Ainda me custava a acreditar que depois de tanto tempo longe eu estaria de volta á casa onde deixei o meu 'confidente' como antigamente costumava chamar Bobby, suspirava pesadamente, apesar da maioria das vezes ele ser compreensivo eu sei que o magoei com a minha ida de anos. Nós eramos tão diferentes para conviver-mos como melhores amigos, a nossa amizade estava, literalmente, de pernas para o ar. 23 Anos de amizade é bastante, mas pode acabar depressa. E eu percebi isso quando tivemos uma das nossas discussões sobre o que eu sou. E esse é um dos maiores erros dos humanos, tiram conclusões precipitadas apenas por algo ser desconhecido, ou fugir á naturalidade a que eles estão acostumados a lidar. Apenas vêm e ouvem o que querem, e o que não querem apenas ignoram ou agem da pior maneira. Eu ficava sempre no meu canto calada, fumando o meu cigarro e falando uma vez ou outra. Bobby já havia acostumado-se com o meu jeito calado só falando quando necessário ou apenas acenando, na verdade, eu acho que ele não se importava muito apenas, a presença dos amigos vivos ou conhecidos perto dele já era uma considerado uma bênção apesar de não admitir nem para ele mesmo.

Recordei, por um segundo, de toda a horrível farsa que fora a minha vida.

Lembro-me de estar sentada com uma grande mancha vermelha á minha volta. Sentia o cheiro de sangue, um odor quente e enferrujado. Vi um dos corpos ainda vivos rastejar até á porta (agora tingida de vermelho) a tentar pedir ajuda. Vi quando o corpo tombou no chão sem forças, e de lá não se moveu. Vi tudo acontecer. Não fiz nada para impedir.

Observava a alma separar-se do corpo, aos gritos de agonia com a face manchada de sangue mas ainda assim se curvou perante mim tal como as outras haviam feito.

Podia ter gritado, mas não o fiz.

Podia ter chorado, mas não o fiz.

Eu apenas fiquei sentada na poça de sangue, a ouvir os pingos vermelhos que caiam das minhas mãos lentamente. E apenas quando um sorriso cruel apareceu no meu rosto é que entendi que quem cometera aquilo tudo tinha sido eu.

Agora, conseguia controlar o sangue mantendo-o frio, mas antes a raiva dominava-me de tal forma que me deixava a tremer e arder por dentro enquanto o meu monstro interior queria-se libertar.

Estacionei, fechei os olhos com força e enfim saí do carro.

Bati na porta de madeira velha e desgasta. 1... 2... 3... 4... Bati novamente.

1... 2...

A porta foi aberta, e eu arfei com o que vi. E acho que ele fez o mesmo.

Olhei-o de cima a baixo. Bobby estava exactamente como eu recordava. Tudo continuava igual. A mesma barba rala de antes, o boné que eu vagamente me lembro de vê-lo sem ele, o rosto apenas um pouco mais envelhecido.

Olhei-o de novo de cima a baixo, e uma tristeza profundo fez-me suster a respiração ao ver o meu melhor amigo numa cadeira de rodas.

Com calma, fitei os seus olhos claros marejados.

– Olá Bobby. Senti saudades.

A verdade é que eu não estava de modo algum preparada para o que se passou a seguir.

Com a careta debochada que ele fez cheguei a pensar que ele me fecharia a porta na cara, mas ao contrário, puxou-me o corpo para baixo e abraçou-me.

– Porque desapareces-te assim? Eu... Eu lamento tanto! Não sabes o quanto me arrependo de tudo o que te disse... Eu... Eu...

– Perdoa-me também. Não tive escolha. O meu pai... Cronos tinha voltado. Houve uma grande guerra. Tive que ajudar Bobby.

– Estás perdoada mas por favor não desapareças mais. — Ele praticamente suplicou enquanto respirava fundo a fim de não deixar as lágrimas escapar.

– Não o farei.- Lhe beijei a face. — Posso entrar tenho algo sério a conversar.

Ele apenas assentiu, fechei a porta atrás de mim, e dirigi-me a cozinha onde dois rapazes estavam sentados. O mais alto moreno de olhos verdes me encarava com curiosidade , já o outro loiro de olhos verdes também, me olhava maliciosamente. Mantive o rosto sério enquanto me sentava e esperava Bobby se dirigir ao alcance do meu olhar.

– ... Estes são Sam, e Dean Winchester, rapazes, esta é Mónicka Di Ângelo, uma velha amiga. — Bobby piscou-me o olho divertido quando mencionou o velha.

– Prazer Mónicka — Sam falou com curiosidade no olhar.

– Sim, realmente um prazer — Dean ainda me encarava descaradamente.

Suspirei pesadamente e então finalmente decidi falar.

– Bobby, — o encarei profundamente — um dos espíritos que repousava nos Campos Elísios veio me pedir um favor, á anos que era atormentada por algo e eu decidi conceder-lhe esse favor. Pedi ajuda a meu pai, e juntos conseguimos transferir o espírito do marido que estava sendo torturado no Inferno desde que morreu, também para o Elísio. Eles estão juntos desde então, mas agora foi ele que me veio pedir também ajuda para te entregar uma mensagem.

– Espera, espera, espera! Como assim transferir espíritos do Inferno!? — Dean perguntou de olhos arregalados. — E o que raio é o Elísio?

– Na mitologia grega, o Elísio, ou os Campos Elísios é o paraíso, um lugar do mundo dos mortos governado por Hades, oposto ao Tártaro que é o lugar de eterno tormento e sofrimento.

Voltei a encarar Bobby depois de responder á pergunta de Dean.

– A mensagem é que primeiro, o mundo vai ficar ainda mais feio do que já está, por mais que tentem impedir o apocalipse irá acontecer e não há nada que possam fazer para o impedir, todos os tipos de monstros estarão á solta, sejam de origem Grega ou até Egípcia. Os Deuses estão a tentar impedir, Lord Apolo, Deus do Sol e da Luz, da Verdade e da Profecia, do Pastoreio, do Arco e Flecha, da Beleza, da Medicina e da Cura, da Música, da Poesia e das Artes já consultou o oráculo no futuro nem vocês poderão impedir, podem tentar, mas não podem mudar o que já está escrito nas linhas do destino. — Eles ficaram ainda mais chocados perante as minhas palavras – E a outra mensagem é que eles agradecem por cuidares dos seus filhos.

Pela cara de Bobby ele já tinha entendido quem era os espíritos que eu estou a fazer o favor.

– Quem eram os espíritos? — Ele perguntou apesar de já saber.

Me virei para os irmãos que me encaravam chocados ainda.

– Mary e John Winchester.