Notas iniciais
Enjoy it ♥

Joquina da Silva lavava as roupas sujas no tanque do quintal de sua casa. Esfrega, ensaboa e enxagua. Esfrega, ensaboa e enxagua. Esfrega, ensaboa e enxagua. Esfrega, ensaboa e enxagua.

─ TÁ, JÁ DEU! EU JÁ ENTENDI! ─ a garota exclamou enquanto ouvia sua mãe gritar de dentro de casa.

─ QUAL SEU PROBLEMA, MENINA? QUALQUER DIA EU SUMO E DEIXO VOCÊ AQUI!

Joaquina trabalhava arduamente na tarefa que a mãe lhe passara. Sua mente viajava para coisas aleatórias que costumavam acontecer na escola onde estudava. Ou onde dormia, como queira interpretar. A escola Manuel Osório se localizava na esquina de sua casa, que ficava na favela, e agora ela imaginava se Jacinto Himeneu estaria pensando nela.

Jacinto era um garoto um pouco mais velho que Joaquina, com apenas 14 anos já seduzia os corações das garotas com seus cabelos de rastafári e olhos castanho-escuros. Seus hobbies favoritos eram usar óculos Juliate e bonés de aba reta enquanto pedia os whatsapp’s das novinhas do bairro. Joaquina chorava toda noite porque não tinha um celular, a única coisa de valor que havia em sua casa eram os remédios para frieira muito caros que sua mãe comprava.

Todo dinheiro ganho vendendo cocaína na esquina era revertido para a compra dos remédios manipulados pela Senhora Madeinusa Cataerva. Muitas vezes sua mãe, Falidora, chorava com muito fervor antes de dormir. A vizinha costumava reclamar todo sábado sobre o barulho do choro ensurdecedor de Falidora, mas tudo que ganhava como resposta era um gemido mais alto de dor.

Joaquina tinha certeza que a vida seria melhor se a tal frieira não existisse, e muitas vezes a única coisa, ou pessoa, que a acalmava era a amiga Ambrisia, que morava a apenas dois barracos de distância, na mesma rua de terra que ela. Ambrisia tinha cerca de 13 anos, a mesma idade de Quinzinha, e uma amizade melhor a garota não poderia ter.

Aquele dia em especial, Ambrisia viria visita-la, esse era o motivo por ter levantado cedo e limpado a casa toda, sua mãe até havia achado estranho.

─ Ah, mãe. A gente só vai conversar sabe trocar umas ideias e talvez experimentar o novo carregamento de maconha do Timóteo.

─ Ah, só isso? Então, beleza filha. To indo para o ponto de drogas então.

─ Tudo bem. ─ Quinzinha sorriu e se pôs a estender a roupa no varal, que era composto por barbantes amarrados no muro chapiscado.

Seus olhos brilharam quando ouviu as três batidas seguidas de um grito da amiga:

─ SUA PUTA ABRE O PORTÃO! ─ com certeza era Ambrisia.

Joaquina sorriu e abriu o portão para ela, que já se jogou no sofá perto da sucata das latinhas usadas que pegava na rua.

─ Hey, o que você acha dessa banda aqui? ─ ela mostrou o Galaxy X e uma musica que falava: Uati meiquis iu biuriful.

─ Demais! Como chama?

─ Oã Diréquitiõ. Ainda bem que a gente não ouve funk como o resto do povo daqui!

─ Sim, vamos ali à cozinha pra eu fazer o almoço. Hoje vamos comer comida russa. Roskovo.

Joaquina batia os ovos e cortava o alho, quando por um engano cortou o dedo e uma gota de sangue pingou.

─ Tive uma ideia! Vamos fazer um pacto? ─ Quinzinha disse.

─ Sim, sobre o que?

─ Enquanto a frieira da minha mãe durar, o que é pra sempre, nossa amizade durará. ─ Ambrisia assentiu e cortou a ponta do dedo com a faca de alho. Depois de uns gritos de dor elas deram as mãos. Mal sabiam que dona Madeinusa tinha desenvolvido um remédio feito com magia negra e que naquele momento o pé de Falidora estava se recuperando de uma frieira, e que a genética se encarregaria do resto.

Notas finais
reviews pf
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.