Meia hora depois cada um já tinha tomado o seu banho e eu tinha começado a escolher uma roupa para o David, essa era uma das coisas que eu ia adorar fazer todos os dias se eu tivesse um irmão.

E ele estava precisando se animar tanto quanto eu, só mais dois dias de férias... E então nós voltaríamos para a academia.

Eu queria esquecer isso apenas um segundo. Tudo isso.

- Essa aqui ta boa?

Eu olhei para o David que estava sem camisa com a calça que eu tinha escolhido para ele.

- Dá uma voltinha. – eu falei rindo.

Ele girou meio sem jeito, essa era a terceira calça que ele provava e todas tinham ficado lindas.

- Hmm... – eu segurei uma mecha do meu cabelo pensativamente – não sei bem qual das três ficou melhor...

- ah Eve! Decide logo que eu já cansei de provar!

Eu ri da cara que ele fez.

- E olha que ainda tem a camisa...

- Vamos Eve, essa ta boa não está? Pra mim são todas iguais...

- Isso por que você não tem senso de moda... Mas essa ficou melhor.

- Até que enfim! — ele sussurrou.

Eu sorri.

- Bom, com a calça jeans preta nós podemos combinar com alguma camisa branca talvez?

Eu fui em direção a sua mala e comecei a procurar por alguma camiseta branca ou algo desse estilo.

- Mas você adora xadrez em Dave! – eu falei vendo a quantidade de camisetas xadrez.

- Gosto de usar às vezes...

Eu puxei uma camiseta branca de botões com detalhes em cinza e mangas três quartos. Perfeita.

- Coloca essa.

Ele olhou a camiseta deu de ombros e começou a colocar.

- Eu não gosto muito dessa, esses botões... Fico meia hora para abotoá-los corretamente.

Eu olhei ele com seus longos dedos lutando com os botões.

- Vem cá, deixa eu ajudar você.

Eu comecei a fechar a sua camisa com alguma dificuldade. E ele ficou olhando e sorrindo enquanto eu tentava fechar.

As mangas do roupão que eu estava vestindo eram enormes e aquilo dificultava bastante as coisas também. Mas após cinco minutos eu consegui fechar tudo e ele continuava olhando na região do meu pescoço e limpou a garganta.

Eu segui seu olhar e vi que o meu sutiã estava todo á mostra e o cordão do roupão estava quase caindo o que dava para ele uma visão periférica de minha barriga e calcinha.

Eu rapidamente ajeitei o meu roupão e o David corou.

- Han... Acho que essa aqui ta boa Eve... – ele limpou a garganta novamente.

Eu resolvi ignorar isso, como se nada tivesse acontecido... Afinal nada aconteceu mesmo, eu acho. Dei dois passos para trás.

- Está ótima! Eu sou demais não sou? – eu ri – Uma ótima personal style!

Eu olhei novamente para ele, seu cabelo estava meio molhado e os dois primeiro botões de sua camisa estavam abertos, ele estava corado ainda e sorrindo, seus dentes eram absurdamente brancos e suas covinhas adoráveis.

Ele passou a mão em seus cabelos e ajeitou a camiseta em seu corpo.

- Sim, como se fosse difícil me vestir... Agora falta você Eve.

Eu sorri.

- Me espere na sala Dave, vou te surpreender.

Ele riu. - Sim, nada de camisetas dois tamanhos maiores que você e converse ok?

- Ok – eu disse empurrando ele para fora do quarto.

Assim que ele saiu eu fui me arrumar, uma coisa que eu não fazia desde que... Bem, é melhor nem pensar nisso.

- Hoje não Eve. – eu murmurei.

Fui em direção a minha mala pesando minhas opções... Certamente eu teria pegado alguma coisa bonita, eu puxei os vestidos de minha mala.

Um vestido de babados vermelhos até o joelho? Não. Indiscutivelmente não.

Vestido azul turquesa com decote V... Eu analisei o vestido e senti um estranho aperto no meu coração. Esse fora um presente do Matt. Eu joguei o vestido na mala com violência. Apertei minhas mãos contra o meu peito. Não, hoje não, por favor... Fui em direção ao frigobar peguei uma água, tomei um grande gole e esperei minha respiração normalizar.

Minha audição estava melhorando consideravelmente, eu podia ouvir o martelar do coração do David na outra sala e tinha certeza que ele também podia me ouvir.

Ignorando a pontada em meu coração busquei algum vestido em minha mala, encontrei o meu vestido prada, ele é tubinho tomara-que-caia com um decote um pouco acentuado e vai até o meio de minhas coxas, mas nada muito promíscuo.

Tirei meu sutiã já que não iria precisar dele com esse vestido e passei o vestido por meus braços e ele se encaixou como uma luva em meu corpo. Eu fechei o zíper lateral com alguma dificuldade e o ajustei em meu corpo.

Procurei na outra mala um sapato que poderia combinar e escolhi um stilletto vermelho Jimmy choo e minha bolsa de mão vermelha.

Coloquei meu sapato, arrumei minhas coisas na bolsa e fui em direção a minha nécessaire que estava em cima da bancada no banheiro. Peguei o secador do hotel e sequei meus cabelos até estarem perfeitamente lisos, arrumei minha franja um pouco de lado já que ela estava um pouco grande. Fiz uma maquiagem leve em meus olhos e apliquei um batom vermelho e um pouco de brilho labial, passei meu perfume favorito e resolvi colocar um brinco de ouro que outrora era de minha mãe, coloquei também um anel, um colar e uma pulseira. Estava pronta.

Eu me olhei no enorme espelho daquele quarto, estava tudo no lugar. Analisei meus sapatos, meu vestido, meu rosto, meus olhos pareciam tão tristes eu tentei estampar um sorriso em meu rosto, mas claramente ele não chegava a meus olhos.

Eu queria tanto que Matt me visse assim, que me elogiasse como sempre fazia... Eu fechei meus olhos tentando não chorar. Eu queria tanto ter você aqui comigo Matt, tanto. Respirei fundo, eu tentaria ao máximo não pensar nisso hoje como todos os dias eu fazia antes de me deitar.

Por trás de minhas pálpebras surgiu a imagem de Matt e seu sorriso extremamente branco, ao redor de seus olhos amendoados surgiam pequenas marquinhas todas as vezes que ele sorria assim, seu queixo tinha uma pequena cicatriz que o deixava ainda mais bonito. Seu cabelo embora curto ainda caia um pouco em sua testa, ele era tão lindo. Tão lindo. Respirei fundo novamente e abri meus olhos dispersando a linda imagem de seu sorriso.

Chequei novamente meu cabelo e fui em direção a porta.

- Até que enfim...

Ele murmurou levantando seu rosto. Ele corou e pareceu ficar sem palavras.

- Nossa Eve – ele se levantou vindo em minha direção – você está linda.

Ele pegou minha mão levantando um pouco me fazendo dar uma voltinha.

- Não é nada demais sabe... – eu murmurei.

- Você está perfeita. – ele sorriu – A única coisa que falta é um sorriso nesse seu rosto.

Ele levantou o canto da minha boca na imitação fraca de um sorriso, com os dedos. Seu toque pareceu formigar a minha pele. E um sorriso fantasma apareceu meus lábios.

- Ah vamos lá Eve, mostre um sorriso para o seu amigo aqui. – ele cutucou minha barriga.

Involuntariamente eu sorri. - Agora sim – ele fez menção para eu entrelaçar meu braço no seu – você está oficialmente perfeita.

- E você oficialmente tolo. – Eu falei enganchando meu braço no seu.

Ele apenas riu e nós seguimos para o bar do hotel.

Quando nós chegamos lá, a maioria das pessoas viraram seus pescoços para nos olhar, e a maioria das adolescentes presentes lançava olhares cobiçosos para o David, quem novamente parecia não estar atento a nada.

Nós sentamos em uma mesa para dois na ala de não-fumantes, o bar estava apinhado de gente de todas as idades e as mesas ao redor da nossa estavam cheias, metade deles estavam olhando em nossa direção.

- E você ainda fala que não está perfeita – ele sussurrou – Aposto que pelo menos uns vinte caras queriam estar sentados aqui com você.

- Por que você não viu os olhares das garotas então... – eu me interrompi quando vi o garçom vindo em nossa direção.

- Boa noite senhorita – ele falou com um forte sotaque britânico e me entregou o cardápio, e de má vontade se virou para David e entregou outro cardápio para ele.

Eu sorri e olhei para os champanhes tentando escolher alguma entre tantas.

- Dave, me acompanha no champanhe? – eu sorri.

Ele me olhou e com um ar de quem parecia estar se divertindo.

- Claro Eve.

Olhei para o garçom que mantinha os olhos no meu decote. Usando um pouco de hipnose eu pedi para ele.

- Nós queremos uma garrafa de champanhe hmmm, deixe me ver – olhei novamente o cardápio – Cristal.

Ele parecia ainda hipnotizado, seus olhos castanhos me fitavam intensamente.

Passando alguns minutos, David limpou a garganta e falou.

- Se você não ouviu, ela pediu Cristal e nós queremos o acompanhamento também. Anda logo.

Ele pareceu sair do transe e olhou para o David.

- C-claro.

E saiu meio atordoado.

- Eve você também hein, deixou o cara embasbacado. - Eu quase nem usei a hipnose!

Ele balançou a cabeça e riu.

- Cristal hun? 100 dólares a garrafa.

- Ah Dave, nós merecemos! Amanhã a comemoração tem que ser mais especial ainda.

- Você é louca, o Dom não deu algum limite pra nós?

- Ah, nós ficamos na maioria das vezes em albergues então... Já que só restam mais dois dias.. E eu precisava de um lugar assim pra usar Prada e Jimmy Choo.

- Não, esse é um lado seu que eu prefiro ocultar. – ele riu.

Outro garçom nos trouxe a bebida.

- Ah bem, eu não sou só aquela golden hunter durona que não sabe se vestir... – eu tomei um gole.

- Sabe, sempre fui fraco pra bebidas... – ele comentou.

- Relaxe, eu te carrego pra cima. – sorri.

Ele sorriu suas covinhas o deixando ainda mais bonito.

- Então Eve, você decidiu?

- Decidi o que? – eu tomei mais um gole.

- Se vai contar ou não para o Dominic daquela senhora lá...

- Ah Dave... Decido isso quando eu chegar lá.

Ele balançou os ombros e tomou um grande gole de sua taça.

- Você que sabe.

Então começou a tocar uma musica suave, eu olhei para a direção do som e vi que havia um grande piano, e o pianista estava começando a tocar.

- Hmm, tocando Chopin... – ele murmurou

- Chopin?

- É, a musica... – ele corou um pouco – eu gosto de tocar piano...

Eu o olhei e controlei o impulso de bagunçar seus cabelos e apertar sua bochecha, ele era tão fofo.

- Ah, sério? – eu fingi estar surpresa – Me diga então o que você não faz, será mais fácil Dave!

- Ah Eve... – o seu celular tocou.

- É o Dominic? – eu perguntei.

- Não, ta numero restrito.

- Quer que eu atenda?

- Não, pode deixar... – ele atendeu

- Alô?

Com a minha audição apurada eu conseguia ouvir tudo que a pessoa na outra linha falasse.

- Alô D? – uma voz feminina e melosa falou – Ah, aqui é a Kathy...

- Kathy? – ele corou – T-tudo bom? - Sim – ela suspirou – Eu nem sei por que eu liguei na verdade, é que amanhã é o seu aniversário e eu pensei em te ligar e desejar tudo de bom, mesmo depois de tudo que aconteceu... – ela falou rapidamente.

- Obrigado Kathy – seus olhos fixaram em mim – Eu to feliz por você ter ligado... E han, obrigado.

- De nada – consegui a ouvir limpar a garganta – E então como vão às coisas?

- Bem... – ele suspirou e seus olhos ainda estavam fixos nos meus – Não como antes, mas aqui na minha tia todos são bem legais. E ai?

- Tudo na mesma chatice.

Ele sorriu.

- Eu sinto sua falta D – ela continuou quando ele estava prestes a interromper – Eu sinto falta das nossas tardes, sinto falta de você aqui comigo.

Ele corou e desviou seus olhos dos meus, ele sabia que eu podia ouvir tudo.

- Kathy... Você bebeu alguma coisa?

- Só um pouco de vodka, mais isso não vem ao caso – ela riu e sua voz ficou mais abafada e sensual – Eu sinto falta de você aqui na minha cama D.

Eu sorri, Hmmm, David garanhão? Essa era uma que eu não esperava.

Ele ficou um pimentão agora.

- Kathy... Nós já conversamos sobre tudo isso... – ele tentava por um fim no assunto.

- Vai dizer que você não pensa na gente? – ela soluçou – Que você não pensa mais em mim e em tudo que a gente fazia.

- Kathy... – ele tentou interrompê-la.

Ele me fitou novamente e eu arqueei uma sobrancelha.

- Você não pensa mais D? Não lembra mais de como nós fazíamos? – sua voz ainda estava melosa – Por que eu lembro todo o dia, por que eu não consigo tirar essa merda da minha cabeça mais. Lembra da ultima vez? – ela falou meio que chorando – De como foi bom e demorado e de como você falou que me amava, e que nunca ia me deixar?

Ele parecia sem palavras e desviou o olhar para suas mãos.

- Por favor D, fala alguma coisa.

Ele voltou a me olhar de um jeito estranho, agoniado. - Se você quer mesmo saber – ele falou, sua voz estava surpreendentemente grossa – Eu lembro sim, de tudo, todas as vezes! Mas eu já conversei com você Kathy, eu não posso fazer nada mais. Minha família toda morreu, eu não moro mais ai, eu mudei pra pior. Eu não sou mais o mesmo, nunca mais vou ser.

- Eu não acredito nisso! Eu sei sobre a sua família e sinto muito sobre isso, eu os amava também. Mas eu queria estar do seu lado agora – ela soluçou – eu queria te consolar, ouvir sua voz e dizer que tudo vai ficar bem.

- Kathy, sexo não vai me fazer esquecer de tudo – ele suspirou.

- Não foi isso que eu quis dizer...

- Por favor Katherine, tudo já está sendo muito difícil pra mim. Por favor, não torne isso mais difícil de suportar ainda.

Seus olhos brilhavam insanamente, eu rompi facilmente seu escudo mental.

Dave, quer que eu fale com ela?

Ele me olhou assustado.

Concentre-se e faça o que eu disse, que você consegue se comunicar comigo... Imagine o elástico...

Tudo bem consegui, bom depende o que você vai falar.

Ah, vai você não confia em mim? eu sorri e peguei o telefone de sua mão.

- Hey Katherine.

- Q-Quem ta falando?

- Ah, aqui é a Eve – eu pisquei pra ele que estava me encarando abismado – Eu sou han, prima dele... E sabe, achei muito legal da sua parte ligar e desejar feliz aniversário, mas você ta fazendo ele quase chorar aqui e isso não é legal Kathy, especialmente relembrar de momentos sexuais em momentos tão carentes. – eu sorri quando vi sua boca se abrir – Ele já te agradeceu, mas agora ele realmente precisa desligar.

- O-ok – ela gaguejou.

- Foi um prazer falar com você Kathy – eu sorri – E ah, saiba que o Dave ama você apesar de tudo... E eu sei que ele também sente falta de você na cama dele.

Antes de ela responder eu desliguei.

- Pronto. – eu entreguei o celular pra ele.

- E-eu... – ele me encarou abismado. - Não precisa me agradecer Dave, daqui há – eu olhei no relógio do meu celular – uma hora é seu aniversário e a sua ex estava visivelmente te irritando.

Ele suspirou.

- É tão difícil Eve – ele tomou um grande gole de seu champanhe – Quando ela fica me ligando e falando essas coisas...

Ele me olhou e seus olhos estavam marejados.

- Ah Dave... – eu peguei sua mão – Não fique assim, pelo menos você sabe que ela está viva e bem. Se você a ama, isso pode bastar para você.

- Sim – ele apertou minha mão – eu sei.

Uma lágrima caiu de seus olhos e antes de ele relutar eu a limpei.

- Não chore ok? – apertei sua bochecha – Não quero ver você chorar tigrão.

- Tigrão? – ele fez uma careta.

- Ahn, eu ouvi o papo ali – eu sorri – Pelo o que a Kathy falou, você era tipo, um garanhão entre quatro paredes?

Eu ri quando ele ficou vermelho que nem um tomate.

- Tigrão, garanhão... – ele balançou a cabeça – Como você consegue ser assim em Eve?

Ele sorriu.

- Assim como garanhão?

- Me animar do nada.

- Eu faço o meu melhor baby – eu coloquei o dedo na boca – Então garanhão, ta acompanhado?

Ele balançou a cabeça enquanto ria de minhas brincadeiras.

- É que eu quero ver se isso é propaganda enganosa sabe... – eu mandei um beijinho pra ele.

- Hmmm, vou pensar no seu caso ok?

- Ah qual é tigrão – Eu tomei mais um gole – Você vai deixar uma moça vestindo uma prada e Jimmy Choo na espera?

Ele riu.

- Quer dar uma conferida é? – eu levantei e dei uma viradinha – Ta bom pra você?

Ele corou e engoliu audivelmente enquanto seus olhos me analisavam, na brincadeira. É claro.

- Acho que você me convenceu – ele olhou para o lado – e mais uns cinco caras.

Eu olhei pra direção que ele estava olhando e vi algumas pessoas me encarando e prontamente fui sentar.

- Você é uma figura Eve – ele riu.

Eu tomei um gole de meu champanhe e estava prestes a falar algo quando uma moça veio até nossa mesa.

- Hey, casal bonito! – Ela sorriu e eu a fitei. Ela estava com um vestido branco super colado, decotado e curto. Seu cabelo era loiro branco platinado e ia até sua cintura, ela estava usando uma maquiagem super forte.

- Nós não somos um casal – Dave falou.

- Melhor ainda – ela sorriu para David e lambeu seus lábios maliciosamente.

- Então, querida – eu falei rudemente – O que te trás aqui?

- Ah sim – ela sorriu para mim – O senhor Fratell fechou a boate do hotel para a festa de sua menina e ela pediu para eu convidar os jovens do local... – ela voltou seu olhar para o David – Principalmente garotos gostosos como o seu amigo, sintam-se a vontade para comparecer.

E antes de eu responder algo ela se virou e foi para outra mesa com 4 rapazes.

- Esse povo é doido – eu comentei – cada um que aparece.

O David virou a garrafa em sua taça, e já tinha acabado.

- Dave! – eu sorri – Você secou todo o champanhe!

- Relaxa Eve, meu aniversario ta chegando lembra? – ele falou com uma tristeza em seus olhos.

- Você não ta querendo encher a cara pra esquecer de tudo não é? – eu o fitei.

- Esquecer o que Eve? – seus olhos brilharam – Esquecer que a minha família morreu? Que eu to afim da minha namorada e não posso ficar com ela? Que eu sou um hunter? Que eu to aqui de babá quando eu queria... – ele se interrompeu – Ah que se foda!

Além de ignorar o elogio daquela mulher, ele falou um palavrão? Sim, é normal os jovens falarem palavrões, mas, o David sempre foi tão doce comigo... E que o que ele queria? Ele não queria estar aqui? Aqui comigo?

Ele chamou o garçom

- você queria o que? – eu falei ríspida.

- O que?

- Você falou “Que eu to aqui de babá quando eu queria...” O que você que queria?

Meu coração pareceu se apertar, eu pensei que ele gostasse de passar os dias comigo. Afinal eu o considerava como um irmão que eu nunca tivera. Eu contava com o apoio dele sem ele saber.

O garçom chegou à nossa mesa.

- Eu quero uma dose de Absolut com água tônica e limão. - O mesmo pra mim.

O garçom saiu após anotar nossos pedidos.

- Termine.

- Não Eve, esqueça tudo isso está bem? Esqueça! – ele falou ríspido.

- Até parece que você não sabe com quem está falando.

- Sim, esqueci que é a hunter mais durona do pedaço.

- Eu pensei que – Eu me interrompi.

Eu não iria falar pra ele que eu pensava que ele estava gostando desse tempo tanto quanto eu e que agora o usava como uma forma de refúgio de minha dor, eu era orgulhosa demais pra isso.

- Pensava o que Eve?

O garçom retornou com as nossas bebidas e eu tomei um grande gole que desceu ardendo por minha garganta.

- Nada – eu sorri ironicamente – Você não fala, eu não falo.

Ele tomou um grande gole.

- Então nada vamos falar.

Por um momento eu até o entendi, eu também já passei por isso. Não ter ninguém, se sentir sozinho no mundo.

Tudo que você gosta é usado para golpeá-lo, os demônios eram baixos, eles usavam as pessoas que amávamos para nos atingir. Mas em que outro lugar ele queria estar?

Por que ele falou como se não gostasse dessa coisa de babá? Poxa, eu fiquei meu relutante no começo, mas depois que nós nos demos tão bem, depois que eu percebi o quanto nós tínhamos em comum, eu aceitei numa boa.

Eu fiquei feliz até, feliz por ter alguém com quem desabafar, por me lembrar constantemente que eu não era culpada mesmo eu sabendo que eu sou.

Mas eu não falaria o quanto eu me tornei dependente em apenas um mês dele, o meu orgulho falava mais alto. – tomei outro gole – talvez fosse por isso que eu afastava as pessoas de mim.

Por eu ser assim e ter receio de mostrar meus sentimentos. Mas era o meu jeito, eu mostrava o quanto eu gostava de uma pessoa nos gestos, nas preocupações... Mas nunca em palavras. Elas pareciam mais concretas, ameaçadoras. - Ótimo, vamos ficar aqui em silêncio?

Eu tomei mais um gole e o ignorei.

Por que tinha que ser tudo tão complicado? Ah, só uma pessoa no mundo tinha o dom de descomplicar as coisas para mim. E essa pessoa não estava mais entre nós.

Nunca mais.

Droga, meu peito já começava a doer por esse simples pensamento. Eu queria acreditar que esse tempo tinha servido pra algo, eu realmente queria, mas o tempo parecia apenas piorar as coisas.

Tomei mais um gole. Essa bebida meio azeda agora parecia me confortar, então eu resolvi ser irresponsável por apenas uma noite.

Isso mesmo.

Esquecer tudo por uma noite, o quão ruim isso poderia ser? Eu não viraria alcoólatra por beber um pouco a mais uma só noite, uma só noite pra esquecer essa merda toda.

Tomei o que restava no copo e chamei novamente o garçom que estava na mesa ao nosso lado.

- Outra dose, por favor.

E rapidamente ele trouxe mais uma.

- Já na segunda Eve?

- Ah Dave, não enche! Quer saber roubei a sua idéia, to afim de distrair.

- Hmm, dando uma de irresponsável?

- Uma vez na vida – eu sorri – tenho vinte afinal! Posso cometer algumas loucuras.

- Olha Eve, me desculpa... – ele pegou minha mão – é que eu to tão chateado pelo telefonema da Kathy, por ser sempre o certinho... Eu acho que acabei descontando em você.

- Relaxa – eu levantei meu drink – um brinde?

Ele levantou o seu.

- A que?

- Ah nós, os melhores hunters, com toda modéstia e a você que agora tem dezenove anos.

Ele olhou o relógio.

- Caramba Eve! Tenho dezenove já!

Eu tomei mais um gole e já sentia os efeitos do álcool em meu organismo.

- Eve, vai com calma!

Eu levantei me lembrando da festa que a loira tinha nos convidado. Subitamente tive vontade de dançar, como nos velhos tempos. Eu levantei um pouco rápido demais e me segurei na mesa.

- Eve! – ele agora estava ao meu lado com a mão em minha cintura – Você bebeu demais não foi?

- Dois drinks! – eu falei rindo.

- Mas aquilo é absolut, 95% de álcool.

- Ah vamos descobrir onde é essa boate – eu sorri e o abracei colocando minhas mãos em volta de sua nuca – Feliz Aniversário Dave, agora vamos dançar tigrão.

Eu me afastei um pouco sem sair do abraço e dei um beijo em seu rosto.

- Já falei que você é como um irmãzinho lindo que eu nunca tive? – apertei sua bochecha.

Ele me fitou, parecia decepcionado? Ele terminou sua dose em um gole só sem tirar seus olhos de mim.

- Vamos dançar.