-la e aceitá-la como esposa já devia ser o suficiente.
Aquele era um casamento forçado, em uma vida forçada. Hinata sabia que Naruto a tinha carinho, e isso devia ser o suficiente. Devia, mas não era. Por algum motivo que ela simplesmente não conseguia compreender, ela queria ser amada por ele. Queria ser mais que uma cúmplice, mais que uma esposa... Queria ser a metade de sua alma, queria ser sua amada. – Vossa majestade, — A voz de alguém a despertou de seus devaneios, e Hinata imediatamente levantou-se.
Shikamaru, Neji e mais um guarda que ela desconhecia estavam ali; ela constrangeu-se por não tê-los notado entrar, e ainda mais por notar que eles estavam surpresos por flagrá-la em devaneios. – Desculpe majestade. – Shikamaru curvou a fronte respeitosamente. – Sei que deve estar ocupada com os preparativos da chegada da princesa. – Hinata sentiu o rosto esquentar, pois não havia pensado em absolutamente nada sobre os preparativos, mas tentou manter a postura. E foi só então, ao captar o olhar divertido do primo que pode notar as vestes de Neji.
Ele estava com seu uniforme do exército, e parecia extremamente feliz. – O rei deixou ordens explícitas sobre sua segurança... – Ela estava ciente disso. – Então vim lhe apresentar seu novo guarda. – Hina estreitou as sobrancelhas.
– Eu pensei que...
– Itachi vai ficar responsável por sua segurança, mas não podemos permitir que os outros pensem que conselheiros estão sendo explorados pelo rei. O senhor Hyuuga se dispôs com muita boa vontade, imaginei que ficaria feliz então, uma vez que Shino foi um dos escolhidos para acompanhar o rei, Neji será seu novo guarda oficial.
O sorriso de Hinata foi tão grande e sincero que Neji sentiu seu peito explodir com a felicidade de estar perto dela novamente. Desde que se tornara rainha, ele raramente a vira sorrir com tanta sinceridade. – Estou certo de que o rei não se incomodaria em colocar mais alguém responsável por sua segurança. – Shika adicionou com um sorriso um tanto divertido. Hinata riu, e anuiu.
– De fato. – Só de lembrar-se da conversa que haviam tido no dia anterior, ela sentia-se tremer de raiva, constrangimento e alegria. Era incrível como apenas uma lembrança dele conseguisse trazer tantas sensações contraditórias.
– Bem, Itachi está ocupado resolvendo alguns problemas com a Uchiha. Espero que não se importe, majestade. – Hina negou imediatamente. Ela compreendia muito bem que Itachi, como primogênito de sua família, como conselheiro de seu país, tinha muito mais a fazer do que cuidar de uma rainha que passava metade do seu dia sentada, pensando idiotamente no carinhoso marido que não a amava.
O pensamento fez seu peito doer, e em um segundo, e o sorriso doce desapareceu de seu rosto. Por sorte, naquele mesmo momento, Hanabi demonstrou a felicidade em ter o adorado primo mais uma vez ao seu lado, e ninguém pôde reparar na súbita mudança de humor da esposa do Fogo.
Definitivamente, ela tinha que aprender a querer menos.
Ser a rainha, ser a esposa e ser a cúmplice deveria ser o suficiente, e ela tinha que aceitar isso. Mesmo que as memórias dos beijos, dos toques e dos murmúrios dele naquela noite a fizessem ter sentimentos tão audaciosos, que sempre a faziam pensar em possibilidades improváveis de que ele, talvez, também pudesse amá-la.
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Era a hora do jantar quando Naruto, Nagato e Yahiko, acompanhados por dois soldados da guarda real e seguidos pela carruagem nobre chegaram à hospedaria combinada.
Ela era um casarão grande, mas modesto demais para hospedar um rei, longe de quaisquer suspeitas. Ficava razoavelmente distante de um vilarejo modesto do país do Fogo, mas tinha um número considerável de empregados.
Todos, inclusive a dona do estabelecimento, surpreenderam-se quando os repentinos clientes importantes se identificaram, mas mesmo com um bando de guardas rodeando o lugar, se mostraram bastante empenhados na missão de agradá-los. Ainda assim – talvez até mesmo pelo fato de eles se esforçarem tanto para agradá-los – nem Naruto, nem Nagato puderam sentir-se confortáveis.
Depois de alimentar-se ao lado do primo distante e o avô, o Uzumaki seguiu para o quarto o mais rápido possível, quando achou prudente e educado, com a desculpa de que gostaria de descansar depois da longa viagem.
Ele foi levado para o melhor quarto da casa, e foi-lhe oferecida a melhor e mais bela serva do lugar, uma mocinha jovem, que devia ter a mesma idade que Naruto.
O rei não tardou a entender o motivo de aquela ser a jovem escolhida.
Jiraya já tinha feito isso antes, uma vez há alguns anos, quando o obrigou a viajar até uma cidade próxima ao vilarejo em que o rapaz havia crescido. Naquela viagem, o avô havia conseguido um jeito de alegrar o neto ao proporcionar o primeiro contato com uma mulher – que era, a propósito, consideravelmente mais velha que ele, com quatorze anos na época.
Mas ganhar uma prostituta madura aos quatorze anos é diferente de ganhar uma serva jovem e tímida, aos dezesseis. Aquela garota não estava ali para aquele tipo de trabalho, e parecia muito incomodada com a situação. – Eu devo ajudá-lo a se banhar, majestade. – Ela informou após vê-lo terminar o chá. Estava cabisbaixa e envergonhada.
– Não será necessário. – O rei garantiu antes de se levantar; tentou seu máximo para sorrir de maneira gentil, mas infelizmente, o sorriso dele pareceu ser interpretado de maneira errada pela garota, que se encolheu.
A reação da menina o incomodou realmente. – Algum problema-....
– Desculpe, majestade. Sou inexperiente sobre esse tipo de coisa! – A garota se curvou, parecia amedrontada. – Faz pouco tempo que trabalho aqui, então peço que me perdoe, se não for de seu agrado.
– Espere, espere. – Ele riu, mas estava irritado. Ela estava tão acuada quanto um bichinho de estimação com medo do dono.
– O senhor conselheiro me escolheu dentre tantas moças... E por isso me sinto lisonjeada, mas...
– Por favor, senhorita. – Ele suspirou. – Esse tipo de coisa não está nos meus planos para esta noite. – Esclareceu, sem esconder a irritação. A moça ergueu o rosto, confusa e constrangida.
– Mas... O senhor conselheiro me disse que vossa majestade gostaria de relaxar... – Ela sentiu o rosto queimar. – Disse que eu poderia ajudá-lo, e que se agradaria...
– Parece que o senhor conselheiro não me conhece como deveria, então! – Naruto praticamente cuspiu as palavras, tamanha irritação. A moça continuou agachada, curvada, constrangida.
– Mas... O senhor está cansado... E me disseram que eu poderia... – Ela apertou os punhos, sentia seu rosto queimar, e não conseguiu terminar a frase. Naruto levou um minuto inteiro para compreender que ela, embora constrangida, na verdade não estava desgostosa da possibilidade de passar a noite ao seu lado.
Perceber aquilo deveria tê-lo animado. Deveria, mas não animou. Ele não sentiu absolutamente nada, porque sabia que aquela garota estava interessada no rei, não nele. – Eu... – Ele não queria fazer aquilo. Não queria tocar outra mulher, não depois de descobrir o céu ao lado de Hinata. – Por favor, ignore o que o conselheiro falou.
– Mas... Majestade...
Naruto suspirou longamente, agachou-se na altura da moça e sorriu a ela, embora não estivesse gostando nada daquela situação. – Você é uma cidadã do país do Fogo, não é? – Ela anuiu confusa. – Como uma cidadã, você deve acreditar na família real, correto? – Ela hesitou, mas também concordou. – Então, ainda que confie na família real... Ainda assim, parece-lhe estranho o fato de recusar-me a trair minha esposa?
– Mas... É o rei...!
– Ser rei significa que eu posso fazer o que eu quero? – Ele próprio estreitou as sobrancelhas de maneira duvidosa; definitivamente, aquele pensamento era errado. – E mesmo que significasse isso, eu não quero trair a confiança da rainha. – Era verdade. Ele não queria fazer aquilo. Não queria magoá-la, prometeu a si mesmo que não o faria, e sabia que se dormisse com aquela garota, ou com qualquer outra, magoaria.
A mocinha anuiu lentamente, envergonhada. Naruto ajudou-a a se levantar, e assim que ficou de pé, ela se apressou em sair do quarto, envergonhada demais com a situação que havia se formado.
Quando a porta bateu, Naruto não conseguiu evitar o suspiro; coçou a nuca e riu para si mesmo. – Maldito velho pervertido... – Ele olhou para o teto, e mais uma vez lembrou-se da doce declaração da esposa. O “Eu te amo” que ela havia sussurrado o estava enlouquecendo, sem dúvidas, e ele sabia que não devia estar pensando tanto naquilo.
Era verdade que Hinata devia estar satisfeita por consumar o casamento. Ela sempre o quis, afinal de conta. Naruto também não tinha dúvidas de que ela lhe tinha afeição, e gostava-lhe tanto quanto ele próprio a gostava. Mas de gostar, a amar...
– Eu te amo...
A doce voz tornou a soar em sua mente, e ele gemeu de agonia. Por que não conseguia parar de pensar naquilo?! – Foi algo do momento... – Ele murmurou para si mesmo. – Não devia pensar tanto nisso, seu imbecil... – E então se jogou na cama, decidido a banhar-se na manhã seguinte, supondo que se adormecesse, esqueceria os confusos sentimentos que faziam seu estômago revirar de ansiedade, mas não conseguiu pregar os olhos.
Nem por um segundo deixou de pensar no que Hinata devia estar fazendo naquele momento. Ela também estaria pensando nele? Também sentiria sua falta? Estava triste com sua ausência?
A memória dos grandes orbes perolados, que pareciam tão tristonhos na despedida, o fizeram pensar que sim, ela deveria estar sentindo tanto sua falta quanto ele sentia a dela.
Ele olhou para o canto vazio da grande cama, e imaginou o que estariam fazendo se ela estivesse ali.
Provavelmente estariam constrangidos demais por ter sua primeira viagem juntos, por dormirem em um quarto que era diferente do habitual, e envergonhados pelos acontecimentos da noite passada. Talvez eles nem se falassem, ou talvez... Talvez pudessem fazer tudo de novo, com mais liberdade, com mais amor.
Os olhos azuis se estreitaram, e ele, irritado, levantou-se da cama; despiu-se no quarto, sem se importar com a porta destrancada e seguiu até o banheiro em passos rápidos.
Ele mesmo preparou seu banho. Um banho frio, pois imaginava que era isso o que precisava; mergulhou o corpo na banheira de madeira e tentou focar-se mais na limpeza do que em seus pensamentos, mas não deu muito certo. Afinal, seus braços, assim como seu peito tinham leves marcas de arranhões, e era impossível olhar para aquilo sem se lembrar dela, e de como havia enlouquecido enquanto era tocada.
– Eu te amo...
A voz tornou a atormentá-lo, e Naruto mergulhou o rosto na água fria.
Não conseguia deixar de se perguntar o porquê de não conseguir parar de pensar naquilo; no porque de não conseguir parar de imaginar o que poderia ter acontecido àquela noite, se ele tivesse respondido que também a amava. No que estaria acontecendo naquele momento, se ela não estivesse à quilômetros de distância.
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Kakashi tinha sonhado com Kasumi àquela noite.
Com Kasumi e Obito. Com como seriam suas vidas, caso ele não fosse um covarde vingativo, e tivesse revelado aos conselheiros e à Konoha a verdadeira relação do rival e da amada.
Em seu sonho, a filha de Obito e Rin era tão doce e talentosa quanto sua mãe, tão culta e educada quanto a duquesa Uchiha, e tão feliz quanto qualquer criança criada em um lar de amor e condições.
Em seu sonho, Obito ainda ocupava o cargo de comandante da polícia de Konoha, ainda era um renegado de sua família, mas mesmo assim, estava feliz.
Em seu sonho, Rin e Obito eram vistos por todos como pobres almas apaixonadas que as circunstâncias, acima de suas famílias, haviam separado, e que ele não passava de um pobre coitado que consequentemente perdera a afeição de uma jovem doce e pura, um coadjuvante numa triste história de amor.
Em seu sonho, todos viam Rin Nohara como um anjo. Uma Julieta desgraçada, mas nunca uma mulher má.
Em seu sonho, Kasumi ainda era chamada de “senhorita Nohara”. Em seu sonho, todos ainda julgavam-na como a última filha dos Nohara, mas ela não se sentia confusa, e nem triste por isso. Em seu sonho, ela não era uma garota perdida: era a tutelada de Obito Uchiha, o gentil comandante que foi apaixonado por sua irmã, e que a cuidou como uma filha.
Em seu sonho, ele não era importante para ninguém além de si mesmo, mas nada disso o importava, porque ele estava em paz, porque sabia que Rin estava em paz.
Ele se sentia em paz, porque não tinha arrependimentos. – Kakashi... – Uma voz preocupada soou distante, mas ele não quis despertar. Não queria acordar, e deparar-se com aquele mundo distorcido em que ele havia destruído as esperanças da filha da pessoa que mais amou na vida.
Sentiu algo frio na testa, e franziu o cenho, incomodado. – Está acordado? – A mulher tornou a falar; sua voz parecia aliviada. – Já é tarde, então acorde... – Dando-se por vencido, ele abriu os olhos negros lentamente, e aos poucos pôde identificar a imagem de Kurenai Yuuhi sentada ao seu lado.
Ela lhe sorriu. Um sorriso doce, e penoso. – Você estava machucado, perturbado... Trouxe-lhe aos meus aposentos, e acabou adormecendo. – A mulher o explicou calmamente; pôs as mãos sobre a toalha molhada em sua testa e deslizou-a por seu rosto. – Seu nariz não está quebrado, mas acho que vai inchar um pouco. Esse olho também. – Ela fez pressão sobre o canto de seu olho esquerdo, e o Hatake gemeu baixo de dor. – Desculpe. – Embora pedisse desculpas, Kurenai abafou uma risada.
Ele estreitou as sobrancelhas. – Meu rosto está tão inchado para você achar graça? – Ela negou, afastou a toalha e mergulhou em uma bacia ao lado da cama.
– Só é engraçado imaginar o prodígio Kakashi Hatake entrar em uma briga. Esse tipo de coisa não acontece desde... – Então ela se calou; tornou a passar o tecido molhado em seu rosto. Mas ainda que ela não tivesse prosseguido, Kakashi pôde compreender o que quis dizer.
Kakashi não entrava em uma briga sem sentido desde que Obito se fora.
O silêncio se estendeu por minutos, até ela suspirar de maneira cansada. – Você precisa parar de pensar nela... Neles. – Murmurou com a voz baixa.
Kakashi sorriu desgraçadamente, fechou os olhos e se esforçou para se acomodar no sofá desconfortável. – Do que está falando? – Kurenai hesitou.
– Você estava murmurando o nome deles... Da Rin, e do Obito... – Ele desfez o sorriso, e ela tornou seu trabalho; deslizou a toalha fria pelo peito nu do homem, que só então percebeu a falta da camisa. – Não vale a pena viver por alguém morto, Kakashi... – Ele forçou uma risada.
– E olha só quem me diz isso... – Ela estreitou os olhos vermelhos, mas não conseguiu olhá-lo.
– Já é ruim o suficiente no meu caso... – Murmurou em tom baixo, antes de fitá-lo. – Mas amar alguém que não te amava até depois da morte é muito, é demais para qualquer um. – O fato de Kurenai saber que Rin não o amava surpreendeu-o muito, tanto que ele se sentou tão abruptamente que sentiu os músculos doerem. – Fique quieto, você está-...
– Como você sabe? – A senhorita Yuuhi nunca havia ouvido a voz de Kakashi tão séria, e sentiu-se tremer por isso; ainda assim, foi firme o suficiente para dar os ombros, como se não estivesse intimidada.
– Ela me contou. – Falou simplesmente. – Você sabe, éramos amigas... Tínhamos a mesma idade, debutamos juntas... – Ela ergueu os olhos, um pouco constrangida. – Depois de tudo o que aconteceu, eu fui a única a quem ela podia confidenciar seus sentimentos. – Mais uma vez, o silêncio se estendeu. – E é por ser amiga dela... – Kurenai prosseguiu, depois de muito hesitar. – É por saber de sua situação, que o aconselho a seguir em frente. – Ela ergueu o olhar.
–... Seguir em frente? – Ele riu da possibilidade. – Você não pode me aconselhar, e não sabe da minha situação. – Se levantou com um pouco de dificuldade. Kurenai tentou para-lo, mas foi inútil. – Sabe da minha situação... – Mais uma vez, ele riu. – E como pode saber disso?! – Se virou na direção dela abruptamente, fazendo-a recuar um passo. – Você amou, e foi amada! – Aproximou-se ameaçadoramente, e ela instintivamente recuou. – Asuma e você se amavam tanto quanto Rin e Obito. – Ele cerrou os olhos e apertou os punhos. – Você perdeu Asuma como Obito perdeu a Rin... Até tiveram um filho juntos... – Assim como Obito e Rin, ele adicionou mentalmente. Kurenai sentiu a parede impedi-la de continuar a recuar, e acabou sendo rendida pelo soldado, que estava visivelmente perturbado. – O que você pode saber da minha dor? – Ele a questionou com fúria.
A Yuuhi sentia seu estômago revirar, só de ouvi-lo falar o nome de Asuma.
Fazia muito tempo desde a última vez em que o nome do falecido amado fora mencionado em sua frente. Todos tentavam ser cuidadosos quanto a isso.
Kakashi pareceu enxergar a dor nos olhos dela, e por algum motivo, vê-la acuada daquela maneira o fez pensar em Rin.
Se naquele dia, no incêndio, Obito a tivesse salvo e perdido a vida por isso, Rin seria exatamente como Kurenai Yuuhi era até pouco tempo: uma pobre mulher solteira, que perdera o nome e a honra, com uma criança nos braços. Sem um marido, nem posses. Vivendo à custa da bondade dos outros.
Sim... Elas seriam exatamente iguais. Ambas desgraçadas, ambas solitárias.
– Desculpe, eu só... – Ela hesitou um pouco. – Eu só estava preocupada... – Kakashi estremeceu de dor ao senti-la tocar uma ferida no rosto. – Você era muito importante para Rin... E era amigo de Asuma... – Ela espremeu os lábios ao falar o nome. – Mas você é jovem, tem dinheiro, é conhecido... – Ele sorriu.
– Assim como você. – Lembrou-a, fazendo-a sorrir também. Os olhos vermelhos da mulher caíram ao chão.
– Você é homem. – Ela completou. – Pode viver bem, achar uma boa esposa... Começar uma família, e ser feliz.
–... Eu fiz coisas terríveis, Kurenai. – Mais uma vez, ela hesitou; quando ergueu os olhos vermelhos, parecia compadecida pelos sentimentos do Hatake.
– Você não é culpado por nada, Kakashi...
– Se eu tivesse contado aos conselheiros... – Ele cerrou os olhos. – Se eu tivesse contado a verdade, Obito não seria um fugitivo. Talvez ele fosse até duque... Talvez estivesse casado com Shizune, talvez... – Talvez Kasumi tivesse um pai, e uma mãe. Talvez ela não fosse a garota confusa e perdida. Talvez ela soubesse quem é... – Talvez Rin estivesse em paz... – Mais uma vez, ele sentiu o calor das mãos da mulher.
Desta vez, ela não tocou suas feridas, apenas o seu rosto, um toque quente e carinhoso, que o fez estreitar os olhos. – Se eu fui ou não amada por Asuma, se você foi ou não amado pela Rin... Isso realmente não importa. Nós dois perdemos alguém que amamos, e por isso... Por isso eu entendo sua dor. – Kakashi suspirou. – E é por isso que eu estou aqui, te dizendo essas coisas... De que adianta pensar no que poderia ter acontecido? – A morena questionou-o gentilmente. – O que passou, passou. Ainda que você se sinta culpado, tem que deixar para trás... – Ela estreitou os olhos. – Eu sei o que sente, porque eu também poderia ter dito, mas... – Ele negou a cabeça.
– Depoimentos de mulheres não contam, você não podia fazer nada. Mas eu...
– Mas você não pode consertar isso. – Ele baixou os olhos, e sentiu-a afagar seus cabelos. – Então, tudo o que pode fazer... É deixar para trás, e seguir em frente. – Kakashi não pôde responder, porque não tinha o que responder. Então, após fitá-la por um longo minuto, afastou-se. Foi até o sofá, pegou sua camisa – que estava dobrada sobre uma mesa de canto – e a vestiu. – Obrigado por cuidar de mim. – Murmurou sinceramente, olhou para a mulher, que ainda tinha as costas encostadas na parede, sorriu fracamente e curvou a fronte antes de se retirar.
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