The King
19 Capítulo XIX – Desconfiança.
Notas iniciais

Capítulo XIX – Desconfiança.
O dia mal havia raiado, mas ele já estava em pé.
Sua casa, ao contrário do habitual, estava silenciosa. Provavelmente porque os pais estavam dormindo, cansados pelo velório do dia anterior. Infelizmente, ele não podia se dar ao luxo de descansar.
Shikamaru tomou o café da manhã em velocidade record antes de seguir para a Torre, e não deixou de lamentar sua perda de sono por um segundo sequer.
O único guarda posto nos portões da Torre estranhou sua presença, uma vez que lhe fora concedida folga no dia anterior – coisa que ele, dentre todas as pessoas, jamais dispensava. – Você não trabalha nem quando precisa. – Genma zombou; como o guarda em questão tinha a idade de seu falecido mestre, por tanto merecia o mesmo respeito, Shikamaru preferiu ignorar a provocação.
– Só você na portaria? – O rapaz estranhou. – Depois de um ataque daqueles, eu pensei que toda a guarda real estaria lá dentro, e todo o exército de Konoha estivesse aqui fora, guardando os portões. – O mais velho deu os ombros, mas a verdade é que também não compreendia.
– Ordens são ordens. – Foi o que ele disse, simplesmente. – O que veio fazer aqui, justo quando deveria folgar? Se for sobre a moça Sabaku, não se preocupe. Ninguém vai tirá-la de você. – Ele deu uma palmada amigável nos ombros do mais jovem, que suspirou longamente, claramente incomodado com a brincadeira. Em épocas de traição, não era de bom tom fazer piadas desse tipo.
– Eu vim procurar um serviço. – Foi franco. – Estou um pouco perturbado com todas essas coisas, então quero checar o corpo do homem que Sasuke matou.
– Direto como sempre. – Genma suspirou. – Eu não sei se seria bom fazer isso, Nara. – Ele estreitou as sobrancelhas. – A torre nunca esteve tão desorganizada, então o comandante não deve sequer se lembrar do defunto. – Shika concordou, e sorriu, exibindo uma falsa confiança.
– É sempre bom ganhar a confiança das pessoas. Acredito que vou ganhar algum crédito, se fizer um trabalho que ninguém se lembrou. – Ele não esperava realmente conseguir algo com isso, mas fingir interesse era certamente a melhor forma de alcançar o seu objetivo.
Genma podia ser brincalhão, mas não era estúpido, portanto soube imediatamente que tudo não passava de atuação, mas por fim, com um longo suspiro, cedeu a informação ao rapaz: — O corpo está guardado no subterrâneo, nos aposentos separados à carceragem. Se você vai fazer algo, comece rápido, pois devem se livrar logo do morto, já que começa a feder.
– Onde está o Chouji? – O sorriso de mais velho voltou quase imediatamente.
– Dormindo, é claro! – Exclamou. – Algumas pessoas aproveitam as folgas. – Desta vez, o sorriso do Nara foi sincero. Ele agradeceu ao veterano pelas informações e partiu em busca do melhor amigo, sem nunca deixar de pensar em como o fato de o alto escalão esquecer averiguar o corpo era estranho.
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Sasuke Uchiha era o tipo de pessoa extremamente esforçada, então quando começava algo, tratava de terminar seu dever. Portanto, quando o pai lhe oferecera um dia de descanso na noite anterior, ele recusara terminantemente.
Enquanto abria a porta da enfermaria da carceragem, ele não pôde evitar um bocejo cansado. Ajeitou as vestes, que pareciam mais pesadas que o comum e cumprimentou os dois com um aceno.
Demorou um segundo até que ele notasse que a segunda pessoa presente não era um guarda, e sim a senhorita Haruno.
E ela estava péssima, muito pior do que ele.
As escoriações de seu rosto, antes avermelhadas, começavam a tomar um tom escuro, e o canto do olho esquerdo, antes escondido por uma bandagem, agora exibia o inchaço arroxeado. Agora, menos raivoso, ele pôde notar que o canto dos lábios dela estava ferido, provavelmente graças à violência usada pelo único homem que o Uchiha não lamentava ter matado.
Passado o choque inicial à aparência da sempre adorável moça de cabelos róseos, ele pôde notar a situação, e sentiu ódio. Ela estava sentada na cama do maldito traidor, com as mãos em seu peito – trocando as bandagens, na realidade, mas Sasuke não se apegou a esse detalhe. – Mas que diabos...?!
– Sasuke-kun! – Ela levantou-se e se aproximou num pulo, a expressão preocupada. – Seus pontos acabam de abrir! – Exclamou, apavorada ao ver; Sasuke sentiu o corpo tremer diante da preocupação da moça, e seus olhos se cerraram. Como ela podia estar preocupada com ele, quando estava naquele estado?!
Se pudesse, ele sem dúvidas mataria aquele homem novamente!
– O que você faz aqui? – Questionou entre dentes, tentava conter a raiva, e o impulso de abraçá-la e agradecê-la por se esforçar tanto para proteger alguém como ele.
– Estou trabalhando... – Parecia confusa com a rispidez.
– Você é idiota?! – Os olhos negros se estreitaram. – Não reparou que tanto cuidado vai fazer com que as pessoas duvidem de você?! – Sak sentiu calafrios ao lembrar-se das acusações de Kakashi. – Não pode ficar aqui! – Ela hesitou. Olhou para seu paciente de soslaio, a preocupação estampada nas faces.
Sasuke puxou seu rosto pelo queixo, cuidadosamente, ignorando a consciência que gritava para não iludir a pobre garota. – Você está machucada... – Ele disse com a voz agonizada, e a moça corou. – Machucada por minha culpa. – Ela estava a ponto de retrucar, mas ele prosseguiu; sua voz era tão baixa que mesmo que Kankurou estivesse muito curioso e a sala fosse tão silenciosa, não conseguiria ouvir. – Por favor, não me torture. – Ele contorceu os lábios. – Se quer mesmo que este homem fique bem, saia daqui, porque a minha vontade é de surrá-lo até sangrar, como fizeram com você.
– Sasuke-kun, eles não... – Ele a calou com uma carícia suave sobre o hematoma; incomodou, mas ela não reclamaria do toque dele.
– Eu não ligo. – Ele exibiu um sorriso desgraçado. – Eu não dou a mínima para isso, só quero me vingar. – Esclareceu. Lembrou-se das palavras do irmão mais velho, na noite anterior, e enfim pôde entender como ele deveria se sentir; o porquê de Itachi querer tanto arranjar um culpado para toda aquela desgraça. – Você nos protegeu... Me protegeu, quando deveria ser a protegida. – Estava quase sem ar.
Nunca, em toda sua vida, Sasuke havia se sentido tão frustrado quanto naquela situação, vê-la naquele estado era horrível! E ela só estava assim por sua culpa! Porque ele não foi atento o suficiente, porque não foi forte o suficiente para protegê-la! Se não tivesse caído como um fraco, nada disso teria acontecido: ela ainda teria a delicada pele macia, suave como pêssego, e não sentiria dor.
Seus pensamentos foram interrompidos quando a médica, retribuindo ao seu carinho, deslizou o indicador por sua ferida, agora aberta. – Você me salvou. – Ela murmurou com um sorriso doce, e Sasuke teve que se conter muito para não fazer algo que mais tarde pudesse ser considerado imprudente.
– Por favor... – Sua voz era implorativa. – Saia daqui. Chame à senhorita Shizune... Mas não fique aqui. – Ela queria ficar, mas não conseguiria negar nada naquele momento, quando ele se mostrava tão genuinamente preocupado, então simplesmente concordou com um assentir.
Foi Sasuke quem se afastou, e só assim ela pôde ter coragem de ir, não sem antes curvar-se diante de Kankurou respeitosamente, desculpar-se por sua conduta e garantir que ele seria muito bem tratado por sua veterana.
O caminho de volta para seus aposentos foi muito curto, uma vez que ela não conseguiu esquecer a sensação que o toque do Uchiha causava-lhe; era como se mexesse com todo seu eu, como se um turbilhão de borboletas invadissem seu estômago, todas ansiosas pela próxima carícia.
Ela adentrou em seu quarto após bater à porta duas vezes, quando autorizada por Shizune, e pasmou ao ver a imagem da rainha sentada em uma das poltronas, que ficava ao lado de sua cama, fazendo companhia à sua veterana em um chá.
Claro que a surpresa dela não foi tão grande quanto a da própria rainha, ao ver seu estado. Hinata levantou-se de súbito, esquecendo-se de todo o rancor que inconscientemente nutria pela rosada e se aproximou com uma expressão preocupada. Sak enrubesceu. – Senhorita Haruno! – Ela exclamou com a voz embargada. – O seu rosto...! O seu rosto... ! – Sakura sorriu timidamente, ajeitou uma mexa dos cabelos róseos atrás da orelha.
– Eu estou bem. – Garantiu envergonhada. – Isso não foi nada, e eu já estou pronta para outra! – Hina definitivamente não desejava que houvesse “outra”.
A Haruno curvou-se educadamente. – Minha senhora... Devo perguntar a quê devemos a honra de sua visita? – A morena, então, pareceu despertar.
– Por favor, não se preocupe com a etiqueta. – Ela sorriu-lhe, mas Sak notou que sua expressão era mais pena do que qualquer outra coisa. – Na verdade... – A rainha pareceu-lhe um pouco hesitante, e até arrependida. – Eu vim buscá-la... – Ela admitiu com a voz lenta. – Para uma audiência com meu senhor. – Concluiu com um suspiro longo, e fitou firmemente os orbes esverdeados. – Eu gostaria que conversasse com meu marido.
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Sentia frio, muito frio. Tanto, que acabei por despertar.
Encolhida abaixo das mantas, meu corpo tremia tanto que quase podia sentir os meus dentes trincarem.
Como meus pulmões eram geralmente inúteis no inverno, eu mal conseguia respirar.
Meus olhos varreram o quarto de hospedaria, mas eu não consegui encontrá-lo.
Onde estava ele, afinal? Normalmente, mais que a lareira, mais que as mantas, mais que as roupas, ele era quem me aquecia.
Após fungar muito, limpei o nariz com as costas das mãos. Eu queria levantar e procurá-lo, mas sabia que isso só o irritaria, então após abraçar o travesseiro, tentei voltar a dormir.
A tentativa, entretanto, foi um fracasso, pois eu mal me senti sonolenta e despertei de maneira abrupta pelo arrombar da porta.
Como qualquer criança assustada e doente, escondi-me abaixo das cobertas e espiei por uma fresta.
O invasor era um homem alto do exército do Fogo – conclui isso por seu uniforme. Ele tinha cabelos brancos e parte de seu rosto estava escondido por uma máscara estranha. Estava em posição de guarda, pronto para atacar, eu rezei para que o papai não retornasse. – Procurem! – Ele comandou a outros homens, e só então pôde me perceber, provavelmente meus problemas respiratórios haviam me entregado.
Aproximou-se lentamente, hesitante; embainhou a espada e me ergueu parte da manta escura.
Ele não pareceu surpreso ao ver-me.
Colocou a mão sobre minha testa e após notar minha febre, levantou-se; ergueu-me com facilidade extrema, puxou uma das mantas e cobriu minhas costas.
Comecei a ficar apavorada quando notei que ele me tirava do quarto. – O que está fazendo?! – Questionei com a voz assustada, mas ele não teve a decência de me responder. – Solte-me! O papai vai ficar preocupado se eu sair! – Exclamei enquanto tentava me esquivar dos braços fortes, mas o soldado não me ouviu.
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Agora eu estava sentada, presa naquela sala odiosa.
Os conselheiros, sentados à minha frente, fitavam-me como se eu fosse algum tipo de animal. – Você destratou o príncipe, senhorita Nohara! – A voz da senhora Utatane parecia chocada, mas eu dei os ombros. Não podia acreditar que todo aquele drama era causado pelo simples fato de chamar de “mimado e irritante” um garoto que, sem dúvida nenhuma, era mimado e irritante.
– Já basta! – Kakashi, que também estava na sala, exclamou exasperado. – Você é uma garota, comporte-se como tal! – Meu tutor claramente havia perdido a paciência comigo há muito, mas eu não me importava. Afinal, o ressentimento era recíproco.
– Eu sei o que você está pensando, garotinha. – A conselheira balançou a cabeça como se me censurasse. – Por seu comportamento pouco convencional, creio que serei obrigada a revelar a verdade. – Ela se levantou empinando o nariz; notei Kakashi enrijecer ao meu lado. – Você acredita que merecemos ser destratados, já que a tiramos de seu pai. – Ela caminhava pela longa sala enquanto dizia. – Não acredita que a salvamos, então serei clara: — Ela se aproximou, e agachou-se à minha altura, fitando-me firmemente. – Aquele homem não é o seu pai. – Disse, e eu enrijeci. – Ele não basta de um pária, traidor, assassino! O único motivo de levá-la, provavelmente, foi por vingança.
– Senhora! – Kakashi exclamou. – Ela ainda é uma criança! Não devemos-...
– Sua irmã foi uma bela jovem, muito educada e distinta, ainda que pobre. – A conselheira o ignorou completamente. – Graças a um amor não correspondido por sua irmã, ele matou toda sua família.
– É mentira! – Exclamei imediatamente.
– Mentira? – Os olhos daquela velha lembravam os de um predador. – Então me diga menina: quando você aprendeu a escrever? A falar? A se comportar socialmente? – A resposta seria “após ser levada”, mas eu não quis dar esse gostinho a ela, que prosseguiu. – Aquele homem roubou-a com a intenção de torná-la uma ignorante. Quis vingar-se de seus pais por você, tirando-lhe a oportunidade de uma vida digna!
– É mentira! – Tornei a gritar, mas agora eu chorava.
– Ele quis transformá-la em uma selvagem... E conseguiu.
Kasumi se levantou num súbito, arfando, com o corpo trêmulo e a mente confusa. Levou alguns segundos até notar que estava na casa dos Uchiha, na sua cama. De um dos lados, o berço da filha que dormia angelicalmente, do outro, a preocupada sogra, que tinha em mãos um pano úmido. – Querida, você está bem? – Ela questionou com hesitação. – Quando Itachi levantou para trabalhar, de manhã, você estava ardendo em febre... Então vim cuidá-la. Coloquei esse pano úmido para baixar sua temperatura, será que a assustei? – A nora ainda estava ofegante. Fechou os olhos e aconchegou-se na cabeceira da cama, tentando se acalmar.
Ela aceitou o copo d’água oferecido pela duquesa Uchiha e em questão de poucos minutos estava disposta a uma conversa decente. – Desculpe por isso, minha sogra. – Pediu sinceramente. – Só tive um sonho ruim. – Mikoto a havia criado desde seus doze anos de idade, então sabia bem quando devia e quando não devia perguntar muito. – Que hora são? – A sogra deu os ombros.
– Isso não importa. Itachi não queria deixá-la só, mas tinha deveres a cumprir. E você sabe bem como é seu sogro, nesse tipo de situação... – Kasumi sorriu, mas ainda não parecia de todo calma.
Levantou-se assim que conseguiu controlar suas pernas, foi até o berço da filha e puxou-a cuidadosamente, com medo de acordá-la. – Querida, você está febril! – A sogra avisou com um tom preocupado. – E se passar algo para Akane?! – Mas a outra deu os ombros.
– Sempre tive a saúde frágil, e nunca adoentei ninguém nessa casa. – Ela sorriu de canto para Mikoto, e tornou a fitar a adorada filha.
Era incrível como a menininha tinha o dom de acalmá-la, mesmo após aqueles sonhos. Enquanto balançava sua criança lentamente, Kasumi voltou a pensar nas lembranças. O fato de sonhar com aquele incômodo “dia da verdade” era algo natural, graças à morte daqueles dois velhos sem coração, mas certamente o mesmo não podia se dizer do primeiro sonho, com Kakashi. Maldito Itachi! Provavelmente, graças ao insistente assunto de que “ela deveria ser mais gentil com seu salvador”, ela tinha que relembrar aquela manhã maldita.
Salvador! Para quem?!
Durante a maior parte de sua infância, a senhora Kasumi Uchiha havia vivido como nômade, ao lado do homem que ela havia pensado, durante grande parte de sua vida, ser seu pai. Por curtos dez anos, ela viveu feliz, e então aquele homem odioso foi buscá-la. Todos o viam como seu “salvador”, mas ela sinceramente o odiava, com todas as forças de seu coração.
Graças ao seu comportamento selvagem, aos onze anos de idade, os gentis conselheiros, que agora deviam estar no inferno, decidiram contar-lhe a verdade: Obito era um homem perigoso, o assassino de sua família verdadeira. Ele a havia sequestrado quando bebê, após assassinar os Nohara, e pretendia vingar-se de seus pais usando-a. Eles insinuaram que, visto a sua péssima educação e à visível selvageria em sua personalidade, havia conseguido alcançar seu objetivo.
As palavras que ouviu àquela tarde foram frias e impactantes, e desde então ela decidiu mudar. Claro que só havia conseguido porque Kakashi cedeu sua guarda à família Uchiha, e Mikoto, que era como uma mãe adotiva ensinou-a passo a passo como uma boa mulher devia se comportar.
No fim das contas, ela realmente conseguiu tornar-se uma dama. Mais do que isso, tornara-se a Senhora Itachi Uchiha, esposa supostamente exemplar de um homem importante. – Você está muito pensativa... – Mikoto observou com um sorriso gentil, e Kasumi sentiu seu rosto enrubescer. – Estava pensando em Itachi? – A mais velha tinha animação na voz, e a mais jovem constrangeu-se.
– Por favor, minha sogra!
– Se é sobre Itachi, não preciso me conter. Vamos, diga-me: o que a aflige?
– Ele está trabalhando de mais. – Ela sabia que a duquesa insistiria, então se poupou, dizendo a primeira resposta que surgiu à sua mente. – Então estou preocupada com sua saúde. – Mikoto fez uma careta.
– Não se preocupe tanto, minha querida. Itachi é como um touro, de tão saudável! Já você... – Lamentou-se com um suspiro.
– Devo estar assim por causa das cinzas de ontem, não é nada extraordinário. Meus pulmões são frágeis. – A de cabelos castanhos sorriu-lhe gentilmente. – Logo devo estar melhor. – Garantiu, mas a Uchiha fez uma careta.
Mikoto puxou a neta dos braços da nora, tornou a deitá-la no berço e encobriu a esposa de Itachi como se estivesse obrigando-a a voltar a dormir. – Vamos, vamos! Eu vou ficar com você. Até essa febre baixar, você não vai dar um passo, ouviu? – Kasumi riu, mas anuiu.
Encolheu-se na cama, mas não quis voltar a dormir, pois ela sabia que se o fizesse, sonharia com os conselheiros, e mesmo em sonho, ela não queria voltar a sentir a dor daquelas insinuações.
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Acordar às cinco da manhã, após estar sem dormir há dois dias não era a coisa mais agradável do mundo, especialmente pelo fato de que ele estaria em pé essa hora justamente para a atividade que, particularmente, achava mais desagradável: análise de um corpo morto.
Após buscar as informações necessárias com Genma, Shikamaru seguiu até a casa de seu único amigo de confiança.
Chouji Akimichi era um gorducho, amigo de Shikamaru, e conhecido desde a infância. Eles cresceram juntos, graças à influência dos pais, mas só vieram a se relacionar realmente após se tornarem pupilos do falecido Asuma. Desde então, tornaram-se inseparáveis.
Pelo fato do senhor Akimichi gozar de toda absoluta confiança do comandante Nara, ele foi o único convidado a participar da missão, que não era bem uma missão, já que ninguém os mandou fazer nada. Ainda assim, não tinha mais jeito: já estava prometido, então Shikamaru – e consequentemente Chouji, que era como sua sombra – iriam averiguar o corpo morto. A tarefa seria horrível, considerando que já faziam quase três dias que o defunto estava dentro daquela caixa. – Shikamaru, você tem certeza disso? – Seu fiel amigo questionou com hesitação na voz. – É meio nojento... – O outro suspirou preguiçosamente.
– Agora já estamos aqui, não tem mais jeito. – Ele murmurou antes de erguer a tampa de madeira que fechava o caixão improvisado, o que fez o cheiro de cadáver exalar por todo o cômodo. Por sorte, os soldados já estavam preparados, com máscaras de pano no rosto – e ainda assim era bastante desagradável!
O trabalho já deveria ter sido feito muito antes, por uma equipe especializada, logo após Sasuke terminar o “trabalho sujo”. Aparentemente, a ausência dos conselheiros também afetava a inteligência do alto escalão do exército.
“- Se existe mesmo alguém que invadiu a torre, esse alguém deve conhecer bem o lugar, não é? Se forem pessoas do exército, nós estaremos perdidos.”
As palavras da senhorita Sabaku tornaram a atormentá-lo. Shikamaru odiava pensar que existia algum traidor entre os seus, mas a indagação da jovem moça fazia todo sentido.
Depois da longa noite mal dormida, criando desculpas para meter o bedelho onde não fora chamado no intuito de cumprir sua promessa, ele refletira sobre o tamanho daquela sujeira, e concluiu que, de um jeito ou de outro, alguém que conhecia a Torre havia participado da invasão.
Independentemente dos Sunas serem ou não culpados, ninguém que não conhecesse o palácio se movimentaria tão bem, e tão rápido, a ponto de matar os conselheiros e sair do lugar sem ser notado. Não, aquilo era impossível. Quem quer que fosse o culpado sabia muito bem onde estava entrando, com quem lutaria e por onde sairia sem chamar a atenção dos guardas sempre postos aos portões.
Alguém havia vazado informações.
Havia um traidor entre eles.
– Shikamaru! – Chouji exclamou de repente, tirando o rapaz de suas horríveis conclusões. – Ele tem uma cicatriz estranha... – O gorducho fez uma careta. – Parece a forma de algo. – Imediatamente, o inteligente da equipe tomou seu lugar e analisou a pequena marca, uma cicatriz na nuca, escondida pela cabeleira do morto; provavelmente havia sido feita com alguma lâmina, e tinha forma de uma nota musical.
Não pôde evitar o sorriso, pois aquilo era o suficiente. – Aparentemente, nossos amigos do som voltaram a nos atormentar...
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– Você está me ouvindo, garoto? – Tsunade tinha a voz aflita de preocupação, mas Naruto não estava com disposição para ouvir sobre o que devia ou não fazer. – Nós devemos nos apressar: novos conselheiros devem ser escolhidos!
– Vovó Tsunade, a senhora certamente vai saber escolhê-los melhor do que eu. – O rapaz suspirou longamente. – Então nós realmente devemos ter essa conversa? Sabe que eu confio plenamente em seu julgamento, então apenas escolha, e me diga o que fazer. – A loira não pareceu contente com o desinteresse do neto, e continuou a insistir:
– Querido, você precisa começar a se responsabilizar. O que dirão os nobres se passarmos mais um dia sem conselheiros? É sempre bom ter mentes sábias para ouvir, meu neto. Assim, não se sentirá tão pressionado. – Na percepção de Naruto, a insistência dela parecia pressão o suficiente.
Ele estava a ponto de declarar esse pensamento quando foram interrompidos pela entrada de Shino, que tinha como propósito anunciar Hinata. – Por favor, minha avó. – Ele disse depois que o guarda saiu, após autorizar a entrada da rainha. – Eu não tenho a mínima ideia de quem é quem aqui dentro, então sua opinião é crucial. Se a senhora quer que eu escolha, tudo bem. Mas faça uma lista com pessoas de confiança, pois só assim conseguirei estar certo da minha decisão. – Um pouco mais conformada com o pedido do rapaz, Tsunade concordou antes de se retirar.
Hinata guiou Sakura até a saleta particular de seu marido – que de particular não tinha nada, e mais servia como “sala de reuniões”. O lugar era grande, e nem um pouco aconchegante: as paredes eram vermelhas, intimidadoras, com livreiros postos em alguns cantos da sala, e pinturas velhas espalhadas em outros.
Naruto estava sentado em uma mesa de chá, livrando-se da xícara quando notou as moças. Ele se levantou cordialmente, um pouco surpreso com a presença da Haruno.
– Meu senhor. – Hinata se curvou, e foi imitada por Sak. Naruto não gostou daquilo. – Assim como prometi, trouxe-lhe a plebeia, senhorita Haruno. – Sakura incomodou-se com o termo, e o loiro pôde perceber. Afinal, eles haviam crescido juntos, portanto reconhecia qualquer reação da rosada.
Ainda que estivesse incomodada, Sakura preferiu ignorar o sentimento. Ela sorriu, como se nada tivesse acontecido, e após curvar-se diante o rei, cumprimentou-o com um aceno. Só então Naruto pôde perceber suas feridas.
Ele arregalou os olhos e aproximou-se apressadamente; segurou firme nos braços da Haruno e, assustado, perguntou: — Mas o que diabos foi isso no seu rosto?! – Com uma voz alta demais.
– Oh, isso? Não foi nada. Por que todos que olham para mim ficam apavorados desse jeito?! – Ela suspirou longamente, como se lamentasse o fato, mas Naruto não pareceu achar graça.
– Como isso aconteceu? Foi na invasão? – O rosto da moça corou, e ela anuiu lentamente. – Eu vou matar todos aqueles malditos Sunas! – O loiro exclamou decidido, e tanto os orbes verdes de Sak, quanto os perolados de Hinata se arregalaram.
– Meu senhor! – Sua esposa exclamou, tornando a se aproximar. – Prometeu uma averiguação ao Kazekage! Não pode tomar uma decisão tão precipitada! – O fervor de Hinata em defender o Sabaku o incomodou inexplicavelmente. Ele soltou os ombros de Sakura e voltou-se à sua rainha com um olhar possesso.
– Como pode defendê-los desse jeito?! – O Uzumaki exclamou furioso, e apontou para a amiga. – Você vê isso? Vê o que eles fizeram a ela? A mulher que eu amo?! – Ambas sabiam disso, mas ouvir falá-lo foi mais impactante do que imaginavam, para as duas. – Eles a machucaram! Quando ela estava me defendendo! Eu não vou perdoar, não vou deixar que escapem intactos! – A Haruno começava a sentir uma imensa vontade de se atirar do segundo andar da torre, mas estava tão sensibilizada com a expressão sofredora da antiga senhorita Hyuuga que não pôde se mover.
Hinata parecia estar sofrendo muito pela atitude do marido, então a Haruno concluiu que a moça deveria estar apaixonada, portanto, não podia sequer mensurar a dor que devia sentir naquele momento. – A explicação do senhor Sabaku é aceitável, e não existem motivos para que seu reino ataque o nosso! – Ela tentou ser firme.
– Pare de defendê-lo! – O Uzumaki gritou. Não sabia se estava mais enfurecido com a amiga com o rosto naquele estado, ou com a esposa teimosa.
– Na verdade, eu concordo com a rainha. – Sakura se pronunciou inconscientemente, pois estava agoniada com o sofrimento estampado nos olhos da morena, que a fitou com um rancor naturalmente palpável.
Ela sorriu tímida ao ter todos os olhares em sua direção, e prosseguiu. – Você deve lembrar-se, Naruto, que eu também sou de Suna. – Ela disse com a voz moderada. – Eu conheço bem meu povo, sei que não fariam algo assim. O Kazekage é inteligente o suficiente para calcular os prejuízos de um ataque desse tipo. – Naruto não respondeu. Ele ficou em silêncio por alguns minutos, provavelmente para conseguir se controlar.
– Você devia ir, Sakura. – Ele disse calmamente. – Vá, descanse... Sua cara está péssima... Por favor, cuide desses hematomas. – A rosada concordou, sinceramente grata pela preocupação do amigo, esquecendo-se completamente da declaração indireta que ele havia acabado de lhe fazer. – Eu vou arranjar uma forma de recompensá-la. – Prometeu; seus olhos azulados cheios de sentimento. – Então, por favor, perdoe-me por ser um fraco, por deixá-la passar por algo assim. – A rosada riu, e negou com a cabeça.
– Você não é o culpado de nada. – Garantiu com um sorriso genuíno. – Eu fiz, e faria de novo. – Hinata sentiu-se incomodada, pois estava sendo claramente excluída. – Eu fico grata por sua preocupação. – A Haruno curvou-se. – Agora seguirei seu conselho: vou descansar e melhorar minha cara. Eu devo mesmo estar muito ruim, já que todos vocês se surpreenderam. – E após um aceno, e um “até mais ver”, ela deixou-os a sós.
Demorou um minuto até Naruto falar com a esposa. – Vamos para o quarto. – Foi o que ele disse, com a voz gélida, e intimidadora.
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Quando Obito adentrou a sala de reuniões improvisada àquela manhã, todos já estavam reunidos, conversando baixo, provavelmente sobre a última crueldade protagonizada pelo líder da Akatsuki.
Ignorando os olhares de reprovação lançados pelos três fundadores, ele caminhou em passos apressados até sua cadeira, que ficava na ponta da mesa retangular. – Quais são as últimas informações? – Ele questionou indiferentemente, enquanto se servia com um pouco de água.
Yahiko olhou para Konan, Nagato e enfim para o moreno. – Parece que o soldado que eliminou o garoto do Som o reconheceu da festa, então todos estão desconfiados de Suna. – Obito ergueu ambas as sobrancelhas, realmente surpreso. – Ao que parece, o governo não vai fazer anúncios ao povo sobre suas suspeitas até que elas se concretizem. – O Uchiha anuiu.
– É claro, querem mostrar serviço. De que adianta acusar o país dos Ventos, que são aliados? Só vai causar pânico nas pessoas...
– O que nós faremos agora, Tobi? – Nagato suspirou longamente. – Se um novo herdeiro chegar do nada é claro que vão desconfiar. Afinal, o príncipe sofreu um atentado! – Obito pareceu refletir antes de responder.
– É verdade que levantaremos suspeitas, mas faríamos de qualquer forma. – Ele disse com a voz cautelosa. – Então seguiremos com o mesmo plano. Primeiro, esperamos a poeira baixar, uma hora ou outra eles vão arranjar culpados. Quando isso acontecer, nós aparecemos, contamos ao príncipe a história podre de sua família e serão obrigados a aceitá-lo. Eu tenho certeza de que o povo vai gostar de saber que o filho único de Nawaki Senju está vivo, é um homem feito, um herói reconhecido na miserável vila da Chuva e pai de família. – Ele sorriu, confiante. – Certamente, uma escolha muito melhor do que um moleque desmemoriado, sem nenhum conhecimento político. – O ruivo suspirou longamente, aconchegou-se na cadeira e olhou para o teto fixamente.
– Estou ansioso para ver a reação, tanto da tia Tsunade, quanto do meu tutor... Aqueles mentirosos.
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Naruto adentrou no quarto com pisos firmes, claramente frustrados. Hinata seguia ao seu encalço, preocupada, temendo que seu esposo viesse a explodir a qualquer momento.
Aconteceu após Shino fechar a porta. – Mas o que é que você fez?! – Ele gritou alto o suficiente para que o segurança da rainha pudesse ouvi-lo do lado de fora. – Ficando do lado de traidores dessa maneira! Pensei que éramos cúmplices, mas você é como todos os outros! – Praticamente cuspiu as palavras. – Você a ameaçou, não é? Sabia dos meus sentimentos por ela, então a fez defendê-los!
– Eu nunca fiz isso! – Ela exclamou ofendida.
– Sakura ficou órfã muito cedo, nós fomos criados da mesma maneira. Ela não tem laços com seu país, então não os defenderia!
– Entretanto, ela defendeu. – Os olhos azuis de Naruto se cerraram.
– Eu nunca pedi para que a convocasse, para começo de conversa! Viu o estado em que ela estava?! Ainda por cima por minha culpa! – Hinata sentiu o corpo enrijecer, mas ainda assim riu de forma irônica.
– Ora essa, é claro! – Exclamou sarcástica. – Embora eu não acredite que toda aquela coragem nasceu para te proteger, meu senhor. Lamento informá-lo, mas creio que o maior interesse da senhorita Haruno, naquele momento, foi prezar pela vida de Sasuke. – Naruto estreitou os olhos.
– O que está dizendo?! – Ela apertou a saia do vestido.
– Está muito claro, para qualquer um que queira ver, os sentimentos da senhorita Haruno para com o senhor Uchiha. Ela está claramente apaixonada, mas não se preocupe. – Adicionou quando viu o rosto do Uzumaki tornar-se avermelhado. – Não acredito que meu primo tenha imprudência para aceitá-los. – Naruto se aproximou lentamente, seu corpo parecia exalar ódio.
– Tente dizer isso mais uma vez. – Desafiou, e ela sentiu seus olhos queimarem. – Diferente de você, o Sasuke é meu amigo. Eu nunca precisei dizer, mas sei que ele conhece meus sentimentos, e nunca faria algo para me desrespeitar. – Hinata teve que piscar rápido para conter as lágrimas.
– É verdade! – Ela disse com a voz embargada, desviando o olhar dos olhos intimidadores. – Ela está apaixonada por ele, e não pelo senhor! – E tornou a fitá-lo. – E o único motivo de eu estar defendendo os Sunas, é para que possa evitar uma tragédia! Não é só pelas relações, não é só pela economia do país, ou da minha família... Sei que se lamentará, caso faça um mau julgamento, assim como eu irei! – Mas Naruto não se sensibilizou, continuou a fitá-la com aquela expressão fria.
– Oh, é verdade... Então você só está fazendo isso pelo Kazekage, não é? Sua família tem negócios com Suna, então o está protegendo... Diga-me, Hinata... Se ele é assim, tão importante para os Hyuuga, a ponto de você estar tentando manipular todos ao meu redor, para formar o meu julgamento, porque não se casou com ele? – Aquela foi à gota d’água. Lágrimas pesadas inundaram o rosto da Hyuuga, e ela não se conteve: acertou um tapa violento contra o rosto do marido, desarmando completamente o Uzumaki.
– O que você está dizendo?! – Ela gritou entre lágrimas. – Eu nunca pensei em tal possibilidade, nem meus pais! E não houve um homem no mundo que eu realmente quisesse me casar, além do senhor! – Ela escondeu o rosto com as mãos, chorando incansavelmente. – Por Deus! Sasuke é como um irmão, e ainda assim, eu não pude sair do seu lado! – Não conseguia cessar as lágrimas. – Enquanto você estava ferido, ainda que estivesse desacordado... Eu não pude deixá-lo só! E ainda assim, você me diz essas coisas... Eu só quero ser uma boa rainha, quero respeitar a memória de sua mãe! Só desejo estar ao seu lado, ao lado do meu marido, e ajudá-lo a fazer boas decisões! Eu sei que se preocupa com a garota Haruno! Sei que está apaixonado por ela, você não precisa gritar isso, para que eu entenda! Mas será que não pode, nem por um momento, pensar nos meus sentimentos? Pode tentar se preocupar comigo?! – As perguntas foram feitas aos gritos e a resposta a elas foi um inesperado beijo, surpreendentemente apaixonado, que a fez perder o chão.
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