The King
8 Capítulo VIII – Arranjos.
Notas iniciais

Capítulo VIII – Arranjos.
Já fazia muito tempo desde a última vez em que Hinata Hyuuga sentia-se rejeitada, e ter aquele sentimento novamente preso na garganta definitivamente não era uma coisa agradável.
A introdução ao príncipe, diferente do que ela havia imaginado, não foi como a primeira vez. Ele não lhe recebeu com sorrisos tímidos e expressões alegres, mas sim clara surpresa e desagrado com a notícia. Embora ela compreendesse que, de fato, era natural que um rapaz que fora criado ignorante a todas as suas responsabilidades se comportasse de maneira tão infantil diante um contrato – porque era assim que ela e sua família viam o casamento – que obviamente seria mais favorável para eles, da monarquia, do que para os próprios Hyuuga. Afinal, o pai poderia muito bem apoiar as frentes revoltosas que se erguiam em outras cidades desde o falecimento de Kushina e Minato, mas ele jamais sequer pensou na possibilidade.
Hinata suspirou tristemente, ao notar quão melancólicos e revoltados pareciam seus pensamentos, ainda para si mesma. – Você está bem? – A voz de Neji, embora moderada, era de pura preocupação.
– Só um pouco cansada. – A prima mentiu. Ele sabia que era uma mentira, pela expressão pálida dela, então alisou as madeixas azuladas de maneira gentil. – Eu digo a verdade, Neji. Estou bem. – Insistiu, mas ele não pareceu acreditar.
Para a sorte de ambos os jovens, Hiashi estava animado demais com o fato de voltar a se tornar o sogro do herdeiro, portanto estava muito ocupado admirando e exclamando as belezas das paisagens, e como Hina seria sortuda em ter A Torre como seu lar, ainda que fosse respondido com “sim, papai” e “certamente, senhor”, que não demonstravam nenhuma animação palpável. – Aquele rapaz não foi educado. – Os lábios do primo se contraíram com desagrado. – É um mal criado, um irresponsável que não consegue enxergar as responsabilidades que tem por carregar um reino nas costas! Ele acha mesmo que um casamento com você, justamente você, a mais preparada, mais justa, a mais apropriada para ser a rainha deste inferno, vai ser o maior de seus problemas? Infantilidade! – Hina riu da visível expressão de revolta do primo.
– Não diga isso de novo, meu primo. – Alisou o rosto daquele que, para ela, era como seu irmão. – Eu não quero que você morra. – O rosto do mais velho corou, e ele teve que desviar dos olhos bondosos da moça.
– Por que têm essas expressões tristes?! – Hiashi questionou assim que percebeu; seu sorriso ia de orelha a orelha. – Enfim estamos nos lugar que nos é de direito: caminho à monarquia! Sei que Hinata será uma rainha estupenda; não tenho dúvidas que todos os civis se curvaram aos seus pés, minha adorada filha! – E riu, cheio de alegrias. – Assim que chegarmos em casa, avisarei à Tenten que separe seus vestidos. Você, minha adorada, deve separar as coisas que tiver maior apreço. – Aquilo a surpreendeu.
– Posso perguntar por que eu deveria, meu pai? – Ela estava alarmada para a resposta; Hiashi pareceu surpreso, assim como Neji.
– Hinata, não ouviu nossa conversa? – Foi Neji quem expressou sua confusão, fazendo-a corar consideravelmente. Na realidade, não. Ela não havia prestado atenção em uma única palavra desde que Naruto fixou os olhos cheios de tristeza nos dela.
– Você será acomodada na Torre o mais rápido possível, querida. – Hiashi explicou com um sorriso gentil. – Eles dizem que deve ser educada para assumir seu papel. – Revirou os olhos. – Como se aquele garoto fosse mais preparado para ser rei do que você, para ser rainha. – Murmurou como se fosse uma piada.
– Exatamente, meu tio! Ainda há tempo até que os preparativos para o casamento estejam prontos. Por favor, senhor... Pense em sua filha: como Hinata se sentirá sozinha naquele lugar?! – O rosto da Hyuuga corou.
– Não se preocupe! – Ela se apressou em exclamar. – Eu estarei bem. – Afirmou com um sorriso, que foi retribuído pelo pai, que tornou a admirar as paisagens. Mas, como sempre, assim que os olhos do senhor Hyuuga se focaram em outra coisa, os da filha se esvaziaram, enquanto ela imaginava o quão difícil seria aquela estadia.
O primo, embora a amasse mais do que sua própria vida, nada poderia fazer. Portanto, envolvendo-a com braços, ele a acolheu; sabia que ela queria chorar, mas também sabia que ela não o faria, pois era forte demais para isso.
Na cabeça da senhorita Hyuuga, o contraste do sorriso com o rancor do príncipe dançava juntos, como uma piada de mau gosto. E ela, pela primeira vez, temeu não ser feliz por cumprir seu papel como primeira filha do nome Hyuuga.
Afinal... Aquele que construiu sua autoestima foi Naruto, e ele era o único que poderia destruí-la.
~
– Seu grande idiota! – Moegi bateu com a mão sem piedade na cabeça daquele molequinho estúpido.
Konohamaru era, sem duvida nenhuma, uma das criaturas mais idiotas da cidade imperial, mas ela jamais imaginou que tamanha imbecilidade poderia chegar a tal ponto, de modo a transformá-lo um procurado.
O garotinho revirou os olhos. – Não acho que ninguém tenha me reconhecido. – Murmurou enquanto bebia o líquido quente que a mãe de sua amiga lhe havia oferecido.
– E se me reconheceram?! Tem noção dos problemas que pode causar à minha família, ou a mim?! Sabe que sou sua amiga, Konohamaru, mas não ponha a segurança e integridade da minha família em risco! – Ele bufou.
– Bobagem; eles não vão fazer nada contra vocês. Se vierem, juro que mato a todos. – A resposta da ruiva foi outra palmada na cabeça do estúpido amigo.
– E como você pretende fazer isso, grande gladiador, se nunca nem sequer ficou para enfrentar os senhores de que rouba?! – O rosto do garoto queimou em constrangimento, e ele desviou o olhar.
– Não seja do contra, Moegi. É injusto que o povo seja movido por um príncipe perdido! Nós não o conhecemos! Sabemos suas origens, mas não como foi criado! Como poderíamos colocar toda nossa fé, toda nossa esperança em um desconhecido, só porque o pai foi um herói? Que utopia achar que apenas o sangue pode transformá-lo...
– De fato, o sangue parece não ser nada! – A garota praticamente cuspiu as palavras. – Se fosse, você poderia ser um herói, como todos os da sua família foram! – Aquela foi a gota d’água. Ele se levantou possesso, e agarrou o pulso da amiga com força suficiente para machucá-la. Mas a garota era tão teimosa quanto ele, e não deixou de encará-lo por um instante. – Não seja prepotente a ponto de achar que é melhor que ele. Como você mesmo disse, nós não o conhecemos. Mas sabemos quem o criou! Não foram aqueles conselheiros nojentos, que fingem ser respeitados por todos, não foram os militares, nem sequer a princesa! Foi Jiraya! Jiraya, O General do Povo! O pai de Minato! Não precisa confiar no príncipe, mas tenha a decência de confiar no pupilo de seu avô! – Os lábios do rapazinho eram como uma linha fina e irritada; se fosse há um ano, ele provavelmente estaria chorando diante daquelas palavras. Ao invés disso soltou Moegi, e não se preocupou com os hematomas que causara.
– Agradeça à sua mãe pela comida e bebida. – Murmurou antes de pular a janela para fora da casa simples, sem nem imaginar que aquela atitude faria Moegi chorar.
Ele caminhou por ruas desertas, porque embora cresse que não havia sido reconhecido, não podia ter certeza absoluta. Com as mãos afundadas nos bolsos furados, amargou todas as certezas da melhor amiga, e se perguntou se, de fato, não estava sendo radicalista.
Enquanto caminhava, inconscientemente, suas memórias se voltaram há sete anos, quando seu mundo ainda tinha algum brilho.
Ele estava sentado, brincando de xadrez com a mãe, quando tio Asuka, com um rosto pálido e olhos angustiados; ele adentrou na casa às pressas. Pela primeira e única vez, ele gritou com o sobrinho: — Saia daqui, menino! – Havia exclamado. – Preciso falar sozinho com sua mãe. Vá para seu quarto! Agora! – Embora o respeito pelo tio fosse muito grande, sua curiosidade e traquinagem eram ainda maiores, e ele acabou por se esconder atrás de uma parede para ouvir a conversa. – Eles mataram o papai, irmã. – As palavras causaram tremenda dor, tanto à Asuma quanto à sua irmã e ao sobrinho, que ouviam.
A mãe de Konohamaru desatou a chorar com desespero palpável, mas o menino não conseguiu ter nenhuma reação, além de arregalar os olhos, porque era simplesmente impossível imaginar um mundo sem o seu avô teimoso. – Aqueles malditos oportunistas... Finalmente conseguiram matar o papai! – Asuma murmurou entre dentes, sua voz soava embargada.
A mulher exclamava frases incompreensíveis; entre elas, o filho só pôde identificar “você está mentindo!” e “isso não é possível!”, mas não houve negativas da parte de Asuma, e isso significava que, de fato, o velho Hiruzen Sarutobi estava morto.
Konohamaru só retornou à órbita natural ao bater no braço de um estranho que estava parado no meio da estrada. O homem era alto, ruivo como Moegi e estranho. Ele nunca havia visto ninguém como ele por aquelas bandas. Como estava irritado, e nada disposto a ter problemas com mais desconhecidos, se esquivou sem pedir desculpas e tornou a andar cabisbaixo. – Você é Konohamaru Sarutobi? – O homem perguntou, fazendo-o parar.
O moreno o encarou com as sobrancelhas arqueadas. – Quem quer saber? – Não houve sorrisos irônicos, que são normais por vilões; o homem apenas o olhou com os mesmos olhos calmos e com pouco interesse.
– Poderíamos conversar?
~
A biblioteca da Torre era definitivamente a maior de todo o país. Tal fato, entretanto, tornava-se tristonho se considerasse quão poucas pessoas liam ali. A sala geralmente era mais utilizada como local de reuniões do que como biblioteca propriamente dita.
Mas aquele era um bom lugar: tranquilo, muito pouco frequentado e silencioso; o local perfeito para se ter uma discussão com as poucas pessoas que eram da confiança de Naruto.
Jiraya e Tsunade estavam sentados, observando o rapaz Uzumaki andar de um lado para o outro, visivelmente possesso consigo mesmo, e com a situação que havia se metido. Afinal, porque diabos ele foi decidir ficar naquele lugar?! Deveria, há muito tempo, ter fugido para o exterior com Sakura, Jiraya e Tsunade! – Droga! – Ele exclamou, jogando um livro qualquer contra a parede. – Eu não posso me casar! – Praticamente gritou enquanto olhava para a avó, que baixou a cabeça.
– Não se comporte como uma criança. – Jiraya suspirou. – Não é como se quiséssemos que isso acontecesse.
– O que eu deveria fazer?! Eu não posso me casar, amando outra pessoa! – Justamente nesse momento, a porta se abriu, e dali a própria Sakura surgiu, espirrando exatamente no momento em que seu nome era dito.
Diante os olhares tensos dos três presentes na biblioteca, ela julgou que seria melhor fechar, e rápido, a porta, e assim que o fez Naruto se aproximou desesperadamente; ele a abraçou forte, surpreendendo-a. – Sakura! – Clamou o nome como se não o dissesse há décadas. Depois se afastou, segurou os braços da Haruno e olhou fixamente nos orbes esverdeados assustados. – Sakura! Vamos fugir! – Jiraya levantou-se imediatamente.
– Naruto! – Ele exclamou com censura.
– Não importa o que vocês digam! Eu não vou me casar com uma desconhecida, e sei que a senhorita Hyuuga também não deseja isso! – Sak baixou a cabeça, que foi logo erguida pelas mãos trêmulas do príncipe. – Sakura... Vamos! Eu vou te proteger, prometo... Podemos ir para Suna, não é tão longe de Konoha. – O silêncio definitivamente era a resposta mais dolorosa que ele podia ouvir. – Você não quer ir... – Ele cambaleou, sem forças ao concluir.
– Desculpe. – Ela murmurou antes de correr para fora.
~
Aquela casa era pequena e humilde, porém não pobre como outras naquele reino. O lugar, mais do que muitos, era aconchegante e quentinho; tudo o que qualquer jovem pobre poderia desejar. Ainda assim, a pessoa que poderia desfrutar do conforto que a casa oferecia e do amor que estava guardado no peito da nova dona recusava-se.
O choro do bebê fez com que Kurenai despertasse de seus devaneios; ela deixou a refeição de lado e apressou-se em atender ao chamado de seu filho.
O pequeno Asuma Yuuhi era perfeito; assim como o falecido pai, possuía uma pele bonita e saudável; olhinhos castanhos e brilhantes e cabelos que, embora tivessem a mesma cor dos da mãe, pareciam com os do pai.
Com cuidado extremo, ela pegou o pequeno chorão e ninou-o amorosamente, quando o soar de alguém batendo na porta lhe chamou a atenção.
Ainda com o bebê nos braços, ela foi atender à única pessoa que lhe dava as graças de uma visita.
Shikamaru sorriu ao ver seu afilhado, e alisou a cabeleira negra. – Sinto falta de quando ele era vermelho. – Murmurou com um sorriso, e Kurenai, ainda que sorrisse, suspirou. – Eu vi Konohamaru. – Aquilo a surpreendeu.
– Onde ele está?! – Praticamente empurrou o rapaz da porta, mas não tinha nada para ser visto, além da chuva que começava a cair. – Você não o trouxe?! – Ele deu os ombros.
– Ele saiu correndo antes mesmo que eu pudesse tentar.
– E porque veio me falar isso?! – A mulher praticamente gritou, estava frustrada pela incompetência de alguém tão jovem.
– Eu não vim. – Ele abafou uma risada. – Só achei que gostaria de saber. Na realidade, estou aqui em missão. – A sobrancelha negra da mais velha se arqueou.
– O que o reino poderia querer de uma desvinculada como eu? – O rapaz suspirou; coçou a nuca e adentrou mais fundo na casa.
Só depois de se sentar, mesmo estando molhado e não sendo convidado, começou a falar. – Já deve saber que o herdeiro está de volta. – Ela assentiu enquanto se sentava em uma cadeira ao lado do sofá. – Com isso, os adoráveis Hyuuga voltaram a o poder – Kurenai fez uma careta. –Hinata foi escolhida como noiva mais uma vez. – Explicou. – Os conselheiros querem que você se torne a educadora. – A risada da morena foi tão alta que o bebê começou a chorar; ainda assim, ela não cessou as gargalhadas; murmurava “acalme-se, querido” entre gentis sacudidas, mas não conseguia recompor-se.
– Novamente lhe pergunto: o que querem com uma desandada como eu?! Não pensei que gostariam de ver meu rosto uma segunda vez, depois de meu menino nascer. – Ela ainda ria, mas com mais prudência.
– Bom, eles não tem muitas escolhas. Binako Sarutobi seria uma boa escolha, mas sabemos que ela está morta. – Os olhos vermelhos da Yuuhi se reviraram; ela odiava piadinhas de mau gosto, especialmente com pessoas que respeitava. – E como você foi a pupila da senhora Sarutobi, é a melhor opção. – Kurenai não parecia convencida, e por pelo menos meia hora, enquanto ninava o filho, discutiu o quão improvável seria aquilo.
– Shikamaru, — insistia ela. – Eu sou mãe solteira; meus pais me deserdaram e se Asuma não fosse inteligente o suficiente para me colocar em seu testamento, e sua gentileza em dar parte de seus lucros para nosso sustento, nesse momento eu estaria na rua, pedindo esmolas com meu filho nos braços! Não acho que seja o melhor exemplo de professora para uma aluna jovem, bonita e com futuro, como Hinata Hyuuga. Estou certa de que sua família vai se contrariar. – Mas o Nara simplesmente deu os ombros.
– Até que a filha se torne rainha, Hiashi vai ficar em silêncio a tudo o que for contra. Por isso, não se preocupe tanto. No exército, todos respeitavam muito o mestre Asuma, então não creio que terá problemas com falatórios, exceto nas nossas costas, pelas empregadas. – E então ele sorriu. – Faça isso, Kurenai. Vai ganhar um bom dinheiro, quem sabe até o suficiente para limpar seu nome. – A mulher suspirou. – Faça por seu filho, se não por você. Essa criança não merece ser motivo de chacota. Se a rainha lhe respeitar, os outros também respeitarão, sabe disso.
– Não sei se vale a pena suportar um Hyuuga.
– Eu ouvi dizer que ela é amada por crianças da vila; talvez seja diferente dos pais. – O rapaz ponderou. – Você também não se parece com seus pais, então porque a julgaria pelos dela? Vamos, mulher! – Ele se levantou com um sorriso surpreendente animador. – É um bom trabalho! Um trabalho respeitoso, que vai calar a boca de todos.
– Ainda não consigo entender porque eles fariam algo assim... – Os olhos dela estavam pensativos, então o rapaz, ainda que hesitante, decidiu que seria melhor explicar seu ponto de vista.
–... Veja, eu também desconfiei, inicialmente... – Ele começou. – Eles devem muito aos Sarutobi. E... Os últimos que restam são este menino e Konohamaru. – Ela não respondeu. – Eu te disse que vi Konohamaru hoje... Ele se fez de rebelde e jogou uma maçã no príncipe. É claro que ele foi reconhecido, mas assim que o nome chegou aos ouvidos dos conselheiros, foi imediatamente decidido que “se tratava de uma infantilidade qualquer”, e deixaram de persegui-lo. – A mulher, então, se levantou; caminhou até a janela com passos lentos e hesitantes, e passou a observar o pavimento cinza que a chuva torrencial de novembro molhava.
– Temo que, se eu aceitar isso... Jamais veja esse garoto de novo. – Ela murmurou com angústia, e olhou de lado para o pupilo do amado.
Shikamaru suspirou. – Não falemos disso agora, você tem mais algumas horas para pensar... Por enquanto, faça-me um chá, eu fico com Asuma. – Depois da morte de seu amado Asuma, o rapaz Nara fora o único que apoiara a viúva Sarutobi. Ainda que não fosse sua responsabilidade, de fato, ele sentia que tinha o dever de cuidar da família que o mestre havia deixado para trás.
Não se importava com as fofocas incansáveis que eram geradas por um homem solteiro entrando na casa de uma mãe solteira, e praticamente sustentava mãe e filho. Kurenai sabia que aquele era um peso que ele não devia carregar, e estava tão grata que dificilmente recusaria qualquer pedido do jovem.
Ela estava perdida nesses pensamentos enquanto preparava o chá, quando um barulho a despertou; o barulho alto da porta sendo aberta com violência, que a fez correr imediatamente para a sala de estar onde estavam Shika e Asuma, sem se importar em deixar o fogo aceso.
A preocupação, entretanto, tornou-se surpresa quando viu Konohamaru ofegando, vermelho, molhado e sujo. Os olhos castanhos do garotinho estavam arregalados e visivelmente assustados, e ela não hesitou em acudi-lo. – Konohamaru! – Exclamou, balançando-o pelos ombros com gentileza e cuidado. – Você está bem? – Ele demorou um pouco para responder.
Os olhos chorosos do menino fitaram os avermelhados da tia de consideração e ele se conteve para não cair em lágrimas ali mesmo. Ajoelhou-se e abraçou a Yuuhi antes das grossas lágrimas começarem a escorrer por seu rosto. – Por favor, tia. Perdoe-me! – Ele exclamou, surpreendendo a todos. – Deixe-me voltar para a casa!
~
Duas carruagens foram necessárias só para levar tudo o que Hinata “queria” para o castelo. As aspas, queridos leitores, são necessárias, pois não era a garota que de fato pensava na necessidade dos acessórios, e sim sua mãe.
A senhora Hyuuga era uma mulher extremamente ignorante a assuntos que não fossem vestidos, cabelos ou arte. Ela não lia muito, portanto não tinha, nem de longe, o necessário que toda mulher precisava para ser considerada culta. Isso tudo era oposto à filha, a quem ela julgava de “tola e inexperiente”.
Embora a futura princesa insistisse que tudo o que precisava eram seus livros e os vestidos mais bonitos, sua senhora não permitiu que uma página de seus diários entrasse nas malas; o único pedaço de papel permitido foram os quadros mais bonitos que Hinata, em um dia de sorte, havia conseguido fazer – pois ela definitivamente não era muito boa em pintura.
Ainda que Hiashi conhecesse a esposa, sabia que ela não estava de todo errada. Ele mesmo julgava o hábito de escrever da filha algo bobo e sem sentido, já que desde que nascera, estava decidido que a menina não precisaria fazer muita coisa. A garota via isso de forma diferente; ela cria que, se fosse uma rainha, deveria saber mais do que as pessoas normais, e seu coração deveria ser grande, pois seria a mãe da nação. Fora isso que a falecida Kushina lhe ensinara.
Foi necessária apenas uma tarde para separar o que a prometida do príncipe precisaria levar para a Torre, mas dois dias até que seus aposentos e os de suas acompanhantes estivessem prontos para ser usados.
Os acompanhantes em questão seriam Hanabi, que se tornaria uma das damas de companhia da irmã e Tenten, a serva de confiança da Hyuuga.
A senhorita Mitsashi nunca esteve tão feliz quanto agora; ela jamais imaginou que um dia teria a sorte de se juntar à criadagem da torre. Hanabi também estava feliz, mais por continuar ao lado da amada irmã do que pelo fato de se mudar.
Quando o bilhete dos conselheiros endereçado ao senhor Hyuuga chegou para informar que “a prometida poderia seguir caminho à Torre”, Hinata foi imediatamente despachada com criada, irmã e primo; já que o senhor Hyuuga era vítima de um resfriado forte que havia conseguido graças às insuportáveis chuvas de fim de novembro, nem ele, nem sua senhora puderam acompanhar as filhas, e suas despedidas acabaram por serem um tanto frívolas.
Hinata adentrou a carruagem com a ajuda do primo; sentia-se uma mercadoria atrasada pronta para finalmente ser entregue ao seu dono. Um dono que, infelizmente, não estava, de fato, interessado.
Neji podia perceber que ela estava perturbada apenas de olhar em seus olhos preocupados e pensativos. Como estavam sozinhos – pois as outras duas seguiam em uma das carruagens atrás deles – ele não se preocupou com cerimônias, e ergueu o rosto pálido da prima com gentileza. – Não fique pensando coisas inúteis – Ele a precaveu. – Seus olhos são lindos demais para parecerem tristes. – Ela sorriu timidamente, mas nada respondeu.
Durante toda a viagem, a senhorita Hyuuga não disse uma palavra sequer. Ela imaginava o quão problemática seria sua vida a partir de então.
No fim das contas, teve que deixar tudo o que mais amava para trás: seus livros, seus diários, seu piano... E seu pai. Como ela viveria sem o pai?! Ainda não sabia. Ela deveria dar graças aos céus por ser permitido que Hanabi e Tenten ficassem ao seu lado, mas ainda não tinha conseguido pensar em como ficaria longe de Hiashi.
O senhor Hyuuga poderia ser um homem implacável, e até nojentamente inteligente, mas ela realmente amava o pai mais do que qualquer coisa no universo, provavelmente porque ele, sem duvidas, era o homem que, mesmo após a suposta morte de seu noivo, jamais deixou de considerá-la uma verdadeira princesa.
Estava tão absorta em seus problemas que não reparou quando a carruagem estacionou, e precisou ser avisada por Neji.
O primo a ajudou a descer da carruagem educadamente, e esperou que terminasse de ajeitar o longo vestido lilás. Ela aceitou o braço do rapaz e respirou fundo antes de assentir, fazendo-os seguir para o mesmo salão onde o herdeiro havia sido introduzido há algum tempo.
Tenten havia sido guiada por outros criados até os quartos; ela seria a responsável pelos últimos preparativos dos aposentos da prometida e sua irmã, e posteriormente seria levada para seu próprio quarto.
Hanabi vinha logo atrás dos primos; usava um vestido branco, assim como a tiara que pendia uma mecha da cabeleira castanha.
Era como caminhar para a morte; esse foi o pensamento de Hinata enquanto andava pelo longo corredor. Assim como nas últimas vezes, todos ao redor observaram a belíssima futura princesa com admiração, mas de alguma maneira, ela não se sentia tão confiante como da última vez. – Aguente firme. – Ouviu o primo murmurar quando chegaram diante às portas grandes e brancas abertas convidativamente. – Sorria.
E ela assim o fez; um sorriso gentil de falsa felicidade estampou o rosto da Hyuuga, assim como de seus parentes.
O salão estava mais cheio que da última vez, mas para a alegria da futura princesa, tinham mais criados, e gente do exército, do que nobres propriamente ditos.
O conselheiro não estava presente, apenas a conselheira. Ela sorriu gentilmente para a senhorita Hyuuga assim que a viu. – Mas que rápida, a nossa princesa! – Elogiou. Aproximou-se e cumprimentou as meninas com dois beijos nas faces de cada uma, e à Neji com um aperto de mão cordial. – Nosso príncipe está tão ansioso que ainda não terminou de se aprontar. – Embora sorrisse, Hina imaginava o quão grande poderia ser aquela mentira. – Por enquanto, vamos apresentá-la à criadagem. – Neji guiou a moça até o centro do salão, seguindo os passos de Koharu.
– Senhores, esta, como todos devem conhecer, é a senhorita Hinata Hyuuga, nossa futura princesa.
– Espero que cuidem de mim. – Sem se importar com os olhares de censura do primo, da irmã e da senhora, Hinata se curvou para os demais educadamente, e foi imediatamente retribuída. Claro que ela não podia imaginar que o príncipe, surpreendido, observava tudo escondido atrás de uma das portas.
Naquele momento, depois de ser convocada por um olhar da senhora conselheira, Kurenai se aproximou. Ela usava um belo e simples vestido longo vinho. – Está será sua tutora. – Koharu apresentou. – Seu nome é Kurenai Yuuhi.
– É um prazer conhecê-la, senhora Sarutobi. – Embora tentasse, a mulher não conseguiu encontrar nenhum traço de ironia, tanto na voz, como na expressão respeitosa daquela menina.
– O prazer é todo meu, senhorita. – Ela sorriu sinceramente aliviada por ela não parecer tão esnobe quanto sua mãe fora naquela idade. Naquele momento, uma das portas que dava entrada para a torre foi aberta por Itachi, revelando o tímido príncipe, que depois de refletir, caminhou até os Hyuuga por achar ser o certo.
O sorriso de Hinata não pôde ser mantido, tão pouco o do primo, que não gostava do herdeiro nem um pouquinho. Diante a falta de sorrisos, o Uzumaki julgou ser melhor cumprimentar a mais jovem antes. Ele puxou a mão de Hanabi educadamente, com um sorriso no rosto. – É um prazer conhecê-la, Hanabi. – Ele sabia os nomes de cor, pois Sasuke, na noite anterior, o obrigara a guardá-los.
A jovem Hanabi, ainda que não tivesse completado seus catorze anos, era sem duvida a mais forte personalidade de sua família. Ela sorriu ao príncipe, curvou-se educadamente e disse “o prazer é todo meu, senhor” com uma calma surpreendente.
A coragem da menina, entretanto, não serviu para inspirar a coragem do rapaz; que nervoso e constrangido por seu comportamento anterior, puxou a mão delicada da Hyuuga, que tremia um pouco e beijou-a de maneira cortês. – Senhorita Hyuuga.
Fale com o autor