The Girl Who Lived
1 Capítulo Único
Notas iniciais
Lily despertou de mais um sonho terrível e que infelizmente parecia ser muito real. Todo o quarto girava à sua volta e até conseguir focalizar a visão e controlar a respiração a figura loira de Marlene McKinnon já estava diante dela com seus olhos azuis muito arregalados.
— Lily, tá tudo bem? — sua voz era distante, mas era evidente a preocupação em seu rosto. Ela afastava os cabelos úmidos por suor do rosto da ruiva.
Quando finalmente conseguiu unir forças, disse:
— Era o mesmo sonho, Lene — Sussurrou para tentar não acordar Mary e Alice que dormiam nas camas próximas, por mais que ela soubesse que talvez já estivessem acordadas apenas ouvindo tudo. — Eu não sei o que significa, mas parece sempre tão real e é sempre a mesma luz verde, a mesma mulher gritando. — As lágrimas tomaram conta de Lily e ela não conseguiu dizer mais nada. Marlene entendeu que o melhor que poderia fazer naquele momento era abraçá-la e tentar acalmá-la até que pegasse no sono novamente.
Mais um típico final de semana de outubro se iniciava e as visitas a Hogsmeade começariam naquele sábado. Chegava a ser cômico o contraste entre os alunos do último ano que estavam cheios desses passeios e os do terceiro que estariam indo pela primeira vez.
Nos últimos dois anos ela se lembra de ter ido apenas para o Halloween e talvez uma vez ou outra porque Alice queria sair com Frank, mas não queria ir sozinha até o vilarejo. No entanto, Lily sentia uma vontade imensurável de apenas deixar aquele castelo e tentar esfriar a cabeça antes que seus pensamentos a enlouquecessem.
— Se você vai, avise logo ao Potter. Ele não parece muito animado, mas aposto como vai ficar se souber que estará lá — Mary comentou com uma risada que fez Lily revirar os olhos.
Não é que ela odiasse James Potter com unhas e dentes, na verdade ele se mostrou minimamente agradável certas vezes. Principalmente quando a defendeu de um aluno da sonserina, Severus Snape, que parecia obcecado por ela desde o segundo ano por toda a coisa dela ser "a garota que sobreviveu a você-sabe-quem". Ele e os amigos viviam para chamá-la, e outros alunos nascidos trouxas, de sangue ruim.
No entanto, James era sempre muito cheio de si, irritante, imaturo e… ah, está bem. Ela tinha uma queda por ele desde o quinto ano, mas decididamente fingia que não para não insuflar mais ainda seu enorme ego. Em geral seus momentos repentinos de raiva por ele facilmente se associavam ao ciúmes que acabava sentindo quando estava flertando com alguma aluna pelos corredores, algo muito recorrente para falar a verdade.
E talvez possa surgir a pergunta como "então por que ela não vai lá e diz a ele o que sente?". Bom, apesar dele ter demonstrado um certo interesse por ela há alguns anos, ter sido legal diversas vezes e nunca tê-la visto como "a eleita", "a escolhida", mas apenas como Lily, ela ainda era o que era e estava sempre tão envolvida em alguma coisa sombria que tinha medo disso lhe custar mais pessoas queridas do que já lhe custou.
Lily era só um bebê quando tudo aconteceu, mas as lembranças permaneciam estranhamente muito vivas em sua mente. Era sempre um lampejo verde, um grito agudo e então tudo desaparecia. Quando contou a Dumbledore sobre isso certa vez ele lhe disse que provavelmente era a primeira e última lembrança que tinha de sua mãe, na noite em que morreu para tentar salvar sua vida.
Ela soube que vinha de uma linhagem antiga de bruxos e bruxas, que em algum momento se cruzou com a árvore familiar de Tom Riddle e por essa relação de sangue Lily era a única, em todo o mundo, que poderia derrotá-lo de uma vez por todas. Quando você-sabe-quem descobriu é claro que fez de tudo para que seu destino não se cumprisse, ele só não contava com o fato de que esse laço fosse tão forte que o impediria de matá-la a princípio.
A única coisa que o Lorde das Trevas conseguiu fazer a Lily foi um pequeno corte em sua testa, que em geral ela cobria com sua franja justamente para não causar mais tumulto do que sua simples existência já causava. Isso sem falar, é claro, dos pesadelos e dores de cabeça recorrentes.
— Senhorita Evans seu formulário para Hogsmeade — disse a professora McGonagall, a tirando de seus pensamentos. Lily piscou algumas vezes e esticou o pedaço de pergaminho que todos os anos era assinado por sua tia Margareth, com quem passou a viver desde o ocorrido.
— Então eu vou ter o enorme prazer de visitar Hogsmeade com você, Evans? — A voz de James surgiu por trás de Minerva e fez seu coração saltar, mas para tentar disfarçar ela revirou seus olhos e fez cara de tédio.
— Potter o dia mal começou e você já está perturbando a paz da senhorita Evans? — McGonagall reclamou, mas James não deu muita atenção e apenas sorriu para ela.
— Bom dia Minnie, meu amor. — beijou o rosto da professora que no mesmo instante enrubresceu e lhe deu um tapinha na orelha.
— Vá terminar o seu café, pois caso se atrase pra minha aula faço questão de te deixar fora da próxima partida de quadribol. — ele sentiu a seriedade em suas palavras, pois na mesma hora saiu apressadamente pelo salão comunal, mas sem perder a pose de sempre. — Esse menino, ele é um problema. — Minerva de lamentou e se despediu das meninas com um pequeno aceno antes de continuar sua busca por autorizações de saída.
A semana passou mais lenta do que Lily e gostaria, nem mesmo a aula de poções estava lhe causando as melhores sensações. Na verdade a voz sempre muito calma de Slughorn estava quase levando todos a insanidade, exceto por James que parecia muito entretido com o preparo de sua poção, o que era bem incomum para ser sincera.
— Muito bom, Sr. Potter. Está com uma aparência excelente. — o comentário de Slugh chamou não apenas sua atenção, mas de toda a turma que se esticou para tentar ver que diabos James tinha feito ali. A única coisa que ela notou foram suas anotações muito frenéticas no próprio livro, mas nem mesmo Sirius que era sua dupla parecia saber com propriedade.
Os únicos que não pareciam muito contentes eram um grupo específico de alunos da sonserina que a maioria dos alunos sabia, ou desconfiava, que estavam envolvidos com os comensais da morte. Eles encaravam tudo como se fosse absurdamente ridículo, principalmente por se tratar de Potter que era quase sempre o centro das atenções.
Ao final da aula ela recolheu seu material e se apressou por entre os alunos, estava com uma dor de cabeça terrível e esperava poder tirar um cochilo até o jantar.
Lily teria chegado até a porta se os mesmos sonserinos com raiva de Potter não tivessem bloqueado sua passagem e começado a fazer comentários de muito mau gosto.
— Saia da frente sangue-ruim — um deles gritou para Mary que já saía pela porta. Uma garota a empurrou e Lily segurou firme a varinha na cintura pronta para fazer alguma coisa.
No corredor aberto eles continuaram a provocá-la sem piedade alguma, isso a tirou do sério e a fez murmurar um feitiço que tirou Mulciber, o primeiro a começar com as provocações, do chão e flutuar um metro ou dois no ar. Ela o girou pelo menos umas cinco vezes e então o colocou de cabeça para baixo, suas vestes caindo sobre seu rosto e o deixando muito ridículo.
Os alunos se aglomeraram para apreciar o show e não seguraram suas risadas. Ela pensou como isso poderia lhe custar uma detenção, mas não se importava nem um pouco, estava farta de toda aquela merda há muito tempo.
Deixou Mulciber de lado e partiu para a garota, Ellen Parkinson, em quem fez o nariz crescer descontroladamente até que ela começasse a gritar e sair correndo.
Apenas parou quando uma mão firme em seu ombro a puxou do centro da rosa, os olhos furiosos da diretora da grifinória e miraram e a fizeram pensar que aquele era realmente o fim. Estava muito encrencada.
— Eu esperava isso de qualquer um, qualquer aluno, menos de você Srta. Evans. É inacreditável, vergonhoso e absurdo. Como a senhorita pôde me decepcionar dessa maneira? — Minerva gritava com ela dentro de sua sala, Lily na cadeira não sabia nem o que dizer. Quando o calor do momento passou ela percebeu que talvez pudesse ter agido de uma maneira diferente. Ainda assim reuniu toda sua coragem e orgulho para contestar a professora
— Professora, com todo o respeito, mas eles acham que podem sair por aí falando o que quiserem dos alunos. Principalmente dos nascidos trouxas — mas ela permanecia irredutível. Levantou seu dedo indicador e a ruiva se calou.
— Eu entendo, juro que entendo. Mas ainda estamos dentro de uma escola e não posso permitir esse tipo de desordem. Os alunos da sonserina terão suas devidas punições, tenho certeza que o professor Slughorn não deixará passar — Ela se levantou e cada mínimo movimento de seu corpo, suas expressões mais finas indicavam que Lily também estava muito encrencada. — Infelizmente terei que te dar uma detenção, Lily. Além disso vou enviar uma coruja para a sua tia, espero que entenda.
Lily entendia, tinha ficado chateada por ser punida pela primeira vez. No entanto não se arrependia de um só ato, teria feito pior se não estivesse em Hogwarts, pois estava farta daquele discurso muito mal intencionado e preconceituoso.
Felizmente McGonagall não a proibiu de ir a Hogsmeade, o que foi um alívio pois a ideia de permanecer no castelo enquanto seus amigos se divertiam no Halloween quase a fez ir a loucura.
Seu castigo começaria na próxima segunda-feira e duraria as três noites seguintes. Ela soube, através de Sirius, que seu irmão Regulus Black tinha sido castigado por ter lançado uma azaração contra um aluno e provavelmente seriam mandados para o mesmo castigo.
— Como se não bastassem aqueles projetos de comensais de merda nos atormentando agora você vai ter que passar sua detenção com um deles — Mary resmungou e Sirius se mexeu meio desconfortável ao seu lado. Ela percebeu e logo se arrependeu em partes do que disse. — Não quis dizer isso, Six. Eu sei que ele é seu irmão, mas é que toda essa coisa me cansa às vezes. — ela tocou seu rosto com gentileza, mas era possível identificar certo receio em chegar tão perto depois de tê-lo magoado. Ele sorriu meio fraco e apenas assentiu, encerrando o assunto e fazendo a morena se virar para a frente e suspirar.
Lily gostava de ficar observando-os às vezes. Desde o final do terceiro ano, quando se beijaram pela primeira vez no aniversário de Mary no Três Vassouras, eles tinham umas “idas e vindas no amor”. Namoraram até o meio do quarto ano, mas as coisas desandaram um pouco e se separaram, nesse meio tempo ele descobriu um sentimento por Remus e Mary se interessou por Benjy Fenwick da Corvinal.
Quando chegou o final do sexto ano eles tiveram uma conversa muito longa e séria, ficaram quase três horas dentro do quarto dele na torre da Grifinória, mas pelo menos quando saíram estavam juntos novamente. Isso alegrou muito Lily, pois ela percebeu como a amiga mudava ao estar perto de Sirius, ele despertava nela suas melhores qualidades e Mary quase brilhava como o sol ao seu lado.
Mesmo que tivessem algumas raras brigas, pois seus gênios fortes também não ajudavam em absolutamente nada, em questão de minutos já estavam um tentando chamar a atenção do outro novamente para se redimir. Isso já estava acontecendo inclusive enquanto Lily fazia suas reflexões a respeito do casal.
A mão de Sirius subiu pelos cachos muito volumosos de Mary e se enroscou entre eles de um jeito que a própria MacDonald tinha lhe ensinado para que não perdessem a definição. Ao toque ela fechou seus olhos e sorriu relaxada, o que fez Lily soltar uma mínima risada. Ele sorriu e jogou o corpo um pouco para a frente, beijando o topo de sua cabeça e então a bochecha.
— Eles são tão lindos, né? — Alice comentou tão encantada quanto Lily. A ruiva assentiu e suspirou, perguntando-se quando poderia viver o mesmo. — Você deveria dar uma chance ao Potter. — soltou aleatoriamente e com um tom que ela conhecia bem, quase numa ordem em vez de um conselho. Revirou seus olhos e sorriu para a amiga.
— Quem sabe quando acabar a guerra. — disse com um olhar esperançoso que a fez sorrir e encarar Mary com divertimento, ela também sorriu.
— Aposto que acontece antes — disse se endireitando no banco da mesa que dividiam no três vassouras e recostando sobre o ombro de Sirius que agora parecia prestar muita atenção no assunto. Ela via em seus olhos cinzentos a iminência de um comentário.
— Eu dou até o natal para o primeiro beijo e até o final do ano letivo para eles se assumirem de uma vez. — Alice apostou e Mary assentiu. As três encararam Sirius que sorriu e negou com a cabeça.
— Você só não tentou nada ainda porque não quis, Evans. — tirou um cigarro do bolso da jaqueta e o acendeu bem onde estava. Mary se afastou xingando, pois segundo ela seu cabelo estava limpo demais para ficar no meio daquela chaminé que ele criaria.
— Vocês estão muito enganados. Não daria uma chance ao Potter nem que ele fosse o último homem da terra.
— Nossa, Evans. Isso me corta o coração — sua voz apareceu atrás de si e fechando seus olhos ela respirou fundo. Ele vinha acompanhado por Marlene e se sentou ao lado dela com o mesmo sorriso de sempre. — Ainda mais que seria muito legal ter uma valentona como namorada. — suspirou dramático.
— Eu não sou uma valentona — cruzou os braços claramente desconfortável com todos os comentários que tinha recebido sobre ter azarado os alunos da Sonserina.
— Chame do quiser, mas foi incrível. Eu quase chorei de emoção ao ver alguém como você agir daquele jeito contra alguém da sonserina — ela revirou seus olhos novamente, mas dessa vez virou um pouco a cabeça para que ele não visse o quanto estava corando. Apenas suas amigas entenderam o que seu olhar queria dizer e tiveram que se segurar muito para não rirem.
A noite de segunda-feira chegou mais rápido do que Lily conseguiu se dar conta. Filch a levou até as masmorras, onde teria que cumprir seu castigo limpando o armário de poções e arrumando tudo em suas devidas categorias por ordem alfabética.
Regulus esperava por eles no corredor, mas não demonstrou qualquer emoção ao encarar a ruiva, que sorriu para ele numa forma de cumprimentar. O zelador abriu a porta e com um feitiço ambos iluminaram a sala com prateleiras até os tetos. O homem informou que voltaria antes do amanhecer e os fechou lá dentro, mantendo-os num silêncio ensurdecedor.
— Então… você é um encrenqueiro como Sirius? Sabia que tinham muito em comum — riu sem graça numa tentativa falha de melhorar o clima entre os dois. Mas o Black mais novo não parecia querer cooperar, mantinha os olhos azulados muito fixos nos vidros de ingredientes.
Ela decidiu não trocar mais nenhuma palavra com o menino e dedicou-se exclusivamente ao trabalho. Apesar disso, quando Filch retornou para levá-los de volta às salas comunais de suas respectivas casas, não tinham chegado nem mesmo na metade.
Antes de virar em um outro corredor que provavelmente o levaria para a entrada de sua sala comunal, Regulus a olhou muito rapidamente e deu um meio sorriso. Isso a pegou muito de surpresa e não lhe deu nem tempo de retribuir o gesto.
Já em sua cama quente ela se esforçou para pegar no sono, mas sempre era acordada por algum sono perturbador. Sua cicatriz latejava na cabeça sempre que abria os olhos novamente e seguiu assim até a hora que teve que levantar para se preparar para a aula.
Na segunda noite de detenção Regulus lhe disse um pequeno “oi”, quase inaudível, mas ela sorriu e respondeu. Eles fizeram a tarefa em silêncio como na madrugada anterior, mas quando deveria faltar pouco mais de uma hora para Filch voltar, Black largou o pano que tinha em mãos e se sentou no chão com os olhos bem fixos nela.
Lily o encarou por alguns segundos e se sentou um pouco receosa. Não podia negar que tinha um pouco de medo de Regulus, por mais que ele fosse dois anos mais novo que ela, pois andava sempre com o pior tipo de gente e já ouviu de alunos nascidos-trouxas sobre como suas brincadeiras acabavam sendo bem mais pesadas e não demonstrava qualquer arrependimento.
— Preciso da sua ajuda — disse ele por fim. Ela cruzou o cenho e ficou encarando-o com a boca entreaberta. O menino suspirou e prosseguiu.
“Não pode contar isso a ninguém, mas acho que sei como derrotar aquele-que-não-deve-ser-nomeado. Já ouviu falar em Horcruxes, Lily?” ele perguntou num tom muito baixo para que nem mesmo alguém com a orelha bem encostada na porta pudesse ouví-lo. Ela mesma estava com um pouco de dificuldade.
Regulus lhe explicou tudo o que sabia sobre as Horcruxes com uma riqueza de detalhes tão absurda que ela se pegou imaginando quanto tempo ele tinha gastado buscando por todas essas informações tão precisas.
“Você destruiu uma delas naquela noite em que matou o basilisco na câmara secreta no seu segundo ano. No entanto, não sei ao certo quantas são, o que sei é onde está uma delas: o medalhão de Salazar Slytherin. Estou planejando uma fuga para destruí-lo, mas pelo o que andei lendo aqueles que vão sozinhos ao lugar em que está escondido não voltam para contar a história, por isso, como você é… bem, aquela que deve derrotá-lo achei que seria justo pedir por sua ajuda.”
Ele só podia estar tentando fazer algum jogo, Lily tinha certeza de que aquilo não acabaria bem. Black era um comensal da morte, o que um seguidor de Voldemort iria querer com sua maior rival? Não fazia o menor sentido e a fez desconfiar de cada uma de suas palavras.
— Você quer destruir uma das Horcruxes? Você, o cara que segue você-sabe-quem? Me dê uma boa razão para não desconfiar de cada uma dessas suas palavras vazias. — disse com certo desdém. Ele suspirou e bagunçou um pouco os cabelos que já eram grandes o suficiente para cobrir metade das orelhas.
— Eu não quero mais fazer parte disso, Lily. Sei que é muito difícil acreditar, mas eu não posso continuar seguindo algo assim. Não quero matar toda essa gente, não quero ter sangue de bruxos e trouxas em minhas mãos — lágrimas se formaram em seus olhos e os lábios tremiam a cada palavra. Ela quase acreditou, quase sentiu pena e se entregou a sua ideia de destruir as Horcruxes, mas não foi tão fácil quanto ele achou que seria.
— Não acredito em você — ela disse e se levantando agarrou sua varinha para estar pronta para qualquer tentativa sua de atacá-la. Ele, porém, nem se moveu e parecia agora muito surpreso e quase derrotado. — Não vou a lugar algum com você, pois sei que vai me entregar a ele assim que tiver a chance. Não sou capaz de confiar em alguém tão ruim como você. — ele suspirou e se levantou, o que a fez ir para trás num sobressalto e quase derrubar alguns frascos nas prateleiras.
— Está bem, não peço de forma alguma que confie em mim. Apenas achei que deveria tentar pedir por sua ajuda já que quer derrotá-lo, ou pelo menos achei que quisesse. — disse por fim e calou-se novamente como na primeira noite. O som da chave girando na maçaneta a despertou de seus pensamentos e Filch estava de volta para levá-los.
Cada uma das palavras de Regulus assombraram sua mente durante todo o dia seguinte até a última noite de detenção e tudo só foi mais difícil com a presença do menino ali. Ele a questionou sobre ter contado a alguém, sobre ter contado a Sirius e ela negou as duas perguntas com toda a confiança do mundo. O menino pareceu acreditar, pois não disse mais nenhuma palavra a respeito.
Os meses se seguiram e Lily decidiu que não se meteria mais em encrencas, na verdade não estava nem com cabeça para isso. Ela começou uma busca frenética pelas tais Horcruxes que Regulus tanto lhe dissera, queria ter certeza de que ele tinha mentido e por isso a cada livro que abria, a cada página que lia torcia para encontrar uma só letra diferente de tudo o que tinha lhe sido contado, mas conforme avançava era como se ele mesmo estivesse em sua cabeça dizendo tudo aquilo novamente.
Foi numa terça-feira, perto do natal, quando a biblioteca já estava praticamente deserta que alguém bem específico surgiu para tirá-la daquele oceano de informações. As letras já saltavam diante de seus olhos quando James puxou uma cadeira e a cumprimentou com seu “e aí, Evans?” de sempre.
— O que você quer? Não tenho tempo para seus rodeios, estou muito ocupada.
— Deu pra ver, o que você tanto estuda? Não sai mais dessa biblioteca. Não pegou todas as matérias da grade como fez no terceiro ano, né? — perguntou enquanto esticava o braço para pegar seu livro. Lily tentou impedir, mas ele segurou seu braço e conseguiu puxar o objeto para si, leu atentamente o nome do capítulo — Horcruxes. O que é que quer com essas coisas?
— Já ouviu falar nisso? Está usando um tom de quem já ouviu falar.
— É claro que já — endireitou os óculos sobre o nariz. — Por isso estou tão surpreso que você esteja atrás disso. Aconteceu alguma coisa? — ela suspirou e pegou de volta o exemplar que pertencia a seção reservada e que apenas conseguiu após mentir muito mais do que gostaria para o professor Slughorn.
— Eu não deveria te contar, mas não aguento mais esconder isso das pessoas. — se levantou e começou a guardar os materiais na mochila, exceto pelo livro que levou até a bibliotecária para que fosse guardado em seu devido lugar. — Anda, vem. Não posso te contar aqui.
Lily saiu em passos apressados da biblioteca, James em seu encalço a acompanhando com muita facilidade por ter pernas mais longas que as dela. Os levou até a torre de astronomia e largou a bolsa pesada num canto qualquer, sentando-se diante do céu nublado de dezembro.
Ela contou tudo a James, sem deixar nenhum detalhe escapar. Ele ouviu a tudo muito atentamente, seus olhos castanhos não se desviaram dela em nenhum momento e quando finalizou ele respirou fundo e arregalou os olhos.
— Quanta informação — comentou simplesmente e, dando de ombros, ela assentiu. — O que pretende fazer? Vai atrás dessas coisas? Vai ajudar o Regulus?
— Eu não sei — gemeu baixinho e se encolheu, a testa encostada nos joelhos dobrados. — Não sei o que fazer e é isso que me preocupa, eu deveria ter uma ideia o menos de como seguir com tudo isso. Regulus disse que não sabe quantas delas existem, podem haver duas ou duas mil e eu não posso passar a minha vida tentando derrotá-lo, não aguento mais acordar todos os dias e pensar permanecerei viva ou as pessoas que eu amo.
Lily apenas percebeu que estava chorando quando James a envolveu em seus braços e afagou seus cabelos ruivos. Foi a primeira vez em muitos anos que ela se permitiu chorar realmente, quase perdeu o ar de tanto soluçar, mas não podia parar até que conseguisse expressar todo seu sofrimento de quase 18 anos de vida. Ela só queria ser uma garota normal, com uma vida normal, mesmo que fosse como uma bruxa, queria que suas únicas preocupações fossem as notas de seus exames. Porém, naquele momento a escola de bruxaria já não ocupava mais um espaço tão importante em sua mente.
James a afastou de seu ombro e passou os dedos por seu rosto para afastar as lágrimas, ele tirou seus cabelos da frente do rosto e entortou um pouco a cabeça para o lado ao ver sua cicatriz ali, um raio perfeito cortando o lado direito de sua testa. Ele então sorriu e tocou o local com muita delicadeza.
— Às vezes me esqueço de que está aí — abriu um meio sorriso. — Gosto dela e sempre achei que você deveria mostrá-la mais. — Lily riu pelo nariz e rolou os olhos.
— Para quê? Para me acharem mais esquisita ainda e olharem mais do que o normal? — perguntou meio irritada, mas ele negou e sorriu um pouco mais. Em câmera lenta o viu se aproximar e sentiu seus lábios tocarem bem ali, seu coração martelava no peito e apostava como poderia quebrar suas costelas com muita facilidade.
— Por que mostra quem você é e o quanto é poderosa — ele voltou a franja para o lugar em que estava, sua mão afagou seu cabelo e então tocou seu rosto com ternura. — Sendo assim, Evans, acho que deve fazer o que Regulus disse e encontrar as Horcruxes para destruí-las. Digo mais, acho que deve lhe dar uma chance de se redimir já que ele sabe onde está uma delas.
Lily o encarou pelo o que pareceram horas, memorizou cada detalhe de seu rosto e então fez algo que achou que jamais teria coragem suficiente para fazer. Se ela partiria naquela viagem para encarar a morte quase certa tinha que ao menos experimentar aquilo, nem que fosse a primeira e última vez.
Suas mãos subiram até os óculos de James e com muita calma os retiraram, o que o fez se assustar e resmungar muito sobre ela colocá-los de volta. Lily ignorou cada uma de suas palavras e, após repousar o objeto no chão de pedra, segurou seu maxilar e o puxou para perto, seus olhos se fechando gradativamente, as respirações quentes se encontrando até que finalmente seus lábios se tocaram.
Após dois longos anos para ela, e quatro para ele, estavam se beijando como sempre deveria ter sido. Agora fazia tanto sentido que Lily se questionou todo o tempo porque não fez antes, porque adiou tanto algo que agora despertava nela as melhores sensações do universo.
A resposta era óbvia e estava bem explícita no motivo pelo qual fez aquilo. Se morresse, ao menos seria com a lembrança de ter beijado o rapaz por quem tinha se apaixonado, o rapaz que foi gentil com ela tantas vezes e que a encorajava a fazer absolutamente tudo, contanto que não fosse fazê-la mal.
— Lily… o que… — ele não conseguia formular uma única frase sequer, suas bochechas estavam muito vermelhas e o cabelo desgrenhado por ela ter enganchado os dedos ali. Ela tocou seu lábio com o dedo indicador para que se calasse e iniciou um novo beijo tão quente quanto o outro, o que pareceu fazer James Potter entender que não era um sonho, uma pegadinha ou um delírio. A garota por quem era perdidamente apaixonado estava bem ali, em seus braços, beijando-o e mesmo que aquela fosse a última vez, pois ela partiria para uma missão muito perigosa e ele não podia evitar pensar no pior, se entregou como se eles fossem viver aquilo pela eternidade.
James e ela voltaram para a Torre da Grifinória sem a menor pressa, paravam em todos os cantos escuros e escondidos que podiam para roubarem mais beijos. Tiveram que parar apenas quando já estavam perto demais do retrato da mulher gorda, mas ao atravessarem-no, um seguido do outro, ficou meio difícil fingir que nada tinha acontecido quando seus uniformes estavam meio amassados e as bochechas rosadas.
Ela procurou por Regulus na semana seguinte, antes de voltar para casa para o natal. Ele pareceu surpreso em vê-la ali, concordando em segui-lo naquela missão suicida, mas genuinamente feliz. Combinaram rapidamente algumas coisas, pois ela estava atrasada para pegar o expresso de volta a Londres.
Aquele seria provavelmente o natal mais estressante de sua vida, pois teria pouquíssimo tempo para aproveitá-lo ao lado de sua tia Margareth já que ela teria que ser tirada de sua casa às pressas por sugestão de Dumbledore. Seria levada a um lugar seguro até que tudo aquilo passasse e não acabasse sendo morta como os pais de Lily foram há 17 anos.
[...]
Lily não retornou para Hogwarts, no entanto, escreveu algumas cartas para seus amigos e em especial para James na qual dizia que não deveria ir atrás dela, mas permanecer na escola para ajudar quem precisasse e pediu para que não contasse a Sirius sobre Regulus, pois ele era bem mais teimoso que Potter e não haveria nada no mundo que o impediria de ir atrás de seu irmão.
— Tem certeza que elas vêm? — Regulus olhava impaciente para o relógio, a mão na cintura e sua inquietude quase fazendo com que Lily o jogasse daquele penhasco.
— Tenho, só devem estar com dificuldade para aparatar — na mesma hora em que disse isso alguma coisa cortou o ar diante deles e Marlene surgiu acompanhada por Mary, ambas com expressões assustadas enquanto checavam se todas as partes de seus corpos tinham chegado em segurança.
— Por Morgana, eu nunca mais quero ter que fazer isso na vida — Marlene ofegou e limpou suas roupas. Quando seus olhos azuis repousaram em Regulus ela recuou e agarrou o pulso de Mary que também estava em choque. Lily não tinha comentado sobre ele, pois teve medo delas negarem o pedido de ajudarem.
— Por favor, confiem em mim quando digo que ele está aqui para ajudar — falei me colocando entre eles, pois Mary já estava com a mão em sua varinha. — Regulus sabe muito sobre as Horcruxes e está disposto a se voltar contra vocês-sabem-quem. Ele quer ajudar.
— Como eu posso confiar em alguém que quase me matou uma vez? — MacDonald finalmente disse e suas palavras tiveram efeito em todos ali, principalmente nele. Black tentou dar um passo à frente, mas Lily apenas levantou a mão e ele parou.
— Eu… eu sinto muito por isso. Sei que não é o suficiente apenas dizer isso, mas me deixe provar que estou verdadeiramente arrependido de um dia ter me juntado a ele e de ter feito coisas tão horríveis — elas não disseram nada, apenas me encararam na esperança de que eu concordasse com elas e o deixássemos ali, mas não era o que aconteceria.
— Se não querem fazer isso por ele, façam por mim e por vocês mesmas. Eu preciso destruir essas coisas para derrotá-lo, é o único jeito. — As outras duas se entreolharam e assentiram, mesmo que fosse evidente sua desconfiança.
Após explicarem que apenas os dois poderiam seguir em frente, ela aparatou levando Regulus consigo. Chegaram a caverna que descobriram ser o lugar em que Voldemort tinha escondido a Horcrux e tiveram de pegar uma pequena embarcação para chegarem até o outro lado de um lago muito escuro, ele conjurou o feitiço para fazer luz e quando estavam diante de uma bacia de pedra com um líquido de cor amarelo-esverdeada em seu interior se encararam com todo o medo que poderiam carregar em seus olhos.
— Prometa que vai dizer ao Sirius o quanto eu o amo e o quanto me arrependo de tudo o que fiz — os grandes olhos azuis de Regulus brilharam mesmo com a pouca luminosidade, eram os olhos de um menino de quinze anos que estava prestes a fazer provavelmente a coisa mais arriscada de sua vida, mas talvez a mais nobre.
— Não vou precisar porque você mesmo vai dizer — ela disse e conjurou uma concha para que pudesse beber o líquido.
— Não pode beber isso, sou eu quem devo fazer. Você pode morrer. — ele tentou tirar o objeto de sua mão, mas não obteve sucesso algum. Lily sorriu e tocou seu ombro.
— Eu não vou morrer, além disso se coisas ruins me acontecerem por causa disso aqui preciso de um bruxo tão bom quanto você para me salvar.
Tirou a primeira taça e a princípio não sentiu nada, mas ao chegar à terceira ou quarta taça uma dor insuportável tomou conta de si a impossibilitando de mover-se e até mesmo falar, por isso Regulus teve que mediar a situação e levar a poção até seus lábios. Chegou um momento em que não queria mais beber, estava alucinando, via coisas terríveis, as pessoas que mais amava morrendo diante de seus olhos, a noite da morte dos pais surgiu na mente, os gritos de sua mãe.
— Só mais um, Lily. Eu prometo. — ele disse e praticamente empurrou o restante do líquido contra sua garganta. Todas as memórias ruins se foram e deixaram espaço para uma sede intensa e insaciável.
— Reg… água… — suplicou e o menino apressou-se até a bacia, após pegar o medalhão conjurou água ali dentro, mas a magia contida no objeto o impediu de pegar uma gota sequer. Ele olhou em volta e para sua infelicidade tudo o que restava era o lago escuro e amedrontador, mas foi mesmo assim, pois a necessidade de Lily naquele momento era maior do que qualquer um de seus medos.
Assim que sua mão tocou a água algo se moveu ali e o fez saltar para trás com o susto, pegou sua varinha e novamente iluminou a caverna. A partir daquele momento pode ver, saindo da água, as criaturas mais assustadoras que já viu em toda sua vida, elas vinham em sua direção e se agarravam em seu pescoço até que conseguiram puxá-lo para a água na tentativa de afogá-lo e estavam quase lá quando um lampejo alaranjado surgiu e os afastou aos montes. Regulus conseguiu voltar a superfície e conseguiu ver Lily afastando-os ao conjurar fogo, mesmo que não fosse o mais poderoso de todos já era alguma coisa.
Eles saíram de lá o mais rápido que puderam, reencontraram as meninas bem onde as tinham deixado e seguiram viagem às pressas. Agora tudo o que precisavam era encontrar uma maneira de destruir o objeto e essa seria a pior parte.
Levantaram acampamento na primeira floresta que encontraram, ao norte de Grã-Bretanha, e até que conseguissem tirar a parte da alma de Voldemort contida naquele pequeno objeto tiveram os piores dias de suas vidas. Começou com Regulus tornando-se muito agressivo e falando coisas sem sentido, foi então que Marlene percebeu tratar-se de um efeito do uso do medalhão e eles passaram a revezar entre si, cada um vivenciando seus piores medos e angústias.
Numa manhã de fevereiro Lily recebeu uma coruja e preocupou-se, pois era algo muito arriscado. Ainda assim ela abriu e leu tudo muito atentamente e com um sorriso no rosto ao reconhecer a letra e as palavras de James.
“Querida Lily,
Sirius, Remus e eu fugimos de Hogwarts, nos juntamos a um grupo contrário a você-sabe-quem. Infelizmente não posso dizer onde estou, mas espero poder vê-la em breve, pois estou com saudades.
Sei que é muito arriscado mandarmos corujas assim, mas eu precisava lhe dizer que outras duas Horcruxes já foram destruídas e mando uma delas para cuide bem, sei que é muito capaz disso.
Seu, James.”
— Merlin, como esse homem é meloso — Regulus comentou com uma careta que a fez rir. Ela colocou a mão no envelope e tirou de dentro um cordão com uma pedra mais ou menos do tamanho de uma tampinha de garrafa bem presa. O passou por sua cabeça e enfiou por dentro da blusa, sentindo o material frio em contato com a pele arrepiá-la.
Depois daquela carta, um ou dois dias, ouviram um barulho na floresta e já estavam prontos para um ataque dos seguidores de Voldemort. No entanto, Sirius entregou o plano dos marotos de assustarem-nos e apenas recebeu gargalhadas em resposta.
— Você é muito burro — Remus lhe deu um tapinha na nuca, mas isso não o abalou em nada, pois continuava a sorrir.
— Sirius! — Mary exclamou e correu para seus braços, ele a apertou muito forte contra si mesmo e quando seus olhos se levantaram foi apenas para encontrar os do caçula.
— Eu te disse que sobreviveria para dizer a ele o quanto o ama — Lily sussurrou para Regulus e ele sorriu, formando um “obrigado” com os lábios e lhe dando um abraço. Ela se sentiu muito confortável ali, ele tinha se tornado um amigo e tanto.
James foi o último a entrar na cabana, mas quando seus olhos de avelã encontraram os verdes dela foi como se o mundo tivesse parado de girar, nada mais existia a não ser os dois. Ela sentiu sua garganta fechar e correu em sua direção para então se encaixar em seus braços e sentir seu cheiro, o qual se lembrava perfeitamente de ter sentido na aula de poções do sexto ano.
Depois de conseguirem conversar e alinhar algumas informações a respeito da Ordem da Fênix, a organização da qual eles estavam fazendo parte juntamente com Dumbledore — o que surpreendeu muito Lily, pois ela não achava que ele fazia o tipo revolucionário, partiram para a tarefa de destruir o medalhão.
Remus tomou a espada de Gryffindor em suas mãos e a cravou contra o objeto, despertando de Lily outra pontada muito forte na cabeça que ela se lembra de ter sentido há alguns anos quando enfiou o dente do basilisco no diário de Riddle e há algumas noites, a levando a concluir que a cada vez que uma delas era destruída isso a afetava.
Por breves instantes tudo se passou em câmera lenta diante de si, as informações se processando dentro de sua mente numa velocidade meio difícil de acompanhar até que algo novo se formou ali, algo que já deveria ter percebido há muito tempo, que era essencial para que conseguisse terminar tudo aquilo.
— Lily? Tá tudo bem? — Mary perguntou a encarando com os olhos pretos muito preocupados, os outros a encararam da mesma maneira, mas por segundos não teve reação nenhuma e achou até que tinha parado de respirar.
— Eu… eu… — ela olhou para Regulus que parecia estar entendendo mais do que os outros onde tentava chegar e assentiu com pesar. Ela não se permitiu chorar, no entanto, era uma realidade difícil, mas tinha que ser forte e cumprir seu destino. — Eu entendi porque consigo ouvi-lo, porque ele entra na minha cabeça e por que as Horcruxes me afetam tanto… Eu… eu sou…
— Não. — Marlene disse levando as mãos a boca em puro desespero, Mary começou a chorar, Sirius fechou os olhos como se tivesse sido derrotado, Remus abaixou a cabeça e passou as mãos pelos cabelos, mas James continuava a encará-la e com o mesmo olhar que deu a ela naquele dia na torre de astronomia. Ele ergueu sua mão até a cicatriz e tocou ali, a fazendo sorrir fraco.
— Lembre-se do que eu disse.
E ela se lembrou, se lembrou durante todo o caminho de volta a Hogwarts para deixarem os amigos lá. Marlene e Sirius não queriam aceitar de forma alguma, não queriam ficar para trás enquanto Lily fazia algo tão sério como encarar a morte daquela maneira, mas estava decidido: ela tinha que fazer o que tinha que fazer e então restaria uma Horcrux a menos.
Ao chegarem ao castelo James passou instruções clara a Regulus sobre as duas outras que ainda estavam no interior da escola e Lily complementou passando para Marlene como deveria entrar na câmara secreta e pegar os dentes do basilisco, pois só eles seriam capazes de pôr um fim naquelas coisas.
Passaram pelas ruínas de Hogwarts e seguiram caminho até a floresta, onde sabia que ele já a aguardava, não tinha sido nada discreta em retornar a Hogsmeade e imediatamente soube que ele solicitou que se entregasse de uma vez por todas.
Ela avistou o pequeno grupo entre as árvores, podia diferenciar alguns com muita clareza, mas Voldemort era o centro de tudo e parecia muito cheio de si, com a certeza de que teria a vitória naquela noite.
James apertou sua mão contra a dele e, por mais que tentasse lhe transmitir coragem, ela sabia que temia perdê-la assim tão facilmente.
Os seguidores de Voldemort imediatamente o acorrentaram quando o viram e Lily tentou impedir, mas foi em vão. Tudo o que lhe restou foi encarar a figura desprezível do Lorde das Trevas e esperar por seu destino.
— Eu vim, como me pediu. — disse com a voz firme. Ele gargalhou e sem muitos rodeios ergueu a varinha das varinhas em sua direção.
— Lily… não… — James implorou com lágrimas nos olhos. Ela o olhou uma última vez e sorriu antes que a luz verde a atingisse e o mundo desaparecesse.
Ela se lembra de ter acordado em um lugar muito bonito, iluminado e silencioso, se encontrou com sua mãe com quem teve uma longa conversa até que concluiu que deveria voltar, tinha que voltar, mesmo que tivesse a escolha de permanecer ali ao seu lado como sempre sonhou em estar.
No entanto, voltou a realidade, manteve os olhos bem fechados, mas podia ouvir toda a movimentação ao seu redor e sentiu quando dedos finos de uma mulher a tocaram no pescoço em busca de seu pulso. Ela ouviu a voz de Narcissa Malfoy num sussurro, mas não soube bem o que disse, apenas ouviu quando ela disse aos demais que Lily estava morta.
O caminho de volta a Hogwarts foi demorado, Voldemort queria fazer uma cerimônia e até mesmo obrigou James a carregar seu corpo “morto” nos braços. Ao pararem na entrada podia ouvir o burburinho das pessoas.
— Onde está a Lily? — a voz de Marlene ressoou, estava desesperada.
— Lily Evans está morta — anunciou Voldemort com o orgulho em cada uma de suas palavras. Suspiros de espanto tomaram o pátio e Marlene gritou, mas James a apertou mais firme ainda. — Agora mais do que nunca vocês devem seguir a mim, pois a sua heroína. A “menina que sobreviveu” foi derrotada. Juntem-se a mim, venha Severus — chamou pelo garoto que infernizou a vida de Lily durante todos seus anos em Hogwarts. Ele caminhou em passos lentos e, logo atrás, mesmo sem ser chamado, adiantou-se Peter Pettigrew que causou a pior reação possível nos marotos.
— Seu rato imundo — Sirius abaixou a mão para alcançar a varinha, mas Remus o impediu de fazer uma besteira enorme.
— Jamais nos juntaremos a você — disse Alice muito alto, com a coragem da qual ela se lembrava bem e sentia muita admiração. — Lily não morreu em vão esta noite, assim como nenhum outro nessa batalha ou em qualquer outra na tentativa de tirá-lo do poder. O coração de Lily ainda bate por nós e não pararemos um só segundo até que ela esteja entre nós novamente.
Abriu seus olhos minimamente, o suficiente para ver a amiga puxar a espada de Gryffindor de dentro do chapéu seletor para matar Nagini. Ela se soltou dos braços de James e correu, lançando um feitiço contra seu oponente e surpreendendo a todos, a maioria dos comensais da morte já fugia enquanto Bellatrix Black ordenava que permanecessem ali.
— Levem-no para dentro do castelo e matamos a cobra lá dentro — ela se virou uma última vez para puxar James pela mão às pressas.
Duelou com Lord Voldemort pelos corredores do castelo enquanto Remus e Alice lidavam com Nagini. Ela precisava levá-lo lá para fora, pois seria menos arriscado de causarem algum dano ao castelo que pudesse fazê-lo desmoronar.
Ela conseguiu ver de relance os irmãos Black duelando contra Bellatrix que apenas ria como a maluca que era. Sirius foi o responsável pelo feitiço final, que levou a prima a morte e não pareceu haver arrependimentos ali.
Quando conseguiu atravessar as portas de entrada e estavam no centro do pátio ela soube que Nagini tinha sido morta pela espada que Alice empunhava, pois Voldemort se contorceu diante de seus olhos e pareceu o momento propício para terminar com aquilo.
— Eu vou matá-la, sua sangue-ruim — disse muito fraco, mas com força suficiente para lançar o feitiço da morte. Ao mesmo tempo Lily girou sua própria varinha e lançou o feitiço que foi de encontro à luz verde e criou um som quase ensurdecedor.
Ela se manteve firme todo o tempo, ao contrário de seu oponente que parecia cada mais e mais fraco até que finalmente pareceu chegar ao seu trágico fim. O jato vermelho de Lily se sobrepôs ao verde dele e o acertou em cheio com o próprio feitiço de modo que sua varinha voasse para longe de suas mãos e a ruiva pudesse agarrá-la enquanto assistia ao corpo de Lorde Voldemort cair em câmera lenta contra o chão de pedra.
Ela suspirou, completamente imóvel enquanto era bombardeada por abraços de seus amigos, James foi o primeiro, claro. Ela não se importou muito se acabariam machucando-a, pois tudo o que importava agora é que estava livre, que todos eles estavam livres e que ela tinha cumprido seu destino como tinha de ser.
Lily despertou de mais um sonho terrível e que infelizmente parecia ser muito real. Todo o quarto girava à sua volta e até conseguir focalizar a visão e controlar a respiração a figura loira de Marlene McKinnon já estava diante dela com seus olhos azuis muito arregalados.
— Lily, tá tudo bem? — sua voz era distante, mas era evidente a preocupação em seu rosto. Ela afastava os cabelos úmidos por suor do rosto da ruiva.
Quando finalmente conseguiu unir forças, disse:
— Era o mesmo sonho, Lene — Sussurrou para tentar não acordar Mary e Alice que dormiam nas camas próximas, por mais que ela soubesse que talvez já estivessem acordadas apenas ouvindo tudo. — Eu não sei o que significa, mas parece sempre tão real e é sempre a mesma luz verde, a mesma mulher gritando. — As lágrimas tomaram conta de Lily e ela não conseguiu dizer mais nada. Marlene entendeu que o melhor que poderia fazer naquele momento era abraçá-la e tentar acalmá-la até que pegasse no sono novamente.
Mais um típico final de semana de outubro se iniciava e as visitas a Hogsmeade começariam naquele sábado. Chegava a ser cômico o contraste entre os alunos do último ano que estavam cheios desses passeios e os do terceiro que estariam indo pela primeira vez.
Nos últimos dois anos ela se lembra de ter ido apenas para o Halloween e talvez uma vez ou outra porque Alice queria sair com Frank, mas não queria ir sozinha até o vilarejo. No entanto, Lily sentia uma vontade imensurável de apenas deixar aquele castelo e tentar esfriar a cabeça antes que seus pensamentos a elouquecessem.
— Se você vai, avise logo ao Potter. Ele não parece muito animado, mas aposto como vai ficar se souber que estará lá — Mary comentou com uma risada que fez Lily revirar os olhos.
Não é que ela odiasse James Potter com unhas e dentes, na verdade ele se mostrou minimamente agradável certas vezes. Principalmente quando a defendeu de um aluno da sonserina, Severus Snape, que parecia obcecado por ela desde o segundo ano por toda a coisa dela ser "a garota que sobreviveu a você-sabe-quem". Ele e os amigos viviam para chamá-la, e outros alunos nascidos trouxas, de sangue ruim.
No entanto, James era sempre muito cheio de si, irritante, imaturo e... ah, está bem. Ela tinha uma queda por ele desde o quinto ano, mas decididamente fingia que não para não insuflar mais ainda seu enorme ego. Em geral seus momentos repentinos de raiva por ele facilmente se associavam ao ciúmes que acabava sentindo quando estava flertando com alguma aluna pelos corredores, algo muito recorrente para falar a verdade.
E talvez possa surgir a pergunta como "então por que ela não vai lá e diz a ele o que sente?". Bom, apesar dele ter demonstrado um certo interesse por ela há alguns anos, ter sido legal diversas vezes e nunca tê-la visto como "a eleita", "a escolhida", mas apenas como Lily, ela ainda era o que era e estava sempre tão envolvida em alguma coisa sombria que tinha medo disso lhe custar mais pessoas queridas do que já lhe custou.
Lily era só um bebê quando tudo aconteceu, mas as lembranças permaneciam estranhamente muito vivas em sua mente. Era sempre um lampejo verde, um grito agudo e então tudo desaparecia. Quando contou a Dumbledore sobre isso certa vez ele lhe disse que provavelmente era a primeira e última lembrança que tinha de sua mãe, na noite em que morreu para tentar salvar sua vida.
Ela soube que vinha de uma linhagem antiga de bruxos e bruxas, que em algum momento se cruzou com a árvore familiar de Tom Riddle e por essa relação de sangue Lily era a única, em todo o mundo, que poderia derrotá-lo de uma vez por todas. Quando você-sabe-quem descobriu é claro que fez de tudo para que seu destino não se cumprisse, ele só não contava com o fato de que esse laço fosse tão forte que o impediria de matá-la a princípio.
A única coisa que o Lorde das Trevas conseguiu fazer a Lily foi um pequeno corte em sua testa, que em geral ela cobria com sua franja justamente para não causar mais tumulto do que sua simples existência já causava. Isso sem falar, é claro, dos pesadelos e dores de cabeça recorrentes.
— Senhorita Evans seu formulário para Hogsmeade — disse a professora McGonagall, a tirando de seus pensamentos. Lily piscou algumas vezes e esticou o pedaço de pergaminho que todos os anos era assinado por sua tia Margareth, com quem passou a viver desde o ocorrido.
— Então eu vou ter o enorme prazer de visitar Hogsmeade com você, Evans? — A voz de James surgiu por trás de Minerva e fez seu coração saltar, mas para tentar disfarçar ela revirou seus olhos e fez cara de tédio.
— Potter o dia mal começou e você já está perturbando a paz da senhorita Evans? — McGonagall reclamou, mas James não deu muita atenção e apenas sorriu para ela.
— Bom dia Minnie, meu amor. — beijou o rosto da professora que no mesmo instante enrubresceu e lhe deu um tapinha na orelha.
— Vá terminar o seu café, pois caso se atrase pra minha aula faço questão de te deixar fora da próxima partida de quadribol. — ele sentiu a seriedade em suas palavras, pois na mesma hora saiu apressadamente pelo salão comunal, mas sem perder a pose de sempre. — Esse menino, ele é um problema. — Minerva de lamentou e se despediu das meninas com um pequeno aceno antes de continuar sua busca por autorizações de saída.
A semana passou mais lenta do que Lily e gostaria, nem mesmo a aula de poções estava lhe causando as melhores sensações. Na verdade a voz sempre muito calma de Slughorn estava quase levando todos a insanidade, exceto por James que parecia muito entretido com o preparo de sua poção, o que era bem incomum para ser sincera.
— Muito bom, Sr. Potter. Está com uma aparência excelente. — o comentário de Slugh chamou não apenas sua atenção, mas de toda a turma que se esticou para tentar ver que diabos James tinha feito ali. A única coisa que ela notou foram suas anotações muito frenéticas no próprio livro, mas nem mesmo Sirius que era sua dupla parecia saber com propriedade.
Os únicos que não pareciam muito contentes eram um grupo específico de alunos da sonserina que a maioria dos alunos sabia, ou desconfiava, que estavam envolvidos com os comensais da morte. Eles encaravam tudo como se fosse absurdamente ridículo, principalmente por se tratar de Potter que era quase sempre o centro das atenções.
Ao final da aula ela recolheu seu material e se apressou por entre os alunos, estava com uma dor de cabeça terrível e esperava poder tirar um cochilo até o jantar.
Lily teria chegado até a porta se os mesmos sonserinos com raiva de Potter não tivessem bloqueado sua passagem e começado a fazer comentários de muito mau gosto.
— Saia da frente sangue-ruim — um deles gritou para Mary que já saía pela porta. Uma garota a empurrou e Lily segurou firme a varinha na cintura pronta para fazer alguma coisa.
No corredor aberto eles continuaram a provocá-la sem piedade alguma, isso a tirou do sério e a fez murmurar um feitiço que tirou Mulciber, o primeiro a começar com as provocações, do chão e flutuar um metro ou dois no ar. Ela o girou pelo menos umas cinco vezes e então o colocou de cabeça para baixo, suas vestes caindo sobre seu rosto e o deixando muito ridículo.
Os alunos se aglomeraram para apreciar o show e não seguraram suas risadas. Ela pensou como isso poderia lhe custar uma detenção, mas não se importava nem um pouco, estava farta de toda aquela merda há muito tempo.
Deixou Mulciber de lado e partiu para a garota, Ellen Parkinson, em quem fez o nariz crescer descontroladamente até que ela começasse a gritar e sair correndo.
Apenas parou quando uma mão firme em seu ombro a puxou do centro da rosa, os olhos furiosos da diretora da grifinória e miraram e a fizeram pensar que aquele era realmente o fim. Estava muito encrencada.
— Eu esperava isso de qualquer um, qualquer aluno, menos de você Srta. Evans. É inacreditável, vergonhoso e absurdo. Como a senhorita pôde me decepcionar dessa maneira? — Minerva gritava com ela dentro de sua sala, Lily na cadeira não sabia nem o que dizer. Quando o calor do momento passou ela percebeu que talvez pudesse ter agido de uma maneira diferente. Ainda assim reuniu toda sua coragem e orgulho para contestar a professora
— Professora, com todo o respeito, mas eles acham que podem sair por aí falando o que quiserem dos alunos. Principalmente dos nascidos trouxas — mas ela permanecia irredutível. Levantou seu dedo indicador e a ruiva se calou.
— Eu entendo, juro que entendo. Mas ainda estamos dentro de uma escola e não posso permitir esse tipo de desordem. Os alunos da sonserina terão suas devidas punições, tenho certeza que o professor Slughorn não deixará passar — Ela se levantou e cada mínimo movimento de seu corpo, suas expressões mais finas indicavam que Lily também estava muito encrencada. — Infelizmente terei que te dar uma detenção, Lily. Além disso vou enviar uma coruja para a sua tia, espero que entenda.
Lily entendia, tinha ficado chateada por ser punida pela primeira vez. No entanto não se arrependia de um só ato, teria feito pior se não estivesse em Hogwarts, pois estava farta daquele discurso muito mal intencionado e preconceituoso.
Felizmente McGonagall não a proibiu de ir a Hogsmeade, o que foi um alívio pois a ideia de permanecer no castelo enquanto seus amigos se divertiam no Halloween quase a fez ir a loucura.
Seu castigo começaria na próxima segunda-feira e duraria as três noites seguintes. Ela soube, através de Sirius, que seu irmão Regulus Black tinha sido castigado por ter lançado uma azaração contra um aluno e provavelmente seriam mandados para o mesmo castigo.
— Como se não bastassem aqueles projetos de comensais de merda nos atormentando agora você vai ter que passar sua detenção com um deles — Mary resmungou e Sirius se mexeu meio desconfortável ao seu lado. Ela percebeu e logo se arrependeu em partes do que disse. — Não quis dizer isso, Six. Eu sei que ele é seu irmão, mas é que toda essa coisa me cansa às vezes. — ela tocou seu rosto com gentileza, mas era possível identificar certo receio em chegar tão perto depois de tê-lo magoado. Ele sorriu meio fraco e apenas assentiu, encerrando o assunto e fazendo a morena se virar para a frente e suspirar.
Lily gostava de ficar observando-os às vezes. Desde o final do terceiro ano, quando se beijaram pela primeira vez no aniversário de Mary no Três Vassouras, eles tinham umas "idas e vindas no amor". Namoraram até o meio do quarto ano, mas as coisas desandaram um pouco e se separaram, nesse meio tempo ele descobriu um sentimento por Remus e Mary se interessou por Benjy Fenwick da Corvinal.
Quando chegou o final do sexto ano eles tiveram uma conversa muito longa e séria, ficaram quase três horas dentro do quarto dele na torre da Grifinória, mas pelo menos quando saíram estavam juntos novamente. Isso alegrou muito Lily, pois ela percebeu como a amiga mudava ao estar perto de Sirius, ele despertava nela suas melhores qualidades e Mary quase brilhava como o sol ao seu lado.
Mesmo que tivessem algumas raras brigas, pois seus gênios fortes também não ajudavam em absolutamente nada, em questão de minutos já estavam um tentando chamar a atenção do outro novamente para se redimir. Isso já estava acontecendo inclusive enquanto Lily fazia suas reflexões a respeito do casal.
A mão de Sirius subiu pelos cachos muito volumosos de Mary e se enroscou entre eles de um jeito que a própria MacDonald tinha lhe ensinado para que não perdessem a definição. Ao toque ela fechou seus olhos e sorriu relaxada, o que fez Lily soltar uma mínima risada. Ele sorriu e jogou o corpo um pouco para a frente, beijando o topo de sua cabeça e então a bochecha.
— Eles são tão lindos, né? — Alice comentou tão encantada quanto Lily. A ruiva assentiu e suspirou, perguntando-se quando poderia viver o mesmo. — Você deveria dar uma chance ao Potter. — soltou aleatoriamente e com um tom que ela conhecia bem, quase numa ordem em vez de um conselho. Revirou seus olhos e sorriu para a amiga.
— Quem sabe quando acabar a guerra. — disse com um olhar esperançoso que a fez sorrir e encarar Mary com divertimento, ela também sorriu.
— Aposto que acontece antes — disse se endireitando no banco da mesa que dividiam no três vassouras e recostando sobre o ombro de Sirius que agora parecia prestar muita atenção no assunto. Ela via em seus olhos cinzentos a iminência de um comentário.
— Eu dou até o natal para o primeiro beijo e até o final do ano letivo para eles se assumirem de uma vez. — Alice apostou e Mary assentiu. As três encararam Sirius que sorriu e negou com a cabeça.
— Você só não tentou nada ainda porque não quis, Evans. — tirou um cigarro do bolso da jaqueta e o acendeu bem onde estava. Mary se afastou xingando, pois segundo ela seu cabelo estava limpo demais para ficar no meio daquela chaminé que ele criaria.
— Vocês estão muito enganados. Não daria uma chance ao Potter nem que ele fosse o último homem da terra.
— Nossa, Evans. Isso me corta o coração — sua voz apareceu atrás de si e fechando seus olhos ela respirou fundo. Ele vinha acompanhado por Marlene e se sentou ao lado dela com o mesmo sorriso de sempre. — Ainda mais que seria muito legal ter uma valentona como namorada. — suspirou dramático.
— Eu não sou uma valentona — cruzou os braços claramente desconfortável com todos os comentários que tinha recebido sobre ter azarado os alunos da Sonserina.
— Chame do quiser, mas foi incrível. Eu quase chorei de emoção ao ver alguém como você agir daquele jeito contra alguém da sonserina — ela revirou seus olhos novamente, mas dessa vez virou um pouco a cabeça para que ele não visse o quanto estava corando. Apenas suas amigas entenderam o que seu olhar queria dizer e tiveram que se segurar muito para não rirem.
A noite de segunda-feira chegou mais rápido do que Lily conseguiu se dar conta. Filch a levou até as masmorras, onde teria que cumprir seu castigo limpando o armário de poções e arrumando tudo em suas devidas categorias por ordem alfabética.
Regulus esperava por eles no corredor, mas não demonstrou qualquer emoção ao encarar a ruiva, que sorriu para ele numa forma de cumprimentar. O zelador abriu a porta e com um feitiço ambos iluminaram a sala com prateleiras até os tetos. O homem informou que voltaria antes do amanhecer e os fechou lá dentro, mantendo-os num silêncio ensurdecedor.
— Então... você é um encrenqueiro como Sirius? Sabia que tinham muito em comum — riu sem graça numa tentativa falha de melhorar o clima entre os dois. Mas o Black mais novo não parecia querer cooperar, mantinha os olhos azulados muito fixos nos vidros de ingredientes.
Ela decidiu não trocar mais nenhuma palavra com o menino e dedicou-se exclusivamente ao trabalho. Apesar disso, quando Filch retornou para levá-los de volta às salas comunais de suas respectivas casas, não tinham chegado nem mesmo na metade.
Antes de virar em um outro corredor que provavelmente o levaria para a entrada de sua sala comunal, Regulus a olhou muito rapidamente e deu um meio sorriso. Isso a pegou muito de surpresa e não lhe deu nem tempo de retribuir o gesto.
Já em sua cama quente ela se esforçou para pegar no sono, mas sempre era acordada por algum sono perturbador. Sua cicatriz latejava na cabeça sempre que abria os olhos novamente e seguiu assim até a hora que teve que levantar para se preparar para a aula.
Na segunda noite de detenção Regulus lhe disse um pequeno "oi", quase inaudível, mas ela sorriu e respondeu. Eles fizeram a tarefa em silêncio como na madrugada anterior, mas quando deveria faltar pouco mais de uma hora para Filch voltar, Black largou o pano que tinha em mãos e se sentou no chão com os olhos bem fixos nela.
Lily o encarou por alguns segundos e se sentou um pouco receosa. Não podia negar que tinha um pouco de medo de Regulus, por mais que ele fosse dois anos mais novo que ela, pois andava sempre com o pior tipo de gente e já ouviu de alunos nascidos-trouxas sobre como suas brincadeiras acabavam sendo bem mais pesadas e não demonstrava qualquer arrependimento.
— Preciso da sua ajuda — disse ele por fim. Ela cruzou o cenho e ficou encarando-o com a boca entreaberta. O menino suspirou e prosseguiu.
"Não pode contar isso a ninguém, mas acho que sei como derrotar aquele-que-não-deve-ser-nomeado. Já ouviu falar em Horcruxes, Lily?" ele perguntou num tom muito baixo para que nem mesmo alguém com a orelha bem encostada na porta pudesse ouví-lo. Ela mesma estava com um pouco de dificuldade.
Regulus lhe explicou tudo o que sabia sobre as Horcruxes com uma riqueza de detalhes tão absurda que ela se pegou imaginando quanto tempo ele tinha gastado buscando por todas essas informações tão precisas.
"Você destruiu uma delas naquela noite em que matou o basilisco na câmara secreta no seu segundo ano. No entanto, não sei ao certo quantas são, o que sei é onde está uma delas: o medalhão de Salazar Slytherin. Estou planejando uma fuga para destruí-lo, mas pelo o que andei lendo aqueles que vão sozinhos ao lugar em que está escondido não voltam para contar a história, por isso, como você é... bem, aquela que deve derrotá-lo achei que seria justo pedir por sua ajuda."
Ele só podia estar tentando fazer algum jogo, Lily tinha certeza de que aquilo não acabaria bem. Black era um comensal da morte, o que um seguidor de Voldemort iria querer com sua maior rival? Não fazia o menor sentido e a fez desconfiar de cada uma de suas palavras.
— Você quer destruir uma das Horcruxes? Você, o cara que segue você-sabe-quem? Me dê uma boa razão para não desconfiar de cada uma dessas suas palavras vazias. — disse com certo desdém. Ele suspirou e bagunçou um pouco os cabelos que já eram grandes o suficiente para cobrir metade das orelhas.
— Eu não quero mais fazer parte disso, Lily. Sei que é muito difícil acreditar, mas eu não posso continuar seguindo algo assim. Não quero matar toda essa gente, não quero ter sangue de bruxos e trouxas em minhas mãos — lágrimas se formaram em seus olhos e os lábios tremiam a cada palavra. Ela quase acreditou, quase sentiu pena e se entregou a sua ideia de destruir as Horcruxes, mas não foi tão fácil quanto ele achou que seria.
— Não acredito em você — ela disse e se levantando agarrou sua varinha para estar pronta para qualquer tentativa sua de atacá-la. Ele, porém, nem se moveu e parecia agora muito surpreso e quase derrotado. — Não vou a lugar algum com você, pois sei que vai me entregar a ele assim que tiver a chance. Não sou capaz de confiar em alguém tão ruim como você. — ele suspirou e se levantou, o que a fez ir para trás num sobressalto e quase derrubar alguns frascos nas prateleiras.
— Está bem, não peço de forma alguma que confie em mim. Apenas achei que deveria tentar pedir por sua ajuda já que quer derrotá-lo, ou pelo menos achei que quisesse. — disse por fim e calou-se novamente como na primeira noite. O som da chave girando na maçaneta a despertou de seus pensamentos e Filch estava de volta para levá-los.
Cada uma das palavras de Regulus assombraram sua mente durante todo o dia seguinte até a última noite de detenção e tudo só foi mais difícil com a presença do menino ali. Ele a questionou sobre ter contado a alguém, sobre ter contado a Sirius e ela negou as duas perguntas com toda a confiança do mundo. O menino pareceu acreditar, pois não disse mais nenhuma palavra a respeito.
Os meses se seguiram e Lily decidiu que não se meteria mais em encrencas, na verdade não estava nem com cabeça para isso. Ela começou uma busca frenética pelas tais Horcruxes que Regulus tanto lhe dissera, queria ter certeza de que ele tinha mentido e por isso a cada livro que abria, a cada página que lia torcia para encontrar uma só letra diferente de tudo o que tinha lhe sido contado, mas conforme avançava era como se ele mesmo estivesse em sua cabeça dizendo tudo aquilo novamente.
Foi numa terça-feira, perto do natal, quando a biblioteca já estava praticamente deserta que alguém bem específico surgiu para tirá-la daquele oceano de informações. As letras já saltavam diante de seus olhos quando James puxou uma cadeira e a cumprimentou com seu "e aí, Evans?" de sempre.
— O que você quer? Não tenho tempo para seus rodeios, estou muito ocupada.
— Deu pra ver, o que você tanto estuda? Não sai mais dessa biblioteca. Não pegou todas as matérias da grade como fez no terceiro ano, né? — perguntou enquanto esticava o braço para pegar seu livro. Lily tentou impedir, mas ele segurou seu braço e conseguiu puxar o objeto para si, leu atentamente o nome do capítulo — Horcruxes. O que é que quer com essas coisas?
— Já ouviu falar nisso? Está usando um tom de quem já ouviu falar.
— É claro que já — endireitou os óculos sobre o nariz. — Por isso estou tão surpreso que você esteja atrás disso. Aconteceu alguma coisa? — ela suspirou e pegou de volta o exemplar que pertencia a seção reservada e que apenas conseguiu após mentir muito mais do que gostaria para o professor Slughorn.
— Eu não deveria te contar, mas não aguento mais esconder isso das pessoas. — se levantou e começou a guardar os materiais na mochila, exceto pelo livro que levou até a bibliotecária para que fosse guardado em seu devido lugar. — Anda, vem. Não posso te contar aqui.
Lily saiu em passos apressados da biblioteca, James em seu encalço a acompanhando com muita facilidade por ter pernas mais longas que as dela. Os levou até a torre de astronomia e largou a bolsa pesada num canto qualquer, sentando-se diante do céu nublado de dezembro.
Ela contou tudo a James, sem deixar nenhum detalhe escapar. Ele ouviu a tudo muito atentamente, seus olhos castanhos não se desviaram dela em nenhum momento e quando finalizou ele respirou fundo e arregalou os olhos.
— Quanta informação — comentou simplesmente e, dando de ombros, ela assentiu. — O que pretende fazer? Vai atrás dessas coisas? Vai ajudar o Regulus?
— Eu não sei — gemeu baixinho e se encolheu, a testa encostada nos joelhos dobrados. — Não sei o que fazer e é isso que me preocupa, eu deveria ter uma ideia o menos de como seguir com tudo isso. Regulus disse que não sabe quantas delas existem, podem haver duas ou duas mil e eu não posso passar a minha vida tentando derrotá-lo, não aguento mais acordar todos os dias e pensar permanecerei viva ou as pessoas que eu amo.
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Seu apoio é fundamental. Torne-se um herói!Lily apenas percebeu que estava chorando quando James a envolveu em seus braços e afagou seus cabelos ruivos. Foi a primeira vez em muitos anos que ela se permitiu chorar realmente, quase perdeu o ar de tanto soluçar, mas não podia parar até que conseguisse expressar todo seu sofrimento de quase 18 anos de vida. Ela só queria ser uma garota normal, com uma vida normal, mesmo que fosse como uma bruxa, queria que suas únicas preocupações fossem as notas de seus exames. Porém, naquele momento a escola de bruxaria já não ocupava mais um espaço tão importante em sua mente.
James a afastou de seu ombro e passou os dedos por seu rosto para afastar as lágrimas, ele tirou seus cabelos da frente do rosto e entortou um pouco a cabeça para o lado ao ver sua cicatriz ali, um raio perfeito cortando o lado direito de sua testa. Ele então sorriu e tocou o local com muita delicadeza.
— Às vezes me esqueço de que está aí — abriu um meio sorriso. — Gosto dela e sempre achei que você deveria mostrá-la mais. — Lily riu pelo nariz e rolou os olhos.
— Para quê? Para me acharem mais esquisita ainda e olharem mais do que o normal? — perguntou meio irritada, mas ele negou e sorriu um pouco mais. Em câmera lenta o viu se aproximar e sentiu seus lábios tocarem bem ali, seu coração martelava no peito e apostava como poderia quebrar suas costelas com muita facilidade.
— Por que mostra quem você é e o quanto é poderosa — ele voltou a franja para o lugar em que estava, sua mão afagou seu cabelo e então tocou seu rosto com ternura. — Sendo assim, Evans, acho que deve fazer o que Regulus disse e encontrar as Horcruxes para destruí-las. Digo mais, acho que deve lhe dar uma chance de se redimir já que ele sabe onde está uma delas.
Lily o encarou pelo o que pareceram horas, memorizou cada detalhe de seu rosto e então fez algo que achou que jamais teria coragem suficiente para fazer. Se ela partiria naquela viagem para encarar a morte quase certa tinha que ao menos experimentar aquilo, nem que fosse a primeira e última vez.
Suas mãos subiram até os óculos de James e com muita calma os retiraram, o que o fez se assustar e resmungar muito sobre ela colocá-los de volta. Lily ignorou cada uma de suas palavras e, após repousar o objeto no chão de pedra, segurou seu maxilar e o puxou para perto, seus olhos se fechando gradativamente, as respirações quentes se encontrando até que finalmente seus lábios se tocaram.
Após dois longos anos para ela, e quatro para ele, estavam se beijando como sempre deveria ter sido. Agora fazia tanto sentido que Lily se questionou todo o tempo porque não fez antes, porque adiou tanto algo que agora despertava nela as melhores sensações do universo.
A resposta era óbvia e estava bem explícita no motivo pelo qual fez aquilo. Se morresse, ao menos seria com a lembrança de ter beijado o rapaz por quem tinha se apaixonado, o rapaz que foi gentil com ela tantas vezes e que a encorajava a fazer absolutamente tudo, contanto que não fosse fazê-la mal.
— Lily... o que... — ele não conseguia formular uma única frase sequer, suas bochechas estavam muito vermelhas e o cabelo desgrenhado por ela ter enganchado os dedos ali. Ela tocou seu lábio com o dedo indicador para que se calasse e iniciou um novo beijo tão quente quanto o outro, o que pareceu fazer James Potter entender que não era um sonho, uma pegadinha ou um delírio. A garota por quem era perdidamente apaixonado estava bem ali, em seus braços, beijando-o e mesmo que aquela fosse a última vez, pois ela partiria para uma missão muito perigosa e ele não podia evitar pensar no pior, se entregou como se eles fossem viver aquilo pela eternidade.
James e ela voltaram para a Torre da Grifinória sem a menor pressa, paravam em todos os cantos escuros e escondidos que podiam para roubarem mais beijos. Tiveram que parar apenas quando já estavam perto demais do retrato da mulher gorda, mas ao atravessarem-no, um seguido do outro, ficou meio difícil fingir que nada tinha acontecido quando seus uniformes estavam meio amassados e as bochechas rosadas.
Ela procurou por Regulus na semana seguinte, antes de voltar para casa para o natal. Ele pareceu surpreso em vê-la ali, concordando em segui-lo naquela missão suicida, mas genuinamente feliz. Combinaram rapidamente algumas coisas, pois ela estava atrasada para pegar o expresso de volta a Londres.
Aquele seria provavelmente o natal mais estressante de sua vida, pois teria pouquíssimo tempo para aproveitá-lo ao lado de sua tia Margareth já que ela teria que ser tirada de sua casa às pressas por sugestão de Dumbledore. Seria levada a um lugar seguro até que tudo aquilo passasse e não acabasse sendo morta como os pais de Lily foram há 17 anos.
[...]
Lily não retornou para Hogwarts, no entanto, escreveu algumas cartas para seus amigos e em especial para James na qual dizia que não deveria ir atrás dela, mas permanecer na escola para ajudar quem precisasse e pediu para que não contasse a Sirius sobre Regulus, pois ele era bem mais teimoso que Potter e não haveria nada no mundo que o impediria de ir atrás de seu irmão.
— Tem certeza que elas vêm? — Regulus olhava impaciente para o relógio, a mão na cintura e sua inquietude quase fazendo com que Lily o jogasse daquele penhasco.
— Tenho, só devem estar com dificuldade para aparatar — na mesma hora em que disse isso alguma coisa cortou o ar diante deles e Marlene surgiu acompanhada por Mary, ambas com expressões assustadas enquanto checavam se todas as partes de seus corpos tinham chegado em segurança.
— Por Morgana, eu nunca mais quero ter que fazer isso na vida — Marlene ofegou e limpou suas roupas. Quando seus olhos azuis repousaram em Regulus ela recuou e agarrou o pulso de Mary que também estava em choque. Lily não tinha comentado sobre ele, pois teve medo delas negarem o pedido de ajudarem.
— Por favor, confiem em mim quando digo que ele está aqui para ajudar — falei me colocando entre eles, pois Mary já estava com a mão em sua varinha. — Regulus sabe muito sobre as Horcruxes e está disposto a se voltar contra vocês-sabem-quem. Ele quer ajudar.
— Como eu posso confiar em alguém que quase me matou uma vez? — MacDonald finalmente disse e suas palavras tiveram efeito em todos ali, principalmente nele. Black tentou dar um passo à frente, mas Lily apenas levantou a mão e ele parou.
— Eu... eu sinto muito por isso. Sei que não é o suficiente apenas dizer isso, mas me deixe provar que estou verdadeiramente arrependido de um dia ter me juntado a ele e de ter feito coisas tão horríveis — elas não disseram nada, apenas me encararam na esperança de que eu concordasse com elas e o deixássemos ali, mas não era o que aconteceria.
— Se não querem fazer isso por ele, façam por mim e por vocês mesmas. Eu preciso destruir essas coisas para derrotá-lo, é o único jeito. — As outras duas se entreolharam e assentiram, mesmo que fosse evidente sua desconfiança.
Após explicarem que apenas os dois poderiam seguir em frente, ela aparatou levando Regulus consigo. Chegaram a caverna que descobriram ser o lugar em que Voldemort tinha escondido a Horcrux e tiveram de pegar uma pequena embarcação para chegarem até o outro lado de um lago muito escuro, ele conjurou o feitiço para fazer luz e quando estavam diante de uma bacia de pedra com um líquido de cor amarelo-esverdeada em seu interior se encararam com todo o medo que poderiam carregar em seus olhos.
— Prometa que vai dizer ao Sirius o quanto eu o amo e o quanto me arrependo de tudo o que fiz — os grandes olhos azuis de Regulus brilharam mesmo com a pouca luminosidade, eram os olhos de um menino de quinze anos que estava prestes a fazer provavelmente a coisa mais arriscada de sua vida, mas talvez a mais nobre.
— Não vou precisar porque você mesmo vai dizer — ela disse e conjurou uma concha para que pudesse beber o líquido.
— Não pode beber isso, sou eu quem devo fazer. Você pode morrer. — ele tentou tirar o objeto de sua mão, mas não obteve sucesso algum. Lily sorriu e tocou seu ombro.
— Eu não vou morrer, além disso se coisas ruins me acontecerem por causa disso aqui preciso de um bruxo tão bom quanto você para me salvar.
Tirou a primeira taça e a princípio não sentiu nada, mas ao chegar à terceira ou quarta taça uma dor insuportável tomou conta de si a impossibilitando de mover-se e até mesmo falar, por isso Regulus teve que mediar a situação e levar a poção até seus lábios. Chegou um momento em que não queria mais beber, estava alucinando, via coisas terríveis, as pessoas que mais amava morrendo diante de seus olhos, a noite da morte dos pais surgiu na mente, os gritos de sua mãe.
— Só mais um, Lily. Eu prometo. — ele disse e praticamente empurrou o restante do líquido contra sua garganta. Todas as memórias ruins se foram e deixaram espaço para uma sede intensa e insaciável.
— Reg... água... — suplicou e o menino apressou-se até a bacia, após pegar o medalhão conjurou água ali dentro, mas a magia contida no objeto o impediu de pegar uma gota sequer. Ele olhou em volta e para sua infelicidade tudo o que restava era o lago escuro e amedrontador, mas foi mesmo assim, pois a necessidade de Lily naquele momento era maior do que qualquer um de seus medos.
Assim que sua mão tocou a água algo se moveu ali e o fez saltar para trás com o susto, pegou sua varinha e novamente iluminou a caverna. A partir daquele momento pode ver, saindo da água, as criaturas mais assustadoras que já viu em toda sua vida, elas vinham em sua direção e se agarravam em seu pescoço até que conseguiram puxá-lo para a água na tentativa de afogá-lo e estavam quase lá quando um lampejo alaranjado surgiu e os afastou aos montes. Regulus conseguiu voltar a superfície e conseguiu ver Lily afastando-os ao conjurar fogo, mesmo que não fosse o mais poderoso de todos já era alguma coisa.
Eles saíram de lá o mais rápido que puderam, reencontraram as meninas bem onde as tinham deixado e seguiram viagem às pressas. Agora tudo o que precisavam era encontrar uma maneira de destruir o objeto e essa seria a pior parte.
Levantaram acampamento na primeira floresta que encontraram, ao norte de Grã-Bretanha, e até que conseguissem tirar a parte da alma de Voldemort contida naquele pequeno objeto tiveram os piores dias de suas vidas. Começou com Regulus tornando-se muito agressivo e falando coisas sem sentido, foi então que Marlene percebeu tratar-se de um efeito do uso do medalhão e eles passaram a revezar entre si, cada um vivenciando seus piores medos e angústias.
Numa manhã do final de fevereiro Lily recebeu uma coruja e preocupou-se, pois era algo muito arriscado. Ainda assim ela abriu e leu tudo muito atentamente e com um sorriso no rosto ao reconhecer a letra e as palavras de James.
"Querida Lily,
Sirius, Remus e eu fugimos de Hogwarts, nos juntamos a um grupo contrário a você-sabe-quem. Infelizmente não posso dizer onde estou, mas espero poder vê-la em breve, pois estou com saudades.
Sei que é muito arriscado mandarmos corujas assim, mas eu precisava lhe dizer que outras duas Horcruxes já foram destruídas e mando uma delas para cuide bem, sei que é muito capaz disso.
Seu, James."
— Merlin, como esse homem é meloso — Regulus comentou com uma careta que a fez rir. Ela colocou a mão no envelope e tirou de dentro um cordão com uma pedra mais ou menos do tamanho de uma tampinha de garrafa bem presa. O passou por sua cabeça e enfiou por dentro da blusa, sentindo o material frio em contato com a pele arrepiá-la.
Depois daquela carta, passaram-se mais um mês ou dois e eles tiveram que mudar o local do acampamento por medo de serem descobertos. Ouviram um barulho na floresta e já estavam prontos para um ataque dos seguidores de Voldemort. No entanto, Sirius entregou o plano dos marotos de assusta-los e apenas recebeu gargalhadas em resposta.
— Você é muito burro — Remus lhe deu um tapinha na nuca, mas isso não o abalou em nada, pois continuava a sorrir.
— Sirius! — Mary exclamou e correu para seus braços, ele a apertou muito forte contra si mesmo e quando seus olhos se levantaram foi apenas para encontrar os do caçula.
— Eu te disse que sobreviveria para dizer a ele o quanto o ama — Lily sussurrou para Regulus e ele sorriu, formando um "obrigado" com os lábios e lhe dando um abraço. Ela se sentiu muito confortável ali, ele tinha se tornado um amigo e tanto.
James foi o último a entrar na cabana, mas quando seus olhos de avelã encontraram os verdes dela foi como se o mundo tivesse parado de girar, nada mais existia a não ser os dois. Ela sentiu sua garganta fechar e correu em sua direção para então se encaixar em seus braços e sentir seu cheiro, o qual se lembrava perfeitamente de ter sentido na aula de poções do sexto ano.
Depois de conseguirem conversar e alinhar algumas informações a respeito da Ordem da Fênix, a organização da qual eles estavam fazendo parte juntamente com Dumbledore — o que surpreendeu muito Lily, pois ela não achava que ele fazia o tipo revolucionário, partiram para a tarefa de destruir o medalhão.
Remus tomou a espada de Gryffindor em suas mãos e a cravou contra o objeto, despertando de Lily outra pontada muito forte na cabeça que ela se lembra de ter sentido há alguns anos quando enfiou o dente do basilisco no diário de Riddle e há algumas noites, a levando a concluir que a cada vez que uma delas era destruída isso a afetava.
Por breves instantes tudo se passou em câmera lenta diante de si, as informações se processando dentro de sua mente numa velocidade meio difícil de acompanhar até que algo novo se formou ali, algo que já deveria ter percebido há muito tempo, que era essencial para que conseguisse terminar tudo aquilo.
— Lily? Tá tudo bem? — Mary perguntou a encarando com os olhos pretos muito preocupados, os outros a encararam da mesma maneira, mas por segundos não teve reação nenhuma e achou até que tinha parado de respirar.
— Eu... eu... — ela olhou para Regulus que parecia estar entendendo mais do que os outros onde tentava chegar e assentiu com pesar. Ela não se permitiu chorar, no entanto, era uma realidade difícil, mas tinha que ser forte e cumprir seu destino. — Eu entendi porque consigo ouvi-lo, porque ele entra na minha cabeça e por que as Horcruxes me afetam tanto... Eu... eu sou...
— Não. — Marlene disse levando as mãos a boca em puro desespero, Mary começou a chorar, Sirius fechou os olhos como se tivesse sido derrotado, Remus abaixou a cabeça e passou as mãos pelos cabelos, mas James continuava a encará-la e com o mesmo olhar que deu a ela naquele dia na torre de astronomia. Ele ergueu sua mão até a cicatriz e tocou ali, a fazendo sorrir fraco.
— Lembre-se do que eu disse.
E ela se lembrou, se lembrou durante todo o caminho de volta a Hogwarts para se entregar ao lorde das trevas.
Eles viajaram por ao menos mais um mês inteiro, pois além da dificuldade em se manterem escondidos e por terem que parar para descobrirem sobre as Horcruxes que ainda faltavam.
Infelizmente eles foram capturados por um grupo de comensais e levados para a mansão Black. Lily lançou um feitiço em si mesma para que tivesse seu rosto deformado, mas não adiantou muito, pois quando chegaram lá Wallburga o desfez facilmente.
— Regulus, não imagina minha gratidão por ter retornado e trazido eles com você. Finalmente poderemos entregá-los ao milorde. — Orion disse e foi em sua direção para abraçá-lo, mas o menino se afastou e ficou o mais próximo de Sirius que poderia, o irmão mais velho se mantendo a frente como se fosse um escudo para o mais novo. — Não me diga que agora você está do lado desse moleque? Dessas sangues-ruins?
Lily achou por breves momentos que Regulus não diria nada, que apenas abaixaria a cabeça mais uma vez para a autoridade do Sr. Black. No entanto ele acabou surpreendendo não apenas ela, mas também Sirius que parecia orgulhoso.
— Eu vejo a verdade agora, percebo que o que fiz foi errado. Sirius sempre esteve certo a respeito de vocês e eu não quero nunca mais me deixar ser manipulado por pessoas tão horríveis. — Orion ergueu sua varinha para lançar um encantamento contra o próprio filho, mas no mesmo momento Sirius levantou a sua própria e o desarmou.
— Você se acha muito esperto não é seu traidorzinho? — disse abrindo um sorriso maldoso, quase psicopata para o filho, se é que pode-se dizer que Sirius era filho dele. — Vamos ver se é esperto o suficiente pra ajudar a sua namoradinha.
Dois comensais seguraram Regulus e ele, forçaram-no a manter a cabeça erguida para assistir. Lily queria sumir com aquela imagem de sua cabeça, desejava gritar ordenando que parassem e eles simplesmente obedecessem.
— O que será que eu deveria fazer com essa fedelinha de sangue-ruim? — Bellatrix Black cantarolava como se aquela fosse a coisa que mais lhe causava divertimento em toda sua vida. Ela subiu sobre Mary e a encarou bem antes de usar a varinha para começar a queimar a perna da menina que gritava e se debatia contra o assoalho.
— Deixe-a em paz! — Sirius gritou e se debateu contra os braços do homem que o segurava. Seus olhos cinzentos eram puro desespero e lágrimas.
Quando a mulher terminou seu serviço Lily podia ver as inscrições de "sangue-ruim" no antebraço de sua amiga e isso fez seu estômago embrulhar-se.
— Quem quer ser o próximo? Que tal o licantropezinho? — Bellatrix disse com seu riso maníaco ao se aproximar de Remus. Lily se debateu contra os braços do comensal que a segurava.
— Deixe-os! Se deixá-los eu me entrego a Voldemort. — Lily reparou que até mesmo seus seguidores tinham certo medo do nome de seu mestre, pois se contorceram quando ela o disse com tanta naturalidade e veemência.
Eles se encararam por algum tempo, ponderando sua proposta. Lily só conseguia pensar no quão burros poderiam ser por terem caído tão facilmente na conversa dela.
Marlene conseguiu alcançar sua varinha e lançou um feitiço contra o homem que prendia Lily, a loira ainda conseguiu se soltar e acertar uma cotovelada no outro comensal.
Um duelo iniciou-se na mui antiga e nobre mansão dos Black. Lily chegou até Mary e a ajudou a ficar de pé ao mesmo tempo que te tava acertar Wallburga com um feitiço.
— Segure firme — disse para a amiga e antes que a Sra. Black pudesse revidar Lily já tinha aparatado levando a morena consigo.
Segundos depois Regulus apareceu carregando James e Remus e por último Sirius que trazia Marlene bem presa a si e quase imóvel.
— Marlene? — Lily chamou e a loira se endireitou com uma expressão de dor insuportável. Segurava a própria barriga onde se formava uma poça de sangue na camiseta, no mesmo local em que estava cravada uma adaga de metal escuro. — Marlene!
Sirius deitou a menina no chão e imediatamente Evans se colocou diante dela com as mãos trêmulas e os olhos formando lágrimas. Ela não poderia perder alguém que amava, essa maldita guerra não tiraria dela sua melhor amiga.
— Eu vou acabar com aquela vadia da Bellatrix, me dê só a oportunidade e eu acabo com ela. — gemeu de dor mais uma vez, mas sem perder a pose e o sorriso nós lábios. Aquela era Marlene.
— Vamos levá-la a Pandora e Xenophilius, acho que eles podem nos ajudar — James sugeriu e, embora não soubesse quem eram eles, aceitou apenas pela possibilidade de ajudar Marlene.
Eles tiveram de caminhar por mais duas horas, Sirius e Remus revezando carregar McKinnon em suas costas. Quando ela achou que tudo estava perdido e nunca chegariam ao seu destino, a casa de Lovegood surgiu diante de seus olhos.
Eles foram recebidos por uma jovem mulher de longos cabelos loiros cacheados, ela tinha olhos tão azuis que praticamente brilhavam. Com pequenos sorrisos a cumprimentaram e James explicou tudo o que estava acontecendo.
— Entrem, vamos tomar conta dela. Fizeram bem em vir até aqui — ela comentou já preparando o sofá para que acomodassem a fraca Marlene ali.
Xenophilius trocava palavras muito discretas com Sirius e Remus que ela não conseguia ouvir por mais que se esforçasse. James não fazia parte da discussão, pois estava ocupado demais concentrado em sua melhor amiga de infancia e tremendo pelo pior.
Ela acabou piorando conforme os dias avançavam, teve febre na maior parte das noites que a levavam a delirar e quando finalmente conseguia pegar no sono a dor voltava mais intensa que a anterior seguida por vômitos.
— Não tenho mais esperanças de que ela melhore — Lily confessou com ar cansado para Regulus ao se sentar ao seu lado na escada que levava ao andar superior da casa.
— Mesmo a conhecendo há pouco tempo posso ver que está errada, Lily. Olhe só para ela — ela desviou seus olhos verdes para Marlene deitada no sofá dos Lovegood, as mãos finas e pálidas segurando mais uma xícara da poção que Pandora e Regulus prepararam para ela. Estava rindo de alguma coisa que Remus lhe contava e, embora sua risada fosse fraca, ainda era possível ver algum brilho ali. — A poção está fazendo efeito, posso ver. Claro que está sendo mais devagar por conta da quantidade de magia negra contida naquela adaga, mas ela ficará bem.
James se aproximou deles e abaixou-se para ficar na mesma altura, parecia pronto para contar algo muito importante.
— Descobri mais uma Horcrux, Dumbledore e Moody me contaram sobre ela numa carta. Estava cheia de códigos, então acabei demorando um pouco para decifrar do que se tratava. — Era possível ver a esperança em cada uma de suas palavras. Lily tocou sua mão, incentivando-o a continuar.
"É a taça de Helga Hufflepuff, passou por muitos bruxos e agora está com Bellatrix, mais específicamente guardada em seu cofre no Gringotts. Ainda não sei muito bem como entraremos lá para pegar, mas teremos todo o tempo em que estamos aqui para pensar."
— Aposto como aquele cofre está protegido por todo tipo de magia negra possível. — Lily comentou com um arrepio na espinha, a imagem da mais velha das irmãs Black torturando Mary vindo à tona novamente.
— Talvez não tenhamos problema se a própria Bella for até lá e pegar a taça — James e Lily soltaram uma pequena risada engasgada para o mais novo, mas ele não pareceu se abalar. Na verdade os olhava como se fossem estúpidos demais para compreender sua mente avançadíssima.
— E quem vai pedir para ela fazer isso? Você Reg? — James zombou.
— Me admira que uma garota brilhante como a Lily goste tanto de alguém com a mente tão pequena — retrucou Regulus, fazendo Lily rir, mas James apenas lançou-lhe uma careta. — Prepararemos uma poção polissuco, bobinho. Algum de nós será a Bella por algumas horinhas e pegaremos a taça no banco.
Eles discutiram melhor o plano, James quis saber como afinal preparariam a poção de para isso teriam que ter uma parte da pessoa em quem gostariam de se transformar. Regulus os surpreendeu quando caminhou até o casaco de Mary Macdonald, pendurado no cabide próximo a porta de entrada, e tirou dele um pequeno, mas muito útil fio de cabelo muito preto.
— Como pode saber que esse cabelo não é da Mary? — James questionou cruzando seus braços e sorrindo sarcástico. O menino, para provar seu ponto, foi até a própria Mary e puxou um de seus fios da cabeça o que a fez gemer um pouquinho de dor e encará-lo com uma cara feia.
— Desculpe, Mary. Quero provar um ponto aqui — ele sorriu um pouco sem graça e isso fez sua expressão se suavizar. Lily gostava de vê-los se darem bem e percebeu não ser a única, pois Sirius olhava tudo aquilo com um brilho no olhar.
De volta a discussão sobre os cabelos, Regulus aproximou bem os dois fios dos olhos de James para que ele mesmo visse que havia uma diferença nas cores e na forma dos cachos.
— Como a poção demora para ficar pronta, teremos tempo para esperar Marlene se recuperar — concluiu Lily. — Mas talvez seja melhor deixarmos os Lovegood e seguirmos em frente, montar um acampamento. Eles podem vir atrás de nós e atacá-los — Complementou com preocupação, os dois assentiram.
Passaram todos os detalhes do plano para os demais, inclusive Marlene que não suportaria ficar sem saber do que estava acontecendo e insistiu para fazer parte da conversa.
— Partiremos amanhã bem cedo, antes mesmo do sol nascer. Lene não está em condições de aparatar, então faremos à moda antiga — instruiu a ruiva, os demais muito atentos nela. — Encontraremos um bom lugar para acampar durante sua recuperação e enquanto esperamos a poção ficar pronta. — assentiram todos com aquela velha esperança em seus olhos que quase fez Lily chorar. Estavam cada vez mais perto, concluiriam mais aquela etapa e logo ela seria capaz de derrotar Voldemort.
A última noite sob a hospitalidade dos Lovegood foi muito agradável, Sirius arranjou um violão com Xenophilius e tocou música para eles durante e depois do jantar. Mesmo Marlene pareceu se animar um pouco e conseguiu até se levantar para dançar com James, passos lentos, mas já era alguma coisa.
— Esse rapaz é muito especial — Pandora comentou parada ao lado de Lily. Ela demorou para compreender que estava falando de Potter. — Posso compreender porque o ama tanto, ele desperta nas pessoas uma sensação boa. Torço para que nunca o perca da sua vida, Lily. — Ela sorriu lindamente, os olhos azuis brilharam ainda mais, se é que era possível. Lily não sabia bem o que dizer, mas se tinha uma certeza nessa vida era a de que se esforçaria para não perdê-lo.
[...]
Estavam acampados há pelo menos duas semanas e Marlene já demonstrava sinais evidentes de melhora, mas seguia tomando a poção e tomando os cuidados necessários para não abrir o ferimento.
A poção Polissuco estava no processo de preparo, mas ainda um pouco distante de estar pronta, o que lhes deu tempo para planejar o retorno a Hogwarts.
— Não tocamos mais nesse assunto, mas sei que ainda está pensando a respeito — Marlene começou a dizer sentando-se ao seu lado em um tronco caído na floresta. — O que vai fazer em relação ao fato de que você é uma, sabe, uma Horcrux? — a ruiva suspirou e fechou os olhos na esperança de que isso fosse só um pesadelo, mas não dava para fugir da realidade imposta.
— Você sabe qual é a única solução e aí é que está. Como poderei derrotá-lo se estarei...? — não finalizou sua fala, pois as palavras doíam demais, pensar naquilo doía muito mais do que gostaria. Marlene segurou sua mão e lhe lançou um sorriso muito sincero.
— Nós vamos pensar numa resposta, é uma promessa. Não vou perder você, Lily, não posso perder — ela não resistiu ao impulso de abraçar Marlene, foi tão inesperado que acabou assustando-a, mas logo a melhor amiga retribuiu o gesto e ficaram em silêncio durante um minuto ou dois.
[...]
A poção estava pronta quando a primavera começou e com Marlene cem por cento recuperada estavam prontos para aparatar e dividirem-se.
Lily seria Bellatrix e Regulus a acompanharia, alegando que tinha se arrependido de ter abandonado a família, mas tinha voltado para o lado dos Black. Os demais voltariam para Hogwarts, estava decidido, tinham que voltar o mais depressa possível para encontrarem mais uma Horcrux e destruí-la.
— Ainda há restos do basilisco na câmara secreta, entrem lá e peguem as presas. Serão muito úteis para a taça e o diadema de Ravenclaw. — Lily explicou a Mary e Sirius que seriam responsáveis por descerem até lá.
[...]
Já em Londres e sob a forma de Bellatrix eles apressaram-se até o beco diagonal e o banco. Os duendes não pareceram muito desconfiados de nada e nem questionaram Regulus.
A porta do cofre se abriu e Lily caminhou com certo receio de haver alguma magia lá dentro forte o suficiente para descobri-la por baixo do efeito da Polissuco.
Pensando nisso, apanhou a taça assim que a avistou e refez seu caminho de volta para o carrinho que os levaria de volta ao nível da cidade.
Assim que voltou a sua forma normal trocou de roupa apressadamente, pois a simples ideia de usar as vestes conjuradas daquela mulher asquerosa a fazia querer vomitar.
— Pronta para acabar com isso? — Regulus perguntou em um tom que significou muitas coisas para ela. Era chegada a hora de encarar a morte certa, não tinha escapatória e ela já nem conseguia mais pensar numa solução ou em qual era o sentido de morrer antes de conseguir matar o próprio Voldemort. Mesmo assim segurou firme a mão do garoto e eles desapareceram no ar, reaparecendo em Hogsmeade que já nem se parecia com aquilo que ela costumava se lembrar.
Um barulho insuportável do que pareciam sirenes os seguiu durante todo o trajeto e podiam ouvir as vozes dos comensais chamando por ela, dizendo que estava ali, que deveria aparecer ou a matariam. Por muito pouco conseguiram entrar na Dedos de Mel e seguir a passagem que James tinha lhe mostrado no Mapa do Maroto.
Eles saíram atrás da corcunda da estátua de uma bruxa e correram por entre as escadarias em ruínas, o som da guerra cada vez mais alto em seus ouvidos.
— Lily! — James exclamou ao vê-la, a abraçou forte e pareceu murmurar algum tipo de agradecimento a Merlin por ainda estar viva. — Ele já sabe que está aqui. Está a sua espera na floresta, mas você não vai né? Vai esperar por ele aqui.
Ela queria dizer que esperaria, não queria preocupá-lo, mas tinha que fazer aquilo, era a única maneira. Foi por isso que balançou a cabeça em negação e obteve de James a reação que não gostaria, as lágrimas se formaram em câmera lenta nos seus olhos de avelã.
— Não, Lily não. — ela tocou suas maçãs do rosto e colou suas testas, então com um sorriso disse:
— Tenho que fazer isso, querido, é a única maneira. Está tudo bem, você mesmo disse que o que mais gostava em mim era minha coragem e nesse momento estou reunindo toda ela para ir até lá.
— Eu não quero te perder — disse entre lágrimas e soluços.
— Sempre estarei com você, não importa como. Te amarei pela eternidade, James Potter e é por te amar tanto que preciso fazer desse mundo um lugar melhor para você.
— Não existe mundo melhor se você não estiver nele, Lírio — ela sorriu com o apelido.
— Não diga isso ou irei desistir e não é isso que devo fazer, peço que entenda — e dizendo isso selou seus lábios rapidamente antes de sair correndo pelas ruínas sem olhar para trás um único segundo.
Seguiu caminho até a floresta, onde sabia que ele já a aguardava. Ela avistou o pequeno grupo entre as árvores, podia diferenciar alguns com muita clareza, mas Voldemort era o centro de tudo e parecia muito cheio de si, com a certeza de que teria a vitória naquela noite.
— Eu vim, como me pediu. — disse com a voz firme. Ele se virou muito lentamente e seus olhos vermelhos penetraram nos dela, Nagini sibilou e uma pontada em sua cicatriz a fez recuar um pouco.
Ela olhou para além de seu oponente e avistou Hagrid acorrentado pelos comensais da morte, o mesmo Hagrid que foi tão gentil com ela desde seu primeiro dia em Hogwarts, isso fez seu estômago se revirar.
Ao voltar seus olhos para Voldemort ele sorria horripilante e sem muito rodeios ergueu a varinha das varinhas em sua direção, não fez nem menção de tentar se defender e o raio verde a atingiu em cheio. Tudo desapareceu no mesmo instante, todos os barulhos cada vez mais distantes.
Ela se lembra de ter acordado em um lugar muito bonito, iluminado e silencioso, se encontrou com sua mãe com quem teve uma longa conversa até que concluiu que deveria voltar, tinha que voltar, mesmo que tivesse a escolha de permanecer ali ao seu lado como sempre sonhou em estar.
No entanto, voltou a realidade, manteve os olhos bem fechados, mas podia ouvir toda a movimentação ao seu redor e sentiu quando dedos finos de uma mulher a tocaram no pescoço em busca de seu pulso. Ela ouviu a voz de Narcissa Malfoy sussurrar, parecia num dilema consigo mesma e então ela se levantou e disse a todos que Lily estava morta.
O caminho de volta a Hogwarts foi demorado, Voldemort queria fazer uma cerimônia e até mesmo obrigou Hagrid a carregar seu corpo "morto" nos braços. Ao pararem na entrada podia ouvir o burburinho das pessoas.
— Onde está a Lily? — a voz de Marlene ressoou, estava desesperada.
— Lily Evans está morta — anunciou Voldemort com o orgulho em cada uma de suas palavras. Suspiros de espanto tomaram o pátio e Marlene gritou, Hagrid chorava.
— Lily — o grito desesperado de James entrou por seus ouvidos e a fez querer saltar dos braços do gigante para correr até ele e abraçá-lo, dizer que estava bem, mas ainda não era a hora.
— Agora mais do que nunca vocês devem seguir a mim, pois a sua heroína. A "menina que sobreviveu" foi derrotada. Juntem-se a mim, venha Severus — chamou pelo garoto que infernizou a vida de Lily durante todos seus anos em Hogwarts. Ele caminhou em passos lentos e, logo atrás, mesmo sem ser chamado, adiantou-se Peter Pettigrew que causou a pior reação possível nos marotos.
— Seu rato imundo — Sirius alcançou a varinha e lançou algumas fagulhas contra aquele que juraram solenemente que era seu amigo, mas não passava de um traidor. Remus o conteve antes que pudesse causar alguma besteira enorme.
— Esses meninos da família Black são o pior que o mundo bruxo pode ter — Voldemort balbuciou. — Você da tudo a eles e te apunhalam pelas costas, não é Regulus? — o menino não abaixou seu olhar um único minuto, pois não tinha arrependimentos, sabia que estava do lado certo. Sirius segurou sua mão e ele só se sentiu mais protegido ainda, Wallburga tinha a fúria em seus olhos cinzentos como os do filho mais velho.
— Jamais nos juntaremos a você — disse Alice muito alto, com a coragem da qual ela se lembrava bem e sentia muita admiração. — Lily não morreu em vão esta noite, assim como nenhum outro nessa batalha ou em qualquer outra na tentativa de tirá-lo do poder. O coração de Lily ainda bate por nós e não pararemos um só segundo até que ela esteja entre nós novamente.
Abriu seus olhos minimamente, o suficiente para ver a amiga puxar a espada de Gryffindor de dentro do chapéu seletor para matar Nagini. Ela se soltou dos braços de Hagrid e correu, lançando um feitiço contra seu oponente e surpreendendo a todos, a maioria dos comensais da morte já fugia enquanto Bellatrix Black ordenava que permanecessem ali.
— Levem-no para dentro do castelo e matamos a cobra lá dentro — ela se virou uma última vez para puxar James pela mão às pressas.
Duelou com Lord Voldemort pelos corredores do castelo enquanto Remus e Alice lidavam com Nagini. Ela precisava levá-lo lá para fora, pois seria menos arriscado de causarem algum dano ao castelo que pudesse fazê-lo desmoronar.
Lily conseguiu ver de relance os irmãos Black duelando contra Bellatrix que apenas ria como a maluca que era. Sirius foi o responsável pelo feitiço final, que levou a prima a morte e não pareceu haver arrependimentos ali.
Quando conseguiu atravessar as portas de entrada e estavam no centro do pátio ela soube que Nagini tinha sido morta pela espada que Alice empunhava, pois Voldemort se contorceu diante de seus olhos e pareceu o momento propício para terminar com aquilo.
— Eu vou matá-la, sua sangue-ruim — disse muito fraco, mas ainda tentando manter-se orgulhoso. Lily endireitou a postura e então sorriu, seria histórico o que faria ali, ela uma nascida-trouxa derrotando o bruxo mais poderoso de todos os tempos.
— Temos o mesmo sangue, Tom. Não se esqueça disso — dito isso, a fúria do lorde das trevas só pareceu aumentar e com a força que lhe restava lançou o feitiço da morte. Ao mesmo tempo Lily girou sua própria varinha e lançou o feitiço que foi de encontro à luz verde e criou um som quase ensurdecedor.
Ela se manteve firme todo o tempo, ao contrário de seu oponente que parecia cada mais e mais fraco até que finalmente pareceu chegar ao seu trágico fim. O jato vermelho de Lily se sobrepôs ao verde dele e o acertou em cheio com o próprio feitiço de modo que sua varinha voasse para longe de suas mãos e a ruiva pudesse agarrá-la enquanto assistia ao corpo de Lorde Voldemort cair em câmera lenta contra o chão de pedra.
Lily suspirou, completamente imóvel e sem palavras que pudessem descrever cada uma de suas sensações naquele momento. Ela foi bombardeada por abraços de seus amigos, James foi o primeiro, claro, mas não se importou muito se acabariam machucando-a, pois tudo o que importava agora era que estava livre, que todos eles estavam livres e que ela tinha cumprido seu destino como tinha de ser.
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