The Forgotten Rose
2 I - Aileen Cunningham
Notas iniciais
“Outro pesadelo Pete?” — apontou Raphael, enquanto encarava as olheiras de Peter dando um meio sorriso.
Peter estava com tanto sono que demorou a perceber o comentário, e quando finalmente o notou, seu semblante se fechou rapidamente. Já fazia alguns dias que ele não conseguia dormir direito, e cada dia tinha um pesadelo mais amedrontador do que o do dia anterior.
“Vocês sabem que isso não é normal, não pode ser!” – Ele soava quase desesperado, e o fato de seus amigos acharem aquilo normal o deixava cada vez mais irritado.
Raphael acreditava que seu amigo estava dormindo muito pouco, e por isso estava tendo pesadelos. Laura por outro lado acreditava que Peter tinha esses pesadelos devido a todos os problemas que ele tivera desde criança. Ele sempre fora uma criança complicada.
Mas independente das opiniões de seus amigos, o fato era que Peter já não dormia direito a algum tempo. Ele já tinha recorrido a todos os meios para tentar melhorar suas horas de sono, chás, remédios e tinha até tentado fumar algo que ajudasse, mas nada parecia adiantar.
Depois de tanto tempo sem dormir direito, ele já nem parecia mais o mesmo. Seu rosto branco estava mais pálido que o normal, seus olhos verdes estavam envoltos pelas olheiras arroxeadas, e seus cabelos ruivos, antes tão vívidos, agora se mostravam opacos e sem brilho.
“Relaxa Pete, logo você vai voltar ao seu normal, tenta relaxar um pouco mais poxa! Já tentou meditação? Meditar tem me ajudado muito sabe...”
Laura com certeza deve ter feito um excelente monólogo sobre os benefícios espirituais e corporais da meditação, mas Peter já estava olhando para o teto da sala de aula e pensando nos pesadelos.
Todos eles eram semelhantes. Cânticos estranhos, rodas de pessoas encapuzadas e sangue estavam sempre presentes nos sonhos, e eles começavam no exato momento em que Peter fechava os olhos.
O sinal anunciando o intervalo soou por toda a escola, interrompendo os pensamentos de Peter. Logo que o sinal tocou, grande parte dos alunos saíram de forma afobada das salas, desesperados por aproveitar ao máximo o tempo do intervalo. Raphael acabou indo rapidamente também, já que tinha de se encontrar logo com o namorado. Ficaram na sala então apenas Laura e Peter. Ela quase nunca saia para o pátio e acabou ficando desenhando em sua carteira, como geralmente fazia. E o garoto ficou por lá pois gostava de acompanhar a amiga, se sentia feliz ao olhar ela rabiscando em seus esboços e rindo do nada de vez em quando.
Mas Peter precisava parar para pensar, ele entendia isso. Então saiu de perto de sua amiga por um momento, e caminhou até a janela. Nunca antes ele tinha se preocupado em dividir seus problemas com algum amigo, ele achava que eles não deveriam incomodar ninguém a não ser ele mesmo. O ápice de seu silêncio ocorreu quando sua mãe morreu, no mês em que ela se foi ele simplesmente se calou. Gastava suas poucas palavras para tentar confortar sua avó com condolências e pequenos poemas que ele mesma escrevia
E quando lembrou disso, somente uma ideia veio a sua cabeça. Sua avó.
Aileen Cunningham era uma adorável senhora de 87 anos. Ela nasceu e viveu os primeiros anos de sua vida em um pequeno vilarejo na Escócia, mas logo se mudou com a família para os Estados Unidos. Quando se tornou a integrante mais velha da família ela também assumiu o posto de contadora de histórias. Durante todas as festividades familiares todos paravam em volta da lareira para escutar a velha Aileen contar suas histórias. A anciã conhecia todos os tipos de contos e mitos, de terror e de aventura. Os jovens da família Cunningham ficavam impressionados e pediam por mais contos. Até que eles cresceram e mudaram.
Aos poucos a família acabou se desmanchando, e após a morte de sua filha sobraram apenas a velha Aileen Cunningham e seu neto Peter morando naquela região, eles moravam numa casa branca, afastada do centro e velha. Apesar de parecer sempre encardida, a velha casa dos Cunningham era extremamente limpa e arrumada por dentro, Pois a anciã era extremamente atenciosa com a limpeza. Apesar da idade, era uma grande e aconchegante moradia.
E se alguém podia explicar o que os pesadelos do garoto significavam, esse alguém era sua avó.
“Um sonho é um sonho, dois sonhos são uma mensagem, três sonhos são uma profecia” – Era o que ela sempre dizia.
Ele estava decidido. Iria conversar com sua avó assim que chegasse em casa.
As aulas restantes passaram rapidamente para Peter, e dessa vez ele não sentia sono nem conversava tanto com seus amigos, já que aproveitou as últimas aulas para formular as perguntas que faria a velha Cunningham.
E quando a professora sinalizou o final da última aula, ele saiu desesperadamente e seguiu da escola diretamente para a velha casa que dividia com a sua avó, sem se preocupar em conversar mais com seus amigos.
Assim que chegou, o garoto entrou em casa cautelosamente, deixou a mochila no chão da sala, ignorou o almoço na mesa e seguiu diretamente para o quarto dela. A porta do quarto estava encostada, ele a empurrou de forma suave e entrou no quarto sem luminosidade.
Aileen estava deitada na cama que ficava no meio do quarto, mas guardava seu andador ao lado da cama, como se a qualquer momento fosse levantar rapidamente para dar uma longa caminhada. Apesar de sua pele seca e manchada, e de seus cabelos totalmente brancos, ela exalava vida. Seus olhos claros eram de um olhar penetrante mesmo no escuro, e sua respiração ruidosa podia parecer assustadora para alguns, mas para Peter era um som extremamente familiar e reconfortante.
Ele se sentou no canto oposto da cama, e fitou sua avó por alguns minutos, até tomar coragem para começar a perguntar.
“Vó? Você acredita que sonhos sempre tem um significado não é?”
Ela tossiu um pouco e parou pra respirar por um momento. E então o fitou por alguns instantes, de alguma forma aquele momento era confortável e incômodo ao mesmo tempo.
“Ah, mas é claro Pete. Sonhos são os momentos em que você deixa seu corpo, sabe? Eu até cheguei a ganhar algum dinheiro interpretando sonhos quando cheguei na América.” – Ela riu por um tempo, uma risada gostosa e reconfortante – “Mas porque esse interesse repentino no meu conhecimento sobre eles? Você por um acaso tem tido sonhos estranhos?”
Ele então respirou fundo, e começou a contar todos os seus sonhos, sua avó escutava atentamente, de vez em quando ela pedia para o garoto parar, e ficava um tempo em silêncio, refletindo.
Ele não poupou nenhum detalhe, contou de tudo, descrevendo a caverna, os homens, o ritual e os sacrifícios oferecidos, a invocação dos demônios e todas as mortes que ocorriam no final. Aileen escutava tudo fazendo anotações em sua mente.
"Nesse caso Pete, você deve prestar bastante atenção” – O tom da voz dela se tornou mais sóbrio – “O que você está vendo não são sonhos, mas não há tempo necessário para que compreenda. Você deve buscar uma coisa pra mim, e só então vai começar a entender o que...”
Aileen começou a tremer um pouco, Peter se aproximou o suficiente para que ela agarrasse sua camiseta com muita força, ela começou a escorregar pela cama, Peter tentou segura-la, mas logo sua avó estava caída no chão. Ela não estava morta, mas não dava a impressão de estar muito viva, sua respiração, antes ruidosa, agora era pouco audível.
Ele tentou procurar seu celular e ligar para a emergência rapidamente, mas estava tão desesperado que demorou algum tempo até realizar que ele estava em seu bolso.
Antes de apagar completamente ela só conseguiu dizer poucas palavras.
“É ela Pe-te, Você de-ve procurar por ela antes que...”
A ambulância chegou alguns minutos depois que Peter ligou, sua avó estava agora a caminho do hospital. Ele, pela primeira vez desde a morte de sua mãe, estava perdido.
“Um sonho é um sonho, dois sonhos são uma mensagem, três sonhos são uma profecia”
Ele tivera muito mais do que 3 pesadelos naquele mês. E aquilo realmente parecia muito mais do que uma mensagem.
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