The Headless Gang
5 Fantasmas sem sombra
Notas iniciais

Chão frio embaixo de mim. Alguém deitado ao meu lado. Abri os olhos devagar, e pude ver o teto claro acima de mim. Onde estou? O que fiz dessa vez? Por favor, ninguém me diga que vim parar em Las Vegas de alguma forma.
– Ótimo, você acordou — a voz dele trouxe tudo de volta. Tínhamos invadido a WGC, World's Widest Game Center, durante a madrugada, e roubado um jogo muito caro, o Deadman's Shadow. Só que o CEO nos pegou. Ele nos levou até a sala dele, ameaçou um pouco e, então... Me sentei de súbito quando lembrei. E então ele havia arrancado a minha cabeça.
Eu pensei que conhecia a dor em toda a sua magnitude por causa das surras que a minha tia costumava me dar, mas a sensação daquela lâmina no meu pescoço foi simplesmente... Desesperadora. Por sorte, desmaiei rápido, mas agora pensava se ele não havia nos enganado de alguma forma. Digo, eu respirava, via e ouvia normalmente. Seria possível que estivesse morta?
– Como se sente? — ele estava de pé bem à minha frente, uma sobrancelha erguida — Desculpe minha curiosidade mórbida. Mas sempre me perguntei como seria a sensação.
Merda. Eu estou morta com certeza.
– Bom, ao menos não vou mais precisar fazer dever de casa — resmunguei, enquanto me levantava — Falando nisso, me sinto ótima, na verdade. Sinto lhe dizer que me matar não foi muito ruim.
– Te matar? — O CEO riu, segurando meus ombros com ambas as mãos — Eu já falei, Alexia, vocês são mais lucrativos vivos do que mortos. Ou, ao menos, serão. Mas talvez queira dar uma olhada no espelho.
Ele me arrastou até um espelho de corpo inteiro que tinha no canto de... Onde que eu estivesse. Parecia ser alguma pequena sala contígua ao escritório, ou algo do tipo.
A minha linha de pensamento se quebrou quando vi o que ele me mostrava: eu mesma. Normalmente, o que eu veria seria uma garota de 1,75 de altura, de pele clara e olhos verde escuros, com cabelos malucos que, atrás, iam até o meio das costas, mas na frente o cabelo platinado e com mechas verde água chegava até o meio da coxa. Eu devia ver a garota de cabelos malucos e gorro preto, usando tênis surrados, shorts jeans e camiseta preta rasgada. Mas eu não achei tudo isso.
Não achei o cabelo maluco, ou o gorro. Não achei os olhos verdes, nem o nariz, e nem a boca. O que eu via de mim mesma terminava no pescoço.
Se eu tivesse olhos, eles certamente expressariam confusão. Se eu tivesse uma testa, ela estaria vincada. Minhas mãos se ergueram e tocaram o espaço vazio onde antes tinha uma cabeça para encontrar somente ar; como diabos eu ainda estou viva?
– É isto aqui que está procurando? — O CEO soltou um de meus ombros e, de repente, havia algo naquela mão. Uma cabeça, de olhos verdes e gorro, e cabelos malucos que, estando naquela altura, arrastavam no chão. — Eu peguei ela emprestado um pouco, espero que não se importe.
– E ainda está tentando me convencer de que não estou morta — zombei — Tsc, tsc...
– Você não está morta — o CEO jogou a minha cabeça para cima, e ela desapareceu no ar. — Você está mais viva do que jamais esteve.
– Certo, e você vai explicar ou será que eu acho isso no Google?
– Você e seus amigos pestinhas foram amaldiçoados — ele falou — Eu peguei a sua cabeça e, em troca, você ganha uma habilidade e uma responsabilidade. A habilidade é para compensar a falta da cabeça, muito embora ela não seja de fato um problema pois, como já percebeu, você pode ver, ouvir e falar normalmente. É mais por uma questão moral, mas também serve como instrumento para o trabalho. A responsabilidade, por sua vez, é a condição para vocês recuperarem a cabeça: se não a realizarem, a maldição torna-se permanente e elas nunca mais retornam.
– E o que exatamente seria isso? — teria franzido a testa se ainda tivesse uma — É bom que não seja nada estranho. Eu e Med não temos paciência com pedófilos.
O CEO ergueu uma sobrancelha e então riu.
– Sério, Alexia...? Por favor, relaxe. Eu não teria posto uma maldição em vocês se quisesse algo assim, não. — Ele ajeitou o espelho, para eu continuar me vendo -Veja, os interesses dessa empresa durante a noite... Bom, diga-se de passagem que é o lugar para onde ir se você quiser mandar matar alguém, criar uma confusão ou contratar um mercenário. As pessoas vêm e falam o que precisam. Eu dou meu preço. Elas aceitam ou não, mas normalmente é justo, então os "nãos " são raros. Quem se dá o trabalho de vir até mim normalmente paga o que for. Então, nós realizamos o serviço.
– E por "nós", você quer dizer...
– Minha equipe. Você conheceu um membro dela mais cedo, a Ellera. Ela é uma das mais antigas, e faz um serviço ou outro de vez em quando. Temos muitos outros também, mas a empresa vem crescendo rapidamente nos últimos tempos... Hoje em dia, quase todo mundo quer matar alguém. Então, precisamos expandir a equipe.
– Em resumo, vamos ter que matar pessoas por você, é isso? — Cruzei os braços — E se nos recursarmos?
– Essa possibilidade não existe, vocês as matarão de qualquer jeito. A escolha é: se vocês o farão de livre e espontânea vontade ou se terão que ser eternamente condenados para isso. Digo, se não matarem, se tornarão meus escravos, e então poderei não somente mandar vocês matarem como também a fazerem qualquer outra coisa que eu quiser. As suas cabeças serão minhas pela eternidade, e suas almas com elas.
– Entendi. E por quanto tempo vamos ter que matar pessoas?
– Pelo tempo que eu achar necessário.
Não falei mais nada, apenas encarei-o pelo espelho. Tirei suas mãos de meus ombros.
– Tudo isso por causa de um maldito jogo? — Perguntei, calmamente, virando -me para ele.
– Se a faz sentir melhor, eu já estava planejando recrutar. Vocês só me deram uma desculpa — o CEO sorria.
Cerrei minha mão e fiz uma tentativa de acertar sua mandíbula com um soco. Ele parou meu punho a milímetros do próprio rosto, sem sequer se mover.
– Os guarda costas são uma conveniência, Alexia Lonehill. Eu não preciso deles realmente. Está me entendendo?
Quando foi que eu falei pra ele a droga do meu sobrenome?
– Estou. — ele soltou minha mão, ao mesmo tempo que ouvimos Zack, deitado no chão ao lado de onde eu estava, gemer, se revirar e fazer uma tentativa de coçar a própria cabeça, o que obviamente não deu certo, já que ele não tinha mais uma.
– O... O quê...?- sua voz estava sonolenta e confusa.
– Lá vamos nós de novo — o CEO empurrou o espelho até Zack — Preste atenção...
. . .
– Garotos, olhem pra cá. Ellera vai ensinar um truque — a guarda costas da venda falou. — observem a cabeça dela... Ou, ao menos, onde ela deveria estar.
Quase que inconscientemente, olhei na direção de Ellera. A garota segurava a própria cabeça contra o lado esquerdo do corpo, mas ela a jogou para cima e a cabeça desapareceu. Com o canto do olho, a vi reaparecer nas mãos do CEO, encostado na parede oposta, nos observando. Ninguém mais pareceu perceber.
– Certo, vocês não podem andar por aí sem cabeça na frente de qualquer um que não seja a sua vítima da vez. Então, vamos ensinar um truque simples para que isso não aconteça. Prestem atenção no que Ellera vai fazer. — a baixinha da venda falou. Nós observamos atentamente.
Ellera fez um gesto com a mão direita, e, de repente, ela tinha uma cabeça..! Era exatamente igual àquela que o CEO segurava, mas estava encaixada em seu pescoço normalmente. Não havia sequer uma cicatriz.
Mas então ela tentou tocar a própria testa, e só então percebemos que a cabeça não era sólida. Era quase como um... Holograma. Mas era um holograma MUITO bom.
– Este truque vai enganar qualquer humano que os vir durante a noite, exceto pelas suas vítimas. Elas os verão pela sua verdadeira natureza, mas, como a missão de vocês é matá-las, não deve ser um problema.
– Sim. E é fácil de fazer. Vocês só precisam... Se concentrar e imaginá-la. Façam isso neste prédio pela primeira vez. Assim, sempre que pisarem aqui dentro elas aparecerão automaticamente. — Ellera complementou.
Cruzei is braços. Eu estava irritada.
– Quer dizer então que vocês nos prendem aqui, colocam uma maldição em nós arrancando nossas cabeças, e agora estou tentando nos dizer o quê fazer? — Med sem cabeça deu voz à minha irritação, que aparentemente era dela também. — Não brinca comigo. Não vamos fazer nada do que mandar.
O CEO veio até nós, ainda segurando a cabeça de Ellera por ela.
– Se me desobedecerem, vou começar a ordenar que matem inocentes pelas suas cabeças. Crianças pequenas, bebês... Talvez até seus próprios familiares. O que acham disso?
Pela postura de Med, ela estava irada. Ayram deve ter achado o mesmo, pois segurou o braço dela.
– Não faz isso, Med. Não valhe a pena.
Tive um ataque de riso. Me julgue, mas era incrivelmente hilário ouvir a voz de Ayram vindo de lugar nenhum. E ouvir como? Fazia tão pouco sentido que chegava a ser bobo.
Bom, o mundo não faz mais sentido de qualquer jeito. Talvez valha a pena tentar.
Fechei os olhos – no sentido de que então eu não via nada exceto a escuridão – e me concentrei em imaginar minha própria cabeça. Não foi difícil. Quando voltei a abrir os olhos, Dan e Zack também já tinham cabeças holográficas. Med, Kil e Ayram não ficaram muito atrás.
– Mais uma coisa. Quando cortei as cabeças de vocês, automaticamente ganharam uma habilidade. – O CEO jogou a cabeça de volta para Ellera. – Vocês poderão escolhê-la e desenvolvê-la à vontade. Quanto mais mortal, melhor. E, quanto mais próxima da sua personalidade ela for, mais rápido vocês a dominarão. Escolham sabiamente.
Uma habilidade. Mortal. Própria. Não me agradava a ideia de obedecer a ele, mas não me parecia haver escolha.
– Espere. Quais são os limites? – Dan cruzou os braços – Você não nos deu nenhum tipo de informação. Podemos fazer qualquer coisa? Até onde podemos ir? De que tipo de habilidade está falando?
– Precisarão de ajuda? – o CEO ergueu uma sobrancelha. – Previsível. Posso fazer isso. Alexia, se importaria de servir de exemplo novamente?
Dei um passo para trás, irritada, mas o CEO agarrou meu braço. Ele olhou em meus olhos com seus próprios olhos escuros, e pareceu poder enxergar minha alma.
– Seu presente ainda é afetado pelas sombras de seu passado. Tsc, tsc. – a sobrancelha subiu mais – Se bem que você parece conhecê-las muito bem. Sua afinidade com as sombras pode servir para alguma coisa, Alexia. Desenvolva isso.
Puxei o braço de volta, e ele riu e caminhou até Med, que estava mais próxima de mim. Ele olhou nos olhos dela, e ela encarou de volta com determinação; um olhar de ódio puro.
– Meredith. Vejo fantasmas que não deixam o seu lado. Alguns são hostis, mas não todos. E pode-se domar até o mais hostil dos animais. – o CEO falou, enigmaticamente, e não disse mais nada. Ignorei o duplo sentido em duas palavras, rezando para que Med fizesse o mesmo.
– Hadrian, não é? – ele se dirigiu ao irmão de Med. – Engraçado. Vejo em você as mesmas engrenagens das máquinas de que tanto gosta. Meio enferrujadas, mas no lugar certo. Se as lubrificar, se tornarão um ponto forte.
– O que diabos isso significa? – Dan franziu a testa.
– Não vou te ensinar o ABC quando já devia saber ler. Descubra sozinho. – ele fez um gesto, nos mandando embora. – Vocês mesmos podem fazer isso. Olhem para dentro de si mesmos e enxerguem o potencial. Vão embora, agora; voltem amanhã, assim que anoitecer. E é bom terem pensado em algo.
. . .
Suspirei. Bom, ao menos para mim, pareceu um suspiro. Não é bom ficar relembrando aquele dia, disse a mim mesma. Não preciso reviver isso. É melhor focar no presente, ou a previsão dele continuará certa. Agora que consegui domar as sombras, não vou deixá-las tomar conta da minha vida outra vez. Suspirei novamente, sem tirar os olhos da minha vítima.
Hora de trabalhar.
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