The Horror of Our Love

6 Drunken disguise changes all the rules


Notas iniciais
Oi, pessoal. :) O capítulo de hoje, como diz o título, tá uma coisa de bêbado. Desculpe, pessoal, mas até eu tô meio "hã?" com o resultado. kkkkkkk #CORRE No mais, boa leitura. (◕‿◕✿)

Duas semanas se passaram. Naraku, agora, investia pesadamente contra a vida de Inuyasha e seu grupo. Sua última tentativa de matá-lo se frustrara quando Kagura e Kanna foram até eles; a pequenina youkai roubara a alma da colegial, contudo o espelho não suportou e se partiu assim que Kagome disparou a hama-no-ya.

— Pois bem — dizia Naraku, consigo mesmo, sentado no alpendre de seu castelo. — Vejamos o que Inuyasha é capaz de fazer sem sua adorada Tessaiga.

O perverso enfiou a mão dentro do próprio ventre e, com seu poder, retirou dali uma massa roxa e informe, pondo-a no chão. Seus olhos vermelhos reluziram e a carne retirada de seu ventre cresceu e tomou forma, dando origem a um youkai enorme e cheio de músculos, com grandes chifres e olhar argucioso. O ser, que tinha a forma de uma aranha impressa nas costas, olhou ligeiramente confuso para o moreno, que lhe sorriu.

— O que sou eu? — perguntou o ser, encarando o hanyou.

— Um bakemono chamado Goshinki — anunciou Naraku. — Você tem uma missão a cumprir.

— Quem é você? — tornou o monstro.

— Eu sou Naraku, o youkai que lhe deu vida. Vá até a região de Musashi e mate um inuyoukai híbrido chamado Inuyasha. Não importa quantos você tenha que exterminar para chegar até ele.

Já não me importo mais se Kikyou morrer também... Ou melhor, não sei, melhor que ela continue viva, apenas eu tenho o direito de matá-la...”, refletia o hanyou, calado, quando o monstro Goshinki lhe indagou:

— Quem é essa pessoa chamada Kikyou que você não quer que eu mate?

— Não permito que leia meus pensamentos, deixe para fazer isso quando precisar se defender de seus inimigos — retrucou Naraku, meio aborrecido, mas comemorando interiormente a habilidade de sua cria nova. — Pode ir agora mesmo.

— Sinto uma grande fome — comentou o outro, um brilho maligno nos olhos carmesins. — Quero comer humanos.

— Você pode comer quantos humanos quiser, desde que mate Inuyasha, Goshinki. Agora vá.

Assim Goshinki se foi, deixando Naraku sozinho no alpendre. O ódio do hanyou era tamanho, tanto que sua cria fora gerada com todo o ódio que ele possuía. Chamou Kagura usando seu youki; a jovem youkai se materializou diante dele em menos de um minuto.

— Diga, Naraku.

— Kagura, vigie a sacerdotisa Kikyou. Aquela mulher não é confiável.

— Ah... Sim.

Naraku notou certa confusão na fisionomia de sua serva, mas preferiu não saber o que a youkai estava pensando. Com uma reverência, ela sacou a pena de seus cabelos e se foi pelo ar.

Através do espelho de Kanna, o hanyou araneídeo procurava se manter a par de tudo o que Kikyou fazia. Desde o último encontro dos dois, ele percebeu que a sacerdotisa passou a se manter afastada da região de Musashi, evitando o grupo seleto de pessoas que a conheciam e indo exercer seu ofício em locais diferentes, tornando-se, assim, uma miko itinerante. Sempre que podia, a jovem ia às ocultas até o vilarejo onde nascera para ver Inuyasha na madrugada. Como ele e seu grupo estavam em busca dos fragmentos da Joia, nem sempre ela o encontrava.

Nesses momentos, Naraku dizia a si mesmo o quanto foi útil criar uma youkai sem alma. Kanna não o julgava quando, ocasionalmente, ele se rebelava e gritava seu ódio pela bela moça de cabelos longos e negros. Ou quando seus olhos marejavam e seus lábios estremeciam à medida que a dor da solidão e da rejeição o consumiam.

Mas, não.

Naraku se recusava terminantemente a derramar uma gota de lágrima que fosse por aquela sacerdotisa. Um dia, houve a celebração de um casamento em uma aldeia mais pobre onde Kikyou ficara por algumas semanas. Pelo espelho, o hanyou vislumbrou o exato momento em que ela entreabriu seus lábios e suspirou ao ver os noivos. Estaria pensando nele? Não, obviamente não, ela estava pensando no hanyou cão, como sempre. Absorto, levou um tempinho até que notasse que Kanna o chamava, apaticamente.

— Naraku. Naraku.

— ...

— Naraku. Você está ferido — ecoou a menininha. Só então ele percebeu que mordera a língua; sua boca se encheu de sangue. Como sua resistência à dor era muito grande, ele demorou a sentir a fisgada aguda e desagradável. Minutos depois, entretanto, a ferida estava cicatrizada.

— Não... Não é nada de mais, Kanna. Agora vá, preciso ficar sozinho.

Sem mais nada dizer, a criança se foi.

Imerso em suas elucubrações, Naraku imaginava os meios mais eficazes para encontrar os fragmentos antes de Inuyasha. O moreno pensava e pensava, sentado imóvel, mas mesmo sua mente analítica não colaborava consigo — não quando seu corpo inteiro resolvia sentir saudades dos momentos intensos vividos com a mulher que ele adorava há tanto tempo. Ele rilhou os dentes, irritado.

— Maldito coração humano... Antes, eu conseguia lidar melhor com isso, mas agora...

Agora Naraku se via enlouquecido pela força de seus desejos sexuais trazidos à tona por Kikyou. Não que ele não os tivesse antes; todavia, foram cinquenta anos vividos com a certeza de que jamais a veria novamente e que aquele espaço jamais seria ocupado por outra pessoa. Cinquenta anos concentrado em um único objetivo: se tornar um youkai completo e poderoso. Em partes, sua meta fora cumprida, pois atualmente ele era capaz de ficar invisível, criar campos de energia protetores e miasmas venenosos, marionetes, conseguia manipular humanos e youkais à distância e gerava novos seres conforme sua necessidade.

O híbrido não conseguia mais dormir. Todas as vezes que adormecia, era visitado pelas lembranças eróticas da sacerdotisa e despertava em agonia, as vestes sujas de sua semente. Às vezes o furor era tanto que ele se via obrigado a se masturbar para não ficar louco. Isso trazia a Naraku um desgosto imenso, pois ele cria que parte de sua força vital o deixava no momento da ejaculação¹. Além do mais, ele se sentia sujo ao se gastar pensando no prazer que Kikyou jamais lhe daria novamente.

Prazer...

Ele não a via com Inuyasha; os dois se desencontravam bastante. Mas, com certeza, ela andava com ele. Aquela sacerdotisa gostava de sentir prazer, arrazoava o ciumento Naraku. Ela amava o cachorro híbrido, então possivelmente já deveria ter se entregado a ele. E havia outra pessoa com quem o aracnídeo deveria ter cuidado: a estranha menina Kagome. Ela não sabia, mas detinha um poder imenso, talvez quase tão grandioso quanto a da sacerdotisa renascida do barro e ossos.

Naraku olhou para o céu: as primeiras estrelas cintilavam ali. Kagome, talvez, estivesse olhando para elas. O hanyou suspirou, desanimado. Pensou nas inúmeras vezes em que o olhar da colegial mudava e seu semblante caía quando o maldito Inuyasha a deixava para trás e ia correndo atrás dos shinidama. Naqueles instantes, um pensamento vingativo instigava o araneídeo: “Eu bem que poderia possuir aquela garota, já que ela também tem seu quê de importância para Inuyasha. Eu deveria seduzi-la e o cachorrinho ficaria perdido ao saber que degustei suas duas sacerdotisas”.

Contudo, ele sacudiu a cabeça cacheada, irritado consigo mesmo. Kikyou poderia não ser fiel a ele, mas ele não tinha interesse algum em traí-la, por mais que Kagome parecesse com ela. Também seria perda de tempo dominá-la com um fragmento da Joia, já que ela o purificaria sem muita dificuldade. Acabou chamando Kanna de novo e solicitando-lhe o espelho.

A menina youkai lhe mostrou onde estava Kagome. Ele se surpreendeu: a mocinha estava sozinha num ponto particularmente sinistro do bosque. Parecia brava e enxugava uma e outra lágrima que lhe descia pelo rosto, se sentando sobre um tronco tombado. Naraku meneou a cabeça e revirou os olhos.

— É, devo ter perdido algo importante dessa vez. Ela só chora por um motivo — resmungou ele. — Onde está Kikyou, Kanna?

— Aqui — e Kanna exibiu algo diferente no seu espelho. Kikyou estava envolta pelos shinidama, descendo suavemente ao encontro de Inuyasha, que estava gravemente ferido da batalha anterior contra a pequena youkai sem alma e contra o temido bakemono Goshinki que, no fim das contas, morrera bem mais depressa do que Naraku havia planejado. Ora, como ele iria saber que Inuyasha se transformava em youkai quando privado da Tessaiga?

O hanyou tentou manter a compostura, mas não era nada fácil. A sacerdotisa, com os cabelos soltos, planando no ar como um espírito, parecia mais bela do que nunca. Inuyasha a fitava, fascinado e boquiaberto. Logo ela pousava no solo e era abraçada pelo hanyou de cabelos de prata. Naraku rosnou de ódio. Uma kekkai o envolveu.

Grrr... Maldita! Ela me paga! — e, sem dar mais explicações, ele deu as costas para sua serva e saltou pela janela.

Kanna, sozinha, piscou seus olhinhos vazios. Seu mestre era louco.

***

Kagome soluçava de raiva. Inuyasha teve a coragem de ir, totalmente machucado, se escorando na bainha da Tessaiga quebrada para ir ver a mulher que provocara todos aqueles desastres. Afinal, se Kikyou não lhe tivesse roubado os fragmentos e os entregado a Naraku, este não teria conseguido gerar youkais novos, como o horrendo Goshinki. E nada daquilo teria se sucedido.

A colegial já não entendia mais o porquê de estar ali, arriscando a vida, deixando de lado sua família e sua vida em Tóquio, por causa do ingrato Inuyasha que desconsiderava todos os esforços dela. Um nó na garganta da jovem se intensificou e ela chorou mais alto. Na ânsia de ficar sozinha, simplesmente saiu andando a esmo até chegar àquele lugar.

Foi aí que algo horripilante aconteceu. Salamandras youkais venenosas começaram a cair da copa das árvores, precipitando-se contra ela que, sem seu arco e suas flechas, gritou de pavor, levantando-se às pressas para fugir. Contudo, a escuridão era intensa e ela mal podia enxergar um palmo à frente do nariz. Tropeçou em pedregulhos e caiu, sentindo uma dor aguda no joelho direito.

Ouviu, então, um zunir de espada. Um vulto extremamente veloz apareceu destruindo os monstros. Instintivamente, Kagome exclamou:

— Inuyasha, você... Você veio...

O vulto enfim parou de saltar, a poucos metros dela, e olhou para trás. A voz não era a de Inuyasha e a colegial congelou de pavor ao ouvir o aparte sereno:

— Inuyasha não pôde vir, minha cara Kagome. Mas ainda bem que eu estava por perto...

— N-Naraku...! — balbuciou ela, lívida, ainda no chão. A ideia de que ele havia violentado Kikyou a impressionara fortemente, de forma a lhe provocar pesadelos. Kagome, como qualquer outra mulher, tinha horror a estupro.

A visão do hanyou ali, no meio do nada, era prenúncio de tragédia. Ela começou a tremer muito, já que estava desarmada e longe de seus companheiros.

Ele, calmamente, andou em sua direção enquanto embainhava a katana. A jovem o encarava com temor e ira; Naraku não se incomodou e se pôs sentado no chão mesmo, a menos de dois metros de distância dela. Ele vestia um haori preto sobre um hakama cinza-claro; seus cabelos estavam presos num rabo-de-cavalo alto e sua postura em nada diferia da de um samurai. Os fios ondulados da franja caíam graciosos sobre a testa alva e seus olhos carregavam ainda um resto de melancolia. Belo e misterioso, como sempre. Mas Kagome só observaria tais características mais tarde. No momento ela mal piscava, apavorada. O hanyou arqueou uma sobrancelha.

— Não precisa mais ter medo, Kagome. Os youkais estão mortos, acabei com todos eles.

— Saia de perto d-de mim — sibilou a moça. — Não pense q-que vai ser fácil...

— Oh. Está afoita assim por minha causa?! — volveu ele, como se estivesse chocado.

— Saia, seu nojento... Maldito pervertido... Abusou de Kikyou só porque ela estava fragilizada...

De novo aquele assunto, pensou ele, irritado.

Abusei? Ela lhe disse isso?

— Não foi preciso... Estava escrito nos olhos dela, seu cínico...

Naraku sorriu amargo, parado no mesmo lugar.

— Achei que fosse mais perspicaz, prezada sacerdotisa. Talvez o que esteja escrito nos olhos dela seja outro tipo de sentimento. Mas não convém falarmos sobre isso.

— ... — o brilho nos olhos da jovem indicava que ela queria distância dele. Ora, já lhe bastavam seus próprios problemas; não queria aquele indivíduo malvado lhe perturbando.

A voz serena do hanyou soou mais uma vez.

— Por que não volta para onde estão seus amigos?

— Por que não se mete com sua vida, seu filho da puta?

— Eles devem estar preocupados com você — retrucou Naraku, ignorando a rispidez da jovem. — Inuyasha, principalmente.

Impetuosamente, Kagome se pôs de pé e saiu pisando duro, mancando por entre as árvores. Sua cabeça doía e ela toda se sentia entorpecida, machucada. O hanyou afirmou, parado no mesmo lugar:

— Não seja imprudente. Você nem sabe para onde está indo.

— Cale a boca! Não quero te ouvir!

— Não faça isso, Kagome. A escuridão desse bosque é profunda e tenebrosa. E você, apesar de ser uma miko como Kikyou, ainda não tem pleno domínio sobre seus...

— CHEGA! NÃO AGUENTO MAIS SER COMPARADA A ELA! — bradou a menina, agora voltando para onde Naraku estava. Ele ficou totalmente surpreso: não imaginava que Kagome pudesse ter tamanha coragem. Em poucos instantes, ela estava diante dele, gritando: — VAI DIZER MAIS O QUÊ? QUE ELA É MAIS BONITA? MAIS SÁBIA? MAIS ISSO, MAIS AQUILO...

Por fim o aracnídeo se colocou de pé. Sabia que a garota à sua frente estava com a alma em frangalhos. Sabia também que um gesto seu poderia debelar toda a resistência que ela alardeava.

— S-será que eu vou representar s-sempre a segunda opção para ele? — murmurou Kagome, mais para si mesma, voltando a chorar.

O momento era apropriado. Naraku abriu os braços e a jovem, sem pestanejar, lançou-se neles, fechando os olhos com força e permitindo que seu inimigo a aquecesse com seu corpo quente. A mão do hanyou pousou suavemente sobre a cabeça da trêmula Kagome, que amargava aquela dor no coração.

— Agora sabe como me sinto — sussurrou ele de volta aos ouvidos da colegial chorosa. Ela ergueu os olhos para encará-lo, parecendo absolutamente surpresa. O hanyou estava totalmente sério, sem aquele olhar sarcástico e duro que sempre tinha. Kagome notou o quanto Naraku era, além de mau, triste, e não pôde deixar de se compadecer.

O que ela não havia notado era que ele tinha a intenção de dominá-la, como fez com o garoto Kohaku, para que tentasse matar Inuyasha ao voltar para junto de seus amigos. Porém, no momento em que os corpos se tocaram, a alma da jovem se abriu como um leque para o híbrido, que chegou a se sentir confortável. Kagome tinha uma alma grande, poderosa, bondosa e eivada de bons sentimentos e lembranças alegres; havia, contudo, uma escuridão, que era a sensação de rejeição e o ciúme dela pelo hanyou de cabelos prateados. Aquela vibração desagradável atraiu Naraku, cujo espírito experimentava a mesma coisa, e ele decidiu que iria obsidiar a colegial.

O hanyou então projetou parte de sua alma para fora do corpo e a inseriu em Kagome. Um brilho tênue e fugaz envolveu os dois.

Naraku não a dominaria de forma bruta, mas tentaria convencê-la a abandonar Inuyasha e ir para o seu lado. Afinal, ela detectava a presença de fragmentos da Joia; seria uma companhia mais do que útil. Além do mais, se tudo corresse como ele planejava, Kikyou se sentiria trocada pela segunda vez. Baixando mais o tom de voz, ele disse a Kagome:

— Você é uma garota mais forte do que eu esperava. Vem, vou deixá-la onde seu grupo está.

— ...

— Vamos, Kagome. Sem mais desavenças por hoje — volveu Naraku, ainda abraçado a ela, que enfim notou o que estava fazendo e o soltou com certa brusquidão.

— O que deu em você?

— Em mim? Além da solidão mais dolorida, nada.

Kagome piscou, confusa, ao ouvir aquilo. Ele se inclinou e tocou de leve o joelho dela, que em segundos parou de doer.

— Por que não tentou me matar?

— Você teve a mesma oportunidade. Por que não o fez?

— Hoje, tudo o que eu mais queria era um abraço... — admitiu ela, enxugando as lágrimas e corando.

— Eu também sinto falta de abraços.

A moça o olhou, totalmente ressabiada. Pelo menos aquele gosto amargo de rancor intenso que ela estava sentindo diminuiu muito e era possível refletir com mais lucidez. Os cabelos de seu inimigo agora tinham um perfume suave de mirra e a face dele estava pálida, mas não menos bela. Kagome se recriminou por pensar aquelas coisas e franziu o cenho, afastando-se de Naraku.

Como ele prometera, transportou-se com ela para uma clareira de onde era possível ouvir as vozes de Miroku e Sango. Dali, a colegial poderia voltar em segurança para junto deles; só então notou que Naraku e ela estavam sob uma kekkai. Antes de se afastar definitivamente, Kagome olhou mais um pouco para o hanyou silencioso que a observava com a velha melancolia que o acompanhava.

— O que foi esse... Esse encontro? — indagou ela, perscrutando Naraku com seus olhos azuis vivazes.

— Nem sempre a vida responde a todas as nossas perguntas — foi a resposta do hanyou, que desapareceu pouco depois, ainda sob o olhar aturdido da colegial.

Foi a primeira vez que Kagome percebeu que Naraku não era desprovido de sentimentos. A garota enfim chegava até sua amiga taijiya e seu amigo monge, sentados próximos a uma pequena fogueira. Ambos pareciam cismados — Kirara e Shippou dormiam serenamente no colo macio de Sango.

— Kagome-sama — começou Miroku — Onde esteve? É noite. Não é seguro sair assim, sozinha.

— Está tudo bem, Miroku-sama.

— Sabe que nos preocupamos com você — interveio Sango. — Só não tínhamos ido à sua procura antes porque Inuy- digo, Kirara e Shippou dormiram e...

Kagome se sentou ao lado da amiga, que notou seus olhos inchados e avermelhados.

— Ele ainda não voltou, não é? — indagou a colegial, amuada. O monge a olhou meio constrangido.

— Não, Kagome-sama, mas ele deve estar quase chegando...

— Quer saber, Miroku-sama? Não me importo. Acho que vou dormir.

Ele e Sango se entreolharam. A menina que veio do futuro se afastou um pouco do grupo e se deitou sobre a grama. Dormiu em poucos minutos.

Então a parcela da alma de Naraku que ficara com Kagome começou a agir em seus sonhos.

***

Alguns momentos antes, distante dali, Kikyou curava as inúmeras lesões no corpo de seu querido hanyou, sentado sobre uma raiz de oliveira. A luta contra Goshinki, mais o borbulhar do sangue youkai em seu organismo, deixaram Inuyasha dolorido e exausto, física e mentalmente. Sem contar que ela ainda tinha feridas de quando recebera a Ferida do Vento contra si ao lutar com Kanna.

— Kikyou — disse ele, tímido.

— Diga.

— Por que se arrisca tanto? Não quero que fique procurando aquele desgraçado sozinha.

— Ah, Inuyasha... Por que não falamos sobre outra coisa? — replicou a jovem, disfarçando sua súbita irritação. Não queria ouvir falar sobre Naraku, a dor de estar distante dele e de tê-lo feito sofrer a destroçava.

— Ele... Ele... Ele fez algo que jamais imaginei que ele fosse capaz de... — protestou ele, socando o chão. — Maldito!

— Inuyasha...

Kikyou se postou diante dele, sem saber como proceder. Não conseguia contar a verdade: olhava para os olhos âmbares de seu amado e se sentia acuada. Amava muito Inuyasha e temia afugentá-lo se relatasse o que realmente aconteceu entre ela e o aracnídeo.

Inuyasha não tinha como compreender o quanto Kikyou tinha sido afetada pelo inimigo comum de ambos. O nefasto Naraku deixou marcas indeléveis no coração da sacerdotisa.

Se, antes, ele a havia engolfado nas trevas da morte, agora ele concedera a ela um novo vislumbre de calor, luz e vida.

— Ele machucou você! — acusou o hanyou cão, indignado, exibindo seus caninos proeminentes. — É um nojento, maldito! Ele te sujou e...

— Você acha que estou suja?!

— Eu sei que a culpa não é sua — replicou ele. — É que, por causa dele, você não é mais uma donzela... Ele tirou sua honra.

A jovem olhava boquiaberta para Inuyasha.

— Inuyasha, é assim que você me vê agora? Como uma suja?! Uma desonrada?!

Só então o hanyou percebeu que havia dito algo que ofendera a sacerdotisa e tentou consertar o estrago, preocupado. Afinal, ele não sabia ao certo o que havia sido feito de sua querida. A dor ainda estava presente no olhar dela — e, mesmo com toda a sua ingenuidade, Inuyasha pressentia que ela estava, sim, sofrendo muito.

— Kikyou... Não é bem assim, eu...

— O fato de eu ser ou não virgem não altera quem sou, não deturpa minha essência — sibilou a sacerdotisa, estreitando os olhos — Se ele... Se ele me tocou daquela forma... — as lágrimas desceram.

Inuyasha se desesperou, intuindo que ela relembrava de algo horrendo, quando na verdade a jovem se comoveu devido à confusão sentimental que lhe assolava. Ela estava doente de saudades do demônio aracnídeo, sendo que o indivíduo a quem ela tanto amava estava bem ali, diante de seus olhos!

— Kikyou, por favor... Me perdoe, eu...

— Ele levou de mim a virgindade, não a minha honra! A honra de uma mulher é algo muito valioso para ser restringido apenas ao que ela tem entre as pernas! — exaltou-se ela, trêmula. — Será que, agora, todas as vezes que estivermos juntos, você vai ter que ficar jogando isso na minha cara?!

— Dá para me escutar?! — retrucou ele, irritado também. — Eu não quis magoar você! Só que isso tudo me assusta! ME ASSUSTA!

— Quem está assustada SOU EU! — gritou Kikyou. — De repente, eu vou ao encontro daquele que disse um dia que se tornaria humano para viver comigo e ele me ataca pelas costas... Me trai, me rouba a Joia...

— Mas não fui eu, foi o...

— E eu morri — cortou-o ela, respirando pesadamente de nervosismo. — Morri, com meus sentimentos, com meus sonhos... Acordo, depois, diante de uma bruxa imbecil e de uma menina estranha com a minha aparência e, o que é pior, com a minha alma...

— ... — o hanyou ficou mais angustiado ainda ao ouvir sobre Kagome.

Ele também não sabia como dizer a Kikyou que sentia algo intenso e especial pela aprendiz de sacerdotisa que demonstrava amá-lo tanto...

— Descubro que o humano queimado de quem eu cuidava se transformou em um demônio e que foi o responsável por destruir minha vida... — continuou ela, tropeçando nas palavras. — Ele me sequestra... Me... Me deflora... E quando finalmente posso estar a sós com você... Sou obrigada a ficar ouvindo essas acusações...

Inuyasha agarrou a jovem num abraço forte e sufocante.

— Por favor, Kikyou! Chega, não me faça me sentir mais culpado, maldita!

— Que tal se você parar de falar sobre isso? — retrucou Kikyou, ainda magoada, afastando-o de si.

O hanyou olhou para baixo, tristonho e com as orelhas caídas, murchas. A moça se arrependeu de ter explodido com ele e o puxou de volta para aquele abraço, aninhando a cabeça dele em seu ombro.

Ambos suspiraram. Aquele aconchego era bom, mas... Algo estava estranho, errado. Parece que faltava alguma coisa. Não era como os abraços tímidos e cheios de afeto que eles trocavam antigamente.

Havia um peso extra no coração de ambos.

Kikyou pousou os lábios nos de Inuyasha, afagando-os de leve, contornando-os com sua língua. Ainda um pouco ressabiado, o hanyou retribuiu-lhe o beijo, permitindo-se relaxar um pouco mais e desfrutando daquela sensação gostosa e ainda nova para ele, cujo baixo ventre começava a palpitar.

Estavam perto de touceiras de campânulas; o aroma agradável delas, somado ao do cheiro de Kikyou, trazia um doce embotamento aos sentidos apuradíssimos de Inuyasha, que levou as mãos às costas da sacerdotisa, trazendo-a para mais perto de seu corpo. Acabou por empurrá-la com carinho para o solo, deitando-se sobre ela e comandando o beijo, cada vez mais intenso. Era só seguir o que ela fazia; o hanyou percebeu que sua querida estava apreciando seus toques, pela forma como ela gemia em sua boca. Gemidos aveludados, baixos e irresistíveis.

A Kikyou de cinquenta anos atrás não sabia — e nem se aventuraria — beijar daquela maneira sedutora. Inuyasha sentiu um arrepio desagradável ao intuir que fora Naraku a deixá-la assim, ousada. Mesmo que não fosse por culpa dela... Mas... Ele temeu saber o que exatamente o seu inimigo tinha feito com aquele corpo feminino delicado abaixo de si. Então, sentiu a mão da moça sobre sua cabeça, como que conduzindo-o a beijar o alvo pescoço. Vermelho como um pimentão, o hanyou indagou dela o que queria:

— Beije-me aqui...

— Você... Gosta?

— Gosto muito... — respondeu a sacerdotisa com languidez, sensualmente, olhando no fundo dos olhos âmbares. Meio afobado, Inuyasha atendeu ao pedido da jovem, mas o pensamento desagradável de que não era ele o primeiro a provocar aquela satisfação em Kikyou o deixava muito perturbado.

Experimentando o calor dos seios comprimidos contra seu peitoral, o hanyou teve a súbita curiosidade que precede o desejo e baixou um pouco mais a cabeça, intentando aspirar o cheiro das belas mamas da sacerdotisa. A ponta do nariz de Inuyasha se aproximou do vale entre os seios dela; ele, contudo, os abandonou, roxo de vergonha e desconforto. Kikyou o encarou, confusa; ele se endireitou, ficando sentado e deixando-a deitada sobre a grama.

O hanyou se encolheu, cheio de remorso e culpa. Imiscuindo-se em seus pensamentos, sobreveio-lhe a lembrança do dia em que vira Kagome totalmente nua, tomando banho no rio que passava pelo vilarejo. Inuyasha agora se sentia sujo e vil, por permitir aquele tipo de pensamento que desrespeitava tanto Kagome quanto Kikyou. Ele não tinha o direito de desejar as duas. Muito menos de amá-las. Mas como eram confusos seus sentimentos!

— Inuyasha? — chamou a sacerdotisa, tocando em sua mão e tirando-o de seus devaneios. — Está tudo bem?

— Keh! Eu estou ótimo! — retrucou ele, cheio de mal humor. Apesar do desconforto, Kikyou acabou sorrindo; o jeitão irritadiço dele sempre a divertia. — Ah... Kikyou, eu...

— Pode falar, querido.

— Eu acho que fiquei cansado depois dessa luta... — admitiu ele, sem olhá-la. A jovem meneou a cabeça de leve.

— Agora que você percebeu? Eu já tinha dito isso a você, que era preciso descansar.

Inuyasha olhou triste para ela.

— Você não quer mesmo ficar conosco? — inquiriu ele.

— Não, não devo. E você sabe o porquê — respondeu ela, meio dura.

Os dois se colocaram de pé e se beijaram uma última vez. Logo os shinidamachuu envolveram a sacerdotisa, levando-a para longe diante do olhar intenso de Inuyasha.

Sozinho, ele se foi para perto de seus companheiros, sem saber como faria para encarar Kagome. A garota do futuro, por quem ele nutria sentimentos e desejos tão intensos que não conseguia expressar, preferindo tratá-la com seu jeito seco e ríspido. Ela não merecia ser deixada de lado daquela maneira. Mas Kikyou também não merecia.

Elas são muito especiais para mim, não posso agir desse jeito. Acho que não mereço nenhuma delas...”

As orelhas de Inuyasha estavam caídas mais uma vez.

***

Kagome dormiu. E teve um sonho.

Sonhou com seu quarto rosa, sua cama fofa, seus livros difíceis. Estava sozinha: sua família havia viajado. Agora, a jovem estava sentada à escrivaninha, com roupas leves, tentando estudar. Ou melhor, tentando não pensar na bagunça que estava sua vida desde quando caíra dentro do poço que a conduziu para a era feudal.

Tomara que Inuyasha se cuide agora que a Tessaiga quebrou, pois se Naraku ou mesmo Sesshoumaru o atacarem... Bem, nem sei para que estou me preocupando. Ele tem Kikyou por perto, ela pode encontrar os fragmentos para ele...

O coração de Kagome se apertou com o ciúme.

De repente, o som de batidas à porta a tirou de seus pensamentos. Sem entender quem poderia ser, a jovem exclamou um “Entre”. E gritou ao ver quem abria a porta.

Lá estava o aracnídeo, com seu rabo-de-cavalo e seu quimono nobre. Então ele a encontrara! Iria matá-la!

— NARAKU! NÃO!

— Ah, aqui está você, Kagome — disse ele, meio distraído, olhando para todos os lados — Como as coisas são diferentes aqui.

A colegial ficou paralisada de pavor, mesmo percebendo que o hanyou se aproximava de si a passos lentos e parecia não olhar exatamente em sua direção. Na verdade, os olhos agora castanhos dele incidiam sobre um dos livros. Franzindo de leve o cenho, Naraku tomou o volume nas mãos e, silenciosamente, passou a folheá-lo. Por fim, se virou para a jovem e disse:

— Por que me olha desse jeito?

— V-Vo-Você me achou...!

— Você me chamou — aparteou o hanyou, como se fosse óbvio — e eu vim. Vamos, pare de tremer.

— N-não, eu não te chamei, seu...

Irracionalmente, Kagome sentiu que o medo inicial se esvaía. Naraku parecia tão humano quanto ela. Era bizarro ver seu inimigo dentro de seu quarto, olhando curioso para seu livro de biologia e parecendo confuso.

Mi-to... Mito... — soletrava Naraku, com alguma dificuldade. — Mitokondoria². O que significa isso?

A menina piscou inúmeras vezes. Era muito real, mas ainda era um sonho. Naraku jamais encontraria sua casa, jamais conseguiria chegar ali. Vendo-o ali, parecendo inofensivo, ela perdeu o receio e se endireitou em sua cadeira.

— Eu te digo o que é mitocôndria se você me disser como me encontrou.

— Já lhe disse... — volveu ele, deixando o livro sobre o móvel e se sentando no chão, ao lado dela. — Senti que você estava me chamando e vim vê-la.

— Desde quando você me trata como se fôssemos amigos?

— Desde quando notei que você não sente ódio por mim, Kagome.

Sem se dar conta do que fazia, a menina foi para o chão também, sentando-se ao lado de Naraku e apreciando o cheiro agradável dos cabelos volumosos dele. Corou.

— Eu não gosto de você — rebateu Kagome, séria. — Sinto raiva de você.

Não gostar é diferente de odiar. Não sei se você descobriu, mas só estamos próximos dessa forma por causa da pureza de seu coração, que me atraiu. E, no momento, você não está com raiva de mim. Está praticamente grata por ter alguém para conversar — volveu ele, serenamente. Kagome fez um bico contrariado; tinha sido descoberta.

A mão dele cobriu a sua; ela deu um pulinho, assustada. Mais: a proximidade não a incomodava como ela gostaria. Não era certo permitir um indivíduo perverso e sedutor como Naraku assim, tão perto de si. Com certeza ele estava a fim de tramar algo sórdido para prejudicá-la.

Entretanto, a solidão de Kagome era mais forte. E, bem, aquilo era apenas um sonho. E Naraku, apesar de mau, parecia tão compreensivo naquele instante... Tão doce com aquele jeito meio tímido...

— V-Venha — chamou-o ela, indicando a cama. — Lá é mais confortável. Vamos nos sentar... Quer comer alguma coisa?

— Não, obrigado.

Assim, os dois se sentaram sobre a cama. Naraku ficou surpreso ao ver a colegial puxando-o para que se recostasse na parede; ele despiu-se das sandálias e das meias. Então, Kagome foi além e recostou a cabeça em seu ombro, olhando para a simetria dos pés bem feitos dele. O hanyou, enrubescendo, colocou o braço sobre o ombro dela e disse as palavras que ela tanto queria ouvir:

— Sou todo ouvidos. Conte-me como foi o seu dia.

***

No castelo, sentado sobre o futon e parecendo abatido e fragilizado, Naraku se concentrava ao máximo. Seu youki o circundava; era notório que algo não ia muito bem com ele.

Ele achou, erroneamente, que seria fácil possuir a alma de Kagome através de obsessão, mas o feitiço virou contra o feiticeiro. A menina tinha uma alma grandiosa, sadia e forte; ele, com todas as carências que tinha, acabou por ficar preso na alma dela, como se estivesse agarrado a uma teia de aranha. Naraku já não sabia como se desligar.

Como fazer? Era tão confortável o contato com aquela alma pura. Era gostoso envolver-se com ela, deixar que ela o conduzisse por aquele mundo novo de sentimentos bons e doces. Ele agora estava dentro do subconsciente da jovem, sentado com ela em um lugar rosa no mínimo estranho, numa proximidade que Kikyou jamais aprovaria. E, diabos, Kagome era apenas uma menina de quinze anos atraída por aquela sua faceta gentil e afável. Bonita e um pouco influenciável, sim, mas ele não podia deixar que ela o envolvesse mais ainda.

Naraku ouvia pacientemente os relatos gesticulados do cotidiano estranho, detalhado e cheio de sentimentos da colegial, que dizia de seus estudos, provas, as amigas, Shippou, os desencontros entre Miroku e Sango, as cantadas de Kouga, as grosserias de Inuyasha e...

Por favor, Kagome, não fale nela, não fale, não...”

— “Então os insetos de Kikyou apareceram e ele me deixou sozinha de novo.”

— “Imagino que tenha sido muito ruim, Kagome” — Naraku se viu dizendo a ela.

— “Foi, sim, muito ruim. Você também se sente assim, não sente? Quando ela faz isso...”

— “Sinto-me muito mal. É ruim ser rejeitado. E eu confesso para você que não consigo esquecê-la.”

— “Você se declarou para ela?”

— “Sim, inúmeras vezes. Mas não se pode obrigar alguém a nos amar, não é verdade?”

Silêncio. O hanyou viu Kagome, timidamente, pegar em uma de suas madeixas e levá-la aos lábios. O coração dele disparou. Aquilo estava errado. Tinha que sair da mente dela o quanto antes.

— “Sabe” — começou a menina — “Eu nunca fui beijada. Estava guardando o meu primeiro beijo para o meu verdadeiro amor, mas a sensação que tenho é a de que sou uma trouxa...”

— “Não pense assim, querida. É algo especial para você, não deve ser entregue a qualquer um. Até porque você é linda, tem uns lábios que parecem ser tão doces e macios...”

Merda, o que estou dizendo?!, recriminou-se Naraku, quase se estapeando no castelo. Ele não estava ali para galantear ninguém e sim convencê-la a ser sua aliada.

— “Você me acha bonita, Naraku? Inuyasha disse para os Irmãos Relâmpago que sou feia...”

— “Ele é um idiota cego burro e tapado, Kagome. Você é belíssima. Atraente e formosa, com seus olhos de menina neste corpo de mulher.”

— “Oh... Então você repara em meu corpo?”

Dentro do sonho, o hanyou arregalou os olhos. Kagome o encarava, com aquela carência gigantesca. Ela era linda e, complicando a situação, estava começar a se excitar por ele. Magoada como estava e com os hormônios à flor da pele, a colegial estava de fato vulnerável. Mas Naraku não queria aquele tipo de contato com Kagome. Não por respeito a ela e sim porque ficaria ainda mais preso.

O hanyou PRECISAVA ter as rédeas daquela situação em suas mãos. Mas a fraqueza oriunda da rejeição o deixou tão exposto quanto a menina, que não parava de olhá-lo. Reunindo todo seu autocontrole, Naraku tentou se manter mais racional no sonho e objetou:

— “Desculpe-me, não é correto. Você ama o seu cachorro, eu amo Kikyou. Não deveríamos estar assim tão íntimos.”

— “Se você a ama, por que a violentou?”

— “Não a violentei! Está louca? Não seria capaz de fazer uma atrocidade dessas.”

— “Você é um assassino...”

— “Sou assassino, não estuprador. Para que tomar à força e ferir de forma tão grotesca o íntimo de uma mulher, sendo que posso levá-la a dar-me o que desejo e fazer disto um ato inesquecível para os dois?” — disse ele, retoricamente, sem imaginar que tal afirmação causaria um efeito devastador na colegial ao seu lado.

— “...”

— “Eu, Naraku, sei bem como amar uma mulher” — prosseguiu o hanyou. — “Devo amar uma mulher tão completamente que basta ouvir o som de minha voz para o corpo dela tremer e explodir em prazer tão intenso que somente o choro pode traduzir o gozo total³...”

O cheiro natural da mocinha estava mais acentuado e seu olhar para Naraku mudou. Ele estremeceu. Se permanecesse ali, iria fraquejar. Kagome não era Kikyou, era impossível comparar as duas. Contudo...

— “Sabe... Eu não queria admitir, mas sempre te achei muito bonito... Bonito e atraente...”

— “...”

A jovem aproximou o rosto do dele, piscando languidamente, perscrutando todos os detalhes daquele rosto masculino e, no momento, vermelho. Não importava mais que Inuyasha não ligasse para seus sentimentos, não importava mais que ela havia sido deixada como segunda opção.

Tudo o que importava para Kagome era o desejo latente de experimentar o sabor e a textura daqueles lábios médios e entreabertos de Naraku, e foi o que ela fez, sem pedir permissão.

Um selinho tímido e curioso, sendo seguido de mais outro. E mais outro. E as mãos dela se embolaram naqueles cachos macios, enquanto puxava o hanyou para mais perto de si.

Os olhos de Naraku pareciam querer saltar das órbitas, enquanto seu coração batia descompassado. Aquela garota não o excitava como Kikyou, mas nem por isso ele conseguia se manter imune. Seu membro pulsava vivamente sob suas vestes e ele notou que havia perdido a batalha.

No castelo, ele fechava fortemente os olhos e segurava a cabeça com as mãos, aflito. Saber que havia perdido o controle sobre algo deixava o híbrido fora de si. As imagens do sonho de Kagome o estavam apavorando; só mostravam o quanto sua carência afetiva o deixava manipulável.

Qualquer um poderia dar cabo dele naqueles momentos, ele concluiu.

No sonho, a jovem afastava o rosto do dele, vermelhíssima, mas parecendo alegre com a nova descoberta. O hanyou não havia correspondido e permaneceu estático, encarando-a. Subitamente, as mãos dele agarravam-lhe os pulsos e Kagome se assustou:

— “N-Naraku, o que...”

— “Kagome... Até agora, você não descobriu o que é o prazer porque perde tempo andando atrás de um moleque” — disse ele, imperioso e cheio de luxúria no olhar. A mocinha sentiu fisgadas poderosas em seu centro de prazer e instintivamente abriu um pouco seus lábios.

— “Ahh...”

— “Hoje, porém, você está diante de um homem... Eu a vejo como um pequeno botão de rosa, encolhido e relegado ao frio. Vou ser o seu sol...”

As mãos dele a soltaram e foram para os botões de sua blusa, abrindo-os, enquanto o aracnídeo não apartava o olhar do dela. Os seios da jovem enfim foram expostos e Naraku não pensou duas vezes antes de abocanhar um dos mamilos rijos, encarando-a.

— “Vou te mostrar o que o sol faz aos botões de rosa, Kagome... Você vai desabrochar quando eu a fizer gozar... Inúmeras vezes...”

— “OHH...!”

A jovem agarrou os cachos do hanyou, afastando-o dela e o encarando com olhos enormes.

— “M-mas o que você está fazendo?! Eu só queria um beijo...!”

— “Não é o que o seu corpo está me dizendo” — replicou ele, sem se deter na tarefa de bolinar as mamas de Kagome, que se dividia entre o desejo e o medo. — “Entretanto, se você quer começar por um beijo...”

— “Ei... Eu não v-vou fazer isso com você, eu...”

— “Você e eu somos livres, Kagome. Chega de nos arrastarmos atrás de quem não nos dá o devido valor...”

— “Mas eu sou virgem...”

— “E eu sou cuidadoso...” — sorriu ele, levando-a a sorrir de leve também.

E o aracnídeo terminou de despir a blusa da mocinha que respirava apressadamente, beijando-a em seguida sem a mínima reserva ou recato. Kagome gemeu; pensava que iria desmaiar ao sentir a língua suave e quente de Naraku em contato com a sua, ao mesmo tempo em que seus mamilos eram estimulados pelos dedos hábeis do hanyou. Em seus pensamentos desvairados, ela desistiu de reprimir seu desejo, intuindo que tudo era apenas um delicioso sonho bizarro.

Ele, Naraku, era seu inimigo, mas a fazia se esquecer dos dissabores e desgostos.

Naquele universo diferente, o hanyou percebeu que tudo acontecia fácil demais; a jovem já não mostrava resistência alguma. Não houve a euforia da conquista; não havia no olhar alvoroçado de Kagome nada além do desejo inexperiente e cru. Naraku intuiu que o sexo com aquela garota não teria a emoção que ele adorava sentir.

Talvez, contudo, ela me faça esquecer um pouco de toda essa saudade que sinto de Kikyou.”

***

Enquanto Kagome sonhava, Miroku, um tanto agoniado, não conseguia ter sossego. Sentia uma energia maligna ali por perto; ele, porém, não identificava sua procedência. Inuyasha, também sem sono e sem paz, olhava para o monge de soslaio.

— Que é, maldito? — sussurrou o hanyou, depois de mais um tempo observando seu amigo.

— Um youkai... Sinto a presença de um youkai, mas não consigo perceber de onde...

— O que houve? — resmungou a exterminadora, acordando com os cochichos.

— Miroku diz que sente a presença de um youkai, Sango.

A moça olhou para Inuyasha com raiva e não respondeu. Antes, voltou seu olhar para a amiga, deitada ao seu lado. Por algum motivo, Miroku também olhava com certa ansiedade para Kagome. O hanyou se sentiu desconfortável perante aquele silêncio acusatório e virou o rosto para o outro lado, muito aborrecido.

O monge voltou a fechar os olhos, apreensivo. Talvez fosse apenas impressão sua, mas a jovem aprendiz de sacerdotisa parecia estar com a palidez de um corpo sem vida.

***

Dentro do sonho de Kagome, Naraku arremetia com força dentro do corpo virgem da jovem, enquanto ambos exclamavam em alta voz o seu prazer estranhamente simultâneo.

— “Ahh... Kami-sama... Isso foi maravilhoso...” — gemeu a colegial, com um sorriso bobo na face.

Não houve dor ou sangue no meio daquela fantasia conjugada dos dois. O hanyou se deitou ao lado dela, suspirando.

— “Sabia que iria adorar, Kagome. Então... Está cansada?”

— “Não... Quero mais... Isso é um sonho, não é?”

Ele sorriu com certa malícia.

— “Isso é a mostra dos seus desejos mais íntimos manipulados por mim, querida” — e Naraku levou a mão ao seu sexo grande e rijo, tocando-o devagar. — “Gostaria que me chupasse.”

— “Estou adorando esse sonho... Com você, nem lembro dos meus problemas...” — respondeu Kagome, afoita, indo realizar o pedido de Naraku.

No coração do hanyou, contudo, reinava o peso de não conseguir se esquivar da saudade que sentia de Kikyou, somado à dificuldade extrema que ele experimentava para largar a alma da mocinha.

Como eu saio daqui? Ela é tão inocente... Nem percebe que esse contato comigo poderá deixá-la doente. E, no fim das contas, eu não consigo parar de pensar em Kikyou.

***

¹ — Naraku crê no princípio taoísta que prega que o yin (do Yin Yang) tem a ver com a ejaculação.

² — “Mitocôndria” seria pronunciada assim em japonês. Tá, copiei isso do Sesshoumaru de Vulneráveis! #mejulguem! Huehuehuebr!

³ — Esta é uma frase adaptada do personagem Don Juan, do filme Don Juan DeMarco. *-*

Notas finais
#TodasApedrejaOkaasan GENTEEEEEEEE, ESSE HENTAI NARAKUxKAGOME NÃO ACONTECEU! É UM SONHO DELA! NÃO ME MATEM! Confesso que a cena do hentai estava toda escrita, com tudo o que uma cena de sexo pede, mas eu a deletei. Não gostei do resultado, pois vejo a Kagome do anime como uma personagem muito doce. Ela não merecia estar passando por esse tipo de coisa ¬_¬ Kikyou e Inuyasha ¬¬' Gente, será que eles não se mancam que o sentimento do passado acabou? Tensão para todos os lados! Naraku, bicho safado, aproveitando das mágoas da coitada da Kagome #todasFazTscTsc E, convenhamos... Ele não precisou manipular TANTO o subconsciente dela. ( ͡° ͜ʖ ͡°) #TodasDeOlhoNessaMenina Acho que o Miroku já percebeu que há algo de errado com ela... Será que ele vai conseguir ajudá-la? E o Inuyasha, como fica nessa história toda? Imagino que o capítulo não foi, de fato, tão legal como os outros, mas tudo irá se encaixar a partir do próximo. Beijos da Mamãe (◕‿◕✿) @Okaasan