The King
24 Capítulo XXIV – Proposta
Notas iniciais
Capítulo XXIV – Proposta.
A vida de Naruto antes do castelo nunca foi muito movimentada – embora ele fosse naturalmente uma pessoa agitada.
Ele e o avô haviam morado naquela vila, nas fronteiras do país do Fogo com o país dos Ventos, desde que o rapaz podia se lembrar, e lá foram sinceramente felizes. As poucas discussões que tiveram dentro daquela pequena e modesta casa baseavam-se nas mulheres que o avô insistia em trazer – na opinião do neto, aquele era um desrespeito à memória da suposta avó, que acreditava estar morta – e na insistência do rapaz querer saber mais sobre seus pais.
Ainda assim, eles haviam sido felizes. Não só por Jiraya, mas também por Sakura, que sempre esteve ao seu lado.
Ele e a senhorita haviam se conhecido no orfanato religioso, lugar para onde a Haruno havia sido mandada logo após o falecimento de seus pais. Como ambos eram muito solitários – ela, por ser esperta e tímida; ele, por ser estúpido e briguento – e também pelo fato de terem personalidades explosivas surpreendentemente parecidas, logo se tornaram amigos.
Naruto tinha treze anos quando começou a vê-la com outros olhos. Foi quando Sakura começou a estudar com Tsunade.
Ele foi perdidamente apaixonado, mas nunca se preocupou em declarar-se. Ironicamente, o acontecimento na noite da véspera de seu aniversário de dezesseis anos foi a primeira investida que teve coragem de fazer, e então ela se tornou inalcançável; eles haviam se separado e trilhavam caminhos diferentes.
Ela estava perto, mas ao mesmo tempo, longe, e o mais surpreendente de tudo isso era que ele não se preocupava. Simplesmente não conseguia dar importância à distância, quando estava no centro de tantos problemas.
Ainda assim, ele não podia abrir mão daquele sentimento.
Jiraya não era mais o velho pervertido que o havia criado: era um soldado respeitável, que estava disposto a tudo para mostrar a realidade ao neto.
Tsunade também não era mais aquela velha que adorava lhe gritar: era uma anciã do reino, a princesa do país do Fogo, sua verdadeira avó.
Shizune havia se tornado uma estranha; mal trocavam palavras quando se viam.
De toda sua antiga vida, só Sakura restara. Só ela era a mesma Sakura sorridente e explosivamente preocupada. Apenas ela continuava ao seu lado como sempre havia sido. Era o único laço com sua antiga vida, o único ponto de ligação para mantê-lo o Naruto honesto de sempre.
Mas ele não se sentia mais honesto.
Agora, meses após sua chegada, ele já devia se sentir parte daquele lugar, mas era impossível. Ninguém ali confiava em ninguém, era como se qualquer um pudesse traí-lo, a qualquer hora. Agora era rei, tinha riquezas e terras, mas de alguma forma, não tinha a si mesmo. Era como se aquelas paredes o sufocassem, como se quisessem forçá-lo a pertencer aquele lugar. Mas ele nunca se sentiria assim, nunca se encaixaria na Torre... Diferente de Hinata.
Certamente, Hinata havia nascido e sido criada para aquele lugar, para viver ali, para ocupar o cargo mais alto da sociedade do Fogo. Quando a conheceu, Naruto teve a certeza absoluta de que era uma mulher perfeita: educada, prudente e inteligente.
No entanto... Sua primeira discussão o fez enxergar além da postura que deveria ter a filha primogênita do senhor Hyuuga. Foi a primeira vez que ele a viu como Hinata. Não como a filha de um homem rico, não como a rainha do país, não como sua cúmplice... Mas simplesmente Hinata: uma moça educada, prudente, inteligente e humana. A partir de então, ele não conseguiu deixar de observá-la, e surpreendeu-se sinceramente ao perceber que eles eram muito parecidos, de vez em quando: ambos preocupavam-se mais com a população do que com si mesmos, sentiam-se nervosos quando cobrados; os dois eram teimosos como mulas, se esforçavam até seu limite, e acima de tudo, tanto Hinata quanto Naruto amavam ser livres.
Ele nunca suspeitaria disso, se não a tivesse visto naquela tarde, no campo.
Mas, ainda que fossem surpreendentemente parecidos em alguns aspectos, também eram muito diferentes, em outros.
Por exemplo: haviam se passado cinco dias desde sua última discussão, quando ficaram sozinhos pela última vez. Naruto mal podia conter seus impulsos; queria vê-la acima de tudo, desculpar-se de joelhos e deliciá-la com seus beijos, mas Hinata parecia muito bem com a distância que havia sido criada.
Certo. Talvez “bem” não fosse a palavra correta. Tenten Mitsashi, a criada favorita das irmãs Hyuuga, mais de uma vez o tinha alertado com suas preocupações, dizendo que a rainha não comia direito fazia alguns dias. No dia anterior, após engolir todas as suas incertezas, sua majestade foi até a esposa, em seus aposentos, e mesmo com a presença de Tenten no local, questionou-a sobre o fato.
Hinata foi tranquila ao afirmar que não havia motivos para preocupações, e que comia pouco graças às suas regras. Segundo a rainha, a dor tirava sua fome, e como Naruto nunca poderia ter certeza daquele tipo de coisa, não pode fazer muito além de pedir para que ela fosse cuidadosa com sua saúde.
Embora sua preocupação fosse verdadeira, a conversa não seguiu como ele imaginou que seguiria. Na verdade, foi bem fria. Durante todo o diálogo, a moça não o olhou nos olhos nem por um segundo, e embora isso o incomodasse profundamente, não se sentia no direito de mandá-la agir de outra forma.
Ele suspirou profundamente.
Puxou a caixa negra de Mikoto e, após abri-la, vasculhou até encontrar o retrato da esposa, apenas para encarar os olhos, que haviam sido retratados tão belos quanto eram na realidade pela duquesa, e se perguntou por que sempre se sentia estranho ao fitá-los.
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A duquesa Uchiha, como boa representante de seu clã, recebeu os senhores Hyuuga de maneira muito cortês: foi recebê-los pessoalmente, e com a ajuda de dois criados e uma criada, levou-os até a sala de estar principal da mansão – onde se recebia as visitas importantes, quando o senhor da casa não estava. Pediu para que as servas trouxessem um lanche qualquer e sentou-se na poltrona que pertencia ao marido para fazer sala.
Um assunto trivial foi sustentado até que tudo estivesse servido. Até que as criadas simples se fossem, deixando na saleta em questão apenas os convidados, a dona da casa e a governanta, que se mantinha em pé, numa posição rígida, atrás da poltrona da patroa. – É sempre um prazer revê-los, Hiashi. Mas não acredito que tenha vindo até aqui para provar os petiscos da minha cozinheira. – O senhor Hyuuga riu, e Mikoto prosseguiu com um sorriso. – Ainda assim, não imagino o que venha fazer na mansão Uchiha com Fugaku fora da cidade. – O velho homem deu os ombros.
– Na verdade, desejo falar com seu filho mais moço. – Explicou, surpreendendo a duquesa, que ergueu as sobrancelhas negras.
– Sasuke? Por que se interessaria em uma conversa com Sasuke? – Ela não conseguiu esconder a surpresa. Os lábios do senhor Hyuuga se estreitaram; falar com Mikoto antes de Sasuke certamente não era uma boa coisa, mas ela era uma mulher inteligente. Se ele mentisse, certamente descobriria.
– É um assunto complicado. – Confessou. – Interessa ao senhor Uchiha, em primeiro lugar, então preferiria que ele estivesse aqui antes de dizer.
– Este senhor Uchiha serve? – Sasuke havia acabado de adentrar ao cômodo. Hoje era um daqueles belos dias que lhe era permitido voltar para casa, e bastou alcançar a porta para que uma das criadas lhe avisasse que tinham visitas, que ele, como único homem da casa presente, foi receber imediatamente.
– Sasuke! – Mikoto abriu seu sorriso luminoso; levantou-se e abraçou o filho caçula carinhosamente. Depois disso, o rapaz curvou-se aos visitantes como cumprimento e providenciou uma cadeira para sentar ao lado da duquesa.
– O senhor dizia que precisa conversar com o senhor Uchiha, mas deve saber que meu pai não está presente, e Itachi mora na Torre desde que se tornou conselheiro. – O pai de Hinata anuiu.
– No entanto, não vim vê-los. – Esclareceu. – Gostaria de propor algo ao senhor.
– Propor algo? – Mikoto estranhou. Hiashi assentiu.
– Bem, pode falar. – Sasuke serviu-se de um petisco. – Estou ouvindo.
– Eu quero que se case com Sakura Haruno. – O senhor Hyuuga foi tão direto, e disse-lhe com tanta tranquilidade implícita na voz, que o Uchiha engasgou.
Os lábios de Mikoto ficaram centímetros abertos, surpresos, por cerca de meio minuto, antes de se levantar, ultrajada e exclamar: — O que isso quer dizer?! Quer que meu filho se case com alguém?! – Sentia-se extremamente ofendida. As sobrancelhas negras se juntaram. – Quer casar meu filho?! – O senhor Hyuuga deu os ombros.
– É uma proposta. – Ele a lembrou.
– Que tipo de brincadeira é essa, Hiashi?! – A voz dela ainda soava exaltada, mas Sasuke estava chocado demais para expressar seus sentimentos.
– Sasuke é um bom garoto, assim como a senhorita Haruno. Pude notar que se olham com interesse, então decidi me propor a ajudá-los. – Ambos Uchihas arquearam as sobrancelhas, surpreendentemente ao mesmo tempo, duvidosos com as palavras do Hyuuga, que ainda assim prosseguiu: — Estou certo de que seria um problema com Fugaku, então estou aqui para dar o meu suporte.
Sasuke não sabia se, de fato, o senhor Hyuuga havia notado sua relação – ou quase relação – com Sakura, mas tinha certeza absoluta que seu interesse em dar apoio nada tinha de boa ação. Ele provavelmente havia percebido, ou ao menos desconfiava dos sentimentos de sua majestade pela protegida de Tsunade. – Não subestime nossa inteligência, Hiashi. – A voz da duquesa tinha um tom quase letal. – Está se aproveitando da ausência de meu marido! – Acusou. – Fazendo uma proposta absurda como essa ao meu garoto... – Ela cerrou os olhos. – Um casamento! – Exclamou. – Com a senhorita Haruno! – Suspirou desgostosa. – Deve ter enlouquecido. – E tornou a encará-lo com os furiosos olhos de águia. – Por acaso esqueceu-se do seu lugar? — O senhor pigarreou, desconfortado com o olhar de Mikoto, mas tentou manter-se firme.
– Não esqueci meu lugar. – Sorriu desafiadoramente à mulher. – Sou o sogro do rei, pai da rainha. Dono das terras que movem a economia do país. – Pontuou, e a Uchiha então pôde perceber.
Aquilo não era uma proposta, nem um pedido. Era uma ordem.
Hiashi Hyuuga estava ordenando ao seu filho que se casasse com uma plebeia sem família, terras ou riquezas! Ela estava irritada, e começou a gritar ofensas na direção do velho homem, que continuava sentado, servindo-se enquanto olhava fixamente na direção de Sasuke.
O Uchiha, diferente da mãe, tinha outras preocupações na cabeça.
Havia passado os últimos dias evitando qualquer aproximação da senhorita Haruno, pois sentia que a qualquer momento poderia se trair.
Por sua amizade, e mesmo por seus sentimentos pela moça Haruno, ele havia decidido se afastar. Ainda assim...
Ainda assim, levantou-se, e calando a fúria da mãe, disse ao senhor Hyuuga com calma extrema: — Não vou me opor, se ela aceitar.
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O dia mal havia amanhecido e Sakura já estava em pé, vestida e pronta para o duro trabalho de ser estudante.
Sim, nos últimos tempos ela vinha se dedicando especialmente aos seus estudos. Desde Sasuke lhe contou sobre seus sonhos, ela havia se decidido a focar-se em seu próprio sonho. Se seus sentimentos atrapalhariam o homem que amava era, de fato, melhor se afastar.
Ainda que fosse doloroso.
Ainda que fosse insuportável ter que ficar perto dele pelo menos algumas horas do dia – pois ela sempre tinha que estar presente nos treinos de sua majestade.
Ainda que seu coração sangrasse devido à suposta indiferença do Uchiha. Suposta, porque ela já conhecia Sasuke o suficiente para saber que ele era muito bom em esconder seus sentimentos, completamente oposto a ela, que sempre se sentia como uma garotinha estúpida com uma paixão platônica que jamais se concretizaria.
Ela suspirou longamente. Era deprimente pensar assim, e ela odiava ser depressiva. Então, foi até o espelho, sorriu com sua aparência – sem arroxeados, só arranhões finos, quase invisíveis, que logo desapareceriam – e lembrou-a a si mesma o motivo de estar naquele lugar: ela seria uma grande médica. Tão bem sucedida, que não teria problemas em atender a pessoas com menos recursos.
Enquanto ajeitava sua cama, depois de arrumada, olhou curiosamente para a de Shizune, que estava vazia e impecável.
Sak não a havia visto chegar à noite passada, nem levantar-se nessa manhã. Na verdade, não a via de manhã, nem de noite, fazia algumas semanas. A rosada estreitou as sobrancelhas num misto de preocupação e curiosidade, mas antes que seu genial cérebro pudesse fazer qualquer tipo de suposição, ela se livrou dos devaneios ao ouvir alguém batendo à porta.
Imediatamente atendeu, e surpreendeu-se quando Tenten, a serva da rainha, que pediu para que a seguisse.
Sak concordou, ainda que confusa, e a acompanhou até a saleta de visitas da rainha. Estava se perguntando que diabos sua majestade gostaria de conversar àquela hora da manhã, mas ficou ainda mais surpresa ao ver que não era Hinata quem a esperava, e sim o senhor Hyuuga.
A moça se lembrava dele das festas – e francamente, quem teria dúvidas do parentesco com Hina, diante aqueles olhos raros, surpreendentemente claros?
– Senhor Hyuuga?! – Ela não pôde deixar de exclamar. O mais velho levantou-se e se aproximou aos poucos, com uma expressão estranha, curiosa.
– Me conhece? – Ela enrubesceu, curvou-se educadamente e negou com a cabeça, sentindo-se tímida ao extremo.
– N- Não nos conhecemos, senhor. – Ela falou constrangida. – Mas tem uma grande semelhança com a rainha, e pude vê-lo durante o casamento real. – Explicou. Hiashi assentiu, compreendendo, e então deu os ombros.
– Bem, senhorita Haruno... Serei sincero com você. – Ele lhe ofereceu um sorriso. – Estou aqui para arranjar-lhe um casamento. – Por um minuto inteiro, Sak não conseguiu arranjar resposta de tão surpresa, e então riu.
– O que disse? Vai me arrumar um casamento?! – Ria confusa, imaginando que se tratava de uma óbvia piada, mas parou quando, pelos olhos dele, viu que falava sério. – Como assim, “me arranjar um casamento”?! – Agora ela estava irritada. – Desculpe, mas não vejo como esse assunto possa ser de seu respeito, Hyuuga-san. – Ela falou decidida. Sentia o rubor subir pelas faces, de tão nervosa.
– Bom, eu estive pensando e... A senhorita não tem pais. – O velho começou a andar pela saleta. – É estrangeira, e ainda assim, vive na Torre. Sei que é uma velha amiga de sua majestade, no entanto... – Ele estreitou as sobrancelhas, sem conter o sorriso; cruzou os braços e fitou-a fixamente. – Não se sabe quem é o traidor da Torre. – Lembrou-a, e Sak enrijeceu. – Veja bem: a senhorita não teria nada a perder, caso traísse um país que não é seu. – Ela apertou os punhos.
– Naruto é meu irmão. – Disse entre dentes. – Crescemos juntos, somos os únicos amigos um do outro. Eu jamais o trairia! Daria minha vida por ele, não por ser rei, mas por ser ele! E estou certa de que ele faria o mesmo. – Os olhos do Hyuuga se estreitaram, e ela percebeu que havia feito uma grande besteira.
Não que aqueles sentimentos fossem falsos; ela o amava, de maneira fraternal, mas amava. Ainda assim, falar isso na frente do sogro do amigo, que não a conhecia, e nem o conhecia realmente, era no mínimo estranho.
A postura adotada pelo senhor Hyuuga foi mais rígida; ele se aproximou lentamente. – Por acaso tem noção de suas palavras, senhorita Haruno? – Ela baixou os olhos. – Qualquer um pensaria que existe algo a mais em sua relação com sua majestade. – Ela empalideceu, o estômago embrulhou, mas ela não teve coragem de erguer os olhos. – Mesmo eu pensaria isso, se não soubesse... – E então ele suspirou longamente. – Ao que me parece, está inclinada a rejeitar a minha ajuda. – A rosada assentiu, lentamente, decididamente.
Se não poderia ficar com quem amava, não ficaria com ninguém. Era nisso que pensava; virou-se para sair da saleta, mas sentiu o corpo congelar quando o senhor Hyuuga prosseguiu: — Ainda que o pretendente fosse Sasuke Uchiha? – Por um segundo, todas as veias de seu corpo congelaram, e no segundo seguinte, elas queimaram, e seu coração começou a bombear feito louco dentro do peito.
Ela virou-se, surpresa, os olhos verdes arregalados. Hiashi sorria como uma peste. – Ele não aceitaria... – Ela murmurou baixo, apertando a saia do vestido, envergonhada por admitir na frente de um homem praticamente desconhecido seus sentimentos – ao menos era melhor do que se ele pensasse que ela tinha sentimentos pelo Rei.
– No entanto, ele aceitou. – O homem se aproximou com um sorriso vitorioso. Sakura estreitou as sobrancelhas, confusa. – O senhor Uchiha está disposto a aceitar o compromisso, desde que a senhorita também esteja. – Ela não disse nada. – Então, senhorita Haruno... O que me diz?
Aquilo era terrível, ela disse para si mesma. Terrível e cruel, da parte de Sasuke. Ele não estava interessado, sempre havia deixado isso claro – embora ela e sua teimosia insistissem que não. Sempre fora direto, e até mesmo rude sobre seus sentimentos. E ainda que Sakura houvesse criado esperanças naquele pequeno deslize...
Ela fechou os olhos e respirou fundo.
Sasuke gostava dela, não havia dúvidas sobre isso. Ela não acreditava que ele a gostasse tanto quanto ela o gostava, talvez nem do mesmo jeito, mas gostava dela. E, pelo visto, gostava o suficiente para aguentar a pressão que o pai da rainha certamente havia colocado.
Aquilo era confuso. Ela sabia que talvez – provavelmente – fosse se arrepender, mas ainda assim, quando abriu os olhos, disse por fim: — Eu aceito.
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Sasuke encarou a porta do escritório do irmão como se fosse algum tipo de inimigo; esperou alguns minutos até que tivesse coragem e enfim pediu para que um dos guardas ali o anunciasse.
Quando o homem o fez, o Uchiha entrou de cabeça erguida. Assim como esperava, Itachi estava na companhia de sua majestade. – Sasuke! – Naruto exclamou realmente surpreso. – Pensei que fosse descansar hoje. – O Uchiha mais jovem curvou-se educadamente, apenas para ganhar tempo o suficiente para pensar nas palavras corretas a se utilizar em uma situação tão complicada.
Itachi percebeu, mas nada disse. – Algo aconteceu? – O rei questionou com preocupação. – Por acaso a duquesa...?! – Mas Sasuke negou antes que ele concluísse a pergunta.
– Minha mãe está bem, obrigado pela preocupação. – Mas ele não sorriu enquanto dizia, e Sasuke sempre sorria quando falava da mãe. Isso preocupou o Uzumaki, que se levantou e aproximou-se.
– Então por quê...? – O Uchiha ergueu os olhos sérios na direção dos orbes azuis.
– Uma coisa vai acontecer, Naruto. – Ele disse com a voz tensa. – E quero que ouça de meus lábios. – As sobrancelhas loiras se estreitaram. – Eu vou me casar. – Por um segundo, Naruto surpreendeu-se. Afinal, porque diabos ele estaria tão nervoso para avisar sobre seu casamento? Mas sua resposta veio logo. – Eu vou me casar. – O moreno repetiu. – Com Sakura Haruno.
– O quê?! – Itachi levantou-se da cadeira imediatamente, chocado com o anúncio. Ainda que suspeitasse dos sentimentos de seu irmão, não era do feitio de Sasuke tomar decisões sem consultar o pai com antecedência. – Mas como...?!
– O senhor Hyuuga me propôs. – Falou cautelosamente. Era impossível mentir sobre isso, afinal. Uma vez que Hiashi bancaria todo o casamento.
– Então, você está sendo forçado?! – A voz de Naruto soou cheia de tensão, de ansiedade. Ele estava visivelmente confuso. Sasuke negou.
– Foi uma proposta. – Disse-lhe, embora não fosse o tipo de proposta que ele podia recusar. Queria ser o mais sincero possível, tanto com o rei quanto consigo mesmo, mas Naruto estava perturbado com a notícia.
– Uma proposta...?! – Ele apertou os punhos, e avançou contra o guarda – Como assim, uma proposta?! – Exclamou em bom som. – Não faz nem uma semana que lhe confessei meus sentimentos em relação a ela! – Sasuke desviou o olhar.
– Majestade! – Itachi teve que se segurar muito para não intervir fisicamente.
– Como ousa me trair?! – O loiro gritou. – Eu pensei que fosse meu amigo! Então como ousa-...
– E por acaso você pensa nos meus sentimentos?! – O moreno exclamou, e cerrou os olhos. – Por acaso tem ideia do quanto foi duro ouvi-lo falar todos os dias de seu amor incessante por ela?! – Embora desconfiasse há algum tempo, ter certeza dos sentimentos de Sasuke em relação à Sakura foi como um soco em seu estômago. – O quanto eu lutei contra essa sensação? O quanto eu tentei, não só por você, mas também por ela, esquecê-la?! – Ele o empurrou; estava furioso. – Mas esse tipo de sentimento não pode ser simplesmente esquecido, deixado de lado! Você deveria saber disso!
– Mas... Ela... – Foi tudo o que Naruto conseguiu balbuciar.
– O senhor Hyuuga certamente fez a proposta ao perceber a distância entre você e Hinata. – O jovem ponderou, tentando ficar mais calmo. – Provavelmente deduziu seus sentimentos pela senhorita Haruno, e por isso me fez a proposta. – Ele passou as mãos pelos cabelos negros, exasperado. – Se eu não aceitasse talvez ela estivesse encrencada. – Falou sinceramente, erguendo os olhos negros para os azuis. – Hiashi Hyuuga é tão poderoso quanto você. Não se deixe enganar. Entre dinheiro e títulos, a maioria é a favor do dinheiro. – Os olhos do Uzumaki se estreitaram.
– Do que está falando...?! – Ele teve que se sentar, pois se sentia estupidamente perturbado, embora não pelo motivo que considerava ser o certo. Na realidade, ele estava mais preocupado com Sasuke e Sakura, duas pessoas com quem se importava muito, estarem sendo forçados a se casar do que com o fato da mulher que amava estar se casando com seu melhor amigo.
– Se Hiashi Hyuuga desconfia de seus sentimentos... E eu estou certo de que ele desconfia... Faria o que estivesse ao seu alcance para te afastar Sakura. Ele daria um jeito de expulsá-la do palácio, talvez até de mandá-la de volta à Suna... Mas não permitiria uma rival sob o mesmo teto que a filha. – Era a verdade. O único motivo de ele aceitar aquela proposta absurda – embora estivesse decididamente apaixonado pela moça – era porque queria protegê-la.
Naruto assentiu lentamente, mais confuso com seus sentimentos do que com qualquer outra coisa; levantou-se, despediu-se dos dois com um simples aceno de cabeça e saiu do escritório de Itachi, decidido a se isolar.
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Hinata sempre soube que se teria um casamento arranjado, e isso nunca chegou a incomodá-la de fato. No fundo, ela também nunca esperou se apaixonar por seu futuro marido, mas sempre pediu que os céus lhe trouxessem um homem com personalidade boa o suficiente para que fossem capazes de se dar bem.
No fim das contas, o oposto ocorreu.
Ela havia, de fato, casado por arranjos, mas diferente do que sempre imaginou, havia conseguido se apaixonar pelo esposo. Sim, a baixa estima, as incertezas, a dor avassaladora causada pelo ciúme não deixavam dúvidas: ela estava apaixonada, perdidamente apaixonada. Ainda assim, a personalidade forte e decidida do marido não os permitia qualquer aproximação que não fosse obrigada pela etiqueta.
Seria engraçado, se não fosse tão trágico.
Como nunca havia sequer se imaginado apaixonada pelo futuro marido, Hinata nunca sonhou que algum dia estaria naquela situação, então simplesmente não sabia como reagir. Estava tão triste e desolada com a indiferença de Naruto, que sequer conseguia sentir fome.
Naturalmente, a falta de fome da rainha preocupou a todos que a conheciam. Mas ainda que considerasse aquilo um melodrama desnecessário, simplesmente não conseguia seguir em frente.
Como comer sem fome? Ela não sabia, bem como não sabia como amar sem ser retribuída. Era tudo tão difícil, tão doloroso... Que ela simplesmente não sabia o que fazer.
O que ela devia fazer? Segundo Mikoto – que era a pessoa em quem ela mais confiava no mundo – deveria insistir, devia lutar para que seu casamento conseguisse ir além do esperado, devia usar de todas as formas para conquistá-lo. Mas como fazer isso quando estava tão machucada?
Mesmo agora, depois de dias, ela não conseguia mais olhá-lo nos olhos.
Suspirou longamente antes de sentar-se à penteadeira. Estava exausta por tantos questionamentos estúpidos, que não a levariam a nada. Decididamente não perderia mais uma noite de sono com aquele assunto...
Ou ao menos foi isso que ela pensou. Até Shino adentrar o local e anunciar o marido. Era impossível negar a entrada do rei em seu quarto – especialmente porque ela era a rainha – então simplesmente concordou com a visita dando um assentir hesitante.
Naruto, diferente da última vez, adentrou calmamente ao cômodo. Instruiu o guarda a fechar a porta, olhou nos olhos da surpresa esposa e se aproximou após Shino obedecê-lo. – Eu preciso falar com você.
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Ainda que fossem poucos meses, Sasuke conhecia Sakura bem o suficiente para saber onde ela deveria estar depois de tantos acontecimentos.
Então, depois de comunicar ao irmão e à cunhada sobre seu casamento – o que não foi uma coisa muito agradável, pois Kasumi, como a irmã mais velha superprotetora que sempre havia se mostrado, não gostou tinha gostado nenhum pouco da ideia de seu adorável quase irmão casando-se por obrigação – seguiu para procurá-la.
De fato, ele sequer havia esperado a carta de Hiashi para ir à Torre. Sabia que ela aceitaria, de qualquer maneira, mas surpreendentemente viu-se ansioso, nervoso quando se deparou com ela na biblioteca.
Sakura não enrubesceu, nem corou. Apenas ergueu os belos olhos verdes na direção dele, e pela primeira vez em muito tempo, Sasuke Uchiha sentiu-se inseguro.
E se ela não tivesse aceitado? E se ele tivesse declarado seus sentimentos à Naruto sem motivo nenhum?
Mas ela era apaixonada por ele. Havia demonstrado isso centenas de vezes com suas atenções, seus sorrisos e até mesmo suas palavras.
Sasuke pigarreou, tentando fingir tranquilidade. – Falou com o senhor Hyuuga? – Ele a questionou com um tom de casualidade.
Sakura hesitou, mas assentiu lentamente. Levantou-se e se aproximou com as sobrancelhas estreitas. – Sasuke-kun, o que aquele homem disse... É verdade? – Ela corou, e baixou os olhos. – Aceitou me noivar? – Questionou num murmúrio.
Sasuke sorriu de canto, ergueu a mão na direção da moça e exibiu um anel dourado que pendia uma esmeralda nem grande, nem pequena, que tinha o exato tom dos olhos da moça. Sakura enrubesceu.
–... Pertenceu a alguém de sua família...? – Foi uma coisa estúpida a se perguntar, mas ela estava tão envergonhada que não conseguiu pensar em mais nada. Para esconder o constrangimento, Sasuke pigarreou antes de falar.
– Eu comprei quando estava a caminho. – Confessou. – O anel da família está com Kasumi. – Se apressou em explicar. – Também pensei que pudesse gostar mais de alguma coisa que combinasse com você... Quando vi o anel, pensei imediatamente em seus olhos. – Como era muito bom escondendo os seus sentimentos, ela sequer podia sonhar que o rapaz estava tão ansioso quanto ela.
–... Por que está fazendo isso? – Ela baixou a fronte. – Depois que tudo o que me disse, sei que não me ama... – Ele estreitou os lábios, incomodado.
Puxou a mão da noiva e colocou o anel no dedo correto; serviu-lhe tão perfeitamente que a moça surpreendeu-se.
Sasuke baixou o rosto, e pressionou os lábios sobre a aliança e seus dedos, fazendo Sak enrubescer ainda mais. Ele ergueu os olhos na direção dela, com o encantador sorriso de canto estampado no rosto. Estava satisfeito com o constrangimento dela. Sakura, obviamente, não conseguiu ter sequer um pensamento coerente, especialmente quando ele se aproximou mais; ela recuou passos, tensa e envergonhada, mas parou quando a parede a obrigou.
Com um sorriso surpreendentemente sedutor, Sasuke colocou ambas as mãos sobre a parede, ao lado de seu rosto, aproximou o rosto e beijou-a.
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Hinata assentiu lentamente. Graças ao nervosismo, sentiu a ansiedade congelar seu estômago, acelerar seu coração e ferver suas faces.
Naruto sentou-se na cama.
Ele havia hesitado muito antes de decidir vir falar com a esposa. Estava perturbado com a notícia, e ainda mais perturbado com seus sentimentos em relação a ela. Ele não sabia se estava aliviado pelo fato de que, agora, Sak estaria protegida, e sempre ao seu lado, como deveria ser; não sabia se estava furioso com Sasuke, que mesmo após ouvir seus sentimentos, ainda havia se apaixonado por ela... Mas de uma coisa tinha certeza: o que Hiashi Hyuuga estava fazendo não era certo, e ele não gostava daquilo. Forçar duas pessoas a se casarem tão jovens... Forçar os seus melhores amigos a se casarem... Não era algo que ele podia aceitar facilmente.
Sasuke estava certo. Se Hiashi havia tomado uma decisão tão forte quanto pressioná-lo – logo ele, que pertencia a uma família tão importante – a se casar com Sakura – que não oferecia nada de interessante aos Uchiha – devia ter descoberto sobre os seus sentimentos por ela.
E, na mente de Naruto, apenas uma pessoa poderia tê-lo dado tamanha certeza.
Ele ergueu os olhos azuis serenos até os perolados da esposa, que o fitava num misto de confusão e constrangimento. – O que você falou ao seu pai para que ele decidisse casar Sasuke e Sakura? – Por um segundo, ela não compreendeu. – Por favor, Hinata, não se faça de tola... – Incomodada, ela estreitou as sobrancelhas.
– Não estou pensando em me fazer de tola... Simplesmente não sei do que está falando. – Foi sincera, mas ele não parecia ter acreditado, pois suspirou longamente.
– Ontem seu pai veio visitá-la. O que você falou a ele? – Ele insistiu.
– Perdoe-me, majestade, mas sinceramente não compreendo. – Naruto cerrou os punhos e estreitou os olhos.
– Estou perguntando... – Ele falou entre dentes. – O que diabos você disse ao seu pai para que ele decidisse do nada, casar Sasuke e Sakura! – Exclamou um pouco alto.
– Eu não disse nada! – Ela levantou-se, soando ofendida. Ele riu.
– Não vejo outro motivo, além de saber os meus sentimentos, para ele querer se meter na vida amorosa do meu guarda. Ele sabe dos meus sentimentos, e de que outra maneira descobriria?! – Ela cerrou os olhos.
– Certamente por seus olhares indiscretos, por sua aproximação imatura, pela visível felicidade que demonstra por estar ao lado dela! – Mas ele não se convenceu.
– Fale de uma vez o que você disse! – Insistiu com a voz alta e autoritária.
Hinata apertou os punhos; sentia o coração sangrar. – Sempre desconfia de mim... – Ela murmurou em tom baixo, fungando para não chorar. – Durante todo esse tempo em que estamos casados... Tem noção do quanto foi cruel comigo? Do quanto me julgou mal? De quantas vezes eu tive que engolir o meu orgulho para perdoá-lo? – Ele sentiu o estômago embrulhar ao ver que ela estava a ponto de chorar. – Sabe... Nós éramos próximos quando crianças. – Ela limpou uma lágrima que escorreu solitária por seu rosto. – Quase tão próximos como você e Sasuke eram... – O rapaz mordeu o lábio inferior, sentindo-se horrível. – Mas embora você confie plenamente nele, não consegue acreditar em uma palavra do que digo. – Naruto baixou os olhos. Hinata forçou uma risada. – Eu já lhe disse, não é? Quando eu o vi pela primeira vez, perto da fonte, sem sequer saber seu nome... Senti que era você. – Secou outra lágrima. – Para mim, foi como se ainda estivéssemos interligados, como se nosso laço nunca tivesse sido rompido, como se nunca tivéssemos sido separados... – Ela se sentou novamente; fechou os olhos e deixou-se chorar baixo. – Eu sei que se sente assim com Sasuke, como se vocês sempre tivessem sido amigos... – Riu sem humor. – Ele vai se casar com a mulher que você ama, e ainda assim, não consegue sentir raiva dele. – Naruto ergueu os olhos na direção da esposa lentamente, mas ela fez questão de desviar o olhar.
– Hinata...
– Independente dos seus sentimentos por ela e dos meus sentimentos por você... – Focou os olhos de pérola nos azulados. – Eu nunca, jamais faria com que alguém tivesse que passar por isso! – Gritou repentinamente, erguendo a mão para exibir a aliança. – Eu nunca faria isso! Nunca! – Ele empalideceu. Era a primeira vez que ela se mostrava tão frustrada em relação ao seu casamento. – Eu nunca, jamais condenaria ninguém à agonia de um sentimento não correspondido! – Mas antes que ele pudesse entender o sentido daquelas palavras, a moça levantou-se, e dando passos firmes, retirou-se de seu quarto sem se despedir.
E, por algum motivo, Naruto sentiu-se ansioso.
Levantou-se, e se apressou em alcançá-la, mas sentiu seu corpo paralisar ao vê-la andando rápido pelo corredor, sendo acompanhada pelo senhor Inuzuka. -... Ele nos ouviu? – O Uzumaki questionou à Shino com a voz moderada.
O guarda não respondeu, e isso deveria significar “sim”. Naruto fechou os olhos, respirou fundo e socou a parede com força, frustrado com sua própria idiotice, por sua incapacidade, por sua falta de coragem para segui-la, ainda que tivesse a certeza que o maldito Inuzuka a consolaria.
Por que diabos ele não conseguia parar de machucá-la?!
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