The Heir Of The Universe
2 Capítulo II
Notas iniciais

POV Samu
Um cheiro de maresia encobriu o ar. Bella estava nos dando um último adeus. Foi exatamente essa sensação que levei comigo durante os meses seguintes. A dor me tomou.
Deixei o acampamento assim que não aguentava mais. Ar puro era o que eu precisava, e ali, não iria encontrar, já que tudo lembrava minha irmã. Com o consentimento de Quíron e do Sr. D, parti.
Era insuportável levar a dor sozinho, e ficar ali só iria me fazer piorar. Passei a andar sem rumo nas cidades, dormindo na casa de amigos ou parentes, conheci pessoas que me mostraram como esquecer seus piores problemas na luta.
Meses haviam se passado desde que deixei o acampamento. Se o que Bella me disse fosse verdade, eu nem deveria estar aqui, mas sim correndo de volta pra lá.
Só de pensar em voltar, um arrepio atravessava meu corpo, já que retornaria para o mesmo lugar onde minha irmã era feliz.
Sentado no alto de um dos prédios do litoral, fiquei ali observando as ondas com meu único aliado que me fazia dormir sem pesadelos todos os dias. Vodka. Mesmo a praia estando longe, conseguia ouvir o barulho da água batendo nas rochas.
Constantemente, uma brisa quente de verão aparecia e me trazia o cheiro de água salgada. Fiquei ali por todo o entardecer, até mesmo quando a noite caiu.
A dor no peito doía. Alfinetava. Agonizava. Gritava. Exigia ser notada. Lágrimas de dor, frustração, saudade, e algo mais caíam na minha calça jeans. Por diversas praias e cidades eu havia feito isso. Chegava. Sentava. Bebia até desmaiar. Acordava por causa de policiais, turistas, cachorros e uma vez, até por um mendigo banguela bastante simpático.
Em uma dessas ressacas, estava na praia e um garoto que passava por ali, se sentou ao meu lado. Tinha cabelos pretos e olhos azuis claros. Não disse seu nome. Não perguntei. Nem disse o meu. Apenas ofereceu seu ombro como se fossemos velhos conhecidos.
– Por que o choro?
– Perdi minha irmã. — Respondi, seco, tomando goles de bebida.
– E por que está bebendo?
– Para tentar esquecê-la.
– A morte juntaria vocês dois. Por que não morreu também?
– Porque ela me fez um último pedido. Eu teria que fazê-lo em nome dela.
–E o que seria?
– Não posso falar.
– Ah. Segredos de família. Compreendo. Acho bonito até.
Tentei olhar pra ele. Mas a lua parecia não querer iluminá-lo, como se tivesse certo receio. Olhei de soslaio, por vários ângulos, mas não conseguia enxerga-lo direito. Seu rosto parecia mudar de forma constantemente.
Desisti. Me deitei na areia.
– Já faz dois anos que você partiu. Agora vive zanzando por aí bebendo e chorando por uma mágoa. Isso é certo?
– Não é isso, é só qu... — Interrompi. Franzi a testa e indaguei pra mim mesmo. — Como sabe disso?
Aparentemente ele ouviu. Suspirou e me deu a pior resposta que eu queria:
– Samu, eu sei de muitas coisas.
– E quem é você?
– Não vem ao caso. Não quero me identificar. Posso ter problemas.
Achei estranho, mas deixei pra lá. Passamos horas conversando. Recebi conselhos que acabariam me ajudando, tanto pra vida quanto pra batalhas. O sol raiou.
Me levantei e espanei a areia das roupas. Olhei para o lado mais uma vez, mas o garoto não estava mais ali. Não sei afirmar com certeza a vocês que isso realmente aconteceu, mas lembro de uma coisa, embora vaga. No lugar onde ele estava, havia uma pequena poça de água cristalina.
Naquela mesma manhã, me preparei pra seguir viagem. Continuar cultivando meu luto por Isabella. Quando já estava razoavelmente longe, vi vários adolescentes correrem pela areia e se jogarem na água. Sabia que algo era comum pra mim, já que sempre um dos garotos traziam a água até em cima, fazendo ela o puxar. Os outros abriam caminho quando o amigo ia pular.
Notei que um deles estava longe demais da água, tirando várias pranchas de uma caminhonete. Caminhei até lá.
– Oi, quer ajuda pra descer as pranchas?
– Não obrigado. — Respondeu o garoto, sem olhar pra trás. — Só preciso passar o...
O garoto interrompeu a fala quando me viu. Fiquei em silêncio e ergui as sobrancelhas. O rapaz deu um grito tão alto, que eu tinha certeza que seria o mesmo grito que daria se estivesse sendo perseguido por uma dúzia de filhotes do Cérbero.
Comecei andar de costas, devagar, sem entender o que tinha acontecido. Os amigos que estavam mais próximos chegaram e perguntaram o que tinha acontecido. Alguns também se assustaram ao me verem. Um mais fortinho tomou frente e me chamou.
– Samuel?
– Sim, sou eu.
– Cara, você não sabe o quanto te procuramos. — Ele passou a mão pelos cabelos, sorrindo. — Isa e Cora ficaram loucas quando souberam que você tinha saído. O que aconteceu?
– Nada. — Disse, duro como rocha. — Foi um erro eu ter vindo pra cá, desculpem-me. Não sabiam que eram do Acampamento.
Me virei, determinado a acabar logo com aquilo, e saí a passos duros. Mas o cara agarrou minha camisa me forçando a virar e encará-lo.
– Calma cara. Vamos conversar. Você vai ficar se escondendo por quanto tempo?
Os outros amigos ou irmãos se aproximaram, receosos. Eu sabia que minha amargura era visível. Tanto, que só faltava escrever isso na testa.
– O tempo que eu precisar.
– Samuel, sabemos da sua dor. A Isabella faz falta pra todos, não é só pra você. Sei que vocês tinham mais proximidade, — Ele deu de ombros — mas você não precisa viver assim. Ela não iria querer te ver desse jeito e...
A raiva subiu de algum ponto, percorreu toda a extensão do meu corpo e se incendiou.
– NÃO PRONUNCIE O NOME DELA! VOCÊ NÃO A CONHECIA DIREITO! NÃO TEM DIREITO DE FALAR DELA ASSIM!
– Eu... — Não o deixei terminar. Parecia desconcertado. Os outros me olhavam com pena ou um olhar desolado.
– Eu cometi um erro vindo pra cá. Se perguntarem sobre mim, digam que eu estou bem e que não vou voltar tão cedo.
Ninguém tentou me impedir de sair dali.
Sussurrei tanto pra mim, quanto pra eles.
– Adeus, irmãos. Foi bom revê-los.
Meses haviam se passado desde o incidente na praia. Agora eu sabia como identificar alguém do Acampamento. Sempre os evitava, mas quando não conseguia, eles diziam que queriam que eu voltasse. Sempre dava alguma desculpa esfarrapada, me escondia, adentrava na multidão, fingia que haviam me confundido com outra pessoa.
Caminhava no meio da multidão nos centros da cidade, mas por dentro, não havia absolutamente nada além de um vazio.
Até que um dia, cheguei a praia e percebi que ela estava deserta. Resolvi descer a encosta que circundava a praia. Quando cheguei a areia, percebi uma prancha cravada no chão, sem ninguém por perto. Tinha a estampa de duas palmeiras em uma ilha, com um fundo azul escuro ao fundo.
Olhei para o mar, mas não consegui ver nada, apesar de calmo e sereno. Uma sensação de vertigem surgiu, e resolvi voltar pra cidade. Mas assim que me virei, dei de cara com o garoto que estava tirando as pranchas da caminhonete naquele dia. Estava diferente. Parecia determinado e assustado. Parei para olha-lo melhor. Parecia ter uns dezessete anos, cabelos castanhos bastante escuros e olhos verdes. Trazia uma prancha branca e azul em baixo do braço.
– Não se preocupe, nem mexi na prancha. Eu já estou de saída.
– Eu sei. — Ele fitou o chão e chutou, levantando uma pequena nuvem de areia.
– Eu trouxe pra você surfar comigo.
– Como? Desculpa, eu não sei surfar.
– Um filho de Poseidon que tem medo do mar?
– Não... Sério, eu não sei mesmo.
– Ah. Ta, pega logo a prancha e vamos pra água.
– Certo, e quem você pensa que é pra chegar dizendo isso? — Cruzei os braços e o encarei. Ele sorriu.
– Prazer, Ítalo, seu irmão.
– E por que isso?
– Cala a boca por cinco minutos e vamos. Olha pro seu passado. Você realmente acha que é certo perder a batalha que a nossa irmã começou?
Mesmo contrariado, resolvi tentar. Além de me distrair, podia me livrar das perseguições. Depois de várias quedas, consegui pegar o jeito da coisa e acabei me manter em pé na prancha. Ítalo estava do meu lado ou ficava na beira da praia gritando instruções.
Descobrimos muita coisa um sobre o outro, quando paramos pra conversar no fim da tarde. Ele também haviam perdido alguém. Assenti e desviei o olhar pro mar a minha frente, mas continuei a conversa normalmente.
Alguns meses se passaram e sempre passamos a marcar dias pra um pouco de surf. Aprendi a usar meus poderes com o mar pra me ajudar. Em uma tarde, olhei pro topo da encosta de pedra, enquanto entrava em um tubo e notei que alguém nos observava. Saí da água e coloquei a prancha no chão, me sentando em cima dela. Esperei Ítalo sair da água também.
– Por que saiu ?
– Nada. Me cansei.
– Fala logo.
– Ítalo, você falou pra alguém que a gente ta surfando aqui?
– Não, quando souberam que nos te encontramos, quase que Quiron mandou que fossemos te buscar.
“O Acampamento mandar uma equipe de busca... Até parece.”
– Ainda bem que você não disse nada, se não teríamos que parar com as aulas.
Alguns dias se passaram e minha rotina sempre era a mesma. Saia da água olhando pra rocha, tentando encontrar a pessoa. Até que um dia Ítalo não apareceu. Me sentei e esperei. O sol já estava se pondo quando ouvi passos apressados.
– Você se atrasou. Agora não da pra surfar.
–Eu odeio o mar e você sabe bem disso.
Me virei. Cora estava parada de braços cruzados. O cabelo negro havia crescido, estava com uma jaqueta de couro preta, blusa branca com uma estampa de caveiras, calça jeans rasgada e botas marrons.
– Cora...
– Três anos, Samuel. Três anos.
– Desculpa, eu precisava me afast...
– Você não está de luto.
– Eu penso nela todos os dias. — Desviei o olhar.
– Pensa? Então aproveita e chora mais.
– Eu tive algumas ajudas.
Ela largou os braços e pisou na areia.
– Volta.
– Não tenho mais lugar lá.
– Nem vem. Estamos te procurando durante todo esse tempo. Isa quer falar contigo. Nós duas queremos saber: quais são as últimas palavras da Isabella. Ela viu Samu.
– Não vou contar.
– Certo. Fique aí então. — Ela se virou e começou a caminhar.
– Cora. — Ela se virou, sorrindo. — Eu volto com você.
A volta foi meio assustadora. Cora era do tipo de guia que não mostra os pontos mais belos das viagens. Em pouco tempo, estamos parados na entrada do Acampamento.
Ela seguiu calmamente, e olhou para trás ao ver que não a seguia. Respirei fundo e entrei. Nada havia mudado.
Cora me acompanhou até o chalé 3. O cheiro de água do mar invadiu meu peito e me fez lembrar do nosso primeiro dia.
Antes que eu pudesse pensar em alguma coisa, alguém pulou nos meus ombros, me desequilibrando.
– Faça isso de novo e eu te mato. Tava fazendo o que?
Me virei. Isa também tinha deixado o cabelo castanho crescer. Os olhos azuis continuavam o mesmo. Estava com uma blusa regata leve com estampa de lobo, moletom xadrez amarrado na cintura, bermuda jeans e all star.
– Viajando. — Engoli o bolo que se formou em minha garganta.
– Precisou de três anos pra ter coragem de voltar?
– Precisou de três anos pra me encontrarem?
– Queria que ficássemos aqui, plantados, enquanto você estava andando por aí?
– Isadora? Deixe o garoto chegar, depois você pode bombardea-lo.
Quíron se aproximou. Também não havia mudado. Isa fez uma continência, sorrindo. Ele franziu a testa, mas sorriu.
– Sei que o último lugar em que você gostaria de estar é aqui. Mas se voltou, deve ter alguma razão.
– Eu voltei porque notei que aqui é o meu lugar. Não quero mais me abalar por causa disso.
– Tudo bem então. Pode me chamar quando precisar de alguma coisa.
– Obrigado.
– Espero vocês depois do jantar na Casa Grande.
– Jantar? Posso ir também? — Disse uma voz. Me virei. Luigi. Parecia mais forte da última vez. Luigi estendeu a mão e eu a apertei, e o puxei pra um abraço. Ele deu alguns tapas na minhas costas e se afastou, sorrindo.
Qualquer coisa que eu fizesse, transpareceria meu humor. Ainda estava meio mal.
– É você mesmo, estava com saudade. — Disse ele, por fim. — Bom ver que tu ta de boas.
– Hey, solzinho. Temos ensaio em duas horas e...
– Samu! — Disse Ítalo, vindo do nada. — Você ta de volta!
– De onde você veio? — Perguntei.
– Desculpa. — Isa deu um facepalm em si mesma. Cora, Luigi e ela se afastaram. — Ouvi vocês falando. Vamos, vou ter aula de combate agora.
– Sabe, faz muito tempo que não empunho uma arma. Vamos.
Os treinos que tive nesse tempo fora me fizeram bem. Treinando junto com os campistas, parei pra pensar no que tinha acontecido. Conseguia lutar por mais tempo sem me cansar, estava mais forte e as palavras de Bella queimavam meu coração me lembrando a todo momento.
Sem perceber, duas horas haviam passado. Luigi passou correndo pela arena, dizendo "Merda merda merda". Larguei a espada e corri atrás dele. "Esqueci do ensaio!" Gritou ele, sem nem olhar pra trás. "Posso ir junto?" Gritei. "Tanto faz! Só sei que a Isa vai querer me matar!"
– Atrasado, Luigi. — Disse Isa, assim que chegamos. — Ah, olá alga. Se quiser pegar a bateria, estamos precisando de alguém.
Michele estava sentada em uma cadeira, no teclado. Luigi pegou o baixo e Cora estava com a guitarra. Isa pegou o microfone e começou:
– E um, dois, três, quatro! – Gritou Isa. Cora começa com a guitarra. Depois das cinco repetições, Luigi entrou com o baixo, fazendo a melodia de fundo. Contei comigo mesmo e entrei. Isa esperou o tempo certo e começou a cantar.
Em alguns momentos, Isa se virava pra nós e sorria. Chegou até mesmo a dançar em cima do palco improvisado, feito de madeira. Quando percebi que a música havia acabado, dei algumas últimas notas e terminamos.
Mi e Isa soltaram um grito de comemoração simultâneo. Troquei um high five com Luigi e Cora se sentou no chão. Luigi puxou assunto, dizendo que não acreditava que eu havia voltado. Continuei, dizendo que ia ensina-lo a surfar. Ele gostou da idéia e comemorou. Ouvi algumas notas do piano. Luigi contou que faríamos uma apresentação na semana que vem.
Acabei me perdendo em mim. Isa tirou uma caixinha de som da mochila e colocou um pen-drive. Fui até ela e esperei ela escolher a música. Os outros se aproximaram, menos Cora, no mesmo lugar.
– Isso é Hail To The King? – Sussurrou ela.
– Sim, é Avenged Sevenfold – Disse Isa, e desligou. – Todos de acordo?
– Sim. — Respondemos.
– Certo. As partituras estão aqui. – Isa entregou-nos as partituras e começamos a folhear. Ela sorriu quando entregou os papéis pra mim, como se dissesse “Ta dentro” — Até semana que vem.
Desmontamos os instrumentos e nos despedimos, descemos do palco e fomos cada um pro nosso lado. Cora foi pra um lado da floresta. Decidi segui-la. Anoitecia. Percebi que entre as árvores, uma nova espécie estava crescendo. Aquilo me interessou. Cora se aproximou de alguns arbustos e começou a remexe-los.
– Não sabia que Vodka dava em árvores.
– Ah! — Ela se virou. — Cara. Não faz isso. E o que você ta fazendo aqui?
– Calma, não vou contar.
– Por favor. Não fala.
– Se não... — Indaguei, provocando.
– Faço o que você quiser. — Resmungou.
– Me entregue seis garrafas e me ajude a achar algum lugar pra esconder.
– Nas raízes da árvore de Thalia. Certo, então... Seis garrafas pelo silêncio? — Disse ela, relutante. Assenti. Ganhei uma careta.
Ela me passou as seis garrafas, agradeci e corri, o mais longe possível do pessoal. Escondi as garrafas, mas uma delas não cabia mais. A segurei, balançando o álcool bem na minha frente.
– É moça, parece que vai ser somente eu e você agora.
Bebi até não conseguir mais me aguentar. Ali estaria seguro. Ninguém lembraria de mim. Chorei lembrando da batalha. Até cair no sono. Acordei no chalé de Poseidon. Ainda não acreditava que realmente estava ali. Dias se passaram, e Isa nos reuniu. Segundo ela, iriamos ensaiar todos os dias. Me mostrei animado, mas a última noite me trouxe de volta as lembranças. Mais uma vez a voz dela voltou a repetir a última frase.
Isa nos reuniu na clareira onde ensaiávamos, e nos mostrou novos instrumentos com os símbolos de cada um e o nome da banda. Cora ainda me olhava torto, mas apenas sorri.
Durante um dos ensaios, Isa estava estranha e passou a prestar atenção nos instrumentos. Minha mente estava a mil. Estava a dias ali de bobeira e nem me passara pela cabeça procurar saber o último pedido de Bella. O quão falso eu podia ser?
Começamos. Estava ficando sem graça, já que sempre no fim de uma música, Isa algumas vezes dava recomendações ou cobrava de nós. Até que Isa pediu pra pararmos sem motivo algum.
– Que foi Isa? — Perguntou Cora.
– A bateria entrou fora do ritmo. — Isa se voltou para mim. — O que foi?
– Nada, desculpe. — Respondi, afastando meus fantasmas. — Me distraí.
– Certo. Do começo, 1,2,1,2,3,4!
Quando estávamos no refrão, a letra me chamou a atenção e eu acabei trocando o ritmo e me atrasei. Acho que até os outros perceberam. Ela pediu para que parássemos.
– Samu, o que foi? Tem alguma coisa te incomodando? — Disse Isa virada pra mim.
Apoiei minha cabeça por entre as mãos, olhei fixamente para o chão, cerrei os punhos, levantei o olhar e sem pensar nos atos simplesmente explodi:
– Eu não consigo! Tudo me lembra ela! Tudo me lembra de EU ter sido a causa da morte dela!
– Isabella? — Sussurrou Michelle baixinho.
– Sim. É culpa minha. Ela morreu pra me salvar. É MINHA CULPA! – Falei bradando ao vazio.
– Sammy, eu te entend... – Isa começou a me consolar, mas irado, cortoei-a.
–NÃO! VOCÊS NÃO ENTENDEM! NENHUM DE VOCÊS PERDEU UM ALGUÉM POR SUA CULPA! POR SUA DISTRAÇÃO!
– CALA A BOCA!– Isadora gritou como se estivesse engasgada com algo e todos a olharam assustados. — EU ENTENDO SIM, SAMUEL. EU PERDI MINHA IRMÃ TAMBÉM, CARALHO!
O silêncio foi tamanho que podia ouvir as folhas das árvores ao redor da clareira farfalharem. Isa ficou alguns minutos ali. Tentou dizer algo. Não conseguiu, e correu para onde eu não consegui ver. Aquilo que ela disse sobre a irmã dela me deixou atordoado. Sem pensar, larguei tudo onde estava, e comecei a descer o palco. Michele e Cora tentaram me segurar, mas em vão. “Chega. Vou beber até apagar. Isso é demais.”
Subi a colina, peguei algumas garrafas, tirei um copo pequeno de vidro do meu bolso e me sentei. Olhei pro acampamento, olhando pro céu. Era pra isso ter acontecido, mas duas pernas atrapalharam minha visão. Me levantei. Luigi estava do meu lado. O convidei a se sentar.
– Ta fazendo o que aqui sozinho?
– Estou... — Escondi a garrafa de Vodka atrás de mim. — Respirando.
– Foi foda o que aconteceu.
– Se for falar da Isa, eu chamo ela aqui e podemos falar nós três. — Cortei, duro.
– Me passa uma das garrafas. Deixa eu beber também vai.
Resmunguei e entreguei. Ele riu, bebeu alguns goles longos e voltou a falar.
– Não acredito que ela se foi.
– Ela quem? — Perguntei, mesmo sabendo da resposta. Luigi acabou derrubando um pouco da bebida, e fingi não ver.
– Isabella. — Disse ele. — Me da mais.
– Não vamos falar dela. E derrama mais Vodka que eu viro a garrafa em você.
– Samu, conversa comigo e... Não to derramando. To bebendo, você que não vê.
– Vamos falar da Cora então. Sobre ela não falta assunto. — Disse, bebendo mais um gole.
– Cora? — Ele bebeu tudo de uma vez, e acabou se engasgando.
– Ou da Michelle, se preferir. — Dei alguns tapas nas costas dele.
– Ou da porra de um médico. Me leva pra enfermaria.
Quando o vi se contorcer, acabei rindo, mas quando ele ergueu a cabeça, vermelho, percebi que não era brincadeira. Ele acabou rindo também e disse:
– Ainda não sei beber.
– Ta, ta. Acalma.
– O que ta acontecendo aqui? — Disse Cora, surgindo do nada.
– Nada. — Respondi, me levantando. Ajudei Luigi a se levantar também. — Vamos Luigi, vou te levar pra...
– Você não vai a lugar nenhum. — Cora me segurou pelo braço, nem um pouco contente.
– Gente? Ta tudo bem? — Disse Michelle, se aproximando. — Cora? Sam? Luigi?
– Mi, leva o Luigi pra enfermaria. Ele engoliu um inseto e não está respirando. — Disse Cora, puxando Luigi antes que eu pudesse responder.
– Ok...
E se afastou. Quando os dois estavam fora de vista, Cora disse:
– Agora é só eu, você e a Isabella.
Ela cruzou os braços, me encarou, esperando por respostas que eu não queria dar.
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