The Intended: Cursed
4 O primeiro treino
Notas iniciais
Voltamos aos alojamentos e Liam se juntou com os alunos de C.B. para também começar seu treino. Eu estava sozinha. Todos foram treinar e eu não tinha nada para fazer. Até que alguém gritou meu nome lá de baixo. Desci as escadas e encontrei Josh.
— Bela casa. – disse ele. — Fiquei sabendo do seu teste. Mariah você é poderosa, mas ainda não tem respeito de todos. Isso você só consegue nos treinos de campo de batalha, enfrentando os melhores mutantes que são praticamente impossíveis de vencer.
— O que está fazendo aqui?
— Vim dar notícias. – ele anunciou. — Vai ser treinada pelos quatro.
Ele me entregou uma caixa e me mandou subir para vestir. Foi o que eu fiz. Sentei na cama e abri a caixa. Nela estava um par de coturnos, uma calça de couro negro e uma camisa preta e as fitas de cada superior. Vesti e em seguida desci, Josh ainda estava lá.
— Está perfeita para uma guerreira.
— Esqueceram os óculos de novo. – soltei uma risada. – Mas já é inútil aqui, minha visão está perfeita.
— Seu treino de hoje é com Tubarão Cinzento, vou conduzi-la até lá.
Concordei e seguimos por um caminho contrário ao que iam até as terras de Cobra Verde, neste caminho os coqueiros que ofereciam sombra. Chegamos a passar em frente às casas dos superiores, que são verdadeiras mansões. O ar no caminho se transformava em uma brisa quente e agradável.
O caminho acabou de frente para um muro azul com conchas fixadas, em cima de cada uma das pilastras estava uma estátua de tubarão, o portão em si era de vidro e formava desenhos de ondas. Passei pelo portão e deixei Josh para trás. Atrás do muro estava uma bela praia.
Sentados em um troco estavam alguns alunos de T.C., que estava com as mãos na cintura e rindo. Fui até ele com um pouco de vergonha, o que piorou quando me notaram e os risos acabaram, como se eu não pudesse me divertir também. Tubarão Cinzento foi até mim e me guiou até a frente.
— Alunos, esta aqui é Mariah. – levantei a mão com um oi tímido.
Entre os alunos estavam Ryan, Vick e Sam, Yoko e Amy seriam treinadas por outras pessoas da equipe de T.C., Théo também estava lá. Os alunos apresentados por T.C. me observavam como se eu fosse um lanche que eles estavam prontos para devorar. Havia outros alunos lá, mas estes eu não conhecia, embora parecessem mais simpáticos que os outros. Sentei-me no meio de Vick e Sam.
— Conte algo sobre o teste T.C., estamos curiosos. – um aluno gritou. — É queremos saber como foi. – outro pediu.
— Certo, vou contar. – ele se sentou na areia. — Mas seria melhor se os novos alunos contassem. – T.C. olhou para Ryan.
O mutante se levantou e caminhou até a frente. Sempre cheio de marra, era o jeito dele.
— Eu fui até a frente, ia duelar com C.B., porque T.C. e C.V. estavam atrapalhando ela falar, mas aí eu pedi para duelar com Tubarão Cinzento. E foi isso que eu fiz. Mas não foi um duelo, T.C. estava me fazendo ficar maior, mais forte, eu senti tanto ódio quando ele me chamou de uma coisa.
— Frango. – Sam gritou, ela adorava provocar o irmão.
— Isso. – Ryan olhou para ela, concordando mesmo não querendo que as pessoas soubessem disso. – Continuando.
— Frango. – Sam gritou de novo.
— Eu sei Sam, mas eu quero continuar contando.
— Frango. – mais uma vez.
— Eu já sei irmã, cala a boca, tá?! – ele estava se irritando.
— FRANGO!
Ryan ficou um pouco maior e foi até ela. Aquilo não era um bom sinal.
— É melhor ficar calmo Ryan, não vamos dar um novo uniforme tão cedo. – T.C. comentou rindo.
O aluno voltou ao normal dizendo que não ia contar mais nada e foi o que aconteceu. Ninguém disse mais nada. Mas Tubarão Cinzento insistia em falar do teste:
— Sabem o que o Ryan é?
— Ele é da raça força. – Ilia disse. — Assim como o Alan.
— Exato. – T.C. respondeu. — Só que o Alan é do nível um.
— E ele? – um dos alunos perguntou.
— Zero. Nível zero. – Ryan disse deixando todos os outros de olhos arregalados.
— Impossível. – Alan disse com um pouco de raiva na voz. — Esse nível é raro.
— Quase, não raro. – T.C. falou a todos. — Vick é uma sereia assim como Ilia, só que ela não é vampira e nem do mesmo nível, Vick é do nível zero também. Sam é da raça membro, com a força focada para as mãos, ou seja, ela é uma Membro do ramo mão, também é do nível zero. – T.C. parou de falar e ficamos em um silêncio.
— E quanto a garota de preto? – um dos mutantes perguntou. — Ninguém te entregou o uniforme?
Girei os olhos. Odiava quando era o centro das atenções.
— Entregaram o uniforme para ela sim. – T.C. respondeu no meu lugar. — Não vou perguntar o que ela é, porque nem os que estavam lá vendo vão saber responder.
Todos me fitavam. Não gostava. Abaixei a cabeça. Estava confusa.
— Então o que eu sou? – fiz a pergunta que todos já estavam fazendo no inconsciente.
— Já ouviram a lenda do mutante imortal? – Tubarão Cinzento perguntou e a maioria assentiu. — Pois é, ela, não sei como dizer. Eu até agora não estou acreditando, vocês tinham que ver o que ela fez, também não iriam acreditar.
— Eu não deixei que uma bola de água gigante chegasse até mim, só isso.
— Mais do que isso, Mariah. – T.C. disse. — Qual é o poder do mutante imortal? Como se manifesta?
— É o poder da escuridão, se manifesta como uma energia roxa e somente o mutante imortal domar a maior das criaturas, o dragão. – um dos alunos respondeu e o superior assentiu. – É só uma lenda, eu acho.
Todos arregalaram os olhos para mim e cochicharam entre si. Eu podia escutar seus pensamentos. Eles estavam me julgando, pensando que eu devia ser uma coitada ou perigosa, pensando que ali não era meu lugar. E eu estava sendo afetada por eles. Eu sou perigosa, meu sangue é perigoso, eu posso matá-los somente com uma gota de sangue.
— Ela é o mutante imortal, ela tem o poder da escuridão, ela é do nível zero, ela é mais forte que todos vocês juntos se for treinada, quanto do dragão também acho que é lenda. – os olhos de todos ficaram maiores, bocas abriam e minha cabeça já estava doendo. — Quem estava lá, viu o quanto ela é forte, quem estava lá viu a garra que surgiu em seu braço para se defender de um golpe, uma garra gigantesca de dragão formada por energia roxa.
Tubarão Cinzento se levantou e saiu andando, seguimos ele até um campo de treino. O lugar tinha quatro pilastras na areia e quatro no mar, todas elas de mármore com desenhos de espécies de tubarão. O teto era feito de folhas de coqueiro. A quinhentos metros havia uma ilha.
— Hoje é o primeiro dia de treino de alguns, portanto não vou pegar pesado como estão acostumados. – ele respirou fundo, como se fosse uma decisão difícil. — Quero que fiquem em duplas, serão pequenos duelos armados, vocês só poderão usar os poderes para defesa e esta defesa não poderá ferir o oponente, entendido?
Todos responderam que sim, menos eu, pois não tinha nem ideia de como poderia usar meu poder. Tubarão Cinzento nos entregou as espadas, alguns seguravam com facilidade, enquanto Vick e eu parecíamos duas loucas fracas, portanto minha oponente era Vick. Aquilo seria desastroso.
T.C. ficava de olho em nós, enquanto ficávamos paradas em posição de ataque. Apenas isso, nenhum ataque com a arma e nenhuma defesa com o poder. Às vezes mudávamos de posição, às vezes tentávamos girar a espada, a espada gostava mais do chão do que de nós. Realmente aquilo estava irritando Tubarão Cinzento, ele se levantou e veio até nós.
— Para começar, Vick está segurando a espada errado, pegue-a como sua adversária. – foi o que ela fez. — A posição estava certa, mas não precisa ficar mudando toda hora de posição. Vocês pareciam duas baratas tontas. O modo como o corpo de vocês está também é errado. Apõem-se no pé da frente e deixe o de trás pronto para assumir a frente a qualquer instante, o tronco mais a frente, mas reto. Por favor, quanto a girar a espada, isso é ridículo, afinal vocês não possuem controle sobre ela.
Fizemos tudo o que ele disse, mas mesmo assim não sabíamos como atacar. Tudo o que eu sabia era o que via em filmes ou lia nos livros e tinha medo de aplicar isso numa pessoa.
— Lutem!
Ficamos paradas mais uma vez. Eu apenas olhava para os olhos de Vick enquanto ela fazia o mesmo. Estava com toda certeza mais ridículo do que antes, até que eu decidi em mudar aquilo tudo. Avancei na direção dela, mirando a espada em Vick. A arma passou perto de sua cintura. Eu soltei uma mão da espada a fim de me dar mais equilíbrio. Decidi fazer como via nos filmes.
Fui em sua direção mais duas e ela escapou de todas. Vick tentou fazer o mesmo, mas os golpes dela eram menos precisos do que os meus. Comecei a levar a sério aquilo tudo. Minha espada foi de encontro a dela. Coloquei uma mão na cintura e sorri. Três passos para frente, meu ataque, dois passos para trás, minha defesa. Em um dos meus passos para frente, quase acertei o braço de Vick, que estava um pouco solto demais.
Estávamos pegando o jeito, tanto eu quanto ela, na verdade mais eu do que ela, que ainda parecia uma barata tonta. Não sei o que eu fiz, mas consegui roubar a espada da mão dela, as posicionei perto de seus ombros e isso a assustou. Devolvi a espada para ela e ri, voltamos à dança dos dois passos, dei espaço para ela dominar mais do que eu, porém o controle maior continuava sendo meu.
Mirei em seus pés, me agachei e a fiz pular sobre minha espada e este pulo a fez cair, deste tombo a luta continuou, ela caída e eu de pé, mas a luta toda acabou quando eu sem querer fiz um corte em seu joelho. Vick não sangrava muito, era mais água do que sangue e emitia gemidos de dor, não sei se ela estava tentando se exibir ou se eu a golpeei seriamente.
T.C. mandou dois alunos irem chamar os enfermeiros, estes logo chegaram e levaram Vick para o hospital nas terras de Coruja Branca. Tubarão Cinzento me cumprimentou e disse que eu fui muito bem para uma novata, agradeci e voltei para minha casa. O treino já estava acabado, eram 06h30min da noite. O jantar logo seria servido nas terras de Cobra Verde e fui até o refeitório mais uma vez.
No caminho encontrei Liam e Robert, que mesmo sendo estranhos estavam conversando como amigos de infância. Abracei Liam e perguntei como foi o treino dele e de Robert.
— Foi muito bom. Tivemos duelos com espadas e escudos, muito interessante. – eles responderam juntos. — E o seu?
— Espada, só espada, a defesa era o poder, mas não deu muito certo. – abaixei a cabeça. — Feri Vick no joelho, ela saiu gritando de dor.
— Jane desmaiou. – Liam me informou. — A oponente dela era uma garota de onze anos que bateu com o escudo na cabeça dela, chegou até a sangrar.
— A menina levava jeito. – Robert comentou. — Em todos os treinos hoje houve feridos. Acho que somos os azarões.
— Chris disse que Frank fez um corte profundo no braço de Wesley, só que mesmo assim Wesley venceu o duelo. – Liam comentou. — Peter e Ginna se machucaram juntos, pequenos lutam com pequenos, foi uma bela luta. Pelo menos foi o que eu ouvi.
Quando chegamos ao refeitório apenas os não feridos estavam lá. Peguei a comida e fui para a mesa, lá estava Liam, Ryan, Chris, Sam, Robert e Rachel, o resto provavelmente no hospital.
— Vocês tinham que ver o duelo do Wesley com o Frank. – Chris disse. — Frank trapaceou, a espada dele estava vermelha como se estivesse acabado de sair de uma fogueira e então ele golpeou o Wesley. Foi isso que fez ele se machucar, mas mesmo assim ele levantou e venceu. Frank foi um babaca, ele não podia ter trapaceado. Mesmo isso sendo natural nos duelos lá.
— Como assim natural? – alguns perguntaram.
— Vi os outros trapaceando também. Na minha luta não, eu o meu parceiro não fazemos isso, embora eu sentisse o metal vivo em minhas mãos, mas eu não trapaceei. – ele era visivelmente confuso. — Quanto a Frank, ele se deu mal, C.V. a esta hora está falando com ele, dando o esporro dos esporros nele. Quem fere é trapaceiro. – Chris terminou com uma gargalhada.
— Nem todos que ferem são trapaceiros. – comentei.
— Por que acha isso? – ele perguntou.
— Talvez pode ter sido descuido do oponente. Quando se manda defender você é obrigado a defender e quando se manda atacar você é obrigado a fazer isso.
— Vocês acham essa luta entre o Frank e o Wesley interessante porque não viram a de Ginna e Peter. Foi épico. – Rachel disse parando de comer e colocando os dois cotovelos em cima da mesa. — Os dois se golpearam ao mesmo tempo no mesmo lugar e mesmo assim continuaram lutando, quando acabou a luta os dois já estavam cheios de cortes e hematomas. L.D. os mandou para o hospital e eles foram carregados rindo alto e cantando. São dois loucos, mas dois loucos que duelaram bem.
— Somos todos loucos, Rachel. – Sam falou. – Todos nós. Sem exceção.
Acabamos de comer e retornamos para os alojamentos. Subi as escadas e encontrei outra caixa em cima da cama. Abri a caixa e lá está uma camisola preta até os joelhos e um par de chinelos. Peguei a camisola negra e fui tomar meu banho.
Caminhei depois até minha janela e vi como aquele lugar era ainda mais belo a noite. Com todas aquelas casinhas nas sequoias e postes de luz brilhando, os chalés com os filtros dos sonhos balançando com o vento noturno, a toca com luzes vermelha sobre cada degrau, as casa flutuantes com um brilho azul, enquanto no lago, o reflexo da lua. Deitei-me e dormi. A beleza poderia ser de tirar o fôlego, mas eu apenas queria estar nos braços de Liam.
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