The Headless Gang
2 Zoação em quatro rodas
Notas iniciais

O som da buzina ecoou por dentro da casa inteira, exatamente como todos os dias. Dan ainda estava se deliciando com as malditas torradas que ele enchia de geléia quando eu desci as escadas e o arranquei de uma das cadeiras da cozinha a força.
– Qual é, maninha, me deixa terminar o café... – Ele resmungou, tentando se livrar de mim. – Eu ainda não abri o novo pote de geléia, e é do meu sabor favorito...
– Dane-se a geléia, Dan, vamos nos atrasar... Além disso, eu já mandei você acordar mais cedo – agarrei a mochila de Dan do sofá e bati a porta de entrada atrás de mim. Exatamente como manda a rotina, o porsche conversível branco de Z estava estacionado na calçada, na vaga em frente a minha casa. Com Z no volante, soltei Dan assim que tive certeza de que ele não fugiria de volta para a cozinha, deixando que ele entrasse para o banco da frente. Joguei sua mochila para ele e pulei para dentro do carro, esmagando Kilian, Lex e Ayram no banco, como sempre. Nenhum deles pareceu se importar.
– E ai, galera – Z gritou do bando da frente. – Prontos para mais um dia no nosso mini inferno?
– Melhor os dias do que as noites – ouvi a voz de Kilian ecoando do outro lado do carro enquanto a mão de Ayram se ajeitava na minha cintura.
– Bom dia, gata – ele sussurrou me puxando para mais perto dele.
– Olha a putaria – Lex gritou do outro lado de Ayram que lhe lançou um olhar de ódio que em segundos fez o carro todo rir.
– Está certo, vamos logo antes que percamos o primeiro horário – Z comentou pisando fundo no freio, e nós avançamos a caminho da escola deixando o barulho e as novas marcas do pneu da porsche para trás.
– Como foi a noite? – Kilian sorriu irônico em parte para mim, em parte para Dan.
– Kilian, meu querido, sabe que eu odeio ironias – sorri novamente para ele, mas não notei sua reação. Me dirigi para Ayram novamente, examinando seus longos cabelos negros, agora, levemente ondulados. – Então... Aquele probleminha de novo? – Perguntei baixo o bastante para que só ele ouvisse. Ayram assentiu discretamente e eu levei a mão até seus cabelos. – Talvez se você lavasse...
– Na verdade, acho que gostei do novo visual – ele deu se ombros e jogou a cabeça para o encosto do banco, deixando que o vento tomasse o controle de seus cabelos.
– Qual é nossa primeira aula? – Lex perguntou quando viramos a esquina da escola.
– Biologia – Z e Dan responderam ao mesmo tempo, Z parecendo bem mais entediado do que meu irmão.
– Merda, vamos matar... – Kil sugeriu, pulando para fora do carro.
– A favor – sai pelo meu lado e Ayram veio logo atrás.
– Desde que voltemos para a aula de informática... – Dan foi o ultimo a sair o carro, e também era o único que saia com a mochila da escola. Uma pessoa normal se incomodaria em deixar a mochila num porsche conversível aberto, numa espécie de sinal: Ei, me roube. Mas esse não era o meu caso, primeiro porque Z havia estacionado dentro do colégio. Segundo... Ninguém me roubaria. Terceiro, se roubassem, a única coisa que levariam meu material escolar e, de qualquer forma, eu recuperaria. Dan seria a pessoa normal, ou talvez ele só quisesse levar a mala consigo para onde fosse para nos lembrar de voltar para a aula mais tarde.
Nunca entendi muito bem como meu irmão conseguia lidar tão facilmente com computação, mas, de certa forma, ele sempre foi um garoto meio nerd e super viciado em tecnologia. Me surpreende ele assistir as aulas de informática, as vezes é como se ele soubesse mais do que a professora.
– Claro que vamos voltar, Dan. Todos nós sabemos que você tem uma quedinha pela professora e eu juro que, se for necessário, eu carrego cada um desses inúteis de volta para dentro desses muros – Alexia sorriu docilmente para o rosto vermelho de Dan.
– Mais provável ele ser apaixonado pelo computador do que pela professora – Ayram arrancou a mochila de Dan e a jogou dentro do carro. – Se alguém perguntar, a mãe do Z está com câncer e nós vamos visitá-la no hospital... – Ele me puxou para o caminho que nos levaria para fora da escola. Os outros nos acompanharam o mais discretamente que podiam, isto é, nada discretos. Dan e Z estavam comentando algo sobre o novo videogame qualquer, que uma nova empresa no mercado havia desenvolvido e criavam as estatísticas de venda. Lex e Kil, bem... Digamos que não se importavam em mostrar ao mundo sua paixão maluca. E Ayram parecia querer ir pelo mesmo caminho... Homens.
– Então, qual é o plano? Pra onde a gente vai? – Dan perguntou, de algum lugar mais atrás de nós.
– Nós vamos para um loja de videogames, eles, provavelmente para um motel, ou para qualquer lugar longe de nós, onde não pareçamos UM CASAL GAY – Z gritou irritado ao lado de Dan.
– Está brincando, Z. Se vocês fossem gays, não iriam se vestir assim – comentei me afastando um pouco de Ayram. – E meu irmãozinho não é gay, eu mesma posso cuidar da pessoa que desconfiar da masculinidade dele.
– Hadrian, me lembre de nunca duvidar da sua masculinidade – Ayram brincou, piscando para o meu irmão ao mesmo tempo em que acertei um chute na sua canela.
– Ayram!
– Não leve a mal, só não quero me meter em confusões com a irmã mais velha – ele completou, ignorando completamente meu gesto protestante.
– Eu estive pensando... O que acham de darmos um jeito na picape do Michael? – Kil sugeriu. – Nunca irritamos alguém do time de futebol, e fala sério, é um clássico, sem contar que não teríamos problemas sérios com isso.
– Da ultima vez que imaginamos não ter problemas sérios... Esquece – Z deu de ombros. – Eu estou dentro – ele olhou para mim e Ayram.
– O filho da puta vive me perseguindo, é como se soubesse tudo sobre mim, mas ainda assim, parece querer mais, e cada vez mais. Talvez isso tire ele da minha cola, pelo menos que por alguns meses – comentei e Ayram assentiu.
– Vai ser uma pena, mas vamos acabar com aquela picape – ele sorriu, vitorioso.
– Ayram tem razão, a picape é de mais, mas nós podemos dar um toque – Lex deu de ombros e todos nós lançamos um olhar a Dan.
– Então vamos voltar a tempo da aula de informática? Eu estou dentro! – Ele sorriu, e todos nós rimos. Este era meu irmão, sendo exatamente como sempre era. Completamente viciado por computadores. Eu e os outros é que estávamos um pouco fora do normal, mal tínhamos saído da escola, e já estávamos voltando! Que tipo de feitiço lançaram na gente desta vez? Só espero não ter sido nada grave...
O plano era simples, agir durante o tempo que nos restava antes do segundo horário, a aula de educação física. Até lá, só tínhamos que nos preparar. Os corredores estavam praticamente desertos, tirando como exceção a minha presença e a de Dan. O sinal do primeiro horário, como eu já esperava, havia batido há pelo menos meia hora, e os alunos estavam todos trancados em suas entediantes salas de aulas. Enquanto isso, eu e Dan apenas circulávamos o mais discretamente que podíamos.
– Você vai no do Ayram, deixe o do Kilian comigo – ele sussurrou, e eu assenti para não fazer mais barulho, e Dan correu para o armário de Kil enquanto eu corria para o de Ayram. O mais difícil não foi abrir o armário, já que eu sabia a senha, mas sim encontrar o maldito taco de baseball no meio da bagunça que ele incrivelmente conseguia fazer. Uniforme de educação física, cadernos jogados, embrulhos de doces já comidos, papéis arrancados e...
– O que diabos?! – Gritei, arrancando um enorme “shhh” do meu irmão. – Eu vou matar aquele filho da puta! — Arranquei com raiva as fotos mal recortadas de páginas de uma revista qualquer que ele havia comprado.
– Meredith, o que está fazendo? – Dan sussurrou, correndo para trás de mim com o taco de baseball de Kilian.
– Revista de mulher pelada! – Joguei os recortes com ódio no rosto do meu irmão, que não tinha absolutamente nada haver com aquilo, mas... bem, eu tinha que descontar a raiva em alguém. – Quando eu encontrar aquele desgraçado...
Dan esticou o braço por cima de mim e agarrou o taco de dentro do armário de Ayram.
– Segura isso pra mim – ele não esperou eu pegar o taco, irritada, apenas o jogou para cima de mim e enfiou o braço de novo dentro do armário dele. – É mais fácil para um garoto se localizar no armário de outro – ele jogou a revista recortada no meu colo e bateu a porta do armário discretamente. – De nada, maninha.
Eu sorri para ele como agradecimento.
– Vamos logo encontrar os outros, eu preciso ter uma séria conversa com Ayram – comentei, e ele revirou os olhos como se dissesse: namorados... Mas não comentou nada mais, agarrou o meu braço e nós passamos correndo pelos corredores de volta para fora da escola.
Lex e Z já estavam de volta em frente à vaga habitual onde Michael deixava sua picape, fora do estacionamento da escola, como se dissesse para suas putas que não era um estudante que acabara de tirar carteira, mas um universitário raper que acabara de se formar.
– Vocês demoraram – Z comentou, agarrando o taco dos braços do meu irmão.
– Onde estão os outros? – Dan fez a pergunta por mim.
– Não faço ideia, mas se eles demorarem vão perder a diversão – Lex sorriu, levantando uma das caixas de ovos que havia comprado.
– Teoricamente, não poderíamos começar sem eles, não queremos que esse alarme estoure... Se bem que eu poderia dar um jeito nisso – Dan deu de ombros. – Porque sempre fazemos as coisas do jeito mais arriscado?
– Porque assim é mais divertido, gênio – Kilian apareceu do nada e passou um braço pelo pescoço de meu irmão.
– Relatório?
– Aqui estão as chaves – Ayram jogou um chaveiro para Dan que as segurou com agilidade. – Eles vão sair para a educação física em cerca de quinze...
Acertei o taco na coxa direita dele, com toda força que eu consegui colocar no maldito pedaço de madeira.
– Você está maluca? – Foi Lex quem gritou enquanto ele levava as mãos a perna o mais rápido que podia. Eu a ignorei.
– O que diabos, Ayram, isso estava fazendo no seu armário? – Gritei, jogando a revista na cabeça dele, deixando as mulheres recortadas voarem. – Você me deve uma explicação, e se não quiser que eu use isso de novo – apontei para o taco – é melhor começar a falar.
– Jura, Med? Agora? – Ele fez menção clara a se abaixar para pegar a revista. Eu a chutei para longe.
– Você não tem noção do quanto foi divertido encontrar isso no seu armário, era exatamente o que faltava para o meu dia...
– Meredith, nós temos cerca de doze minutos pra detonar uma picape. Se você vai dar lição de moral no seu namorado, pode por favor me passar o taco? – Kilian estendeu o braço, e o olhar de ódio que eu lhe lancei foi o suficiente para que ele entendesse a resposta. Eu ignorei o fato de Ayram estar agachado no chão com as mãos no local da batida, o fato de estar todo mundo, no caso nossos quatro melhores amigos, nos observando e o fato de não terem desligado o maldito alarme. Dei as costas para o meu namorado e acertei o vidro da frente da picape, fazendo-o estourar em milhões de pedaços, milhões de cacos que se espalharam pelo chão. E o alarme soou tão alto que eu poderia ficar surda, mas que se dane, continuei batendo na lataria enquanto Dan me encarava assustado e Kilian jogava ovos por cima da tinta preta recém pintada. Ele não parecia se importar com os fatos tanto quando eu. Os outros dois se juntaram a nós depois de um ou dois minutos, e Ayram depois deles. Ele se levantou e veio na minha direção.
– Você é completamente maluca, Meredith – ele comentou com uma perna mais alta do que a outra. Eu apenas lhe lancei um olhar de ódio e continuei batendo no carro, ignorando completamente o sinal que acabara de bater.
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