The Girl Of Souls

3 Quem tinha razão, loiro irritante?


Enquanto os olhava, três coisas me vieram á mente: A primeira é que é bastante irritante quando um Winchester te encara inexpressivo; A segunda é que pude perceber pelo olhar desconfiado de Dean que ele não ia com a minha cara – o que era um sentimento reciproco -; e por último foi que com um enorme esforço que não meti um soco na cara daquele loiro irritante assim que senti a água benta que ele havia-me jogado á cara.

Ergui a manga da camisola negra e limpei a face molhada com uma vontade enorme de pular em cima do loiro á minha frente e o enforcar.

- Não, eu não sou um demónio. E antes que tentem algo a mais contra mim, também não sou um anjinho, nem nada que se pareça entenderam? E da próxima vez que me jogares algo á cara acredita que ficarás sem mãos!
Desviei o meu olhar para Bobby que me encarava com uma expressão divertida ao imaginar o meu esforço para não esganar o Winchester, mas eu sabia que ele lá no fundo estava apenas a tentar não pensar no melhor amigo.

A verdade é que, eu também havia conhecido John, era-mos bastante amigos, conhecemo-nos um ano ou dois depois da morte de Mary que infelizmente nunca tive a hipótese de conhecer. Ajudei-o a procurar informação sobre o que realmente matou a esposa, que na realidade fora um demónio de olhos amarelos, Azazel.

John, acabou por se tornar caçador e com a descoberta do sobrenatural acabei por lhe confessar o que sou. A reacção de John realmente não foi o que eu esperava, quer dizer, agiu de uma forma totalmente diferente da de Bobby, chamar-me de monstro e tentar matar-me foi o que me fez entender que a obsessão de John para por um fim ao sobrenatural não o deixava ver nada para além disso, então saí porta fora e não lhe apareci á frente.

Uns anos após o ocorrido ele entrou em contacto comigo, e mostrou-se bastante arrependido – pelo menos era o que eu achava – mas na verdade era apenas uma cilada para tentar matar-me novamente, e quando consegui escapar de todas as armadilhas que ele havia feito disse-lhe adeus, e nunca mais o vi desde então. Bastante tempo depois, chegou aos meus ouvidos a noticia que ele havia falecido, e não consegui deixar de me sentir triste com a perda daquele homem apesar de tudo o que ele havia me feito.

O barulho áspero de uma cadeira a arrastar-se na madeira velha fez-me desviar o olhar para o loiro, com o rosto vermelho de raiva que acabava de pegar numa faca de prata. “Será que ele não tinha ouvido nada do que eu disse?” – Pensei enquanto revirava os olhos e tirava o maço de tabaco do bolso das calças pretas.

- Dean! – Bobby vociferou quando viu que o Winchester ia atacar – Mónicka está a falar a verdade.

- Bobby ela é maluca! Ainda mais que nós! Ela está a gozar com o nome dos nossos pais não entendes !? Além disso como se ela fosse capaz de levar uma alma do Inferno para o Elísio isso deve ficar na Grécia! – Ele gritava a plenos pulmões, e sinceramente começava a imaginar quanto tempo demoraria para as orelhas soltarem fumo.

- Dean, acalma-te! – O grandão mandou, apesar de eu ter notado que a verdadeira vontade dele era de pegar a faca da mão do irmão e crava-la na minha testa.

Com uma expressão entediada, repousei os pés em cima da mesa encarando as minhas All Star surradas, enquanto levava o cigarro aos lábios e o acendia.

Me virei para onde duas figuras claras apareciam perto da porta, eles olharam para mim, e soltaram um suspiro decepcionado, eu apenas dei de ombros indicando que aquela situação não me incomodava em nada.

Mary olhava para os filhos com lágrimas nos olhos, feliz por velos de perto, mas John, olhava para Dean com uma enorme decepção e eu sabia porquê, o seu filho estava se tornando naquilo que ele um dia já fora. Um homem que guarda um enorme rancor e que apenas pensa em maneiras de acabar com o sobrenatural como o John havia sido, e só percebeu isso quando já estava morto e tenho a certeza absoluta que ele não desejava isso para ninguém, principalmente um de seus filhos.

- Olha aqui garota tudo bem que tu és amiga do Bobby mas isso não te dá o direito de vires gozar com a nossa cara e mencionar o nome dos nossos pais. – Dean praticamente rosnou.

- O que o Dean está a querer dizer é que esse é um assunto delicado para ser mencionado apenas para uma brincadeira de mau gosto… — Sam corrigiu o irmão tentando manter a calma e acabar com o clima tenso que pairava entre aquelas quatro paredes.

- Eles estão aqui e estão decepcionados. – Disse com a voz mais rouca e sofrida do que o normal (o que era um facto comum sempre que eu estava na presença de algum espirito.

Involuntariamente, os olhos dos três percorreram todos os cantos da cozinha e no final após não ter achado nada o loiro sorriu irónico e os seus olhos brilharam entre a zombaria e o ódio.

- Amor, desculpa mas tu tens de ir ao psicólogo, eu sei que custa a compreender que estamos a ficar loucos mas tu tens que acreditar que ficarás bem…

Os meus lábios repuxaram-se num sorriso de lado assim que vi as figuras de Mary e John aparecerem atrás dele.

- Eles estão… — Interrompeu-me e eu tive de contar até dez para não lhe arrancar a língua.

- Sim, sim eles estão aqui eu já sei. – Fingiu uma expressão angelical mas o tom irónico continuava presente no seu tom de voz – Olá mãe, oi pai como estão?

- Olá Dean! – Disseram juntos e eu soltei uma risada assim que o vi congelar no lugar.

O seu rosto ganhou a mesma expressão chocada de Sam e Bobby (que eu sabia que lá no fundo não acreditava em nada do que eu tinha dito momentos atrás) e de alguma maneira eles não conseguiam desviar o olhar.

Mary e John tinham os olhos a brilhar de felicidade enquanto eu apenas mantive a face séria, mas por mais que tenta-se não conseguia deixar de me sentir emocionada com este reencontro de família e amigos.

- Não me lembrava dos vossos filhos serem assim tão difíceis de lidar quando ainda tinham menos de 1,50m de altura – Eu comentei com a voz um pouco brincalhona enquanto Mary ainda tinha lágrimas a escorrer pela face pálida e John ria recordando dos velhos tempos em que eu o ajudava a cuidar dos filhos.

- Tens razão, o Sammy e o pequeno rockeiro como tu apelidas-te costumavam agarrarem-se ás tuas pernas e nunca mais largar…

- Mas agora parece que a única coisa que querem fazer é tentar matar-me. – Dei de ombros enquanto a minha voz morria aos poucos e o seu semblante voltava de novo a sério.

- C-como… Como isto é possível!? – Sam gaguejou.

- Penso que a Mónicka já explicou, estaremos sempre aqui se ela assim desejar.

- Só lhe temos que agradecer por nos dar permissão para sairmos do Elísio e… — Mary chegou um pouco mais perto dos filhos e levantou a mão devagar enquanto olhava para mim pedindo permissão que eu apenas concebi levantando o polegar, e a sua mão ficou mais nítida enquanto ela fazia carinho na face dos filhos. – Que saudades! – Ela falou abraçando-os.

John repetiu o gesto abraçando Bobby e logo a seguir Sam e Dean.

- Precisamos conversar! – Eu disse séria, e John e Mary assentiram.